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Textos -
De quem será o século 21? ou O Declínio do Poder Americano |
| E.E.
Professor Renê Rodrigues de Moraes - Guarujá - SP - Prof. Silvio Araujo de Sousa - junho - 2006
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Autor do livro "O Declínio do Poder Americano" delineia cenários que incluem o
enfraquecimento dos EUA, o poder ascendente da China e a anarquia multipolar
O Século 20 Foi Americano
Henry Luce, em 1941, declarou que o século 20 era o século dos Estados Unidos.
E a maioria dos analistas, desde então, concordou com ele. É claro que o século 20
foi mais do que apenas o século americano.
O Século 20 Muito Mais Que Americano
Foi o século da descolonização da Ásia e da África. Foi o século do florescimento tanto do
fascismo quanto do comunismo, como movimentos políticos. E foi o século tanto da Grande
Depressão quanto da inacreditável e inusitada expansão da economia mundial nos 25 anos
que se seguiram ao final da Segunda Guerra Mundial.
EUA - Potência Hegemônica
Mas ele foi o século dos EUA, não obstante. Os Estados Unidos se tornaram a potência
hegemônica inconteste no período de 1945 a 1970 e moldaram um sistema mundial de acordo
com sua própria visão. Os Estados Unidos se tornaram o maior produtor econômico mundial,
a força política dominante e o centro cultural do sistema mundial. Em suma, os Estados
Unidos dirigiram o espetáculo mundial, pelo menos por algum tempo.
O Declínio Americano
Hoje os EUA se encontram em declínio visível. Cada vez mais analistas se dispõem a declarar
isso abertamente, mesmo que a linha oficial do establishment americano seja negá-lo com
vigor, assim como certa parte da esquerda mundial insiste em afirmar a hegemonia americana
contínua. Mas realistas de mente clara de todas as vertentes reconhecem que a estrela dos
EUA está perdendo seu brilho.
Quem Dominará no Século 21 ?
A pergunta que percorre todo o trabalho sério de traçar prognósticos para o mundo é,
portanto, de quem será o século 21? É claro que ainda estamos apenas em 2006, e é um
pouco cedo para responder a essa pergunta com qualquer grau de certeza. Apesar disso,
líderes políticos de todas as partes vêm lançando suas apostas e moldando suas políticas
segundo essas apostas. Se reformularmos a pergunta, indagando apenas qual poderá ser a
cara do mundo em 2025, por exemplo, talvez possamos ao menos dizer alguma coisa
inteligente.
As Respostas
Existem basicamente três conjuntos de respostas à pergunta de qual será a cara do mundo
em 2025. A primeira é que os EUA vão desfrutar uma última fase de domínio, uma retomada
de seu poder, e, na ausência de qualquer adversário militar sério, continuarão a mandar
no mundo. A segunda diz que a China tomará o lugar dos EUA como superpotência mundial.
A terceira reza que o mundo se tornará uma arena de desordem multipolar anárquica e
relativamente imprevisível. Examinemos a plausibilidade das três previsões.
Razões de Ordem Econômica
Improvável os EUA por cima? A primeira delas, de natureza econômica, é a fragilidade do
dólar americano como única moeda forte de reserva na economia mundial. Hoje o dólar é
sustentado por infusões maciças de compras de títulos por parte do Japão, da China,
Coréia e outros países. É extremamente improvável que isso continue. Quando o dólar
tiver uma queda dramática, ele pode provocar um aumento momentâneo na venda de bens
manufaturados, mas os EUA vão perder a posição de comando sobre a riqueza mundial e
a capacidade de ampliar seu déficit sem sofrer penalidades sérias e imediatas.
O padrão de vida americano vai cair, e haverá um influxo de novas moedas fortes
de reserva, incluindo o euro e o iene.
Razões de Ordem Militar
A segunda razão é militar. Tanto o Afeganistão quanto, em especial, o Iraque vêm
demonstrando recentemente que não basta possuir aviões, navios e bombas. Um país
precisa também dispor de uma grande força terrestre para superar resistências
locais. Os EUA não dispõem de tal força e não vão dispor, por razões políticas
internas. Logo, o país está fadado a perder guerras desse tipo.
Razão de Natureza Política
A terceira razão é de natureza política. Países em todo o mundo estão concluindo, pela
lógica, que já podem desafiar os Estados Unidos politicamente. Vejamos a instância
mais recente disso: a Organização de Cooperação de Xangai, que reúne a Rússia,
China e quatro repúblicas centro-asiáticas, está prestes a se ampliar para incluir
a Índia, o Paquistão, a Mongólia e o Irã. O Irã foi convidado no exato momento
em que os EUA tentam organizar uma campanha mundial contra seu regime. O "Boston Globe"
descreveu o que está ocorrendo como "aliança anti-Bush" e "um deslocamento
tectônico em termos geopolíticos".
A China Vai Emergir até 2025 ?
É verdade que a China vem se saindo muito bem economicamente, vem ampliando
consideravelmente sua força militar e está até mesmo começando a exercer um papel
político sério em regiões distantes de suas fronteiras. Não há dúvida de que a China
estará muito mais forte em 2025 do que está hoje -mas o país enfrenta três problemas
que terá que superar. O primeiro problema é interno.
China - Problemas Não Resolvidos
A China não está politicamente estabilizada. A estrutura unipartidária tem a força do
sucesso econômico e do sentimento nacionalista a seu favor. Mas ela enfrenta a
insatisfação de cerca de metade da população, que não conseguiu subir no bonde
econômico, e a insatisfação da outra metade diante das restrições impostas a sua
liberdade política interna. O segundo problema da China diz respeito à economia mundial.
O crescimento incrível do consumo na China (lado a lado com o da Índia) vai cobrar seu
preço tanto do meio ambiente mundial quanto das possibilidades de acúmulo de capital.
Um excesso de consumidores e de produtores terá repercussões graves sobre os níveis de
lucro mundiais.
Taiwan
O terceiro problema está nos países vizinhos da China. Se a China levasse a cabo a
reintegração de Taiwan, ajudasse a promover a reunificação das duas Coréias e chegasse
(psicológico e politicamente) a um acordo com o Japão, poderia surgir uma estrutura
geopolítica unificada asiática que seria capaz de assumir uma posição hegemônica no
mundo. Esses três problemas podem ser superados, mas não será fácil. E as chances de
que a China consiga superar essas dificuldades até 2025 são incertas.
Anarquia Multipolar
O último cenário é o da anarquia multipolar e das flutuações econômicas imprevisíveis.
Em vista da incapacidade de se conservar em poder hegemônico antigo, da dificuldade em
se estabelecer um novo e da crise no acúmulo mundial de capital, esse terceiro cenário
parece ser o mais provável.
Formatação original alterada para aplicação em sala de aula do ensino médio na disciplina de Geografia Fonte :
IMMANUEL WALLERSTEIN, pesquisador sênior na Universidade Yale, é autor de "O Declínio do Poder Americano" (Ed. Contraponto).
Tradução de CLARA ALLAIN
Publicado na Folha de São Paulo - 11 de junho de 2006
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