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Eram cinco para as onze quando o doutor
Leite iniciou os preparativos para deixar a farmácia. O professor Ataliba,
que gastava ali, num sofá de madeira, seus longos dias de aposentado, já
dobrara o jornal da semana passada que estava relendo e partira,
arrastando a perna paralítica. Meticulosamente, o doutor Leite começou a
vestir o paletó, escovou-o ante o espelho com cuidado e penteou-se com
força. O cabelo voltara a encrespar. Seria a navalha do barbeiro? Seria a
água? E ficou com medo de que aumentassem os indícios da mulatice
carregada do pai que ele, felizmente, não herdara. E que lhe seria fatal.
Afinal estava de olho na Presidência da Conferência dos Vicentinos e já
era o orador oficial da Congregação Mariana. E ser branco ou aparentar
sê-lo era fundamental em Sobral, cidade que tinha avenida, clube, igreja
dos brancos e dos pretos. |
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Ao se abaixar para fechar o cadeado da
enorme porta da farmácia, o doutor Leite voltou a vista para uma
panorâmica da praça. O sol estava a pino e a reverberação do calor fazia
subir estrias das calçadas. Seu irmão Cláudio, e ele nem sabia porque isso
lhe vinha agora à lembrança, dissera que ali dava para estrelar um ovo, em
cima do passeio. E o doutor Leite imaginava um ovo jogado sobre a calçada,
estalando, sendo cozido, mostrando, à luz do meio-dia, o esplendor de seu
amarelo-ouro. E começou a pensar: como o comer? Como o tirar daí?.... |
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Naquela quinta-feira, examinou a Praça José
Sabóia com cuidado. Estava ansioso para que chegassem as onze horas e
pudesse terminar o expediente, porque ia ver Judite. Do outro lado da
praça, Clodoaldo Aguiar, no balcão da farmácia concorrente, nem disfarçou
um ar de desprezo. Doutor Leite julgou mesmo tê-lo visto atirar-lhe uma
“banana”. Fez que não notou. Afinal não ia se trocar com o Clodoaldo, seu
antigo colega de balcão, que rompera com ele, acusando-o de deslealdade
quando da morte do dr. Brasil, e conseqüente luta pelo arrendamento da
farmácia. É verdade que Clodoaldo virara proprietário, mas vivia às voltas
com multas, com a fiscalização, com os cartórios, desacreditado
comercialmente. E socialmente também. Leite era somente arrendatário mas,
em compensação, tinha boa reputação. Começava a subir: fôra aceito como
sócio do Palace Clube. Seu grande sonho era chegar a diretor cultural. O
grande problema é que o bispo era contra os que dançavam o Carnaval. Como
ele poderia ser presidente da Congregação e diretor de clube dançante? A
seu favor só tinha que, há dezesseis anos casado com Marieta, nunca mijara
fora do caco, como costumava dizer o Padre Coraci, vigário de Santo
Antônio do Aracati que, de quando em quando, no cair da tarde, vinha
visitá-lo, atordoando-o com sua voz de trovão, seu corpanzil, as estórias
de suas vacas e surpreendendo-o com estranhos pedidos de remédios para
seus compadres com doença venérea. |
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Doutor Leite viu que o caminho estava
livre. A um canto da praça, porém, junto à loja “A Tesoura”, estava um dos
irmãos Almeida, o Crisantino. Magrinho, ainda não chegara aos trinta anos.
O cabelo já esbranquiçava. Falava baixo, ouvia tudo. Era um dos dois
filhos do seu Toinho, dono do cartório. Jamais tivera um emprego. Gastava
dias e noites na praça, nos bares e, principalmente, nas esquinas de casas
das adúlteras ou das moças de namora mais ardente. Dedicava-se
integralmente a saber da vida dos outros: era seu único encargo. Por isso
tinha conhecimento de tudo: das filiações ilegítimas, dos namoros
escandalosos, das casadas que estavam a prevaricar, dos padres amigados e
tanto os revelava como os pesquisava junto a amigos, conhecidos e
empregadas domésticas. Segundo dissera certa vez, ao entediado doutor
Leite, estas últimas lhe davam dicas incríveis.... Era justamente o
Almeida, com suas perguntas embaraçosas e imprudentes que o doutor Leite
não queria ver, ele que, pela primeira vez numa década, não ia seguir,
aquele dia, o caminho costumado. Crisantino esperava a chegada dos jornais
de Fortaleza conversando numa roda de que fazia parte também o Raimundão,
funcionário do Correio que vivia à disposição da Prefeitura para não dar
expediente, porque passava o dia discutindo política. E sempre a favor do
Romão Patriolino, antes do PSD e agora do PTB, seguindo as variações de
siglas do seu chefe, cujas valentias gostava de contar. O outro era
Crisanto, irmão de Crisantino, mais excitado que este, tanto que da porta
da farmácia dava para ouvir o que estava dizendo. Também não trabalhava.
Tinha um bico na Prefeitura, dizia-se que graças a manipulações decisivas
de mapas eleitorais, feitas com a supervisão paterna. Crisanto, ao
contrário do irmão, se dedicava a pesquisar as novidades comerciais. Onde
havia um título vencido há dias, já para lá se dirigia seu olhar agudo e
comprido, tão temido pelos gerentes do Banco do Brasil. Possíveis
falências, prejuízos e lucros na venda de gado, alta ou baixa do algodão,
protestos de títulos, execuções, era com ele mesmo. Muito bem casado, não
se interessava por assuntos amorosos. A família se especializara, afirmara
uma vez o doutor Hemetério Mendes, velho cacique pessedista, dono do outro
cartório, a propósito da divisão de trabalho ou de interesse dos filhos do
colega. |
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Enquanto ia saindo de mansinho, doido para
não ser notado, o doutor Leite pensava em Judite. E, por incrível que
pareça, também na cunhada. A cunhada, Edivanice, era loura de olhos
claros. Desde que viera morar em sua casa para estudar no Colégio das
Irmãs da Santana, pois o pai dela e sogro dele morava na fazenda em
Massapé, seu coração não tivera mais sossego. Muitas vezes na cama com
Marieta, para conseguir gozar, pensava nela, nos seus seios alvos, o
biquinho róseo que ele gostaria de afagar, de morder. |
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Então quando Marieta saia à rua ou ia à
Igreja da Sé, o doutor Leite quase enlouquecia. Ia ao quarto de Edivanice
mexer no saco de roupa suja. Cheirava seus vestidos, punha-os sobre o
rosto. E passava bons momentos beijando seus soutiens, apalpando suas
roupas à altura dos seios, de duas saliências e reentrâncias, sentindo o
seu suor, o seu cheiro nas calcinhas usadas. Agora mesmo, caminhando pela
Rua Senador Paula, sentia-se excitado e tinha de colocar o embrulho de
fazenda sobre a perna esquerda para que não lhe vissem o membro
enrijecendo-se, quase furando a calça. |
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Morria de medo de Marieta, mas quando
Edivanice passava por ele, no comprido e escuro corredor do casarão onde
moravam, puxava-lhe o soutien pelas costas, de uma maneira que ela pudesse
julgar inocente. E parecia que ela estivesse gostando mesmo, porque
voltava, sem ter nem para que, e ele puxava de novo o cordão do seu
soutien, febril e desvairado. Depois, quando saia para a farmácia, a
cabeça ia cheia de sonhos. |
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Chegava, às vezes, a se ver viúvo
e, na própria noite de estréia da viuvez enquanto Marietinha estivesse
estendida no salão, cercada de vela, alguns padres amigos, no velório...
Viria o Prefeito? E o Bispo, se estivesse na cidade? Talvez viessem e com
isto esmagaria o orgulho de Clodoaldo. E já se via entrando no quarto de
Edivanice, sendo confortado por ela e a meter as mãos por dentro do
soutien dela, colhendo o pomo de seus peitinhos, apertando-lhe os bicos,
mordendo-os. Poderia até, se houvesse condições, gozar entre suas
coxinhas, sem tirar-lhe as calças, pois jamais teria coragem de descabaçar
a cunhada, mesmo em sonhos. Temia a Marieta e o sogro, velho coronel
sertanejo, famoso pela sua carolice e pelas surras que mandava aplicar em
adversários da sua UDN. |
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Andando rua Senador Paula acima, o doutor
Leite percebia que estava querendo a morte da mulher e se arrependia. Era
tão boa... Ignorante, não quisera fazer senão o primário, mas solidária,
de nada reclamava. Somente tinha enxaquecas freqüentes. Melhor seria que
pudesse bolinar Edivanice sem precisar do desaparecimento da mulher. E sem
escândalo, naturalmente. E de novo lhe voltava o sonho. Já se via viúvo,
despindo Edivanice, beijando-lhe os seios, apalpando-a toda, beijando-a,
embora mesmo assim não admitisse introduzir-se nela que era virgem, sua
cunhada e o pai, rijo coronel. Por dinheiro nenhum do mundo, queria que
Marieta soubesse sequer desses sonhos. Principalmente quando isto podia
pôr tudo a perder. Ele ia passar de vice-presidente a presidente da Ordem
de São Vicente de Paula. O atual presidente insinuara que não queria
continuar. E o doutor Leite já se antevia na primeira fila da Igreja
Catedral, na missa das nove horas de domingo e nas procissões solenes,
comandadas pelo bispo, segurando o andor. Qualquer rumor negativo e
estaria perdido. O Machado fora expulso da Congregação Mariana porque
dançava carnaval e com a mulher dele. E andando rua acima, o doutor Leite
não podia tirar a cabeça de Marietinha deitada na sala de frente, entre
fileiras de círios, e ele agarrando, detrás da porta, beijando, lambendo,
sugando os seios claros de Edivanice. |
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Além de excitado pelo que pensava,
caminhava apreensivo por saber que esta sua mudança de itinerário, dele
que, desde que chegar à cidade, invariavelmente, àquela hora, ia direto
para casa na Praça do São Francisco, iria gerar curiosidade. Atravessou a
rua e seguiu em frente. À esquina, num velho sobrado onde no passado
viviam grandes fazendeiros, localizava-se agora a mercearia do Chico
Roldão, mais um armazém que vendia de tudo, a grosso e a retalho. Lá
estava o dono da casa, olhos muito azuis, os escassos cabelos brancos
despenteados, barriga por fora da calça amarrada por um cordão. Acabava de
vender uma quarta de farinha e jogava displicentemente o dinheiro na
gaveta do longo e atulhado balcão de madeira. O doutor Leite pensou
naquela gaveta sempre aberta, e se não havia risco de roubo dos
empregados. E foi andando para ver Judite, a costureira, cujo marido
viajara para Fortaleza em seu caminhão, fazendo a mudança do Lopes, do
IAPC, que fora transferido para a capital com seus doze filhos. Agora sim
ele tinha todas as condições de comer Judite, se alguém não pressentisse
seu intento. Andava a passo seguro, a cabeça meio curvada para o chão, o
embrulho de tecido debaixo do braço, o guarda-sol aberto. Já ultrapassara
a loja das meias quando ouviu Crisantino. Deus do Céu, não escapara : |
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“Doutor Leite, doutor Leite!” |
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Virou-se devagar, aparentando
tranqüilidade. |
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“Para onde o senhor vai por aí?” insistiu
Crisantino. |
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“Ora, Crisantino ...” |
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“Não vai para casa? Nunca vi o senhor ir
para a Praça do São Francisco por esse rumo.” |
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Acossado, o doutor Leite procurava
descobrir uma explicação para dar ao Almeidinha sem deixá-lo suspeitar de
que Marietinha estava ausente, porque geraria novas perguntas. A conversa
encompridaria perigosamente, era pior. |
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“Tenho de ir a casa do padre
Gervásio.” |
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“Como, doutor Leite? Parece que ele foi à
Serra da Meruoca. Há umas missões la na Palestina. Vi ele agorinha
passando no carro do Foguinho.” |
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“Não soube não, Almeidinha. De qualquer
maneira vou tentar.” |
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“O que o senhor vai fazer lá?” |
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“Ora, Almeidinha, assunto particular...” e,
ante o olhar arregalado do outro, ajuntou: “Uma missa...” e murmurou
qualquer coisa a respeito do Dr.Brasil. |
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Crisantino ficou matutando um pouco,
silencioso, mas não se rendeu. Apenas mudou de assunto: |
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“O Senhor soube da última?” |
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“Do que, Almeidinha? Que última?” |
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“Sabe o Gatão, aquele da relojoaria que
todo o mundo pensava efeminado, apesar do apelido? Pois não é que a
Lisete, mulher dele, aquela loura meio sarará, encontrou-o na relojoaria
com a Ivanilde, a filha do Zepaulo da serraria. Enrabando a moça que é
noiva. Ela quebrou relógios, vidraças e ainda a cara da moça.” |
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Sem mostrar muito interesse o doutor Leite
limitou-se a um “Foi”? |
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“Não vá me dizer que o senhor lá na
farmácia não sabia ... nem o professor Ataliba lhe falara?” |
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Doutor Leite procurava desembaraçar-se
Crisantino perguntando-lhe pelo pai, pela saúde da mãe que vivia entrevada
numa cadeira de balanço, ouvindo rádio e rezando, com medo da guerra e do
comunismo. |
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“O Sr. vai mesmo para a casa do padre
Gervásio?” |
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Doutor Leite confirmou, mas começou a ficar
com medo de ser seguido. Só se tranqüilizou quando viu chegar o ônibus, o
da Expresso de Luxo, que trazia os jornais da Capital. Almeidinha saíra às
pressas sem se despedir. |
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Doutor Leite ia pensando em Judite. Com ela
era outra coisa. Podia pensar mais livremente, sem precisar estar se
arrependendo, sem pensar que era pecado. Judite era casada, uma casada que
dava. Era pobre e mulata. Seus peitos escuros, de bicos roxos, seu nariz
chato de narinas amplas, abertas, ofegantes o punham em delírio. Chamava-o
para a cama. Com ela, a quem tratara com massagens que não terminavam
nunca, já se via abrindo a porta da casa, imediatamente tirando-a da
máquina de costura e levando-a para cama. Nem sabia se teria tempo de
tirar-lhe a roupa, tal sua vontade de possui-la. Na segunda vez é que
poderiam despir-se completamente e repetir tudo de novo. Embora já temesse
chegar atrasado. Se não abrisse a farmácia a uma hora, o que iriam
perguntar os empregados, os vizinhos? Logo afastava seus temores e pensava
em Judite. O único medo era de ser visto pelas vizinhas, duas solteironas,
filhas de um sargento da Polícia, a Gonçala e a Gilberta, que viviam de
saber da vida alheia e de fabricar uns bolinhos de farinha de trigo. |
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E ele se via, ora com Edivanice ora com
Judite, na cama. E agora com as duas, embora fizesse força para afastar
esse pensamento. Afinal Edivanice era sua cunhada, era virgem, era branca,
e Judite, mulher de um motorista, mulata e dava. Isto não podia admitir.
Mas já as via entrelaçadas com ele, naquela confusão do moreno e do alvo,
naquela festa de sexo que ia montando na imaginação, na caminhada sob o
sol a pino. |
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Fora boa aquela idéia de comprar um corte
de tricoline para fazer umas camisas, embora nem precisasse da desculpa,
pois não cobrava nada das massagens que dera em Judite, dos remédios que
lhe aplicara num tratamento que ele não queria terminar. Com as camisas
podia voltar várias vezes à casa dela, desde que o marido estivesse
viajando. Aquele suor dela o atraía e o apavorava, quando chegava em casa
fazia tudo para se livrar dele. Nos primeiros dias de massagem, numa
saleta ao lado da peça principal da farmácia, se esfregava ferozmente com
álcool para retirar o cheiro dela do qual se impregnara. E se ao chegar em
casa Marieta lhe indagasse “Onde pegaste este cheiro de negro, esta
inhaca?” Ele já bolara uma desculpa e explicaria que era o Romão, um preto
da Serra do Rosário, dono de uma roça de mandioca que chegara se queixando
de uma “dor nas apás” e ele tivera de friccionar-lhe as costas, fazer-lhe
um tratamento. |
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O doutor Leite voltava a recapitular o
corpo de Judite, tal como o imaginava. Mordia-lhe o bico dos seios
escuros, as coxas, penetrava-a até onde pudesse. Cavalgando o corpo dela,
aquelas ancas largas, já se via sumir dentro dela até que ambos se
perdessem nos mesmos solavancos, no balanço do amor rápido e corrido.
Tinha de ser depressa para que uma vizinha não aparecesse. Enquanto assim
pensava, o doutor Leite se aproximava da casa das filhas do Sr. Paulino
que, depois das aulas e antes do almoço, ficavam todas na calçada e eram
perguntadoras implacáveis. Ao passar cumprimentou-as com um bom dia
respeitoso, algo intimidado e julgou-se a salvo. Ficou vermelho quando
ouviu de uma delas referências à sua roupa, aos seus hábitos e “ para onde
ele vai uma hora dessas?”, até que Albaniza, a mais nova, correu e lhe
indagou: |
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“Doutor Leite, temos novidades?” |
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Ante seu olhar de surpresa, ela não se deu
por vencida: |
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“Ora, onde o senhor vai por este caminho na
hora do almoço?” |
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“Vou a casa do padre Gervásio ...” |
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“Fazer o quê?” |
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“Pedir para ele rezar uma missa ...” |
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“Morreu algum parente seu? Quem foi?” |
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“Não, minha filha, o dr. Brasil. Pediram-me
uma missa.” |
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“Não faz tempo que ele morreu?” |
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“Faz, minha filha. É uma promessa de um
cliente dele. Só isto.” |
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O doutor Leite não ouviu direito o que as
cinco filhas do Paulino ficaram conversando; só sabia que era a seu
respeito, por isso as orelhas lhe ardiam, pois todas eram campeãs de
fofoca. Ele andava mais curvado e devagar, olhando os sobrados antigos, o
velho professor Jácome à janela de sua casa segurando o queixo com o
lenço, e o consultório abandonado do dr. Adauto... Ia ser bom. Marieta
viajara, o marido de Judite ausente e aqueles peitos morenos, aquela anca
larga que uma vez acariciara, rápido, depois de uma massagem, ante o olhar
cúmplice e feliz dela. Ela devia estar deslumbrada. Afinal quem lhe pegava
na bunda era o doutor Leite. Embora não fosse formado, passava por doutor
e dono da farmácia e receitava a cidade inteira, até os ricos, todos os
dias. E só em pensar naquele corpo... Já, porém, amedrontado, cheio de
novas desculpas a oferecer, temendo encontrar algum bisbilhoteiro na
mercearia do Sr. Liberato. E se os vizinhos dela viessem? Tinha a desculpa
das camisas e aí se tranqüilizava. |
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Conhecera Judite há dois meses. Ela entrara
na farmácia, com seu gingado, seus amplos peitos. Tinha uma sexualidade
inocente como se não se apercebesse dela. Estava com torcicolo. Ele
decidiu fazer-lhe massagens. Ela concordou, dócil, humilde, perguntando
apenas pelo preço. No laboratório, ele a massageava, devagar, sem pressa,
descendo a mão até onde não havia doenças, nem torcicolo, nem incômodo, e
ela aceitando, de quando em vez lançando-lhe um olhar de curiosidade como
se a perguntar: “É isso mesmo que ele quer?”. Fácil ela percebera tudo e
agora ele inventava outras regiões para massagem, pena era que a farmácia
estivesse sempre cheia de clientes lá fora, esperando remédios, aplicação
de injeções preparação de fórmulas. Por isso ia agora à casa de
Judite. |
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O doutor Leite, ao dobrar a rua do Menino
de Deus, viu o padre Gervásio que conversava com uma beata magra que ainda
tinha a mantilha escura sobre a cabeça, como num confessionário. Estava
com o pé sobre o banco da avenida e no rosto visíveis sinais de enfado.
Cumprimentou-o de longe com um aceno de cabeça e andou rápido. |
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Ao subir os batentes altos da casa de
Judite, olhou discretamente a rua do Santo Antônio. A esta hora de almoço,
o suor descia-lhe a testa. Não havia ninguém na rua. Abriu a porta larga
por dentro, puxando o ferrolho. Judite, sentada à maquina, levantou os
olhos e saudou: |
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“Ó doutor. Pensei que o senhor não
viesse!” |
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Ele, embrulho na mão, encaminhou-se pra
ela, sem dizer uma palavra. |
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“Que é isto, dr. Leite?” |
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Mas este “que é isso” era dito com malícia,
só entrega. Suas ventas largas ofegavam como se ela pedisse maior arroubo.
E o doutor Leite a ia empurrando para dentro do quarto, ao mesmo tempo em
que a beijava na nuca e mergulhava as mãos em sua blusa apertando-lhe os
peitos. Logo lhe desabotoava a roupa e era com dificuldade que lhe
retirava do corpete o amplo seio, cuja ponta se expandia num moreno
tendente para o azeitonado. E ali, de pé, ao lado da cama, o doutor Leite
a beijava e a sugava, enquanto Judite respirava fundo, ruidosamente, quase
roncando, o corpo todo sacudindo-se de desejo e pedindo: “Não quer deitar,
doutor?” O embrulho da fazenda caíra ao chão e o doutor Leite beijava,
chupava, mordia o bico do peito direito de Judite, abraçando-a pelas
costas, enquanto o membro rijo lhe pressionava as nádegas amplas, já lhe
molhando a calça. |
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Ela insistia: “Vamos para a cama, doutor, é
melhor”. |
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No instante em que, ainda com a boca sobre
o peito de Judite, o doutor Leite, desastradamente, tentava desabotoar a
braguilha, ouviu o rangido da porta e o Crisantino a chamar: |
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“Dr. Leite, dr. Leite !” |
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Ele se voltou de súbito, desarmado,
trêmulo, frustrado, deixando o quarto. |
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Crisantino, implacável, prosseguia: |
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“Veio experimentar camisas? Porque eu
encontrei padre Gervásio descendo a Senador Paula e logo vi que o senhor
não podia ter ido à casa dele.” |
Mande um e-mail ao Lustosa