| Continente Multicultural - Novembro, 2004 O Redemunho do Horror: As Margens do Ocidente Luiz Costa Lima S�o Paulo, Editora Planeta: 2003 A A selva sussura para Kurtz com um fasc�nio irresist�vel porque ele, no fundo, � oco� . C. B. Cox, citado por Costa Lima. Sueli Cavendish No conforto de uma biblioteca universit�ria norte-americana -- no caso a de Johns Hopkins, em Baltimore -- instalada em s�tio privilegiado do espl�ndido campus, come�a o nosso �scholar�, Luiz Costa Lima, a esbo�ar o seu �O Redemunho do Horror�. As palavras primeiras, registradas em Uma Nota Pessoal, nos fornecem as tintas com que � poss�vel imaginar uma cena de escritura: o olhar, preso aos textos de valor inexced�vel -- um deles � uma tradu��o para o ingl�s do �A Peregrina��o�, de Fern�o Mendes Pinto (1614) � de repente se eleva para vislumbrar o al�m campus, a desola��o das cidades norte-americanas da era p�s-industrial, a mis�ria convivendo com o fausto, um ou outro habitante a perambular por ruas quase sempre vazias, a vida parecendo cultivar-se apenas no interior das tavernas irlandesas, os famosos Irish pubs. Do contraste entre as ambi�ncias surge o desvio que orientar� o ensaio. O passeio pela dura realidade circundante faz que o olhar ajuste o �ngulo e veja agora o antigo texto de Mendes Pinto mesclado �s impress�es causadas pelo pequeno horror local, restolho circunstancial da tritura c�clica do capitalismo. Da� enfuna as velas em demanda da cena maior, da grande cena da �experi�ncia do horror provocado pela presen�a sistem�tica do branco em terras distantes�. Coincid�ncia ou n�o, ali mesmo em Baltimore, onde vivera e morrera Edgar Allan Poe, horror e remoinho j� haviam sido por ele solidamente articulados. Sem for�ar demais a m�o, poder-se-ia ler �Uma Descida no Maelstrom�, sobre o tenebroso remoinho mar�timo nas costas do sombrio distrito de Lofoden, na Noruega, como uma alegoria do capital. Todavia a narrativa sinaliza de que trata dos limites da linguagem. O relato dos ge�grafos sobre o Maelstrom, o de Jonas Ramus citado como exemplo, �n�o d� a m�nima id�ia da magnific�ncia e do horror do quadro�. O horror experimentado nesse v�rtice, que a tudo suga e devolve em estilha�os, tamb�m se furta ao discurso ficcional, pelo qual a ele apenas se alude. Um velho marinheiro, �nico sobrevivente a uma descida no Maelstrom, emudecera ap�s haver sido engolido e regurgitado inc�lume pelo remoinho. � incomunic�vel, diz o narrador do conto de Poe, o horror que lhe causa a vis�o do Maelstrom, quando do alto da l�gubre montanha de Helseggen, a Nublada, contempla obsessivamente o oco formado pelo furioso giro das �guas. Remete ao inomin�vel, tamb�m, a famosa exclama��o de Kurtz, �O Horror! O Horror!� sussurrada do fundo da selva, em O Cora��o das Trevas�. Tais palavras respondem em grande parte pelo fasc�nio do livro, sobre o qual, citado por Costa Lima, nos fala Harold Bloom:�ele tem obsedado a literatura norte-americana desde a poesia de T. S. Eliot, passando por nossos grandes romancistas dos anos de 1920 a 1940, at� uma s�rie de filmes, desde o Cidad�o Kane (que substitui o projeto abandonado por Welles de filmar O Cora��o das Trevas) at� o Apocalipse Now, de Coppola�. �Escrevi-o de olhos vendados� diz Conrad sobre o livro que articula, numa mesma linhagem, a sua obra, a de Poe e a de Henry James. Mas � com Conrad que o horror alcan�a voltagem m�xima e adquire, no imagin�rio do ocidente, valor de enigma. Costa Lima se disp�e a enfrent�-lo, indagando da for�a do ato de vis�o que o constitui. N�o sem raz�o o autor dedica a sua mais extensa, intensa e inspirada exegese � obra de Conrad. O Redemunho do Horror tem como ponto de partida a experi�ncia portuguesa no oriente. Na primeira se��o, �Os Transtornos do Discurso�, os discursos historiogr�fico e ficcional modernos s�o flagrados em seu nascedouro. Os textos que se encaminham para a escrita da hist�ria s�o o �sia, de Jo�o de Barros e o D�cada IV, de Diogo do Couto. O Peregrina��o, j� citado, � o incipiente texto ficcional que cotejar� aos precedentes. A ocasi�o � a de uma reflex�o substanciosa sobre a teoria do discurso, que exp�e a dupla e perversa face do horror portugu�s: a ambi��o de lucro sustentada pela justificativa religiosa. Na terceira se��o do livro, �A Expans�o do Redemunho�, o horror migra para a Am�rica Latina, e � visto em W.H. Hudson, Alejo Carpentier e Gabriel Garc�a M�rquez. A se��o sobre Conrad � �A Consolida��o do Redemunho� � tratar� do extravio do branco, que longe das institui��es controladoras cede aos primitivos impulsos: �o horror � o afeto decorrente da conduta desviante�. Primeiro em A Loucura de Almayer (1885), o romance de estr�ia; em seguida em An Outpost of Progress (1898) e O Cora��o das Trevas (1902), nos quais o elo entre extravio e horror se aprofunda, prosseguindo em Lord Jim (1900), Vit�ria (1915) e Chance (1913). Outras obras de Conrad, por�m, estar�o sob exame: An Outcast of the Islands (1896), The Nigger of the �Narcissus� (1897), The Secret Agent (1904), Nostromo (1904) Under Western Eyes (1911). Mas desta vez ver� o leitor que, sem nada perder do rigor anal�tico, o autor o conduzir� pela m�o, ao longo das 190 p�ginas nas quais brilham e reluzem as palavras de Conrad, sejam as colhidas da fic��o, sejam as da biografia. O caminho � sinuoso, o deslindar da trama requer um vai e vem constante entre textos ficcionais e biogr�ficos, estes extra�dos de O Di�rio do Congo (1890), das Notas do Autor aos romances (1895-1898), da Cole��o de Cartas de Joseph Conrad (1898-1916) e de Um Registro Pessoal, de 1912. Sem que explique a fic��o pelos fatos � � tratada com a maior gravidade, pelo cr�tico, a rela��o entre �a vida real de um autor e a sua produ��o ficcional�, sobre o fundo da sua concep��o da m�mesis como diferen�a � Costa Lima revela o fio da navalha sobre o qual se equilibrava Conrad: era emigrado da Pol�nia, para onde n�o poderia retornar, da� o esfor�o por se mostrar um s�dito fiel da coroa brit�nica, enquanto a sua fic��o exp�e o colapso do etos branco no bojo da experi�ncia colonizadora, da qual o Imp�rio Brit�nico det�m hegemonia. A no��o de etos branco, conjunto de cren�as e valores ocidentais que legitimam a domina��o de povos outros -- a escraviza��o do semelhante, a crueldade praticada por ambi��o do lucro, o horror praticado em nome do avan�o da civiliza��o -- � aprofundada pelo cr�tico a cada passo. Desde A Loucura de Almayer, em que a superioridade �tnica e t�cnica do ocidental ainda se sust�m como norma, at� O Cora��o das Trevas, em que o desvio da norma, atingindo o seu grau m�ximo, se confunde com a pr�pria norma. Aqui o etos ocidental se espatifa: �os aspectos sombrios, macabros�, da expans�o do Ocidente, �chegam a ponto de tornar seu etos irrepresent�vel�. � na an�lise do discurso, um trajeto no qual Costa Lima revisitar� as suas pr�prias no��es sobre o ficcional, entre elas a m�mesis e o controle do imagin�rio, que o cr�tico descobrir�, na sutil constru��o conradiana, os v�rios matizes que assume o extravio e a ru�na do branco em solo ex�tico. Em A Loucura de Almayer, a dimens�o tr�gica do branco solit�rio, instalado na Mal�sia por conta pr�pria, visando enriquecimento r�pido a fim de retornar ao pa�s de origem. Sem a prote��o das grandes companhias, � marginalizado, levado ao desvio e por fim � loucura. H� a variante do homem automatizado, mec�nico, que de tal forma internalizara a norma do seu etos que em torno de si nada v�: �o rio, a floresta, toda a terra palpitante de vida eram como um grande vazio�. E h� Kurtz, aquele que n�o se restringe aos m�todos de explora��o costumeira e penetra fundo no cora��o da selva, onde �os homens uivavam, pulavam, rodopiavam e faziam caretas�. Em um relat�rio enviado a um posto europeu Kurtz defende a empresa civilizadora de forma eloq�ente. Nas margens do papel, por�m, escreve, � m�o, �Exterminem todos os brutos!� No gesto est�o figurados a anula��o do etos branco e a podrid�o que o caracteriza. Ora pelo discurso indireto livre, ora pela obscuridade t�o criticada, ora, ainda, pelos desvios do pr�prio texto, Conrad se defende de potenciais acusa��es de trai��o � p�tria que o acolhera. A configura��o formal, trazida para o prosc�nio, aliada � �nfase nas implica��es �ticas do expansionismo, interp�e o v�u que impede olhares outros de verem a problem�tica que o move: a �sua reflex�o sobre o mal est� diretamente articulada ao sistema econ�mico�. Em Uma Descida no Maelstrom, assim como em O Cora��o das Trevas, a experi�ncia do horror parece implicar uma fuga para um �fora da linguagem�, para a ess�ncia do selvagem, cuja for�a de atra��o � irresist�vel justamente pelo oco que revela naquele que a procura. Ou seja, a for�a do ato de vis�o que constitui o horror se funda no vazio que atrai o olhar do sujeito humano desde as entranhas. A rota de Kurtz configura a busca v� do significado, no que Costa Lima chama de a �mort�fera realidade prim�ria� -- equivalente do real lacaniano, que abandonamos desde infantes -- atrav�s da ren�ncia ao mundo da simboliza��o e da representa��o, ao mundo da linguagem, fora do qual, j� dissera Derrida, nada existe. A morte espreita a quem persegue o significado �ltimo do signo: � o que insinua, em A Carta Roubada, de E. A Poe, a �ltima mensagem de Dupin ao Ministro D, de fato dirigida ao leitor, amea�ando-os com o mesmo destino de Atreu e Tieste, de inomin�vel barb�rie. Mas se de um lado aponta para os perigos do extravio do sujeito humano fora da cultura, de outro � placa de sinaliza��o de uma ficcionalidade a n�o ser ultrapassada. Placa tamb�m fincada em �O Cora��o das Trevas�, na forma de �O Horror! O Horror!�. Como se a dizer, ao leitor contaminado pela vertigem interpretativa, �por aqui n�o passar�s, ou o destino de Kurtz te ser� reservado�, seu valor funcional � impedir o �escape� para um �fora da fic��o�, em que j� n�o vigora o contrato entre autor e leitor, o �como se ficcional�. Costa Lima ultrapassa esse veto pelo escrut�nio do discurso, da fun��o s�gnica e da hist�ria. E da dif�cil, conturbada e contradit�ria trajet�ria pessoal de Conrad, s�dito fr�gil do Imp�rio Brit�nico e escritor engajado em den�ncia. � no interior do texto, nas margens do texto, em outros textos e, por vezes, fora do texto, que a arg�cia do cr�tico descobre a estrat�gia autoral que oculta e revela o segredo. |
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