VIVENDO NA SAUDADE (OU JÁ FUI BOM NISSO)
Lustosa da Costa
O bilhete Brasília-Roma me sai por CR$ 26 mil, 1 mil 187 dólares. Como sempre, desço primeiro em Lisboa, para ir chegando à Europa, aos poucos. Naquele chão de meu bemquerer, arrancho-me no Tivoli Jardim. A diária de casal custa 1 mil 900 escudos, mais ou menos 40 dólares pois a "verdinha", a "alface" está valendo 47 escudos.
Mal deixo a mulher e as malas no apartamento, ganho o bredo. Vou bater pernas na Avenida da Liberdade, no Rossio, no Chiado.
À noite, no Cassino do Estoril a sorte me bafeja. Não acho justo, porém, desfalcar a Pátria-mãe. Volto à roleta pra devolver o apurado. Quando o consigo, apodera-se de mim a idéia de jantar. Opto pelo restô do cassino.
Folheio o cardápio. Simpatizo com o pato estufado. Recorro ao maitre pra que me explique como é tal prato. Ele é categórico no esclarecimento:
"Pato estufado é pato estufado".
Dissipam-se as dúvidas. Para que o tal pato estufado desça, redondinho, peço um tinto, o Conde de Santar, ao preço de 200 escudos. Garçon me empurra, goela abaixo, aguardente velha de Penafiel, gororoba que nos queima a garganta e a algibeira pela qual nos cobra cento e 130 escudos, a dose. Somos cinco à mesa a conta chega 2 mil 130.
Dia seguinte, tomo o trem pra ir a Queluz. Quero rever o palácio onde nasceu e morreu Pedro I (o Pedro IV deles). Depois, almoçar no restô "Cozinha Velha" nele instalado. A esse tempo, como vedes, os preços eram baratíssimos e o português era bom, não queria ser europeu, tratava-nos com carinho fraterno e se deslumbrava com as primeiras novelas da Globo. Em suma, não nos olhava com o pé atrás, como penetras, intrusos, não hostilizava o brasileiro como parece fazer hoje em dia, pra agradar aos sócios ricos do Mercado Comum.
Como era obsequioso o português! Passeava pelas ruas de Almadora, numa radiosa manhã de sol. Quando a fome chegou, entrei, por acaso, numa farmácia e indaguei o funcionário por um restaurante onde pudesse fartar o bandulho com arroz de marisco, bom como o do "Solar dos Presuntos", às portas de Santo Antão ou do "Solar de S. Pedro", na praça do Mercado de Sintra. O ajudante de farmácia, solicito, pressuroso, gentil, saiu de seus cuidados, veio até a calçada pra me orientar.
Apontando um largo, dois quarteirões adiante, me perguntou:
"O senhor está a ver aquele sítio à frente?"
"Estou", foi o que pude responder.
"Pois não é lá".
Calei-me indeciso, à espera de que prosseguisse.
Ele, então, me deu a dica:
"Quando o senhor passar daquele largo, vai encontrar a estátua de um cavalheiro, de costas. É logo ali".
Segui seu conselho. O estadista luso estava de fato de costas para quem ia, como eu.
Fui ao "Nevada". Comi como um abade e encharquei-me do Bucellas, o velho e bendisse o Deus que criara o arroz de mariscos e os ajudantes de farmácia.
Ao então presidente Sarney ocorreu episódio interessante quando, ao lado de Marcos Villaça, fazia a ronda das livrarias, numa sexta-feira, último dia útil de sua temporada lusitana. Perguntou por um livro. Não havia, na casa, naquele instante. Gentil, o gerente se prontificou a conseguí-lo. O Presidente lamentou porque viajaria domingo.
E indagou, com derradeira esperança:
"Vocês fecham, aos sábados?"
Prontamente, o livreiro negou:
"Não fechamos, Presidente".
"Como?" Sarney perguntou, surpreso.
Foi a vez do anfitrião explicar:
"Não fechamos porque não abrimos".
Hélio Matos, que foi secretário de Hugo Napoleão, participou do interessante seminário de sua especialidade, realizado nos salões do Tivoli da Serra, localizado em Sintra, com esplêndida visão de seus choupais. Fez amizade com outro brilhante colega. Que, ao final do encontro, quis lhe dar o endereço, mas estava sem cartão de visitas. Escreveu, então, à mão:
"Nome: Joaquim Manuel Pereira
Endereço: Rua dos Ciprestes nº 60
Telefone: não tem."
Deixamos Lisboa, com saudades. Vamos a Paris. Mais precisamente, ao pato numerado do "La Tour d´Argent".
maitre quer saber o que bebemos. Pedimos champã. Que marca? Indaga. Norton Macedo nem hesita "O Melhor". Peço-lhes modos, parcimônia, sem muita convicção. O divino licor rolou como as águas do rio Acaraú nos tempos em que chovia em Sobral. Como o pato 551.978. O vinho me desata a língua. De repente, desvenda um francês fluente que jazia em mim e que não conhecia. Aí falo com o patrão, Claude Terrail. Pergunto-lhe se posso roubar cinzeiros. Ele não responde. Sorridente, vira as costas, dando-nos autorização. Volta a conversar conosco. Pergunta por Ibrahim Sued. Digo-lhe que também escrevo em jornal, mais precisamente em O Estado de São Paulo. E por Jorge Guinle.
Brinco:
"É aquele miúdo playboy brasileiro?"
Foi uma noitada inesquecível. Éramos seis à mesa. Pagamos 2 mil e quatrocentos francos.
Fomos a Roma e vimos o Papa.
Antes disso, pesa-me confessá-lo, temo que a Folha de São Paulo o saiba e aí estou perdido e mal pago. Porque jantamos com o Giulio Andreotti aquele que, segundo o vigilante jornal paulista, está metido em grandes maracutaias, até beijava a face dos chefões da Máfia. Pois bem, comi de seus pirões do Emílio Colombo, presidente do Parlamento Europeu. Que o intrépido jornal paulista não saiba de tais mordomias é o que, todo o santo dia, peço a Deus.
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