Administrar é comunicar

Paulo Nassar

É comum ouvir: "comunicação interna se transformou em vantagem competitiva". O mais incrível é que a notícia já foi dada há mais de 70 anos.

O primeiro arauto dessa história foi Elton Mayo que, entre 1927 e 1932, demonstrou que, para o bem da produtividade, as pessoas não podiam ser encaradas pelos gestores como extensões das máquinas. O recado capturado nas pesquisas feitas pelo sociólogo australiano era que as pessoas produziam mais quando motivadas por uma causa, quando estimuladas e principalmente ouvidas, consideradas pela organização. Ele provou com números, gráficos e planilhas que, se as empresas quisessem produzir mais e com uma gotinha de felicidade, era preciso trazer a humanidade para dentro do ambiente do trabalho. Fato que atualmente centenas de empresas brasileiras fazem questão de transformar em peça de marketing social. Administração e Comunicação interna são irmãs que trabalham com palavras cheias de ação. Comunicação interna é a ferramenta que vai permitir que a administração torne comuns mensagens destinadas a motivar, estimular, considerar, diferenciar, promover, premiar e agrupar os integrantes de uma organização. A gestão e seu conjunto de valores, missão e visão de futuro, é que vai proporcionar as condições para a comunicação empresarial poder atuar com eficácia.

O criador da Teoria Y, Douglas McGregor (1906-1964), acreditava que as empresas precisam estimular nos seus empregados o senso de compromisso com o que a empresa faz e com o que ela projeta alcançar. E isso, para ele, só acontece com chefes que confiam e valorizam o seu pessoal, que são comunicativos e têm como aptidão uma forte interação social. William Deming (1900-1993), o profeta da qualidade, entre os seus 14 pontos, pedia a destruição das barreiras entre as diversas áreas da empresa.

A administração da comunicação para os recursos humanos deve ser atividade e pensamento que tenha a capacidade de estabelecer pontes entre indivíduos, colaboradores da organização, muito diferentes social, cultural, econômica e politicamente. Hoje, sem uma comunicação para os recursos humanos com qualidade total, não se consegue mudar o modelo organizacional.

Sem a aplicação de processos comunicacionais adequados, baseados em grande conhecimento dos públicos com os quais se quer dialogar, em uma estruturação profissional de mensagens e em uma competente seleção de mídias, nenhuma empresa consegue sair do modelo piramidal e extremamente hierarquizado de gestão. Esse é um dos motivos por que dezenas de empresas brasileiras, entre elas o BankBoston e a Natura, começam a falar cada vez menos em comunicação interna e cada vez mais em relações com os empregados (employment relationship). A administração da comunicação para os recursos humanos – frente aos desafios da reestruturação produtiva, da diversidade organizacional e de temas como assédio sexual, discriminação etária, responsabilidade – está anos-luz da comunicação como sinônimo de jornal, revista, vídeo e murais malfeitos. É a comunicação que tem como base um profundo processo cotidiano e permanente de conhecimento entre o emissor e o receptor organizacional.

*Paulo Nassar - Jornalista, escritor, professor e diretor-executivo da ABERJE - Associação Brasileira de Comunicação Empresarial.
Artigo publicado na revista (Melhor vida & Trabalho) - N°163, Dezembro 2000.

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