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O Carrinho Jacobeu
Muito frio, Dezembro.
N�o faz tanto frio na Espanha h� vinte cinco anos.

Sao todos locos, los vascos e los brasile�os.
En Brazil e vacaci�nes.

Neve e gelo, caminhar � dif�cil, uma po�a d'�gua vira pista de patina��o.  Presta aten��o � gelo...
Tombo.

Muchos albergues cerrados en invierno.

O de Belorado est� em reforma, a sa�da � procurar o
cura em sua casa. Existe um anexo onde guardam material de constru��o.
N�o faz mal, a primeira li��o do Caminho � nunca reclamar do que lhe � oferecido.
Dentre as muitas tralhas, havia o resto de um carrinho de beb�, com suspens�o e molejo, deveria ser de uma fam�lia muito rica.
Dormi com o carinho na cabe�a.Bem cedo pela manh� vejo que a parte de baixo se separa do resto das ferragens. Ficam as rodas e um gradeado que � para colocar fraldas.
� agora ou nunca.
Tenho que sair cedinho sen�o o
cura pode aparecer. Ainda est� escuro. Ponho a mochila em cima, amarro uma corda de r�fia, que havia achado, e... Rumo a Santiago.
Poucos peregrinos caminhando, controlava pelos livros de entrada dos albergues, dizem que no ver�o as pessoas n�o andam: Correm para encontrar um
sitio para quedar.
Entrando em um
pueblo...
-� Se�or, por favor, donde hay setas amarillas?

O velho se assusta, arregala os olhos, e diz gesticulando:

- No hay. Por ac� non hay setas amarillas.

Sigo pela mesma
calle em que o velho vinha e logo encontro a seta amarela.
Tem algo estranho.

Chegando a Burgos a albergueira me agarra me abra�a e me beija.

-�Que passa?

� Maria. A simpatia em pessoa.
Una albergueira brasile�a. Se me recordo � de Ouro Branco, pertinho de Belo Horizonte.
O albergue de Burgos esta sempre cheio, deve ser pelo calor humano, uns estavam voltando, outros com tendinite.
Comento com Maria o fato ocorrido com o velho.
Ca�ram na minha pele.
Broma total.
Um peregrino sujo cansado com os l�bios rachados pelo frio e puxando um Carrinho, havia perguntado a um pacato velhinho; onde havia cogumelos amarelos.
Seta em espanhol � cogumelo.
Se habla flechas.

Encontrando com peregrinos pelo Caminho sempre comentava sobre coisas que havia visto ou fatos acontecidos.
Uma forma��o de nuvens, uma ermida ou um belo castelo Templ�rio em cima da colina.
Os coment�rios eram sempre os mesmos; n�o vi, n�o percebi ou n�o observei.
Aquilo me intrigava...
Mais a frente percebo que os europeus caminham com o corpo arqueado, olhando para as pedrinhas do ch�o, por causa do peso de suas belas Mochilas cargueiras de 90 litros, que deveriam pesar por volta de 15 kilos.
O que ser� que eles carregam?

Com a mochila sobre do Carrinho, eu tinha o mundo pela frente.

O natal est� chegando
Passo a
Navidad em Carri�n de los Condes,com o Padre Jos� Mariscal, e sua irm�, Se�ora Margarita.
Ap�s a missa do galo, onde fui assediado por um bando de freiras, entre elas uma que havia morado em S�o Paulo, o
Cura e dona margarida deixam no albergue, uma torta e uma garrafa de sidra para ceia.
Boas lembran�as.

Ano novo em Ave-Fenix com o druida Jesus Jato.
Villafranca del Bierzo estava em festa.
Alguns franceses e alem�es que Jato buscou em outros albergues para a
fiesta.
Bandeirinhas, apitos, muita comida e muita bebida.
Tudo preparado para meia noite quando Jato prepara uma queimada especial. A primeira do ano.
Que sorte eu tive em passar a
navidad com o Padre Mariscal, e um a�o nuevo pag�o com Jato e sua fam�lia.

A Galicia.
Terra celta. Onde h� verde, onde as roseiras florescem no inverno, onde se mata porco nas ruas, onde as mulheres desbocadas, como no norte de Portugal, falam caralho e puta merda com a maior naturalidade.
E o Carrinho Subindo e descendo os
cerros de O Cebreiro com os senderos cobertos com ouri�os de castanha.
Como chove na Galicia.
Enfim, do monte Gozo, avisto Santiago coberto em bruma.
Ap�s cumprir todos os rituais como ir a Oficina do Peregrino, assistir a missa do meio dia, tirar fotos do Carrinho na praza do Obradoiro, descubro que o Hostal dos Reis Cat�licos
Oferece
desayuno, almuerzo e cena gr�tis por tr�s dias, aos dez primeiros peregrinos que chegarem.
Pequei uma senha na garagem e subi para a cozinha onde o cozinheiro me serviu, em uma copa s� para peregrinos, o melhor prato que os H�spedes podem escolher e uma
botella do mejor vino.
Durante todo o Caminho comi apenas
lentejas, pan e jamon cozido. Estava magro e debilitado.
Era o para�so.
Mais o Caminho n�o acabou.
Meu v�o de volta estava marcado para sair de Lisboa no dia 15 de janeiro, meu dinheiro estava acabando e eu teria que
alquilar um sitio em um hostal por nove dias. Como eu n�o estava ali para fazer turismo...
Vou para o fim da terra.

Finisterre.
O grande final.
A pontinha da Europa. O �ltimo lugar conhecido � oeste at� o s�culo XIV.
Uma pequena cidade que vive da pesca artesanal, encravada em um cabo que avan�a sobre o
Mare Tenebrosum.

Que vista tenho da baia, olhando pelas janelas do Bar Galeria.
Centenas de barquinhos coloridos iluminados pelo sol que se p�e no Atl�ntico.
Um bar onde se encontra bebidas, conversas e o grande amigo Roberto Velay, que recebe cada fregu�s dublando um peixe mec�nico, desses chineses de lojas de 1,99, com voz de Franc Sinatra.
O bar vem abaixo.
Ponto de encontro de gente bonita e de intelectuais do lugar, tem paredes entulhadas de fotografias e no teto apetrechos de pesca.
Para cada
ca�a Roberto oferece um tapa, pequeno regalo preparado por ele.
Passeando pelo porto, encontro Pepe, um
carpinteiro de ribeira, restaurando um pequeno barco.
Bom de papo, me diz que havia morado no Brasil na d�cada de cinq�enta.
Passo todas as minhas tardes no estaleiro conversando com Pepe, mesmo porque era o �nico que trabalhava na hora da
siesta, de uma as quatro da tarde a cidade fica deserta.

Esta na hora de ir ao
faro, que fica na ponta do cabo.
Conta a lenda, que os habitantes de Finisterre quando avistavam um navio cargueiro desligavam o farol para o navio naufragar e saquear a carga.
Um dos mais perigosos pontos para navega��o. � chamada a Costa da Morte.
Logo abaixo do farol existe um local onde se cumpre o ritual de queimar as roupas com que se fez o Caminho.

Al�m das roupas, queima tamb�m um companheiro.

Ele que me aliviou do fardo, ouviu quieto o meu esbravejar de mau humor com as
ampollas ardendo.
Ouviu-me Blasfemar quando as pernas do�am nas
Calzadas que nunca findavam.
Ele que me ajudou a caminhar quando na decida da Cruz de Ferro em Manjar�n ia � frente me puxando, como que querendo dizer; "anda r�pido que o Caminho e longo".
Cumpriu o seu Caminho.
Como Yacobe, pediu para ser queimado em Finisterr�.

Amigo Carrinho.

Dedico a voc� minha Compostelana.
Parti da Colegiata de Roncesvalles nos pirineus  dia 13/12/2001
  Cheguei a Santiago de Compostela dia 06/01/2002
Agrade�o a
EUGENIO,ADRIANO e FERNANDA, que me fizeram cruzar o Atl�ntico.


A todos que ficaram ou seguiram o Caminho.

VERNA JOOSTE. �frica do sul
EDUARDO HAYATO. S�o Paulo, Brasil
MARCOS ILLESCAS. S�o Paulo, Brasil
SANTIAGO GUTI�RREZ CARDE�OSA. Valladolid, Espanha
FABRICIO MATTOS. Florian�polis, Brasil
ANNA GR�TTE. Alemanha


Aos Bruxos Magos e Druidas que cuidam do Caminho.

SANTIAGO ZUBIRI. Larrasoa�a
Se�ora FELISA. Logro�o
AC�CIO DA PAZ.  Ventosa
Padre JOS� IGNACIO D�AS P�REZ. Gra�on
CIBYLLA.. Gra�on
MARIA. Burgos
Padre JOS� MARISCAL e sua irm�, Dona MARGARIDA. Carri�n de los Condes
TOM�S. Manjarin
JESUS JATO. Villafranca del Bierzo
ROBERTO VELAY. Bar Galeria. Finisterre
PEPE. carpinteiro de ribeira. Finisterre
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