MORDOMIA, UMA TRADIÇÃO FRANCESA

Lustosa da Costa

            Apesar do fervor da mídia, mordomia, entre nós,é pinto. Café pequeno, como se dizia antigamente. Falta-nos tradiçãoaristocrática, que se alicerçana monarquia absoluta. Na república, na democracia tem sempre alguém querendo estragar o prazer dos outros . E pior, conseguindo. Voltemos, porém, ao Brasil.

Na matéria, somente nos acode a chegada de D. João VI, corrido, da Europa, pelos generais de Napoleão. Na acanhada cidade do Rio de Janeiro de 1808, não havia como abrigar a corte. Partiu-se, então, pras desapropriações. Tomavam-se as melhores residências da cidade para os nobres recém-chegados. Que , naturalmente, não tinham que se preocupar com aluguéis, impostos e outras ninharias. À porta das melhores casas, escrevia-se: "PR", para informar à população que elas, agora, se encontravam à disposição do Príncipe Regente. Logo, gaiatos traduziam assima legenda: "Ponha-se na rua..."

Outro espasmo de mordomia que grassou, no Brasil, foi quando da implantaçãoda nova capital, no Cerrado. Então se ofereceram moradias de graça. Nada, porém,de mansões. De palácios. E, sim, casas de funcionário público. Tudo ao nível de servidor , de assalariado,não mais que isto . Na ditadura militar, acrescentaram-se alguns privilégios na área, logo detectados pela imprensa e trombeteados com uma irritação empostada que viria desaguar nas privatizações de hoje.

Mordomia é hábito de país monárquico. Assim como a França que, pra acabar com ela, teve de mudar, de canto, as cabeças do rei e da rainha. Todo mundo vivia numa nice, no melhor dos mundos à custa dos outros, dos servos, da burguesia, em seus castelos e palácios.

 Agora aqui há muito não há monarquia, embora tenha existido o GeneralDe Gaulle. Preservam-se, porém, os velhos e bons costumes. Claro que, de quando em vez, um jornalista despeitado põe a boca no trombone, produzindo denúncias que seus colegas pudicos, encabulados, não ouvem, nem naturalmente amplificam, tratam de abafar, desacreditar. O que é o certo.

Taí o caso dos apartamentos das COHABS, das SHIS da Mairie de Paris. Às vezes, tais habitações populares se transformam em verdadeiras mansões, reformadas, decoradas, segundo o gosto dos futuros moradores, alugadas, a preços de pai pra filho.Quem paga tudo éo proprietário, o locador, claro. A ele é que interessa alugar um imóvel em belas condições.O leitor logo há de o perceber o quão tormentoso é botar a mão em tais preciosidades. Existem, porém , os iluminados, os Moisés que tanto atravessam o deserto, apartam as águas do Mar Vermelho, como descobrem tais pechinchas pra si. Pros filhos. Foi o que fez o Chirac. O prefeito Tiberi. O primeiro ministro Alain Juppé. São criticados pelosque nada constróem. Pelos invejosos. Que falam, falam e não mudam nada. Não extirpam ( nem podem ) tão fortes e enraizadas tradições. Afinal, tais homens públicos não estão fazendo nada demais. São modelos de chefes de familia, são pais exemplares, inquietos com a sorte da prole. Preocupam-se com ela, como se preocupam com o povo. Comoa primeira é menor que o outro, tem melhores condições e prioridade no atendimento.

O primeiro ministro francês é um leão ( de direita ) na luta contra o desemprego. A favor dos excluídos. Mas este é um País difícil. Como é possível administrar uma Nação que produz maisde trezentas espécies de queijo, já se perguntava De Gaulle. Pois bem, em meio a essa guerra hercúlea, um dia desses, Juppé teve de perder tempo e vir, indignado, afrontado, à tevê,desfazer picuinhas dos adversários. Só porque alugou, da prefeitura, um apartamento de 180 metros quadrados por catorze mil francos. Não sendo egoísta, nem se movendo por ressentimentos, tratou de arranjar coisa parecida para ex -mulher. Queriam, por acaso,que a deixasse dormir debaixo da ponte? Depois, pro meio irmão. Por fim, por dois filhos. Os ressentidos hão de dizer que, ao lado isso,todoseles possuem seus imóveis pessoais, devidamente alugados. Mas o que interessa isso diante da batalha de Juppé contra o desemprego? a favor dos excluídos?

Caíram de pau em cima dele. E de homens públicos de outras fações. Felizmente, a imprensa sadia reagiu, bravamente, porque se chegou a até acogitar depublicar a relação dos felizes inquilinos da prefeitura de Paris, políticos de diversos partidos, jornalistas, artistas. Seria violação do Código Civil, disse uma folha. Atentado à convenção dos direitos do homem europeu, esbravejou um líder de esquerda. Desestímulo à vida publica.Se seguirmos, por este caminho, bradou outro,advertiu um terceiro, iremos chegar à mediocridade da vida pública norte-americana. Por último, houve quem dissesse, com muita procedência ,que a campanha contra os imóveis do clã Juppe só se desencadeou porque o chefe combate o desemprego.

Logo, porém, tudo serenou. Os acusados silenciaram. Os felizes locatários continuam desfrutando o conforto ( barato ) de seus tetos, protegidos pelo olhar atento do pai. Se este tem o dever de cuidar da coletividade, há que começar por quem está mais perto, mais próximo, pelos seus. Afinal, como pode resolver os problemas de todos, se for incapaz de encarar os da família?

 

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