O fim da Comunicação Interna

Paulo Nassar*

Muitos gestores ainda pensam a comunicação dirigida para os funcionários como se ela fosse um conjunto de recomendações didáticas.

Para quem está querendo se comunicar eficazmente com os colaboradores, é importante compreender que as denominações "comunicação interna" e "público interno" são atualmente muito perigosas. Elas conduzem a um pensamento administrativo absolutamente geográfico, cartesiano, pelo qual os funcionários "estão presos dentro da arquitetura física e mental das empresas". Logo, controlados e administrados em suas percepções, em seus comportamentos e em suas expectativas enquanto seres humanos. Numa visão orwelliana, eles estariam totalmente presos à cultura e ao ambiente organizacional.

Doce engano, atualmente as empresas são como queijos suíços, cheias de poros. É difícil saber quem está simbolicamente dentro ou fora delas. A visão de controle total do imaginário dos funcionários não foi possível nem dentro das empresas operadas pelo modelo mais puro de administração taylorista. Nos primeiros 20 anos do século XX, o operário tinha a possibilidade de ser também, no mínimo, membro de um sindicato. E mesmo com todos os olhos dos gestores controlando fixamente o processo de trabalho – com ênfase total nas tarefas –, o ambiente social era capaz de olhar feio para a forma como as empresas tratavam os seus funcionários e de produzir obras-primas como o filme "Tempos Modernos", de Charlie Chaplin. Em resposta à cara feia da sociedade e ao desgaste que as práticas tayloristas causavam nas pessoas, a própria dinâmica das Teorias de Organização levou, perto dos anos 30, aos enfoques da Escola de Relacionamento Humano, estruturada pelo sociólogo australiano Elton Mayo, em que o bom ambiente dentro e fora do trabalho começou a ser visto como alavanca dos índices de produtividade.

Os quase 90 anos que nos separam das primeiras experiências administrativas tayloristas implantadas no Brasil por Roberto Simonsen, na Companhia Construtora de Santos, não fizeram por aqui milhares de empresas entenderem que o trabalhador acionado por intermédio de mensagens padronizadas, pobres e autoritárias não existe mais. O trabalhador manual foi substituído pelo trabalhador do conhecimento, que não pode ser catalogado como público interno. Esse reducionismo esconde que esse novo trabalhador, como cidadão, exerce muitos papéis enquanto público. Ele, além de trabalhador, pode ser membro de organizações como o Greenpeace, o Idec ou sindicato, além de ser consumidor, membro da comunidade, e de ter uma rede de relações que chegam de forma quase instantânea aos públicos, autoridades e imprensa. Com esses multiperfis, ele adere aos objetivos e metas da empresa na medida em que é conquistado por sua identidade, missão e visão de futuro.

O trabalhador atual escapou do controle das empresas. O homem da fábrica ou do escritório está convivendo com outras culturas, com outras referências, com outras informações e com outras verdades e éticas empresariais. E, logicamente, com comunicações muito além das da empresa, na maioria das vezes muito mais interessantes, dinâmicas e verdadeiras.

* Paulo Nassar - Jornalista, escritor, professor e diretor-executivo da ABERJE - Associação Brasileira de Comunicação Empresarial.Artigo publicado na revista (Melhor vida & Trabalho) - N° 162 - Dezembro 2000

 

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