Minha amiga, a garrafa

Lustosa da Costa

 

Um dia desses, Paulo José, ao se servir de uísque, lá em casa, se deteve, observando o copo em que servi, que é baixo, sólido e amplo: "isto é que é gostar de beber e de dar de beber". Não gosto de copos altos nem finos para o uísque. Estes tem de ser baixos e entroncados. Precisam ter por onde se lhes pegue como as mulheres, onde se encha as mãos. Estou longe, porém, de ser  bom bebedor. Primeiro, pela sofreguidão com que vou ao copo. Lúcio Brasileiro e Guilherme Neto sempre se disseram impressionados com a rapidez com que enfrento o  scotch. José Hugo Machado, cearense de Lisboa, brinca: "tu és dos que não podem ver copo cheio". Além do mais, gosto de uísque com muito gelo, o que lhe desfigura o bouquet. Curto e curto muito gelo se dissolvendo no dourado do uísque. Quem consome, porém, assim, não tem paladar requintado. Por isso mesmo, quando o brasileiro, certa vez, para me homenagear com carinho fraterno, abriu um Royal Salute, protestei: "não mereço". Como ele sabe que humildade não é meu forte, quis saber por quê. É que uísque de qualidade, deve ser servido puro. Sem gelo. Comporta , no máximo, água fresca da Irlanda , bebida em separado, após  cada gole. Agora, com quatro, cinco pedras de gelo, vira sangria, garapa. É a mistura que me permito.

É fundamental que o gelo venha de água limpa, filtrada e que não seja tocado pelas mãos de ninguém. Porque muito barman não se manca. Não tem educação social nem formação profissional e, por isto, coloca, com as mãos, pedras de gelo em nosso copo. Sabe Deus onde, antes, pusera as mãos.

Fernando Sabino conta que, em bar de luxo, em Nova York, vendo cidadão ansioso por ser relacionar, meter o dedo no gelo de seu uísque, indagou: "o senhor é brasileiro?" O outro, mais que depressa, continuou e perguntou: "Como é que o senhor descobriu?" O cronista lhe explicou: "porque só o brasileiro faz a porcaria de mexer o gelo do uísque com o dedo...

Uísque deve ser sorvido em companhia leve, longe dos sectários, dos fanáticos, dos obsessivos, afastados dos que querem prolongar, na mesa do bar, o expediente do trabalho ou problemas profissionais. Dos que pretendem impor-nos sua opinião. Dos que falam muito alto, por exibicionismo, por falta de educação. Cumpre buscar por companhias leves, saudáveis, que privilegiem o lado ameno da vida. Cuja conversa tenha sal, senso de humor, que te enriqueça, que não te jogue no colo, problema e dramas. Certa vez, bom barbeador de uísque estava a um canto do bar, fugindo da companhia, quando lhe indagaram o por quê da solidão. Explicou: "o uísque está muito caro. Não posso desperdiçar na companhias de chatos". E a lei fundamental, é primeiro mandamento, é exigência "sine qua non": fuja do chato como o bode da chuva, o diabo da cruz.

Um dia destes, fiquei em pânico diante da perspectiva de que um desses me viesse, no bar, baixasse no meu centro e desfizesse uma roda que era toda harmonia, todo bom caráter, todo alto astral. Mais cuidado, porém, com os que têm contas a ajustar com a vida, os que guardam, lá dentro, como animais de estimação, sua mágoas e suas frustrações e somente querem, do álcool, liberação. São pessoas atormentadas que apenas sossegam quando jogam seu tormento sobre os outros que nada têm a ver com isto. Ao longo dos anos, tenho bebido tonéis e sempre em boa companhia. Desde o primeiro pileque, em casa de Agenor Rodrigues, com Hélio, filho do anfitrião já falecido, Antônio Rangel e Oswaldo Rangel. Todos os copinhos de vodka (nacional, bem se vê) num jantar no Kremlin, com Flávio Marcílio, uísque no Palácio de Westminster, com o presidente da Câmara dos Comuns, Sarney e Accioly Filho. Bom chapa com Thomaz Coelho, no La Tour D’Argent, e com Norton Macedo e Ary Kffuri, no Maxim’s. a cachaça de Chico Caldas, m Viçosa, com Tarcísio Tavares e o abstêmio Arilado Pinho.

O álcool não me torna valente nem arruaceiro. Não me leva a meter a mão no decote das mulheres dos amigos. Nem a dizer grosserias que não diria, sóbrio. Tronam-me, porém, mais romântico, desejo de curtir música sentimental, nostálgica. O álcool me tem sido boa companhia, na euforia das comemorações, nos instantes crepusculares em que a gente saca que a vida está feia, é não dar para agüentar. Ai, então, você vira um pouco de Deus. Decreta, por conta própria, morte interina, provisória, mergulhando na garrafa, os gnomos, os duendes, os fantasmas que o perturbam. Mais tarde, acorda e vai a luta, com um Vallium número dez ou Old Parr de boa origem. Ninguém pode considerar-se definitivamente infeliz ou totalmente perdido. Tem, sempre, possibilidades de ganhar o reino dos céus.

 

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