A Comunicação cara-de-pau

Paulo Nassar*

Responda sem pensar muito tempo: você é leal à empresa onde trabalha? Você ama de paixão tudo aquilo que advém daquela onde passa a maior parte da sua vida? Você está comprometido com os slogans que a organização divulga, por exemplo, em anúncios publicitários espalhados nas principais mídias do país? Você acredita na missão e na visão de futuro da sua organização? Você se identifica com ela? Ou lá no pequeno outdoor da sua alma, você apenas credita àquelas palavras bonitas a necessidade de fisgar, como se fossem peixes, os consumidores ou de apenas aumentar a produtividade dos colaboradores?

Depois de alguns anos de trabalho muitos empregados vão adquirindo uma espécie de blindagem que os protege dos discursos da comunicação empresarial. Lembrando o poeta Vinícius de Moraes, o amor deles pela empresa "é eterno enquanto dure". O "amor" pela empresa é apenas uma atitude tática e interesseira, extremamente sujeita às contingências. De um dia para o outro, alguém se sente traído e aquilo que era paixão vira ódio e retaliação.

Para muita gente, amar a empresa está se transformando em uma atitude de ingênuos. No mundo atual, a atitude romântica já chega cansada aos bailes de debutantes. No mundo corporativo, com muito esforço, aos trinta anos. O cálculo é o seguinte: alguém que tenha hoje dez anos em uma empresa já passou pelo menos por uma crise ligada a coisas como reestruturações patrimoniais (fusões e aquisições), reengenharias, downsizings, mudanças em processos, fechamentos ou mudanças de escritórios e unidades de produção, demissões, greves, entre outros exemplos.

Para os desiludidos corporativos, é como se tudo fosse um filme sonolento em que não se agüenta mais ouvir a comunicação empresarial batendo bumbos e soando os clarins para anunciar quem são os novos acionistas e as últimas novidades de Harvard ou do Vale do Silício.

Ocorre no âmbito dos discursos corporativos aquilo que Mitzemberg chamou de disfunção cognitiva: O que as mídias empresariais estão falando, pedindo, para os empregados é totalmente diferente do que o corpo (gestão) da empresa está expressando. Atitudes, como daquela multinacional, que beneficiada pela guerra fiscal travada entre os inúmeros estados brasileiros, anunciou o fechamento (transferência) de uma unidade lucrativa, demitindo centenas de empregados, dentro de uma lógica que só beneficiou acionistas sem rostos, localizados a milhares de quilômetros do problema. Frente aos públicos da empresa, coisas como o belíssimo Balanço Social, cheio de declarações de amor pelas atitudes de responsabilidade social, pelo voluntariado, pela qualidade de vida e respeito pelos stackholders, se transformaram em um grande blá-blá-blá

Atualmente, a forma hipócrita e até irresponsável com que muitas altas direções empresariais e acionistas tomam decisões, relacionadas à vida de milhões de pessoas, é o que está corroendo de forma irremediável os valores dos empregados. É por essa razão que os empregados mais talentosos ou aqueles que têm as competências essenciais do momento "traem" as suas empresas num piscar de olhos e as massas de empregados não se interessam pelas "palavras vãs" (Carlos Drummond de Andrade) impressas nos ideários e mídias empresariais. Num ambiente cínico, a comunicação empresarial é um motor sem combustível.

Paulo Nassar, Jornalista, escritor, professor e diretor-executivo da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE).

Artigo publicado na edição de abril da revista Melhor.

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