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MENINA SANTA:
COMO NUM TOQUE DE THEREMIN
Aristeu Araújo

Maria
Alché, em cena de Menina Santa, de Lucrecia Martel.
Há em Menina Santa, segundo filme da argentina Lucrecia Martel
(de O Pântano),
uma contemplação sobre a fronteira entre o lícito e o proibido. Em um
filme em que os temas centrais são o corpo e a religiosidade, a câmera
busca em duas meninas em início de puberdade, seu foco narrativo. No
entanto, parece pouco tentar aprisionar uma obra deste porte em apenas
duas palavras: corpo e religião. Menina Santa não se resume
apenas a isso, porque a todo o tempo o filme parece fugir do maniqueísmo
e das explicações fáceis.
No início de Menina Santa, ouvimos uma música sacra. Voz e
piano. Uma mulher canta e chora. As lágrimas interrompem de tempos em
tempos seu canto. Não sabemos o porquê de seu choro e não iremos
descobrir. Podemos, desse modo, apenas lançar hipóteses mal acabadas. É
assim que Lucrecia Martel apresenta o início de sua história. Nos pomos
nos lugares das duas jovens que cochicham procurando uma explicação para
aquilo que acontece. Não é banal. O filme se inicia deixando claro quais
sãos as regras. Assim, aos poucos o espectador vai se acostumando a não
procurar as respostas na própria película.
Amália e Josefina são as garotas que conversam aos cochichos. Ambas
exercem com fervor a fé praticada nas aulas de catequese. Ambas estão a
um passo da descoberta de suas sexualidades. Amália mora com a mãe em um
hotel antigo e barato. Divide com ela a mesma cama e está acostumada com
a pouca privacidade e com o pouco espaço.
Um hotel é um lugar fadado ao efêmero. Tentar transformar esse ambiente
de eterna mutação em um lar, é assumir para si relações sociais
passageiras e inconstantes. É crer no que não há tempo de se consolidar.
É viver acostumado ao entra e sai das faxineiras e aos olhares curiosos
dos clientes. Lucrecia Martel escolhe esse ambiente para contar sua
história.
Em paralelo, Menina Santa desenvolve a passagem do médico Jano,
um psiquiatra que está hospedado ali para participar de um congresso
científico. Os dois terão seus caminhos cruzados quando ambos dirigem-se
a uma pequena concentração, onde um músico entoa Debussy através de um
theremin.
Theremin é um instrumento estranho. Apontado como o primeiro dos
eletrônicos, foi criado por volta de 1919 pelo russo Leon Theremin. O
theremin emite notas sem que o músico o toque. É um instrumento não
tátil. Suas notas são produzidas a partir de modificações no campo
eletromagnético que o aparelho musical gera. E o músico faz suas
melodias com as mãos no ar. Esse theremin irá, a partir daí, permear e
pontuar a narrativa do filme.
É ouvindo a apresentação desse músico que Amália percebe a aproximação
do psiquiatra. Ele se aproveita da aglomeração para encostar seu sexo na
garota. Cria-se em Amália um misto de paixão e compaixão.
A inclusão do theremin surge como metáfora. O instrumento está ali para
lembrar, para sublinhar sobre o toque, o tato. Para acrescentar à
narrativa algo sobre a proibição daquele contato entre o homem e a
menina. O som que um theremin entoa tem algo de etéreo, nada parecido
com a brutalidade da atitude daquele médico. O theremin surge para falar
da contradição do amor que Amália irá sentir, seja um amor sacro ou
profano. Lícito pela vontade de redenção cristã-católica que Amália quer
impor ao homem; ilícito pelo óbvio desejo sexual da descoberta.
Menina Santa falará sobre o não toque e sobre a descoberta;
sobre a ingenuidade das meninas e sobre a perversidade dos adultos. Irá
explorar sempre dois eixos de discussão, sempre sem separá-los. A
dualidade de Menina Santa permeia não só o seu discurso, mas
transborda para sua própria estratégia narrativa.
Logo no início, quando a menina está deitada na cama com a mãe, há um
facho de luz do sol que corta o leito. Enquanto que o quarto permanece
numa certa penumbra, aquela luz marca com força a presença do dia. É o
mesmo sendo dito de outra forma, misturado na mise-en-scène, na
ação. Além disso, o sol penetra naquele quarto através de uma fresta. As
frestas, por conseqüência, também serão comuns e necessárias ao longo da
película. Lucrecia Martel é responsável por uma câmera precisa. A
decupagem (modo de enquadrar e mover a câmera) é feita com extremo
rigor, porque o olhar da câmera está sempre em busca do que é privado e
proibido. Daí a presença das frestas, dos espelhos que refletem ao
acaso, das mesas que ocultam o que por baixo acontece. A câmera de
Martel parece sempre estar presente ao acaso, parece sempre descortinar
o que é privado sem intenção de fazê-lo. Da mesma forma que os sons do
filme não se restringem aos seus ambientes.
Nas aulas de catequese, Josefina e Amália estudam a vocação. Amália,
compenetrada em descobrir sua missão, acredita que está no médico o seu
destino. Toma para si o dever de mudar aquele homem, de salvá-lo. Amália
entende que poderá salvá-lo através de seu amor, mais uma vez um
conceito que está imbuído de duplicidades e poucas respostas. Outros
focos de discussão vão sendo levantados em cada personagem que o filme
acompanha. Josefina mantém um relacionamento de descobertas sexuais com
um parente próximo. Pode-se entendê-lo como um irmão ou um primo. O
roteiro não deixa claro, como se quisesse fazer-nos trabalhar várias
questões morais ao mesmo tempo, porque uma coisa é uma jovem e o sexo
precoce, outra é o incesto. Para Josefina, no entanto, há pouco (ou
nada) de anormal naquele ato. Assim como Amália não vê nada de estranho
no seu amor platônico pelo homem, embora façam segredo de seus atos.
Menina Santa vai apresentando cada uma dessas (des)vias morais.
Pouco a pouco vai construindo e descontruindo os conceitos. De tal forma
que nas seqüências finais, sem perceber, há uma completa empatia do
público com o que começa a se descortinar. A mãe Helena, o médico Jano,
as garotas Amália e Josefina: intrincados todos numa história de amor,
de não toque, de proibições e culpas. No fim, entretanto, sobra-nos as
duas meninas que, de tão santas, parecem não perceber os rumos que tudo
tomou.
Elas
estão felizes e livres.
ARISTEU ARAÚJO é
editor do blog Quebra
de Eixo, onde este artigo foi originalmente publicado.
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