Tenho ouvido e lido muito a frase "Está amarrado em nome de Jesus!".
E me indago: "De onde saiu esta idéia?".
Cada vez mais as pessoas ouvem conceitos e os
repetem sem análise. Um grupo de pastores não batistas me convidou para lhes
falar sobre pregação, numa manhã.
Lá fui.
Discutiram depois sobre o aniversário da sua
cidade e decidiram pedir ao Prefeito uma oportunidade para os evangélicos na
ocasião. Solicitariam que todo o trânsito fosse parado, cessada toda a
movimentação, e fariam uma oração, amarrando Satanás naquela cidade e
declarando-a possessão do Senhor Jesus. Afinal, a palavra tem poder e a vitória
devia ser declarada. Foi um alarido de concordância geral. Como visitante, timidamente,
fiz uma pergunta a um deles:
"Depois
que vocês declararem Satanás amarrado nesta cidade e a declararem como sendo do
Senhor Jesus, isso acontecerá realmente?".
"Sim!",
respondeu-me ele, titubeando.
"Não
haverá mais crimes, nem roubos, nem prostituição, nem drogas na cidade? Vocês
podem afirmar isso?", retornei.
Foi constrangedor.
Como não podia afirmar, o colega preferiu me
achar incrédulo e pensar que tinham feito um mau negócio convidando um preletor batista tradicional. Foi uma saída melhor do que
pensar.
Aliás, pensar é problemático. Repetir chavão da moda é bem melhor.
Amarra-se Satanás com uma frase?
Quem disse isto?
Qual a base bíblica para esta declaração tão
revolucionária?
Porque, se verdadeira for esta interpretação, podemos amarrá-lo para sempre! Adeus, penitenciárias, crimes, pecados! Traremos o céu para a terra com uma simples declaração! Nem o próprio Jesus fez isso!
Tal idéia deve vir de Mateus 12.29 e Marcos 3.27 (deixo de lado Apocalipse 20.2 cuja análise não comporta aqui). Os dois textos tratam do mesmo evento. Lucas 11.17-23 também narra o episódio, mas omite a declaração de Mateus e Marcos: "amarrar o valente". Convenhamos: a base é muito precária para estabelecer uma doutrina e uma prática tão revolucionárias.
Jesus havia feito uma série de curas, conforme Marcos. A que mais impressiona Mateus é a do endemoninhado cego e mudo. Era o cúmulo da desgraça: não ver e não falar, além de ter demônios. Jesus o curou. Atônitos, sem ter o que dizer, os fariseus o acusaram de agir por Belzebu, divindade cananéia, cujo nome significa "Baal, o príncipe". Esta definição do nome Belzebu fica bem clara em Marcos 3.22. Para os fariseus, Jesus não estava agindo nem mesmo por um demônio conhecido, mas por divindades estrangeiras.
A resposta de Jesus, como sempre, é admirável. Se ele estivesse mancomunado com Satanás ou Belzebu (uma "divindade" pagã, para ele, é demoníaca) seria um caso de guerra civil. Satanás estaria contra Satanás. Seria uma casa dividida e uma casa dividida não subsiste. Mas ele veio pelo Espírito de Deus e com ele irrompeu o reino de Deus (Mateus 12.28). Jesus entrou num mundo dominado pelo maligno (1 João 5.19) e estabeleceu seu reino. Ele veio para libertar os oprimidos do Diabo (Atos 10.38) e destruir as obras de Satanás (1 João 3.8). Veio ao terreno dominado pelo inimigo, adentrou seus domínios e abalou seu poder. Isso é como entrar na casa do valente, amarrá-lo e tomar seus bens.
Para alguns comentaristas, os bens são as
pessoas dominadas por ele. Broadus pensa que se refira aos demônios dirigidos por ele e
sobre quem Jesus mostrava poder. Talvez os contornos da declaração de Jesus não
sejam relevantes. Parece-me haver aqui uma metáfora de um só sentido, em que as
particularidades não contam.
O que importa é isto:
há um homem forte que
tem bens. É Satanás.
Um mais forte que ele, Jesus, invade seus domínios e o vence.
A vitória de Jesus no deserto (Mateus 4.1-10) mostra sua superioridade sobre Satanás.
É aqui que surge a expressão "amarrar o valente" (Mateus 12.29 e Marcos
3.27).
Jesus fez isso. Ele limitou o poder de Satanás. Mas atenção: em lugar algum a
Bíblia diz que os crentes amarram Satanás.
Isso foi obra de Jesus ao irromper na história
com seu reino, abalando o poder do inimigo.
Crentes não amarram Satanás.
A Bíblia não traz um versículo sequer dizendo
que com uma simples declaração conseguimos esta proeza.
É muito simplismo e pretensão de algumas pessoas presumirem que suas palavras amarram Satanás.
Levanto
algumas considerações para pensarem:
1) Por que o amarram
em cada culto?
Ou fica amarrado para sempre ou alguém o
solta!
Quem o solta depois que ele é amarrado?
2) Se ele está
amarrado, quem está agindo?
É impossível deixar de reconhecer que ele está solto, agindo neste mundo.
3) Jesus estava sendo
literal?
Devemos tomar a expressão como algo literal e
dar-lhe um sentido universal, aplicável a todos os crentes, num sentido que
Jesus não deu?
Ou estava usando uma linguagem em figura para
dizer que não tinha ligação alguma com Satanás, que eram adversários e que ele
tinha vindo para destruir o Maligno?
O próprio Jesus, que veio para amarrá-lo, foi
tentado por ele (Mateus 4.1-10 e 16.23).
Paulo nos adverte que é contra ele e seus asseclas que temos que lutar (Efésios 6.12). E nos aconselha a nos aparelharmos para a luta (Efésios 6.13-18). O quadro é de luta e não deste simplismo de deixar o inimigo amarrado com uma palavra.
4) Qual a base bíblica
para esta afirmação?
É isto que não consigo entender: como práticas
que resvalam para doutrina são estabelecidas em nosso meio, apenas com tintura
bíblica, mas sem embasamento?
Afinal, Paulo nos aconselha a lutarmos contra
ele, em vez de amarrá-lo. Tiago 4.8 e 1 Pedro 5.9 nos aconselham a
resistirmos ao Diabo, em vez de amarrá-lo.
Por que a Bíblia não deixa bem claro, se é possível isso, que o amarremos com uma frase de efeito?
5) Não será uma
estratégia do próprio inimigo disseminar em nosso meio
a idéia de sua fraqueza e que é fácil vencê-lo?
Não será seu interesse que os crentes pensem que uma frase feita o impeça de agir e assim nos descuidemos de nossa vigilância?
Sugeri certa vez, numa comissão doutrinária,
que um semestre de Doutrina do Espírito Santo fosse incluído no currículo
teológico.
A terceira pessoa da Trindade ainda é pouco
estudada em nosso meio, por isso tantos desvios doutrinários envolvendo-a.
Creio que precisamos estudar também sobre o
Diabo.
Na realidade, precisamos estudar mais séria e
criteriosamente a Bíblia.
Fugir das novidades e "grifes" evangélicas que pululam
aqui e acolá, das "descobertas"
de cada dia, obra de pessoas que diariamente "redescobrem" o evangelho que jamais alguém viu em dois mil
anos de cristianismo, e firmar-nos na doutrina equilibrada da Palavra de Deus.
Amarremos o espírito novidadeiro, o espírito
ateniense (Atos
17.21)
que há em alguns (por favor, "espírito",
aqui, é linguagem figurada).
Isso será bom.
Haverá um pouco mais de paz doutrinária no
meio das igrejas.
Em outras palavras: dá pra parar de inventar?