Tudo o que eu faço

 Por Aemos

  

Aviso: Somente as coisas que vocês não reconhecem pertencem a mim. A canção pertence a Bryan Adams.

 

O homem entrou na loja alegremente colorida e desceu por um dos corredores. Ele era alto, com cabelos pretos e pele pálida, e estava vestido em um longo sobretudo preto com um terno por baixo, e camisa e gravata pretas. Hesitou por um momento à entrada, aparentemente incerto sobre aonde ir primeiro.

 Ele lançou uma olhadela furtiva na direção do vendedor e olhou para baixo novamente, talvez embaraçado por parecer como se precisasse de ajuda. Após mais um momento, escolheu o corredor bem em frente a ele; passou um bom tempo olhando a seleção que lhe era disponível.

 O vendedor não queria dar a impressão de que seu cliente estava lhe causando estranheza, porque nunca era bom perder um cliente. Depois de um tempo observando o homem, o vendedor finalmente decidiu tentar ser útil e dirigiu-se até ele, parecendo estar  certificando-se de que cada cliente estava bem, conferindo com eles, enquanto passava ao longo da fileira.

 Normalmente, ele bateria um papinho com cada pessoa, conversando amigavelmente com aquelas que assim o desejassem, mas estava um tanto relutante em abordar esse cliente em particular. Não sabia bem por quê, mas parecia haver algum tipo de energia em torno dele. Joe se lembrou de sua avó, de quem sempre se recordara como tendo uma aura de poder.

 O pai de Joe, William, sempre se referira a ela como “a bruxa”. Quando Joe lhe perguntava sobre isso, seu pai o ignorava e costumava resmungar a meia voz; Joe ouvia fragmentos daquelas palavras - desgraça, vergonha, aberração. Ele não tinha idéia de por que seu pai usava tais palavras com relação a ela; Joe certamente amava sua avó.

Quando ele era pequeno, ela costumava lhe contar as histórias mais magníficas sobre dragões, vampiros, gigantes, lobisomens, bruxos, bruxas e tudo o mais. Para um menininho de oito anos, elas o fascinavam, e sua imaginação o carregava para terras distantes onde ele seria Harry Potter ou Alvo Dumbledore, ou mesmo Severo Snape, que, sua avó lhe contara, era um espião, não diferente de James Bond.

Ele venceria Voldemort, de quem sua avó dizia que era o bruxo mais malvado que havia, e se casaria com Hermione Granger. Joe suspirou - a vida de uma criança, nada de contas para pagar, nada de presentes caros para comprar, e tudo de que você precisava era o seu cérebro para manter-se ocupado. Joe percebeu que estivera pensando por muito tempo e que estivera fitando o homem a quem não tinha, na verdade, pressa em ajudar.

O homem em questão pegou o seu olhar, e Joe olhou por cima de seus ombros, ao invés de nos seus olhos, quando lhe perguntou se ele precisava de ajuda. O homem levou um tempo para refletir sobre aquela pergunta e parecia estar enfrentando uma batalha interna para engolir seu orgulho e aceitar algum conselho.

“Sim, na verdade, eu estava procurando uma canção, uma certa canção.”

Joe simplesmente acenou com a cabeça e esperou que o homem continuasse; quando ele não o fez, Joe continuou por ele. 

“Qual era a canção que estava procurando, senhor?”

O homem titubeou à forma de tratamento, e Joe teve a clara sensação de que ele não queria ser tratado daquela forma. Bem, algumas pessoas não gostam, Joe pensou, talvez ele não esteja acostumado com isso, embora Joe duvidasse; com sua postura ereta como uma muralha e sua voz suave que causava impressão, ele parecia, e falava, como se estivesse acostumado a ser ouvido e respeitado.

Talvez ele tenha o suficiente disso onde trabalha; Joe queria lhe perguntar o que ele fazia, mas, pelos seus olhos negros duros como aço e pela sua boca que sorria desdenhosamente, ele achou que isso não seria apreciado.

“Everything I do, I do it for you.”

Joe conteve uma expressão incrédula; o que quer que seja que tivesse pensado que o homem pudesse ter querido, não era isso. Então, de novo, ele pensou, você não devia julgar um livro pela capa - outra coisa que ele lembrava de sua avó, embora ela costumasse dizer que, se fosse um livro mágico, você nunca, jamais, devia abri-lo a não ser que houvesse um bruxo ou uma bruxa com você.

Ele sorriu afetadamente e ofereceu aos céus uma oração para que sua avó se conservasse em boa saúde. Não que ela precisasse disso, ele pensou de maneira torta.

Joe, de repente, saiu de suas reflexões e lembrou-se de que tinha um cliente.

Ele deu uma volta até a outra fileira, a que começava com a, e rapidamente pegou o single. Antes de dar a volta e retornar, perguntou-se por que o homem não tinha tido a idéia de começar procurando na categoria marcada com b, mas descartou isso como um pensamento idiota - ele podia simplesmente nunca ter estado em uma loja de música antes, ou apenas não conseguira encontrá-lo e estava procurando alguma outra coisa.

“Mais alguma coisa?”

O homem olhou para ele e ergueu uma sobrancelha.

“Não suponho que você tenha algo que se refira a lobisomens, tem?”

Joe ficou surpreso, mas, como se lembrou de sua avó mais uma vez, decidiu tentar encontrar alguma coisa sobre lobisomens ou, pelo menos, lobos. Uma veio à mente quase instantaneamente, Hungry like the wolf; que tal Thriller? - ele refletiu e, então, decidiu-se contra esta última.

“Hungry like the wolf?”

Joe olhou nos olhos do homem e viu o divertimento neles; então, viu o sorriso em seu rosto e agradeceu ao senhor por não ter dito Thriller. O homem sorriu afetadamente antes de dizer a Joe que isso era “perfeito”. Joe foi pegar o single e voltou com ele e o outro CD nas mãos.

O homem parecia ler os pensamentos de Joe, quando respondeu uma pergunta não-feita, “Sim, isso é tudo.”. É claro, Joe pensou, ele podia estar prevendo aquela pergunta. Joe estava, no entanto, muito interessado nesse homem; a palavra lobisomens havia atiçado esse interesse.

Ele decidiu que ia tentar começar uma conversa; o homem parecia ser interessado em lobisomens, então, ele ia começar por aí. Quando eles foram até a caixa registradora, Joe colocou os preços nos itens e, enquanto estava fazendo isso, executou o seu plano.

“Minha avó costumava me contar histórias sobre lobisomens.”

Certo, esse era um começo ruim, mas, de qualquer forma, um começo. O homem ergueu as sobrancelhas.

“Mesmo?”

Joe ficou satisfeito em ouvir essa resposta dele - pelo menos, ele estava curioso.

“É, e sobre gigantes, bruxos, bruxas, o senhor das trevas, coisas desse tipo.”

O homem olhou para cima; ele parecia como se estivesse rangendo os dentes, mas Joe não podia ter certeza. Então continuou, perdido em suas recordações.

“É, e Harry Potter.”

O homem sorriu desdenhosamente.

“E Alvo Dumbledore.”

O rosto do homem se abriu em um sorriso - bem, uma levantada do canto de sua boca, de qualquer maneira.

“Severo Snape.”

O homem riu baixo.

“Hermione Granger.”

O rosto do homem se tornou tão frio quanto uma pedra, e sua voz estava impassível quando ele perguntou rapidamente a Joe quanto era.

“£5.98.”

O homem puxou uma nota de vinte libras e a deu para ele. Joe colocou os CDs em uma sacola, puxou o recibo do topo da caixa registradora e, então, enfiou-o na sacola também. Ele se virou para a máquina e começou a contar o troco. Voltou-se para encarar o homem e, então, olhou em volta. Ele tinha ido.

~

Severo Snape entrou no aposento então ocupado por Remo Lupin. Ele se sentou pesadamente, batendo as costas contra a cadeira de couro. Esperou até que Remo o percebesse e iniciasse a conversa. 

“Conseguiu?”

“Sim.”

“Vai ouvi-lo?”

“Não, achei que fosse só pagar uma quantia exorbitante de dinheiro por ele, ir até o mundo trouxa buscá-lo e, então, pendurá-lo na minha parede.”

“Tudo bem, Severo, estava só pensando.”

“Enquanto estava lá, decidi comprar algo pra você também.”

“Oh?”

Severo lhe entregou o CD. Remo ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada. Houve uns poucos segundos em que Remo virou o CD em suas mãos, abriu-o, examinou-o e, então, colocou-o de volta à caixa. Severo esperou por sua resposta.

Remo apenas riu.

“Muito boa, Severo, então, você tem mesmo um senso de humor, afinal de contas.”

Ele sorriu zombeteiramente.

“Tive que ouvir um papo idiota por uns cinco minutos, sobre a avó dele lhe contar histórias.”

Remo sorriu, depois riu baixo.

“Isso é, provavelmente, um pouco de exagero, não é, Sev?”

Severo fez uma carranca; aquele apelido lhe estava dando nos nervos.

“Não, não é... Remy. Ele também mencionou o senhor das trevas, Potter, Alvo e...” Severo suspirou, inconscientemente agarrando as laterais da cadeira.

Remo se levantou e pôs uma mão sobre o ombro do seu amigo. 

“Ouça a canção. Sinta-se à vontade pra usar o meu quarto.”

“Duvido que isso vá ajudar.”

“Apenas faça isso, você poderá se surpreender.”

Remo saiu do aposento, deixando Severo com seus pensamentos. Ele se levantou, foi até o CD-player sobre a mesa no canto do quarto e apertou o botão eject, lembrando-se das instruções que Remo lhe havia dado. Viu algo de rabo de olho e olhou para o seu lado; era um pedaço de pergaminho pregado à mesa com um feitiço.

 

Eject = Abrir

 

Coloque o CD sobre a coisa preta de forma cilíndrica, em seguida...

 

Severo fez uma carranca e rasgou as instruções. Ele conseguia se lembrar de como usar um simples aparelho de som. Assim que tinha apertado o play, caminhou para trás, de volta à cadeira, e se sentou, inteiramente convencido de que isso seria uma perda de tempo. Recostou-se e fechou os olhos; pelo menos, se isso não funcionasse, ele poderia descansar por uns poucos minutos.

 A canção começou, e ele se deixou ser levado por ela.

 

 Look into my eyes, you will see

(Olhe nos meus olhos, você vai ver)

 

What you mean to me, search your heart,

(O que você significa pra mim, procure no seu coração,)

 

Search your soul and when you find me there you'll search no more

(Procure na sua alma e, quando me encontrar lá, você não vai mais procurar)

 

Don't tell me it’s not worth trying for

(Não me diga que não vale a pena tentar)

 

You can’t tell me it’s not worth dying for

(Você não pode me dizer que não vale a pena morrer por isso)

 

You know it's true

(Você sabe que é verdade)

 

Everything I do, I do it for you

(Tudo o que eu faço, faço por você)

 

Look into your heart, you will find

(Olhe dentro do seu coração, você vai descobrir)

 

There's nothing there to hide, take me as I am,

(Que não há nada lá para esconder, me aceite como sou,)

 

Take my life, I would give it all, I would sacrifice

(Aceite a minha vida, eu a daria inteira, eu me sacrificaria)

 

Don’t tell me it’s not worth fighting for

(Não me diga que não vale a pena lutar por isso)

 

I can't help it, there's nothing I want more

(Não posso fazer nada, não há nada que eu deseje mais)

 

You know it's true

(Você sabe que é verdade)

 

Everything I do, I do it for you

(Tudo o que eu faço, faço por você)

 

There's no love like your love and no other could give more love

(Não existe amor como o seu amor, e ninguém mais poderia dar mais amor)

 

There's nowhere unless you're there

(Não existe lugar algum, a não ser que você esteja lá)

 

All the time, all the way

(A toda hora, por todo o caminho)

 

Oh, you can’t tell me it’s not worth trying for

(Oh, você não pode me dizer que não vale a pena tentar)

 

I can't help it, there's nothing I want more

(Não posso fazer nada, não há nada que eu deseje mais)

 

Yeah, I would fight for you, I'd lie for you,

(Sim, eu lutaria por você, mentiria por você,)

 

Walk the wire for you,

(Andaria na corda bamba por você,)

 

I'd die for you

(Eu morreria por você)

 

You know it's true

(Você sabe que é verdade)

 

Everything I do,

(Tudo o que eu faço,)

 

I do it for you.

(Faço por você.)

 

Enquanto a canção diminuía, Severo se levantou e saiu pela porta. Desceu até as suas masmorras e encontrou Rajvic, sua coruja. Depois de ponderar se ele faria isso ou não, conjurou uma caixa e colocou o CD nela. Olhou nos olhos do pássaro, vendo a si mesmo neles, e duvidando de que ela poderia algum dia amar alguém como ele.

 Após fechar os olhos novamente, ele engoliu em seco, sentindo-se completamente irracional - apesar de tudo, ele precisava fazer isso, não podia passar mais um dia sem ela. Foi para fora com Rajvic empoleirada sobre o seu ombro. Sentando-se próximo ao lago, olhou para a lua, o reflexo dela sobre a água, banhando-o no brilho.

 Ele deu à sua coruja instruções claras quanto à pessoa a quem o embrulho devia ser entregue. Enquanto assistia à silhueta da coruja desaparecer contra a luz da lua, ele recolhia os seus pensamentos.

 Então, esperou que Hermione decidisse se ele ia viver ou morrer.

 

N/A: O que vocês acham? Não sei se uma seqüência está por vir, só planejei isso como uma fic simples - o tempo vai dizer, eu suponho. Aemos.

 

* Esta fic foi cuidadosamente traduzida por Noctivague e betada por Crépuscule Noir - que esperam que vocês tenham gostado. :) Para qualquer dúvida ou comentário, sintam-se à vontade para deixarem um review (o autor - ou a autora - certamente ficaria contente com isso) ou escreverem para [email protected] ou [email protected]. Obrigada pela atenção.

 





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