COMO SÃO SÁBIOS OS VENDEDORES DE RAPADURA !
Lustosa da Costa
Quando me pediram para falar de 1994, só pude dizer que o acontecimento mais triste deste e de outros anos, se passou no âmbito familiar: foi a partida de meu pai. Ele se foi e restou um consolo: saiu de cena sem sofrer e sem infligir sofrimento aos outros. Deus o poupou do que mais temia: a humilhação da invalidez. Da dependência física ou financeira. "Seu" Costa morreu de repente, na plenitude de sua alegria, de seu otimismo, de sua lucidez A gente sabe que vai acontecer, inexoravelmente. Apesar de esperar, de temer , por muito tempo antes, o ocorrido nem por isso, dói menos. Aproveitei muito a convivência dele, nos últimos tempos, recolhi seus "causos", registrei suas recordações sobralenses, razão porque não me ocorreu, em momento algum, me recriminar por não lhe haver dado assistência. Ainda assim, machuca. Passado o impacto, é que a gente sente a pancada. A dor de saber que nunca, nunca mais ouviremos suas estórias, sua risada, sua tosse.
Jorge Luís Borges costumava dizer: "Meu pai morreu e está sempre a meu lado. Quando quero escandir versos de Swinburne, faço-o, dizem, com a voz dele." Lá em casa, somos mais prosaicos. Ninguém da família freqüentou Swinburne. Lembro meu pai, em circunstâncias mais banais, porque herdei sua tosse ruidosa, quase disse escandalosa.
Ele nunca leu "Rei Lear" de Shakespeare mas gostava muito de contar as estórias de sertanejos abastados que precipitavam a própria sucessão, antecipando a herança dos descendentes e terminavam a vida, na miséria, na mendicância. Era o que temia e de que Deus o poupou. Nas memórias que começou, fala da ajuda literária que lhe dei na educação da numerosa prole, nunca financeira "porque nunca precisei", conclui orgulhosamente. Ao contrário, envaidecia-se de me pagar o almoço dos domingos no Marina ou no restô do Ideal e queria que bebesse o uísque de qualidade, nunca de marca mais barata para lhe poupar despesa. E também de entrar com alguma contribuição pras campanhas eleitorais dos filhos.
Imaginem os leitores a áfrica que foi viajar, em temporada de festas, de Paris para Fortaleza. Embarcamos eu e Fred, depois de todos os passageiros. O bagageiro já fechado. Atordoado, ouço um vizinho, guri duns 16 anos dizer que descende de família cearense. Quando acordo, quero saber direito sua estória. Como Ivone Araújo, matriarca sobralense, amiga de dona Dolores, pergunto logo: " Quem é seu avô? " Ele é Bernardo, neto de Maria Teresa, minha colega de francês, em tempos idos e vividos que se divertia muito com minha dificuldade de pronúncia e do grande tisiologista Gilmário Mourão Teixeira que trocou o consultório em Fortaleza por um posto importante na Organização Mundial de Saúde. Lembro que, numa manhã de sábado, de sol, tomei, no bar do extinto Savanah, gim tônica com ele, o ex-reitor Valter Cantídio, os saudosos José Carlos Ribeiro e Newton Gonçalves. O garoto mora em Bruxelas onde o pai é diretor da Coca-Cola e vai pro Rio, curtir os avós.
Na Varig, a moça que me atende tem, no tom da voz, cadência familiar. Intrigado, a certa altura, não resisto. Pergunto-lhe de quem é filha. Diz que é do Wilson Machado. Então! Foi meu colega de PRE 9 quando me pediu o apresentasse a Carlos Jereissati para ser candidato a vereador pelo PTB, depois deputado estadual, pelo MDB. Neste tempo, Carolina não era, sequer, uma aura de desejo no olhar de seu pai cuja casa freqüentávamos, depois do Telejornal CRASA, para comer arroz de pequi quando Lúcio Brasileiro era assediado por fundas nostalgias gustativas.
Debaixo da marquise do Palácio do Comércio, ao lado da primeira agência do BANCESA, enquanto compro rapaduras de Cascavel pra minha sobremesa em Paris, sou abordado por uma velhinha que me pede esmola e com sorriso triste no canto da boca me revela que até aquela hora não comera nada. Está com fome. Derreto-me em sentimentalismo. Penso logo em minha mãe - que tem praticamente a sua idade - e que nunca viveu provação igual porque sempre teve, graças a Deus, oportunidade de trabalhar. Não sou como aquele pão-duro que se diz socialista e nega esmola aos pobres por não querer atrasar a marcha da Revolução. Não, não vou esperar tão laborioso parto da História. Prefiro remediar aquele problema momentâneo, pagando o almoço da conterrânea. O vendedor de rapadura sentencia:
"É melhor poder dar que precisar pedir."
Como são sábios os vendedores de rapadura de minha terra !
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