Morri e não sabia

Lustosa da Costa

Quando vou entrar no novo restaurante de comidas do Mediterrâneo, "Abajour da Adi", um conhecido que degusta seu cachimbo na calçada para não perturbar os outros fregueses, me cumprimenta e como há muito não me vê, me dá pêsames pelo" falecimento do nosso querido Lustosa da Costa na Europa ."Está comovido e explica porquê: "Gostava muito do Lustosa." Aceitei e agradeci os cumprimentos. Podia haver-lhe dito que realmente andei raspando o travessão em Paris, ano passado em junho, mas escapei graças à perícia de seus cirurgiões. Ia, porém, desmobilizar a compunção e o sentimento do amigo. Sem jeito, calei, para não o decepcionar, preferindo continuar morto a seus olhos. Logo, porém, dele me despedi e entrei no restaurantesobrevivente de mim mesmo.

Olhei-me no espelho para conferir se era eu mesmo quem me olhava, se continuava vivo. Por segurança, telefonei para casa a fim de saber de Raquel seeu ainda era genteou alma do outro mundo. Ela garantiu que estou vivo, não gostou do engano do cara, estranhou porque não protestei jurando que não morri. Dei-lhe as razões acima. Fiquei, de certa maneira, encabulado de estar vivo, decepcionando o outro.O cara mostrava tal sentimento que não achei justo tirar-lhe o motivo da emoção, como que puxar a cadeira em que estava sentado.Também resisti à tentação de sentir saudades de mimApenas, admiti permanecer defunto para ele, a seus olhos, embora constrangido no papel. No entanto, reintegrado em minha existência física, fui rango e com tal disposição que me convenci definitivamente de que não morri apesar das versões em contrário.

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