Lustosa da Costa
Tenho
um conhecido, muito pão duro, que não dá esmolas sob o pretexto de não
atrasar a Revolução. Não tou nessa. Mais modesto, prefiro resolver, quando
posso, o problema imediato do mendigo que esperar tão laborioso parto da História.
Há,
ainda, os que, para dissimular a sovinice, dizem que muitos (muitas) pedintes
usam crianças, como se fossem filhos, a fim de inspirar a piedade alheia.E que
outros são apenas preguiçosos. A mim isto pouco interessa. Ocara, que é
obrigado a estender a mão à caridade pública, está ruim, está péssimo de
vida. Tão ruim a ponto de merecer nossa comiseração e o dinheirinho da
esmola, dinheiro que não nos faz falta.
Há,
porém, registrar a nova postura do miserável que não é mais conformista,
quieto, passivo como noutro tempo. Não está ainda recorrendo ao assalto à mao
armada para garantir o pão de cada dia, mas já expressa sua indignação ante
os que fecham os olhos à sua tragédia ou se negam a ajudá-lo.
Lembro,
a propósito, uma das despretensiosas crônicas do Guilherme Neto. Contava o
"Barão" que trafegava, descuidosamente, por uma das ruas da
Aldeota,em seu carango rumo ao trabalho,quando foi abordado por umflanelinha.
Desses garotos que, nas esquinas, sem que o peçamos, começam a
"limpar" o para-brisa de nossos carros, à espera de recompensa
financeira. Guilherme não queria, não precisava dos serviços. Além do mais,
estava desprovido de dinheiro trocado para o pagamento daquele trabalho que não
contratara. Quando disse istoao menino, que não tinha como o remunerar, ouviu
palavrões de revolta e de ódio. E registrou, no jornal, o assombro e o espanto
em que ficou ante reação tão violenta.
Pois
bem. A gente pensa que na França, país de primeiro mundo, não existe miséria,
não encontramos mendigos. Infelizmente, eles aparecem. E nos abordam, nos
carros do metrô de Paris, quando, com voz colocada, expõem suas chagas , sua
indigência e pedem nosso auxílio. Não é, evidentemente, só ali que somos
solicitados por gente necessitada. Já contei, aqui, a propósito do hábito
francês de ler, o caso do pedinte da feirinha da rue de la Convention, aqui
pertinho de casa. Ele se sentano pórtico dum edifício, coloca um pires ao
lado, com dizeres sobre suas necessidades financeiras e enquanto ali não pingam
as petites piéces, vai devorando seu romance, fazendo sua cultura.
Infelizmente, devo dizer,já hámuita miséria trafegando por bulevares e ruas
parisienses .
Confesso,
porém, que me surpreendi, um dia desses, quando fui pras bandas da Place de
Italie comprar pitomba, macaxeira e batata doce. De repente, no sinal, à
esquina um motorista, que ia à nossa
frente, abordado por um menino que queria passar uma escova no para brisa de seu
carro, recusou-lhe os serviços. O garoto
insistiu. Ele continuou na negativa o que o levou o outroa reagir,
exasperado,com uma cusparada. Em cima dele.A miséria também habita por aqui e
tem suas maneiras de exprimirdescontentamento e revolta.
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