Minha dúvida é: o que leva um cristão a procurar um ministério de cura e libertação? O que o leva a ler livros nesta área? ¿Quais são as suas angústias não resolvidas que o levam a buscar o auxílio de pastores, escritores e líderes que, em geral, ele não conhece pessoalmente, nem estão preparados para distingüir uma possessão demoníaca de um problema psicológico/psiquiátrico?

Há muito tempo atrás, quando a chamada "quebra de maldições hereditárias" estava no auge, eu fui a uma conferência de um famoso pastor brasileiro, realizada aqui em SP. Eu fiquei estarrecido, nunca vi nem ouvi tanta invocação de demônios (pelo nome) como naquele dia. Foi uma verdadeira aula de demonologia. Os chamados "ministradores" tinham uma espécie de manual em que estavam listados todos os demônios pelo nome grego ou latim deles, e todas as suas manifestações, e eles (pasmem!) ficavam "testando" (ou melhor, chamando) cada um desses demônios para ver se ele estava na pessoa. Eu que, modéstia à parte, me considero um cristão responsável e uma pessoa emocionalmente bem estruturada, fiquei muito impressionado com o que vi e ouvi. Se eu fosse uma pessoa mais sugestionável, é provável que eu manifestasse ali alguns daqueles "sintomas demoníacos" que o próprio pastor e seus "ministradores" insistiam em "invocar".

E é nesta palavra que eu quero me deter um pouco: "sugestionável". Qualquer pessoa que fique lendo, dias a fio, um manual de sintomas de câncer, por exemplo, não vai demorar muito tempo para que ela imagine que tem um caroço aqui ou ali (não recomendo que façam este teste). A hipocondria é um mal que, particularmente, assola os brasileiros, e não é outra a razão por que temos uma farmácia em cada esquina. Uma vez eu estava numa farmácia homeopática aqui em SP e uma senhora entrou, e, olhando para todos os frascos coloridos, ela perguntava, um por um, para que cada um servia. Perguntei ao farmacêutico que me atendia se aquilo era comum, e ele me disse que era assustadora a quantidade de gente que fazia a mesma coisa todo dia.

Me parece que no meio evangélico, vivemos uma situação parecida. E, lamentavelmente há modismos, como o das "maldições hereditárias", como o da "batalha espiritual", ou a "cura e libertação". Nenhum desses "ministérios" pode substituir o relacionamento saudável com Deus através de Sua Palavra, que é a única fonte de segurança do crente. Nenhum desses "ministérios" pode substituir o auto-conhecimento que cada ser humano tem que ter de si mesmo, para saber o que o incomoda, e como enfrentá-lo. Lamentavelmente, muitas pessoas já chegam traumatizadas a estes "ministérios" e saem de lá pior do que entraram. No fundo, entregam as suas vidas a pessoas que, revestidas de uma aparente autoridade espiritual (que não têm), não estão preparadas para identificar os seus problemas.

O mesmo acontece com os livros. Para que permitir-se sugestionar por autores que vocês nunca ouviram falar, ou, se ouviram, as referências não são boas? Todo cuidado é pouco nesta área, pois qualquer um pode sair mais machucado do que entrou.

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