Lustosa da Costa
É sensação, no mínimo, inédita
pra brasileiro graças a Deus, essa de saber que o Boulevard Saint Michel em que
você tanto gosta de passear, foi cenário de atentado terrorista. De volta pra
casa, em meio ao engarrafamento do trânsito, você vem com o coração na mão,
preocupado com os filhos em que ali estudam por perto onde o cara fez explodir a
bomba. Felizmente, o trem é da banlieue que eles não têm razão de tomar. O
horário já não é mais escolar. Apesar disso, você vive um alívio muito
grande, ao encontrá-los em casa e em paz, longe dos artefatos assassinos.
(Fiz
tal registro antes de outra ação terrorista, esta última na Étoile onde um
desalmado deixou bomba no interior de lata de lixo.)
Saio,
porém, à procura de assuntos menos sangrentos. De comida, por exemplo. Não me
amarro em feijoada. Nem saio pelaí, feito doido, atrás damaminha do Francisco
ou do caranguejo do Itapariká. Sou, em França, porém, assaltado por outras
nostalgias gustativas. Por exemplo, nada mais saboroso, o dia ainda claro embora
seja noite, que encarar um cuscuz de milho com leite de vaca, aqui em Paris na
rue de Vouillé. Pra inveja desses parisienses que não sabem o que estão
perdendo. Também me apraz uma rapadurinha de Cascavel, depois do almoço. Pra
prover minha ucharia, no último fim de semana, fiz expedição gastronômica.
Comprei rapadura chinesa ( pude comprovar que a nossa é muito melhor mais
saborosa), batata doce, macacheira e pitomba. Bem como um doce de sapota da Tailândia
que eles chamam saboutier. Neste passo, fui, em vão, depois, até a rue de
Mouffetard, não pra seguir os rastros de Ernest Hemingway jovem jornalista e
marido estreante. Minha motivação era mais chã. Procurei, na rua onde morou o
romancista americano, farinha de mandioca. (Terminei encontrando o produto num
supermercado que instalaram aqui perto de casa). Pois bem. No curso de tão inútil
pesquisa, parei numa loja portuguesa. A cachopa, ao final da consulta, me
confidenciou fraternalmente:
"Segunda
feira, estou voltando."
Não
entendi. Voltando, pra onde? quero saber.
Aí
ela me explicou que era o seu último dia de trabalho. Entrará de férias e irá
gozá-las na santa terrinha, mais precisamente no Porto. Percebo que se trata,
como eu, dum ser mordido por fundas nostalgias. Fala em volta quando se refere a
um mero descanso do trabalho.
Dia
seguinte, à entrada do Jardins das Tulherias, o vendedor de souvenirs é um
negro simpático, falante, cheio de charme, de andar elástico. Não me
surpreenderia que ele, ali mesmo, no calçamento parisiense, ensaiasse alguns
passos de capoeira. Enquanto escolho cartões postais, ele não chega a tanto,
toma, porém, a iniciativa de falar do futebol brasileiro e mostrar que é seu fã
ardoroso.
Em
meu parco francês, para alimentar a conversa, lembro-lhe de que, infelizmente,
no último jogo, perdemos pra Argentina. Ele me corrige. A derrota foi para o
Uruguai e não pra Argentina. Fico justamente envergonhado, reconheço que me
enganei. Digo-lhe que, à moda da grã-fina de Nelson Rodrigues, em matéria de
futebol, só sei que a bola é redonda. Não vão, além disso, meus
conhecimentos do chamado esporte bretão. Pra mais me desmoralizar, o
interlocutor declama, então, com boa pronúncia, os nomes de todos os
integrantes da seleção brasileira.
Vou
à revisão na cardiologista. Ela considera a operação impecável. Acha-me ótimo:
"Você
pode viver até cem anos".
É
muito. Sinceramente não quero tanto. Com tanta idade nas costas que companhia
você pode ter? Vai conversar com quem?
No
hospital, o cirurgião, auxiliar do feito,examina orgulhoso sua curettagem
e chama um colega pra que lhe a obra. . Enquanto eles se demoram em
tais observações, sinto-me devassado. Coisificado. Uma página de manual de
cirurgia cardiovascular.
Tem
mais. O grande médico não me quer apenas sadio. Isto não lhe basta. Sonha-me
virtuoso. Quer, pra mim, o Céu dos sóbrios, dos abstêmios. Estou, há quase
três meses, da cirurgia. É justo, humanamente justo que queira fazer-lhe um
brinde. Tomar um ou mais copos de Mouton Cadet ou dum Bordeaux branco, seco,
como pede, reclama minha sede sobralense. Consulto-o expressamente. Ele faz que
não ouve e recomenda:
"Beba
água. Beba muita água!"
Digam-me,
leitores e leitoras, isto é coisa que um cidadão maior de cinqüenta anos,
tenha obrigação de ouvir, e pior, de acatar? Os vinhos estão diante de mim,
amontoados no armário da sala, desafiando-me, conclamando-me a que os consuma,
a que os beba, para isto foram produzidos e eu? Pobre de mim. Vou a um
restaurante e ouço o cara solicitar um rouge. Acompanho, invejoso, a trajetória
do garçon transportando a garrafa, retirando a rolha, servindo a primeira dose.
Vejo a beleza daquele líquido rubro, dum vermelho cardinalício escorrer no
copo, o prazer sensual do outro curtir o bouquê , sorver aquele divino licor,
elaborado nos céus para matar a sede dos deuses, enquanto eu, pobre mortal, com
jeito ( e tudo o mais ) de besta, bebo água. Muita água. É demais pro meu
pobre coração recauchutado.
Um
amigo liga para citar velha crônica de Carlos Drummond de Andrade, registrando
encontrar-se numa idade em que só encontrava os amigos, de pé. Nos velórios.
Não é felizmente, ainda, o meu caso. (O poeta partiu com quase noventa anos).
Estou longe disso. Graças a Deus, vou mais a casamentos e aniversários que a
enterros. Fico, porém, triste quando um amigo, um contemporâneo vai embora.
Sinto-me ameaçado, atingido. É toda uma estória comum que se encerra. Um
patrimônio de vivências, de lembranças, de experiências comuns, boas, menos
boas que se acumularam , ao longo da estrada, e que se perde definitivamente.
Foi o caso do Mardônio Barreto Lima , colega de juventude, que encontrei, no
ano passado, no Beco do Cotovelo e que nos deixou. Nunca vou esquecer sua
alegria, seu bom humor, sua simpatia.
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