O tempo, esse inimigo

Lustosa da Costa

 

"Ontem foi-se. Amanhã vem apressado.

Hoje parte, sem parar num assunto:

Sou um foi, um será e um é cansado.

No hoje, no amanhã, no ontem, junto mortalha e fraldas, sendo assim forçado a sucessões presentes de defunto" (Quevedo)

 

Há certo gosto em observar a arcana areia que resvala e que declina e, a ponto de cair, se apinha com uma pessoa que é toda humana. (Jorge Luís Borges, O Relógio de Areia)

 

Não uso relógio porque os há por toda parte e são meus senhores. Vivo de olho em seu mostradores. Vivo apressadamente, portanto. E sofro, como sofro, a sensação de tempo perdido, a todo instante! O tempo perdido em conversas que não enriquecem, em companhias que não enobrecem, em contatos que não acrescem. Fico com pena de não estar escrevendo minha novela. De não haver caprichado mais no que escrevi. De não ler tanto quanto devia. Tenho, aliás, medo de morrer sem ter lido muitos livros que ainda não conheço. E sem haver entregue ao mundo o livro que jaz em mim. Como a estátua se encontra no mármore, ansiando pelo cinzel do artista.

Contei inúmeras vezes, mas repito sempre, pois, como Nelson Rodrigues, sou flor de obsessão. Tive um relógio que durou em meu pulso o espaço de um amor. Infeliz como pedra de esgoto, mal-atado, muito mal pelo Código Civil, amei. Amei uma criaturinha mais moça que eu, de mais simples alma e a Deus agradeço. Ela foi água fresca na sede, agasalho no frio, conforto do oásis no deserto. Eu andava precisado, como andava. Muito lhe devi e devo naqueles tempos inóspitos. A moça, porém. Era noiva e o noivo, intolerante. Sabem o que fez, movido pelo despeito, pelo ciúme? Certa madrugada, contratou um caminhão, um piano, um pianista, um cantor e se mandou para a casa de (nossa) amada. No silêncio e na bruma, feito Cirano de Bergerac, fez o seresteiro cantar, dez, vinte vezes, "Nono mandamento". Aquele tempo quase não passavam carros e a voz acusadora agredia o silêncio: "Você traiu o nono mandamento, o nono da nossa lei". E terminava, cretinamente, pedindo "consolação para um, felicidade para dois". Não era, porém, disso que ia falar.

Há indícios de que ela me amava. Enchia-me de presentes. O pai operava na área de importação. Sem qualquer burocracia, o que, às vezes. O punha em dificuldades compreensíveis até à incompreensível aduana. Ela foi ao lote de mercadorias dele e dali tirou um Mondaine que me deu. Usei-o, durante o tempo feliz de nosso complicado amor.

Teve pior: pouco antes de trocar o Senado pelo Tribunal de Contas, Henrique de La Rocque me chamou a um canto para me dar um relógio "que marcasse minhas horas de felicidade". Disse-me ele com carinho de tio. Foi um vexame. A relação, aqui, era naturalmente outra. Não usei o presente. Morria de vergonha, porém, de quem me dera. E passava pelo saudoso senador, escondendo o pulso para que não pensasse que desprezara seu presente. É que a gente já anda tão sobrecarregado de responsabilidades e de objetos que quando se pode livrar de umas ou de outros, nem hesita. No tocante a relógios, é fácil. Inclusive porque o vizinho sempre anda com um, em que você espia pelo rabo de olho.

Quando somos jovens, temos em relação ao tempo a impaciência de credores. Estamos sempre querendo que ele corra. Para que chegue logo o carnaval, a Semana Santa, as férias de julho, o São João, então depois dos "bros", o tempo voa. Até o Natal. Até o révéillon. Quando damos fé, estamos um ano mais velhos. É quando passamos a nos portar como devedores. Embalamo-nos na esperança de que o Banco esqueça o dia do vencimento da promissória. Ou, então, passamos a pleitear prorrogação.

Ainda hoje sou dos apressados, reconheço minha culpa, minha máxima culpa. Nem posso recriminar os outros. Nos tempos em que trabalhávamos juntos, Guilherme Neto costumava me perguntar porque vivia tão sofregamente: "Tens muito medo de morrer". O quanto, porém, se perde em amar tão depressa, beber tão rápido, ler e viver correndo, ao invés de curtir mais, usufruir mais cada oportunidade de prazer. Inclusive porque ela pode não se repetir. Para que, então, andar tão velozmente atrás das voltas do relógio?

É o que tenho vontade de dizer a essas meninas de hoje, Raquel e Sara, em particular, que nutrem desejo tão intenso de se despedirem, logo, desses tempos amenos e leves. Para que tanta pressa em deixar de ser criança? Para que a angústia de ir logo à frente, chegar logo à faculdade, formar-se, ingressar cedo na rotina do trabalho ou na frustração do desemprego? Para que trabalhar tão cedo? Dar duro pelo pão de cada dia, casar? Agüentar marido que, muitas vezes, somente produz desgosto e roupa suja? Limpar cocô de neném. Chegar logo à idade da gente e ficar com bruta vontade de negar? Ah! Peçamos ao tempo que maneire, ao relógio, que está certo, não pare, mas que, pelo menos, não voe. Peraí, não curti a vida como devia, como merecia, uma outra oportunidade, sim, porque somente, agora, aprendi a amar, a beber, a viver, e quando não me resta tanto e a cobradora implacável, senão está às portas, avança a passos largos?

 

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