Como um tolo romântico
por Gabrielle
Briant
Sinopse da fanfics: Ciúme pode estragar uma relação... ou não.
Nota do autor: A fic foi feita para o desafio de aniversário do site, porém,
por um sério problema de comunicação com a minha beta-reader, não consegui
enviá-la a tempo. É a primeira vez que escrevo sobre essa shipper, embora já
tenha várias outras fics, todas com Snape como personagem principal. Gostei
bastante do resultado e sinceramente adoraria que fosse colocada ainda como
resposta ao desafio de aniversário.
Entenderei se não for possível. Mas, ainda assim, quero que ela apareça no
site, mesmo que não como fic comemorativa.
Como
um Tolo Romântico
A
noite fria a solitária insinuava-se pela janela do bar quase vazio naquela
segunda-feira. Num cantinho escondido do Três Vassouras, uma figura masculina
que se camuflava na escuridão com os seus trajes negros observava o local
lentamente se esvaziar, até que só sobrasse a atendente de formas voluptuosas.
Assim
que seus olhares se encontraram Severo Snape ergueu o seu copo num gesto
convidativo. Rosmerta nada pôde fazer, senão suspirar, sorrindo com o canto da
boca, e ir ao encontro dele.
Elegantemente,
a mulher sentou-se à mesa, pegou o copo das mãos dele – tomando cuidado para
que o toque entre as duas mãos acontecesse – e sorveu o líquido âmbar
amargo.
Com
uma curvinha infame acentuada em seus lábios, Snape disse:
- Eu não vou pagar por este.
Rosmerta
sorriu, mordendo os lábios. Sim, ela era atraente. E, sim, ela o queria. E,
sim, ele adorava o jogo de sedução que ela fazia sempre que o via. Então, será
que ele se permitiria um pequeno pecado só naquele dia?
- Um nuque pelo seu pensamento.
O
pensamento dele... Será que não era óbvio qual era? Deveria ser, já que
fazia exatamente três anos que ele não conseguia pensar em outra coisa que não
fosse Hermione Granger.
Hermione...
Aquela maldita sabe-tudo que se apossara da sua mente e do seu coração... E que provavelmente está, nesse momento, se divertindo com o maldito
Viktor Krum!
Sentindo
a mesma irritação que sentira na tarde daquele mesmo dia, ele bufou.
- Guarde seus nuques para algo mais interessante.
Lentamente,
Rosmerta fechou os olhos. O seu sorriso instantaneamente tornou-se amargo.
- Você está pensando nela.
Snape
meramente crispou os lábios e cruzou os braços.
- Severo, me responda uma coisa: o que você está fazendo
aqui nesse bar, quando está completando três anos de namoro com a Granger? Você
não deveria estar com ela?
Sim,
ele deveria... Se não fosse por...
Bufando,
Snape levantou da cadeira, tirando algumas moedas do bolso e jogando-as na mesa.
- Isso, Rosmerta, não é da sua conta!
E,
saindo do bar com passos largos e firmes que faziam as suas vestes esvoaçarem,
Snape lembrou-se do motivo que o levara ao bar naquela data tão especial.
XxXxXxX
Jamais em sua longa existência, Severo Snape
conseguira completar três anos de relacionamento com alguém. E, ele podia
constatar maravilhado enquanto descia pelas ruas de Hogsmeade em busca do
presente perfeito para a sua amada, nunca estivera tão feliz em toda a sua
vida.
De repente, viver tinha deixado de ser um tormento
para virar uma maravilhosa experiência, e ele devia tudo isso a ela... Mas, é
claro, ele jamais admitiria! Ele era Severo Snape, afinal. E Severo Snape nunca
ficaria fazendo declarações de amor como um tolo romântico!
Mas
às vezes dava uma vontade...
Se ele estivesse sozinho, e não numa rua
movimentada, dar-se-ia ao luxo de sorrir… E se ele tivesse sorrido, esse sorriso
teria morrido naquele exato momento: a
poucos passos dele, a sua amada Hermione Granger sentava-se sorridente com
Viktor Krum! Viktor Krum, o homem mais jovem e mais atraente que ele, que já
tivera um ou dois relacionamentos com Hermione, que era um jogador internacional
de Quadribol e que inegavelmente nutria algum tipo de sentimento por ela!
Viktor Krum – ele constatou sentindo o ódio tomar
conta do seu corpo – que estava segurando a mão da sua
Hermione!
Subitamente, sem vontade de comprar um bom presente
para ela, Snape deu meia-volta e fez o seu caminho para o Três Vassouras… Uma
dose de uísque de fogo cairia bem.
XxXxXxX
- Eu não quero saber, Gina! Está completamente fora de questão
voltar para aquela casa hoje!
- Hermione! Três anos de namoro não se comemora todos os
dias, sabia? Olha só, porque você não vai para casa e…
- NÃO!
Cruzando
os braços, Hermione recostou-se à cadeira, aborrecida. Ela sabia desde o dia
em que começara o relacionamento com Severo Snape que as coisas não seriam fáceis.
Não é qualquer um que tem paciência para agüentar o gênio dele… As suas
tiradas sarcásticas nas piores horas…
Mas o que ela podia fazer, se o amava?
Hoje
era o dia em que eles completariam três anos de namoro… Três maravilhosos
anos, que foram repletos de alegria. Sim, ela era completamente apaixonada por
ele! Mas ele tinha agido de maneira estranha e infantil logo naquela data, e ela
não admitiria que ele lhe faltasse com o respeito de tal maneira!
Ela
suspirou.
Por
que Snape tinha que brigar com ela logo hoje? Logo hoje, que ela preparara uma
surpresa tão boa?
- Gina, o que você acha que ele está fazendo agora?
A
mulher de Harry Potter rolou os olhos.
- Eu acho que ele está em casa esperando por você para
conversarem!
Hermione
riu amargamente.
- Em casa? Duvido que ele volte! Provavelmente está
naquele… bar, escutando aquela… atendente
passar uma cantada nele a cada cinco segundos!
E,
ao ouvir isso, Gina simplesmente gargalhou.
- Mione, você está com ciúmes? Eu não acredito! Acho que
nunca lhe vi tão insegura!
Ultrajada
por ouvir o que ela sabia não ser nada mais que a pura verdade, Hermione
levantou-se e deixou a casa que ficava a apenas duas ruas da sua, apesar dos
protestos da amiga, que insistia em se desculpar – mas que não conseguia
parar de rir.
Ao
passar pelo bar Três Vassouras, não conseguiu conter as lembranças que vieram
a sua mente.
XxXxXxX
A noite já se insinuava e as ruas de Hogsmeade, como
era o esperado numa segunda-feira, começavam a ficar desertas, e nada de Severo
Snape chegar em casa.
Lentamente, ela suspirou.
Aquela demora não era normal… E isso só poderia
ter uma explicação! Só existia um local onde
ele provavelmente estaria...
Pegando o seu casaco e saindo desvairada pelas ruas
do vilarejo, Hermione chegou ao Três Vassouras. E, exatamente como o previsto,
ele estava lá, muito bem sentado naquela mesa no fundo do bar, tendo a mais
absoluta certeza de que ninguém o notava olhar para o outro lado do bar.
E, do outro lado, a vaca da
Rosmerta não tirava os olhos dele e, pelo seu sorrisinho infame e a forma que
ajeitou a parte de cima do vestido para que ficasse mais indecente, tinha
percebido que os olhares de Snape remetiam-se diretamente ao seu decote.
Tentando sorrir amigavelmente, Hermione encaminhou-se
à mesa onde ele sentava.
- Oi.
Ele a olhou indiferente, imediatamente voltando a
atenção ao seu copo de uísque.
- Oi.
Hermione respirou fundo.
- Você
não pretende voltar para casa?
- Estou
cansado, preciso relaxar.
- E não
pode relaxar lá?
Imediatamente, ele cerrou os olhos e, num tom quase
acusatório, disse:
- Da
mesma forma que o seu lugar de relaxar é na sorveteria, o meu é aqui!
- É?
Então ta! Fique aí. Eu vou sair! Não sei se você deve me esperar acordado.
Furiosa, ela disparou para fora do bar, diminuindo o
passo apenas quando ouviu a voz de Rosmerta dizer para uma amiga:
“Brigaram de novo! Não sei o que Snape faz com uma
mulher tão sem-graça como ela… Quem sabe hoje, que ele está de cabeça
quente, não queira finalmente testar o meu sabor!”
Louca de ciúmes, ela se encaminhou para a casa de
Harry Potter.
XxXxXxX
Ela
suspirou quando girou a chave para abrir a porta.
Aquele
dia não deveria acabar daquela maneira... Uma data tão especial, estragada.
Estava triste... Mas, assim que viu, ao abrir a porta, Severo Snape a esperando
com cara de poucos amigos, a tristeza de Hermione sumiu quase que imediatamente.
Apenas para dar lugar à raiva.
Empinando
o nariz, ela entrou e fechou a porta atrás de si.
- Não pensei que ia lhe encontrar em casa.
Ele
bufou.
- Já eu, tinha certeza que lhe encontraria. Parece que ambos
nos enganamos, não?
Hermione
tirou o casaco e o jogou de qualquer forma no sofá. Passou por ele fingindo
tranqüilidade, ainda que o porte que ele exibia sempre lhe intimidasse.
Ele
a observou: o jeans era surrado, a blusinha era simples e os cabelos estavam
displicentemente amarrados… Um visual tão simplista, mas que caía tão bem
nela… Era assim que ele a amava: a simples Hermione. A sua simples Hermione.
Porém, ela estaria mais bonita se tirasse aquele ar indiferente do seu rosto.
Sentimentos maus nunca lhe caíram bem.
Caminhando
pela sala, ela respondeu:
-
Eu lhe avisei para não me esperar acordado.
Muito
sério, ele a olhou.
-
Peça desculpas, Hermione.
O
controle que ela estava tentando juntar sumiu, depois de ouvir essa intimação.
Como ele se atrevia a falar com ela como se fosse o seu pai? Quem ele pensava
que era?
Finalmente
perdendo a expressão fria – para o agrado de Snape, que preferia vê-la
furiosa que indiferente –, Hermione começou:
-
Pedir desculpas? Tudo bem! Desculpe-me por não ter seios enormes para colocar
no meu decote! Infelizmente, esses de tamanho médio foram o que a natureza me
deu e eu não pretendo mudar! Se você quiser trocar por aquelas… tetas que a Rosmerta tem, vá em frente!
E
essa foi a vez dele de ficar furioso; como ela poderia ter ciúme de Rosmerta?
Será que ela não via que em nada Rosmerta era melhor que ela? – Mas, é
claro, ele jamais verbalizaria isso.
-
Onde você esteve?
-
Não interessa!
-
Estava com Krum, e por isso não pode me contar!
-
Argh! Como você é idiota!
Bufando,
ela sentou-se no sofá.
Vendo
que a discussão estava acabada, Snape a seguiu, fazendo questão de ficar o
mais longe possível.
Depois
de alguns momentos silenciosos – que para os dois pareceu ser uma eternidade
– começou a ser ouvido, do lado de fora da casa, uma melodia suave.
Some day, when I'm awfully
low,
When the world is cold,
I will feel a glow just thinking of you
And the way you look tonight.
You're lovely, with your smile so warm
And your cheeks so soft,
There is nothing for me but to love you,
And the way you look tonight.
-
Droga! – Snape resmungou. – O maldito vizinho decidiu escutar música de
novo!
Mas
aquele resmungo foi só para não dizer que estava escutando a letra da música…
e que ela estava, lentamente, entrando no seu coração…
E
no de Hermione, a julgar pela expressão sonhadora no rosto da garota.
With each word your
tenderness grows,
Tearing my fears apart
And that laugh that wrinkles your nose,
Touches my foolish heart.
Yes you're lovely, never, ever change
Keep that breathless charm.
Won't you please arrange it?
'Cause I love you
Just the way you look tonight
E a melodia foi diminuindo, até morrer, e o silêncio tomar conta da rua.
Hermione
suspirou, sentindo os olhos negros cravados nela. Quando ela olhou para Severo,
não conteve o sorriso. E, marota, achegou-se um pouquinho para mais perto
dele… Um gesto tão pequeno, que fez com que o lábio dele se curvasse para
cima e ele entrasse na brincadeira, aproximando-se também dela. Ela deu uma
risadinha abafada, aproximando-se ainda mais.
Ah,
e ele estava, agora, tão próximo daquele rosto angelical, perfeito, que sorria
para ele… A mão que foi ao rosto dela numa carícia tenra foi quase automática.
Assim como o casto beijo que ele depositou nos lábios dela e que a fez dar um
sorriso tão lindo que parecia iluminar toda a
sala.
Voltando
a deixar o olhar perdido, ele disse:
-
Sabe, eu prefiro os menores. Os grandes são até bons de ver, mas não cabem na
minha mão com tanta perfeição quanto os de tamanho normal.
Hermione
deu uma risada e deixou também o olhar perdido.
-
Eu estava na casa do Harry. Fui entregar a ele o convite do casamento de Viktor.
Ele veio me ver hoje à tarde, nós fomos à sorveteria e ele me entregou o
convite.
Mais
alguns minutos de silêncio se passaram… Talvez eles estivessem refletindo
sobre o ciúme bobo, ou talvez apenas tentando descobrir qual seria a melhor
coisa a se falar ou se fazer, agora que tinham feito as pazes.
Assim
que Hermione abriu a boca para falar, foi interrompida por Snape, que voltara a
fitá-la.
-
Feliz aniversário.
Ela
segurou a mão dele.
-
Você lembrou?
-
Eu lhe vi com Krum essa tarde quando estava indo comprar o seu presente. Acabei
não encontrado nada.
Afinal, Severo Snape jamais diria que ficou com tanto
ciúmes que não quis mais comprar presente algum.
Ela
deu de ombros, levantando-se rapidamente do sofá.
-
Mas eu lhe comprei uma coisa! Espero que você goste.
E
saiu correndo pra o quarto.
Quem
visse a cena de longe, acharia que Hermione estava mais empolgada com o presente
do que Snape, mas era provavelmente o contrário: A idéia de que a sua
companheira gastou o seu tempo – e o seu dinheiro – para lhe fazer um
agrado, encheu o seu coração de alegria… Ele quase sorriu.
Logo,
Hermione estava voltando para a sala, trazendo um embrulhinho pequeno em suas mãos.
Com
um enorme sorriso, ela o entregou.
Lutando
para manter o controle, ele lentamente desatou a fita e abriu o embrulho –
embora a sua vontade fosse de rasgar o papel todo e ver o que tinha dentro, como
uma criança empolgada com o natal.
E,
dentro da caixinha, tinha uma outra caixinha… uma de veludo negro que
certamente guardava uma jóia.
Antes
que ele abrisse para ver do que se tratava, Hermione tomou-lhe das mãos.
-
O que… ?
Ela
respirou fundo e fez o inesperado: ajoelhou-se à frente dele.
-
Há quatro anos atrás a guerra acabou…
-
Hermione Granger, o que você está fazendo? – Snape perguntou, não mais
contendo a sua curiosidade.
-
Apenas escute! – Ela respirou fundo mais uma vez, seus olhos começando a
marejar, mas o sorriso nunca saindo do seu rosto. – Há quatro anos a guerra
acabou e eu pensei que eu tinha acabado junto com ela… Eu perdi meus amigos,
meus familiares… Eu pensei que tinha perdido tudo! Mas então, você chegou. E
como eu poderia imaginar que logo você, logo o professor carrancudo que sempre
me odiara, seria quem me daria a mão para sair do fundo do poço?
“Mas
você veio. Apesar de tudo e de todos, você veio. Você me mostrou que ainda
tinha vida lá fora. Que amigos morreram, mas outros continuaram vivos e que o
mundo em geral estava mais vivo e feliz. Você jamais poderia imaginar o quanto
me fez bem ouvir você me mandar sair da cama e viver… Eventualmente eu
obedeci.
“Lentamente,
a companhia agradável foi se tornando amizade e, então, quando eu menos
percebi já estava completa, irremediável e ridiculamente apaixonada por você.
E qual foi a minha alegria quando você me beijou… E quando você me fez
mulher… Você me devolveu a vida, Severo, e, agora, sinto
muito…” Ela parou um pouco, tentando controlar a sua voz embargada e
limpou rapidamente as lágrimas que desciam em cascata do seu rosto “… mas
eu não posso mais viver sem você!”
Ela
soluçou um pouco e então finalmente abriu a caixinha em sua mão, onde havia
duas lindas alianças de ouro.
-
E é por isso, Severo, meu amor, que eu lhe proponho: Você quer se casar
comigo?
Lívido,
ele deixou a sua máscara cair pela primeira vez em muito tempo. O coração de
Severo Snape batia forte quando ele pegou a aliança maior e colocou-a no seu
anelar esquerdo – ouviu-se um riso choroso quando ele fez isso.
De
repente, a alegria que o invadiu foi tanta que ele sentiu que poderia até
chorar… Mas, ao invés disso, ele apenas ajoelhou-se junto dela, pegou a outra
aliança e carinhosamente vestiu-a em sua mão delicada. E quando percebeu o que
estava fazendo, já não podia mais segurar a língua.
- Eu amo você… Eu amo você tanto…
Quem
diria… Severo Snape se declarando como um tolo romântico!
Hermione
fechou os olhos, emocionada – era a primeira vez que ele falava de seus
sentimentos. E ele aproveitou esse momento para, finalmente, provar os lábios
dela.
E,
enquanto eles se beijavam, a música alta do vizinho voltou a ecoar pela casa,
quase como uma trilha sonora magicamente colocada para aquele momento em
especial… Sim, pois agora aquele momento perseguiria a vida deles para sempre,
e, se um dia eles estiverem terrivelmente tristes, se o mundo parecer frio para
eles, eles se sentirão bem só de pensar um no outro, exatamente como estavam
nesta noite.
Some day, when I'm awfully
low,
When the world is cold,
I will feel a glow just thinking of you
And the way you look tonight.
Fim.