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vinho e a fruição conjunta aproximam os homens, atenuam as diferenças, quebram as barreiras sociais. Todos bebem, por todos se bebe; pelos livres e pelos cativos, pelos vivos e pelos mortos, pelos que têm vida estável e pelos errantes, pelos puros e pelos perversos, pelo Papa e pelo Rei. O importante é beber e então todos se juntam neste exercício: pobres e ricos, brancos e negros, crianças e velhos, prelados e decanos, ignorantes e sábios.
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Vale
a pena determo-nos um pouco nos quadros de transição entre as sementes de uvas selvagens e as cultivadas. Ao longo desse período a colheita abundante das uvas devia constituir um episódio frequente. Os senhores, com meios de fortuna, não as dispensavam à mesa. Por isso eram guardadas em jarros para serem ingeridas fora da estação. Um texto persa, muito interessante para a história do vinho, não deixa de evocar esta fase. Na corte do rei Jamshid, as uvas eram conservadas em jarros. E diz se que, numa dada ocasião, um dos jarros estava cheio de sumo e as uvas escumavam e enchiam o ar de um aroma esquisito. É claro que foram consideradas intragáveis e venenosas. Uma bailarina do harém, desiludida de amores, procurou a morte no imaginável veneno. Mas em vez da morte, reencontrou a alegria e a vontade de dançar. O rei teve conhecimento do facto e mandou fazer grandes quantidades de vinho. Dali em diante, na corte do monarca, todos festejavam com a nova bebida. Qualquer que seja a cor desta lenda, é difícil localizar as zonas das primeiras plantações de vinhas efectuadas com plantas seleccionadas. Os sábios gregos inclinam se para o vale de Nisa, na Líbia. Lá teria sido educado Baco, o deus do vinho. As suas viagens "pelas terras da África e da Ásia, acompanhado dos Mênades e dos Sátiros" (2), correspondem com alguma fidelidade à distribuição da vinha. Partindo da fabulosa cidade da Árábia, "como primeiro endereço, escolhido ao acaso, foi Ter ao Egipto, onde o rei Proteu gentilmente o acolheu em seu palácio. Em agradecimento pela hospitalidade, o deus ensinou- o a cultivar a vinha e fabricar o vinho.
A
literatura antiga está repleta de alusões aos costumes crapulosos dos romanos. Nos seus esplêndidos aposentos, mascarados de príncipes, celebravam o poder e a fortuna no meio do maior delírio. Políbio tinha carradas de razão: "alguns romanos são loucos por todas as extravagâncias que os espectáculos e a bebida promovem." (22) Temos ainda que completar este quadro com as comezainas. As refeições eram prolongadas. Depois do banho, à oitava ou nona hora depois do meio-dia, refastelavam se nos leitos até ao cantar do galo. São sete os serviços: os aperitivos (azeitonas, salsichas, ameixas, tâmaras, ostras, atum), três entradas (ovos, figos, rins, quartos de boi, vulvas de porca, lagosta, frangas, mamilos de porca, lebre, presunto, costeletas, molhos picantes, favas, espargos, couve verde), dois assados (porca rodeada de leitões ou porco e enchidos; vitelo ou cabrito) e a sobremesa (doces e frutas). É claro que este cardápio alterava se e variava de triclínio para triclínio.
Ao longo do banquete faziam se quatro ou cinco pausas para avivar outras paixões: os concertos, as exibições de acrobatas, a distribuição de perfumes, as truanices dos bufões e as danças escaldantes das bailarinas de Cádis. E no centro de todas estas pulsações, o vinho. Quando não se pode comer mais, bebe-se. As taças do Falerno, do Surrentino e do Opimiano, são as mais cobiçadas. É do tal "que emperra a fala; e aos pés tolhe caminho." (23) Mas os anfitriões, por vezes, serviam Vaticano ou Marselha." Plínio o Moço censura alguém das suas relações porque, querendo para si próprio, nas cenae da sua casa, os pratos saborosos e para os outros pobres pitanças, distribuía os seus vinhos em três séries de pequenos frascos de qualidades graduadas conforme a categoria dos convivas." (24) Os motejos não se ficam por aqui. Outros gritos de indignação levantam-se contra a empáfia e a pelintrice de alguns banqueteadores. "Marcial conhece uma matrona que se deleita com pães deliciosos de formas perturbantes e com um vinho de Setia capaz de aquecer a neve, mas acha bem que os outros, em sua casa e perante ela, roam bolas de farinha preta e " matem a sede com o veneno escuro de uma talha da Córsega" (25). Virron, quando dá refeições em sua casa, tem a mesma desfaçatez. "Este grosseirão habituara-se a saborear aí vinhos velhos e pães de fina-flor de trigo, a empanzinar-se de foie gras, de trufas e de míscaros, de mugens pescados em Taormina, de gordas frangas, de frutos deliciosos que se julgariam amadurecidos nos jardins das Hespérides, enquanto à sua volta os convidados tinham de se contentar com um grosseiro vinho do ano, com côdeas escuras e bafientas, com couves cozidas em azeite, com cogumelos suspeitos, com restos de galinha velha, e, para acabar, com uma maçã estragada "como aquelas que roem os macacos sábios que fazem habilidades nas paredes" (26).
(Texo extraído da obra « O VINHO NAS PRIMEIRAS CIVILIZAÇÕES» de LUÍS DANTAS,Edições Ceres, Lisboa, 1999
Notas
(2) Mitologia, Abril Cultural, S. Paulo, Brasil, n.º 3
(22)História Universal, Publicit Editora, Lisboa, 1982, Vol.I
(23) Virgilio, As Geórgicas, Paris, 1867
(24) Carcopino Jerôme, A Vida Quotidiana em Roma no Apogeu do Império, Edição «Livros do Brasil», Lisboa
(25) Idem, idem
(26) Idem, idem
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