A sociedade brasileira caracteriza-se por uma pluralidade �tnica, sendo esta produto de um processo hist�rico que inseriu num mesmo cen�rio tr�s grupos distintos: portugueses, �ndios e negros de origem africana. Esse contato favoreceu o intercurso dessas culturas, levando � constru��o de um pa�s inegavelmente miscigenado, multifacetado, ou seja, uma unicidade marcada pelo antagonismo e pela imprevisibilidade.
Apesar do intercurso cultural descrito acima, esse contato desencadeou alguns desencontros. As diferen�as se acentuaram, levando � forma��o de uma hierarquia de classes que deixava evidentes a dist�ncia e o prest�gio social entre colonizadores e colonos. Os �ndios e, em especial, os negros permaneceram em situa��o de desigualdade situando-se na marginalidade e exclus�o social, sendo esta �ltima compreendida por uma rela��o assim�trica em dimens�es m�ltiplas � econ�mica, pol�tica, cultural. Sem a assist�ncia devida dos �rg�os respons�veis, os sujeitos tornam -se alheios ao exerc�cio da cidadania.
Esse acontecimento inicial parece ter de algum modo subsistido, contribuindo para o quadro situacional do negro. O seu cotidiano coloca-o frente � viv�ncia de circunst�ncias como preconceito, descr�dito, evidenciando a sua dif�cil inclus�o social. Sendo assim, busca-se por meio deste trabalho compreender como s�o constru�das as rela��es raciais num dos espa�os da superestrutura social do pa�s, que � a escola, e como ela contribui para a forma��o da identidade das crian�as negras.
O estudo da interface racismo e educa��o oferece uma possibilidade de colocar num mesmo cen�rio a problematiza��o de duas tem�ticas de inquestion�vel import�ncia. Ao contemplarmos as rela��es raciais dentro do espa�o escolar, questionamo-nos at� que ponto ele est� sendo coerente com a sua fun��o social quando se prop�e a ser um espa�o que preserva a diversidade cultural, respons�vel pela promo��o da eq�idade. Sendo assim, aguardamos mecanismos que devam possibilitar um aprendizado mais sistematizado favorecendo a ascens�o profissional e pessoal de todos os que usufruem os seus servi�os.
A escola � respons�vel pelo processo de socializa��o infantil no qual se estabelecem rela��es com crian�as de diferentes n�cleos familiares. Esse contato diversificado poder� fazer da escola o primeiro espa�o de viv�ncia das tens�es raciais. A rela��o estabelecida entre crian�as brancas e negras numa sala de aula pode acontecer de modo tenso, ou seja, segregando, excluindo, possibilitando que a crian�a negra adote em alguns momentos uma postura introvertida, por medo de ser rejeitada ou ridicularizada pelo seu grupo social. O discurso do opressor pode ser incorporado por algumas crian�as de modo maci�o, passando ent�o a se reconhecer dentro dele: "feia, preta, fedorenta, cabelo duro", iniciando o processo de desvaloriza��o de seus atributos individuais, que interferem na constru��o da sua identidade de crian�a.
A exclus�o simb�lica, que poder� ser manifestada pelo discurso do outro, parece tomar forma a partir da observa��o do cotidiano escolar. Este poder� ser uma via de dissemina��o do preconceito por meio da linguagem, na qual est�o contidos termos pejorativos que em geral desvalorizam a imagem do negro.
O cotidiano escolar pode demonstrar a (re) apresenta��o de imagens caricatas de crian�as negras em cartazes ou textos did�ticos, assim como os m�todos e curr�culos aplicados, que parecem em parte atender ao padr�o dominante, j� que neles percebemos a falta de visibilidade e reconhecimento dos conte�dos que envolvem a quest�o negra.
Essas mensagens ideol�gicas tomam uma dimens�o mais agravante ao pensarmos em quem s�o seus receptores. S�o crian�as em processo de desenvolvimento emocional, cognitivo e social, que podem incorporar mais facilmente as mensagens com conte�dos discriminat�rios que permeiam as rela��es sociais, aos quais passam a atender os interesses da ideologia dominante, que objetiva consolidar a suposta inferioridade de determinados grupos. Dessa forma, compreendemos que a escola tanto pode ser um espa�o de dissemina��o quanto um meio eficaz de preven��o e diminui��o do preconceito.