O Que Eu Sei Que Você
Fez
por
Snarkyroxy
Traduzido por FerPotter
Sinopse da fanfics: Como convencer alguém a voltar quando todo mundo se voltou contra ele? Mostre que você ainda acredita. One-shot, pós-HBP, SSHG (amizade).
Nota do autor: Isso é só uma one-shot implausível, escrita logo depois que eu terminei de ler Harry Potter e o Enigma do Príncipe. Eu me recuso a acreditar que o Snape seja verdadeiramente mau, e irei pular alegremente na minha cela acolchoada até o dia que o livro 7 provar que eu estou errada.
Muito obrigada e muitos Snapes de chocolate para a Fer, que traduziu lindamente esta estória para o português.
O título da estória vem da música 'I Must Be Dreaming' do Evanescence:
Help! You know I've got to tell someone (Socorro! Você sabe que eu tenho
que contar para alguém)
Tell them what I know you've done (Contar para eles o que eu sei que você fez)
I fear you, but spoken fears can come true (Eu tenho medo de você, mas medos
podem se tornar verdade)
It's not what it seems, not what you think (Não é o que parece, nem o que você
pensa)
No, I must be dreaming (Não, eu devo estar sonhando)
A
noite estava de congelar quando Hermione Granger Aparatou em uma rua mal
iluminada, tomando um momento para ter certeza de que tinha chegado inteira.
Aparatar ainda era uma habilidade nova para ela, e tinha ficado ainda mais difícil
com as direções obscuras que lhe foram dadas por nada mais que um retrato,
mesmo que o retrato em questão fosse do maior bruxo dos tempos modernos, Alvo
Dumbledore.
Recobrando
seu equilíbrio e fechando a Capa de Invisibilidade de seu melhor amigo mais
firme ao redor de seu corpo, ela subiu cuidadosamente a rua estreita, remendada;
acesa apenas por poucas lâmpadas sujas e por raios tremeluzentes do luar.
Seu
coração bateu em antecipação nervosa do que iria encontrar no seu destino.
Poderiam as palavras do finado Diretor, ditas através do retrato que tinha
aparecido em seu escritório logo após sua morte, serem verdadeiras?
O
retrato dormiu até que, seguindo o enterro do Diretor, Minerva McGonagall
voltou à sala circular e encontrou-o acordado, esperando para entregar uma
mensagem urgente a qualquer um que escutasse.
Com
olhos vermelhos e pensativa, a Diretora interina veio até a Torre da Grifinória
e convidou Harry, Rony e Hermione à segui-la até as gárgulas de pedra. O
antigo Diretor pediu para falar com o Harry primeiro, em particular; até mesmo
a Professora McGonagall esperou nervosamente do lado de fora. Houve silêncio
por muitos minutos, mas então um grito de raiva e oposição veio lá de
dentro. Após alguns minutos mais, o jovem perturbado saiu depressa, clamando
que o retrato estava enfeitiçado, amaldiçoado, Confundido, e afetado por
diversas outras enfermidades.
McGonagall
retornou ao escritório por um momento, convidando Hermione a esperar ali,
enquanto Rony ia atrás de Harry para acalmá-lo. Confusa, Hermione sentou-se no
banco de pedra frio no corredor por um pouco mais, até que a voz da mulher mais
velha convidou-a a subir as escadas até o familiar escritório.
Ela
queria acreditar no que o retrato do Diretor disse, realmente queria.
McGonagall, sentada em uma cadeira à lareira enquanto a estudante e o antigo
Diretor conversavam, não disse nada, somente fungando ocasionalmente e
esfregando seus olhos enquanto eles enchiam de lágrimas ao ouvir a história do
Diretor pela segunda vez naquela noite.
–
Eu não iria confiar essa tarefa a você se eu acreditasse que ela lhe colocaria
em perigo. Você é a única que pode fazer isso, Srta. Granger –, o velho
bruxo disse concluindo sua narrativa sombria. – Você compreende, não?
–
Eu... – ela vacilou. Parecia que ela estava traindo Harry em mesmo contemplar
o que o Diretor estava pedindo a ela. Ainda assim ela queria acreditar que era
verdade, e se fosse o caso, e mesmo assim recusasse, ela estaria traindo a
todos. – Por que eu? Por que não a Professora McGonagall? Ela entende, não?
Ela acredita em você.
–
E você não? – o velho perguntou-a de sua posição na parede.
Ela
hesitou.
–
Eu quero acreditar – ela finalmente sussurrou. – Eu nunca acreditei que ele
poderia-
–
E é por isso que deve ser você, querida – McGonagall disse, vindo por trás
e colocando suas mãos frias, magras nos ombros da Hermione. – Eu mesma não
queria acreditar, mas até Alvo aparecer, eu não tinha escolha a não ser
confiar no jovem Sr. Potter.
–
Não é que eu não confie no Harry – ela argumentou. – Ele estava lá... eu
só... talvez ele só tenha visto o que ele queria ver… e você estava lá
também, e... – Sua voz diminuiu incerta.
–
Eu estava, de fato, Srta. Granger – o retrato confirmou, o menor dos brilhos
retornando a seus olhos, embora eles permanecessem tristes e preocupados. –
Isso tem que ser feito rapidamente; hoje à noite, se você puder. Nós devemos
resolver esse assunto, para que ele não acredite que o plano falhou.
–
Potter está muito bravo para escutar neste momento – McGonagall adicionou.
– E após ter contado suas lembranças aos outros sobre o que aconteceu a
quatro noites atrás, ninguém ouvirá uma palavra proclamando que os eventos
ocorreram de outra forma. Mesmo com a explicação do Alvo, eles não confiarão
nele novamente; um retrato pode ser amaldiçoado, e eles acreditarão em
qualquer coisa que Potter lhes disser.
–
Você precisa trazê-lo de volta com você, Srta. Granger – o Diretor disse
gravemente de sua moldura.
Ela
olhou para cima, alarmada.
–
Trazê-lo de volta? Você está louco, senhor? Todo o mundo bruxo está querendo
o sangue dele! Ele nunca passaria pelos portões vivo –
Ela
parou sua tirada quando McGonagall entregou-lhe uma pequena bolsa de couro.
–
Uma Chave de Portal – a Diretora explicou. – Ela trará você diretamente a
esse escritório. Eu não devo sair, nem deixar ninguém entrar, até você
voltar.
Hermione
olhou fixamente para a bolsa marrom, sua mente passando pelos detalhes que lhe
foram dados, procurando por qualquer razão possível de que o plano não
funcionaria, qualquer maneira de lhe resgatar do dever ao qual ela já se sentia
compelida.
–
Mesmo que eu possa convencê-lo de voltar – ela disse calmamente –, que
chances ele terá de justificar suas ações? Harry irá matá-lo assim que vê-lo.
–
Não, neste escritório ele não irá – disse McGonagall firmemente, seu
queixo firme em uma linha dura. – Pela minha vida, Sr. Potter escutará e,
Alvo – ela disse, voltando-se de Hermione para o retrato na moldura dourada
–, você contará a ele tudo desta vez.
–
Eu contarei – disse o Diretor tristemente. – Deixar o Harry no escuro foi
meu erro mais grave, e ai de mim que não tive tempo de retificá-lo antes do
fim. Se ao menos ele tivesse encontrado Severo antes do jovem Sr. Malfoy ter nos
encontrado...
O quão diferente as
coisas poderiam ter sido,
Hermione pensou em conclusão ao lamento incompleto do Diretor.
No entanto, aqui estava uma chance de mudar as coisas. Sua chance de tentar fazer as coisas certas. Hesitando somente um momento mais, Hermione respirou fundo e disse –,
Eu
farei.
A
expressão do Diretor se abriu em um sorriso esperançoso, mesmo que ainda
triste.
–
Obrigado, Srta. Granger – ele sussurrou. – Você tem o potencial de salvar
tudo.
Dumbledore
então lhe deu direções do local onde ela estava agora, tremendo na névoa que
escapava do rio que estava invisível por detrás dela.
Algumas
voltas e reviravoltas em ruas remendadas mais tarde, ela chegou a um beco sem saída,
o imenso monólito da chaminé de um moinho velho, em desuso erguendo-se alto em
sua magnitude sombria, bem como o Diretor tinha descrito.
Ela
sacou sua varinha de sua manga, contando com a certeza do Diretor de que não
haveria barreiras no lugar, enquanto ela cautelosamente se aproximava da última
e precária construção na rua chamada Spinner’s End.
Concentrando
bastante, ela apontou sua varinha para a desculpa de casa a sua frente e
encantou o feitiço de detecção que a Professora McGonagall tinha lhe ensinado
há apenas minutos atrás –, No caso dele não estar sozinho – a bruxa mais
velha tinha dito.
O
feitiço revelou a presença de apenas uma pessoa na casa, e Hermione esperava
fervorosamente que fosse a pessoa certa.
Havia
uma luz opaca brilhando por sob o vão da porta e ela aproximou-se com cuidado,
sentidos alerta ao mínimo movimento, até mesmo o roçar das folhas na cama
alta de erva daninhas que devia ter sido um dia um jardim de flores.
Assegurando-se
que a Capa de Invisibilidade ainda estava apropriadamente no lugar, ela se
colocou em um dos lados da porta e abriu-a só um pouquinho, segurando a respiração.
Quando isso não resultou em uma reação do lado de dentro, ela empurrou-a
mais, e então mais ainda, até que ela conseguiu passar para dentro.
Fechando
a porta silenciosamente ao passar, ela achou que estava sozinha na sala até que
uma tosse chegou a seus ouvidos. Olhando ao redor, ela podia distinguir
vagamente a forma de um homem ocupando uma das duas poltronas surradas da sala,
de costas para ela.
A
luz da única lanterna suspensa do teto estava muito opaca para distinguir as
feições do homem e então, alerta para uma armadilha, Hermione levantou sua
varinha e encantou –, Expelliarmus
– silenciosamente em sua mente.
A
varinha veio voando para o seu domínio de algum lugar no chão perto da
poltrona e, olhando-a, não havia engano de a quem ela pertencia.
Enquanto
ela olhava fixamente a haste longa e escura com uma mistura de alívio e medo,
uma voz baixa disse –, Acabe logo com isso, então.
Ela
guardou a varinha recentemente adquirida no seu bolso de trás e, mantendo a sua
bem firme, cruzou a sala para parar em frente a ele, embora capciosamente fora
de seu alcance. Somente então ela baixou o capuz, e tirou a Capa de
Invisibilidade dos seus ombros.
Ele
não a reconheceu imediatamente, simplesmente olhando fixamente à sua
frente, vago, para a parede no outro extremo da sala. Seus olhos, realçados por
círculos escuros, estavam inertes e vermelhos, e ela passou os olhos por sobre
a mesa ao lado e pelo chão ao redor de sua poltrona procurando uma garrafa de
bebida vazia, mas não encontrou nenhuma. Sua roupa parecia estranha, muito...
desalinhada.
– Eu
sabia que eles mandariam alguém – ele disse. Sua voz estava rouca, porém
clara, e ela descartou a idéia de que ele esteve bebendo quando ele acrescentou
–, só não sabia que seria você.
– Eu
vim por minha própria vontade – ela disse calmamente, incerta sobre como
lidar com o homem a sua frente, tão diferente do bruxo formidável que ela
tinha se preparando para enfrentar. – Disseram-me onde encontrá-lo, mas eu não
estou aqui para machucá-lo.
–
Para quê, então? – ele desdenhou, e tossiu severamente, fazendo careta como
se o esforço estivesse machucasse. – Por que você está aqui? O Potter não
disse o que eu fiz? Ele lhe mandou para se vingar por ele?
– O
Harry me contou o que ele viu – ela disse ponderadamente –, e o Professor
Dumbledore contou o que ele sabia.
Pela
primeira vez desde sua chegada, os olhos pretos dele se voltaram em sua direção,
reduzidos em descrença.
– Você
mente – ele disse asperamente.
Ela
balançou a cabeça em silencio.
A menor
das ações pareceu ter despertado algo em seu ex-professor, porque ele
levantou-se de um salto, agarrando-a e mantendo a mão que segurava a varinha
com uma força de machucar antes que pudesse fazer qualquer movimento. Ele
parecia selvagem e aterrorizante naquele momento, e Hermione se perguntava se não
tinha mesmo sido enganada, tapeada por um eco Confundido de um homem morto.
– Não
minta para mim! – ele gritou. Ele estava tão perto de seu rosto que podia
sentir o bafo quente, bravo em sua pele, ainda assim o corpo dele, pressionado
contra o seu, parecia frio. – Ele não lhe disse nada! Ele está morto! Alvo
Dumbledore está morto!
Ela o
encarava com olhos arregalados, assustada. Enquanto encarava-o, uma emoção
estranha parecia flutuar em seu rosto; algo tão completamente estranho a suas
feições severa, pálida que ela não podia sequer descrever o que era.
Ele
soltou-a, meio que a empurrando para longe dele enquanto dava dois passos para
trás e simplesmente caía na poltrona.
–
Morto – ele disse novamente, em uma voz vazia.
Era
como se falando a verdade em voz alta tivesse reforçado-a para ele; o lembrado
dos eventos terríveis do ano passado ou anteriores, e a conclusão devastadora
de quatro dias atrás que Hermione estava só começando a entender.
– Um
retrato – ela disse calmamente, o terror deixando-a para ser substituído
somente por um profundo senso de desespero. – Ele apareceu no escritório logo
após – ela fez uma pausa, tomando um fôlego trêmulo –, após a morte
dele, mas ele não falou até depois do... do enterro.
Novamente,
ele estava silencioso, embora Hermione pensasse ter visto um tremor correr seu
corpo esguio. Era estranho, o quão frágil ele parecia quando não estava
imponente sobre ela. As palavras de Dumbledore voltaram a sua memória, de como
o ex-diretor da Sonserina tinha implorado para ser liberado dessa tarefa,
implorado para que Dumbledore tomasse sua vida antes que ele fosse forçado a
tomar a de seu mentor.
Entretanto,
ele não tinha sido liberado. Ele havia sido forçado a fazer algo tão terrível,
tão repreensível, tão absolutamente repulsivo... era algum milagre que ele
paresse tão terrível agora?
–
Quanto ele lhe contou? – Ele tossiu de novo, severamente, enquanto Hermione
sentava-se cuidadosamente na ponta do sofá.
–
Tudo – ela sussurrou.
–
Tudo? – ele ecoou vagamente.
Ela
respirou fundo e elaborou –, Porque você se uniu a... ele, porque você o
deixou, sua amizade com Lílian – Snape fez um som abafado e inclinou-se para
frente, enterrando sua cabeça em suas mãos. – seu voto para proteger Draco e
o que ele foi ordenado a fazer, e o plano dele, do Dumbledore, para que você
fosse adiante antes que o Draco tivesse a chance de conseguir.
Por um
longo tempo, houve silêncio na sala. Hermione assistia as mãos dele
fecharem-se em punhos, cada vez mais firmes eles agarravam seus os cabelos, até
que ela pensou que ele iria arrancar as mechas negras pela raiz.
Foi então
que ela percebeu que os ombros dele estavam tremendo e, contra qualquer bom
senso, levantou-se do sofá em sua direção
– Não.
A única
palavra dita densamente por entre a cortina de cabelos finos, parou-a
imediatamente. – Não o quê?
– Não
chegue mais perto.
Ela
hesitou por apenas um momento antes de fazer simplesmente aquilo, desviando da
mesa de café baixa e ajoelhando em frente a ele.
Ela
suspirou então, incerta do que fazer.
– O
que você quer de mim? – ele disse, as palavras abafadas nas mãos que tinham
soltado a forte pegada de seus cabelos e tinham movido-se novamente para cobrir
seu rosto cabisbaixo.
– Nós
queremos que volte.
As
palavras pairaram no ar e ele finalmente levantou sua cabeça novamente, seus
olhos mais vermelhos do que nunca, embora Hermione agora entendesse por que.
–
Voltar? – ele repetiu, e ela pensou ter visto um traço de medo em seus olhos.
– Para Hogwarts – ela disse.
Ele bufou, assustando-a.
–
Você acha que eu sou bobo? – ele perguntou, um traço do seu conhecido
desprezo retornando. – Que eu deixaria você me atrair de volta aos portões
de Hogwarts, onde Aurores com permissão de encantar a Maldição Fatal a
primeira vista?
Ela
balançou a cabeça e tirou a bolsa de couro do seu bolso, colocando-a na mesa
de café onde o Snape olhou-a fixamente por um momento antes de perceber seu
uso.
–
Levará-nos diretamente ao escritório do Diretor – ela vacilou, lembrando-se
da realidade –, da Diretora. Professora McGonagall deu sua palavra de que
seria a única presente.
– Você
mente – ele disse de novo, embora um traço de incerteza tivesse conseguido
invadir sua voz.
– Não
– ela disse, olhando-o fixamente nos olhos, desejando que eu visse a verdade.
– Você sabe que não estou mentindo.
Ela
esperou pela dita picada na frente de sua cabeça, o que Harry havia descrito
anos atrás como o primeiro sinal de alguém entrando em sua mente. Ela não
sentiu nada, no entanto, e olhou para ele em confusão.
– Eu
não posso fazer isso sem minha varinha – ele disse.
Ela
mordeu os lábios. Seria uma armadilha? Uma manobra para recobrar sua varinha e,
fazendo isso, machucá-la, ou Desaparatar antes que ela pudesse convencê-lo a
partir pela Chave de Portal...
Só
havia um jeito de descobrir. Dumbledore
confiava nele, passou por sua cabeça enquanto ela levava a mão para trás
de seu corpo e tirava a varinha dele do seu bolso de trás, entregando-a a ele,
pelo cabo.
Ele
olhava fixamente para a varinha, então para ela novamente.
–
Ponha isso para lá – ele murmurou, recostando na poltrona e fechando os
olhos.
–
Mas, eu... – ela começou a dizer, antes de perceber porque ele não tinha
pegado a varinha. Seu gesto, seu desejo de devolvê-la para ele, tinha sido uma
demonstração de confiança em si; um que não justificava então que ele
sondasse sua mente, procurando mais provas de que ela estava falando a verdade.
Quem, além de alguém consciente de toda a história entre ele e Dumbledore,
confiaria nele agora?
Ela
sabia, e confiava.
Hermione
colocou a varinha de volta em seu bolso de trás e guardou a sua, também. Então
ela esperou, decidindo deixar o Snape dar o próximo passo. Ele sabia que ela
sabia a verdade; ele sabia que ela confiava nele. A bola estava com ele agora; a
decisão de voltar para Hogwarts era só dele. Ela entrelaçou as mãos eu seu
colo e olhou fixamente para elas.
Estranho,
ela pensou, olhando para o vestígio vermelho em sua palma esquerda. Ela não se
lembrava de ter se cortado. Ela esfregou a mancha e ela saiu, levemente
pegajosa. Não havia nada sob ela em sua mão.
Ela
tirou a varinha do Snape do seu bolso novamente, e trouxe o cabo para bem perto
de seus olhos na luz baixa. Havia uma mancha ao longo do seu comprimento; quase
seco, era indubitavelmente, sangue.
Seu
olhar moveu-se para a mão dele, descansando languidamente no braço do sofá.
Ela não podia ver nenhuma evidência de ferimento, embora ela não conseguisse
ver nada muito bem. Ela levantou sua varinha, murmurou um encantamento para
aumentar a luminosidade da lanterna pendurada no teto, e arfou pelo que revelou.
Sem dúvida
que a roupa dele tinha parecido desalinhada. A sobrecasaca aberta estava
rasgada, retalhos do material dependurados na frente. A camisa de baixo, tão
preta quanto a casaca, também estava rasgada, revelando a pele ensangüentada
embaixo.
– O
que aconteceu? – ela sussurrou, olhando para todo aquele sangue em horror.
Ele
abriu seus olhos e seguiu a linha se seu olhar, quase como se tivesse se
esquecido das feridas, doloridas como elas sem dúvida deviam ter sido.
–
Hipogrifo.
A única
palavra foi dita em um suspiro, e Hermione lembrou de Harry contando como Bicuço
tinha atacado seu ex-professor. Ataques de Hipogrifo, ela sabia, eram rápidos,
furiosos, e geralmente mortais.
–
Isso foi há quatro dias atrás – ela contrariou descrente, ao mesmo tempo em
que um pensamento horrível lhe ocorreu. Teria ele retornado para cá, seu lar
da infância, diretamente após deixar Hogwarts naquela noite terrível? Estaria
ele sentado aqui, sozinho, estarrecido pelo choque e pelo pesar, por quatro
dias?
–
Foi? – ele disse sem vida, reafirmando seus receios. O olhar apático havia
retornado a seus olhos, os círculos negros tinham sido acentuados pela luz mais
forte.
Assustou-a.
Em
todas as vezes que ela tinha travado olhares com Severo Snape nos seis anos que
o conhecia, sempre havia um fogo queimando no fundo negro. Um traço de raiva,
ódio ou escárnio ela tinha visto com freqüência; medo, uma vez; admiração
ou paixão, nunca, mas ela não duvidava que ele fosse capaz de ambos, se
tivesse uma chance.
Agora,
no entanto, eles estavam indiferentes. Vazios, buracos negros; enfraquecidos e
cansados. Ele olhava fixo para frente, abstraído da preocupação dela, e
aparentemente inconsciente do perigo.
Hermione
moveu sua mão de encontro à dele, encontrando-a fria e úmida, mesmo no frio
da sala. Ele não retraiu, ou mesmo respondeu, e aquilo a desanimou ainda mais,
talvez, do que a palidez doente de sua pele.
–
Deixe-me ajudá-lo – ela disse suavemente.
–
Ajudar? – ele falou irritado, tossindo novamente, a expressão em sua face
dolorosa. –Eu não quero ajuda;
eu quero esquecer! Eu quero desfazer, eu quero modificar, eu quero... – sua
voz faltou e ele sussurrou –, Eu só quero morrer.
– Não
diga isso – ela sussurrou, sua mão apertando a dele com mais força.
– Por
quê? É menos verdade se eu não disser em voz alta?
Ela
observava-o desamparada. Vindo aqui esta noite, ela tinha esperado qualquer
coisa dele; raiva, abuso, provocação, violência, até mesmo silêncio impassível.
Ela nunca tinha esperado encontrar tal réplica destruída de um homem
aparentemente inabalável.
Ele riu
de repente; um som rouco, maníaco que parecia ter surpreendido-o tanto quanto a
ela.
– Quão
irônico que o temido ex-mestre de Poções de Hogwarts não tenha nem mesmo uma
simples poção sobrando para acabar com sua existência patética.
–
Pare com isso! – ela gritou, soltando a mão dele e agarrando seus ombros ao
invés disso, tentando sacudir algum sentido de volta nele. – Só pare com
isso!
Ele
sibilou quando os dedos dela enterraram-se rispidamente nas feridas ainda
abertas, e ela retraiu rapidamente, odiando-se por causar-lhe ainda mais dor.
– Eu
sinto muito – ela murmurou. – Eu sinto muito... por favor, deixe-me fazer
alguma coisa.
– Faça
o que quiser – ele disse, afundando-se em sua poltrona. – Não fará diferença
no final.
Ignorando
suas palavras desesperadas, ela firmou-se e avançou, tirando os retalhos
esfarrapados de sua sobrecasaca para os lados. Ele parecia ter voltado àquela
letargia distante novamente, e ela se preocupou com o sangue fresco que podia
ver, brilhando pouco na sala sombria.
Ela
tirou a casaca dos seus ombros, o máximo possível com ele largado daquele
jeito na poltrona.
A
camisa de baixo estava tão arruinada quanto a casaca; um furo grande logo
abaixo da clavícula mostrava um ferimento que ainda sangrava, mesmo tanto tempo
depois de ter sido causado.
– Você
deveria ter procurado ajuda antes – ela murmurou.
– De
quem? – ele respondeu mitigado. – O Lord das Trevas me congratulou por
meu... meu sucesso... e me mandou embora. Quem era eu para parar de sangrar até
uma morte bem-vinda?
–
Bem, isto não vai acontecer agora – ela disse firmemente, alcançando os botões
da camisa que ainda estava surpreendentemente intacta.
Ele
aturou a ajuda dela até que ela fez um movimento para tirar a peça de roupa de
lado, ao que ele sibilou em dor e tirou as mãos dela para longe. O sangue dos
ferimentos mais leves tinha secado, efetivamente grudando a peça de roupa a seu
peito. Ao tirá-la, ela somente iria reavivar o sangramento.
–
Sinto muito – ela se desculpou. – Eu não sei nenhum encantamento analgésico.
– Poções
são melhores – ele murmurou –, mas como eu não tenho nenhuma, acho que
terei que fazer isso eu mesmo.
Ela
assistiu enquanto ele se sentava um pouco mais e agarrava cada ponta da camisa.
Serrando um pouco os dentes, ele puxou-as, sem conseguir conter o suspiro de dor
enquanto os ferimentos reabriam.
Hermione
amaldiçoou silenciosamente. Ela não era nenhuma medi-bruxa, e não estava
preparada para isso.
–
Onde é a cozinha, ou o banheiro? – ela perguntou calmamente. – Eu preciso
de algo para estancar o sangue.
–
Encanto – ele disse roucamente, recostando na poltrona com uma expressão de
dor no rosto. – Vulnus snare.
– Eu
não sei o movimento de varinha – ela disse, sem conseguir tirar os olhos do
sangue saindo vagarosamente dos ferimentos. Alguns deles pareciam bem fundos, e
ela estremeceu, recordando as garras afiadas dos hipogrifos.
–
Simplesmente aponte – ele disse fraco.
Ela
hesitou um momento, mas então, percebendo que não havia outra opção, pegou
sua varinha e apontou-a para um dos menores cortes no ombro dele.
Respirando
fundo, ela entoou –, Vulnus sanare.
Uma luz
breve, branca saiu da ponta da sua varinha e pareceu ser absorvida pelo
ferimento. O corte fechou-se, embora uma cicatriz saliente ainda tenha
permanecido. Mesmo assim, estava melhor do que antes.
Encorajada,
ela se pôs a tentar curar os ferimentos mais profundos, aqueles que ainda
estavam sangrando. Nenhum deles curou completamente, obviamente por causa de sua
falta de experiência com ambos o encantamento e o movimento da varinha, mas
seria suficiente até que eles pudessem retornar a Hogwarts, e os cuidados de
uma medi-bruxa de verdade... se ele consentisse em voltar.
Tirando
esse pensamento de lado, ela lançou um encantamento mais familiar, um
encantamento de limpeza, para livrar seu peito do sangue seco. A pele revelada
era pálida... muito pálida, e era de se esperar, ela constatou; quatro dias
com ferimentos abertos... a camisa que ele tinha tirado estava endurecida pelo
sangue. Era de se espantar que ele não tivesse sangrado até a morte.
Ela
ergueu os olhos para o seu rosto.
Sua
cabeça estava jogada para trás e seus olhos estavam fechados, seus lábios
finos quase translúcidos na palidez. Ela podia ouvir sua respiração na
quietude da sala, mas ela soava elaborada, forçada.
–
Senhor? – ela disse com urgência. – Pr- Senhor?
Parecia
estranho chamá-lo de ‘senhor’ em tal situação, como lhe parecia a idéia
de dizer ‘Snape’ na cara dele, e ‘Professor’ não era mais exatamente
correto. Talvez ele reagisse se ela dissesse...
–
Severo? – ela disse hesitantemente. – Você ainda está comigo?
Houve
uma pausa e uma série de respiros, então –, Eu não queria isso – ele
disse vazio; seus olhos abertos novamente e olhando fixamente inexpressivos para
o teto.
Ele
parecia estar em choque. Não era de se surpreender com o trauma que passou,
ambos físico e emocional. Ela tinha que convencê-lo a voltar para Hogwarts, e
o quanto antes, melhor.
– Eu
teria feito tudo que ele me pedisse... – ele continuou desoladamente –, mas
isso...
– Mas
você fez – ela impeliu, tentando fazê-lo continuar falando –, mesmo que
você dificilmente possa admitir isso. Quando não havia nenhuma outra saída,
você fez o mais valente e corajoso dos atos possíveis seguindo em frente com
isto.
–
Corajoso – ele bufou calmamente, desgosto retorcendo seu rosto. – O Potter
me chamou de covarde.
Ela
segurou sua mão novamente, entrelaçando-a por entre suas próprias em uma
tentativa desesperada de alcançá-lo.
– Ele
não entende – ela disse –, e é por isso que você precisa voltar. Ele
precisa saber a verdade; Eles todos precisam... e não precisam só ouvi-la do
retrato do Professor Dumbledore. Você precisa estar lá, também.
– Você
acha que vai ajudar se eu voltar e me explicar para pessoas que não querem
ouvir? – ele retrucou, baixando a cabeça para encontrar os olhos dela. –
Você acha que isso justificará o que eu fiz?
– O
que você fez? – Hermione retrucou. – Você não tinha escolha.
– É
isso que lhe parece? – ele perguntou. – Sempre há uma escolha. Eu tinha a
escolha de morrer. Ao invés disso, eu assassinei meu mentor, meu amigo, a única
pessoa que o Lord das Trevas já temeu, a única pessoa que já esteve disposta
a me dar uma segunda chance na vida... – Seus olhos estavam de repente
estranhamente brilhantes, e ele desviou seu rosto, seu olhar fixo na parede
cheia de livros do outro lado da sala.
–
Bem, eis o que eu acho que você fez – ela disse calmamente. – Você fez um
sacrifício maior do que qualquer um de nós pode até mesmo compreender. Você
fez o que lhe foi pedido – a coisa mais terrível que se possa imaginar –
para salvar o Draco de um destino horrível, para consolidar sua própria posição
como espião, e dar ao restante de nós uma chance de vencer esta guerra.
Ele
olhou brevemente na direção dela e ela continuou. – Se eles todos soubessem;
se eles todos entendessem toda a história, eles iriam concordar com o que você
fez, também.
Os
olhos dele encontraram os dela novamente, e dessa vez ele segurou seu olhar. Ela
devolveu o olhar, querendo que ele visse a sinceridade e a compaixão que
sentia. Ela sabia que seria difícil para ele voltar para Hogwarts, e conhecendo
o ódio que existia por ele lá só fazia isso ainda mais difícil. E então
havia a perspectiva de ter um confronto com Alvo Dumbledore novamente, que,
mesmo na forma de retrato, serviria apenas para lembrá-lo do que tinha feito,
trazendo a tona as mesmas inseguranças que já havia vociferado para ela nesta
noite.
– Você
realmente acredita no que o retrato do Diretor disse? – ele perguntou depois
de um tempo, com uma incerteza alheia em seus olhos.
– Eu
acredito – ela disse firmemente. – Eu estaria aqui de outra forma?
Seus lábios
se curvaram só um pouquinho, embora possa ter sido mais uma careta de dor.
– Me
ocorre perguntar por que ele enviou você, dentre todas as pessoas.
– Ele
tentou falar com o Harry – ela disse honestamente –, mas ele ainda não quis
escutar. Ele acusou o retrato de estar amaldiçoado, de alguma forma. Eu estava
mais disposta a ouvir.
– É
possível, você sabe, que o retrato tenha sido adulterado – ele retrucou, e
ela balançou a cabeça.
–
Passou pela minha cabeça que eu poderia estar entrando em uma armadilha – ela
admitiu. – Mas eu sabia que ele estava certo no momento em que entrei na casa.
A
declaração tornou-a merecedora de um olhar questionador, e ela elaborou –,
Você nunca deixaria sua guarda baixa ao menos que você realmente quisesse
morrer... se eu fosse qualquer outra pessoa, nesta noite eu poderia ter
simplesmente entrado e matado você.
Ele
ficou calado, e ocorreu a ela que talvez fosse isso que ele estivesse esperando.
–
Eles irão entender – ela disse. – Pode levar um tempo, mas eles irão... eu
entendi.
– É
um começo, eu acho – ele respondeu, o fantasma de um sorriso triste passou
pelo seu rosto.
– Você
vai voltar, então? – ela perguntou esperançosa.
Ele
olhou a bolsa de couro ainda descansando na mesa de café e olhou ao redor da
sala mais uma vez antes de seu olhar voltar a parar nela.
–
Vou.
Ela
sorriu para ele então, um sorriso verdadeiro, e mesmo que ele não tenha
retornado, havia uma centelha em seu olhar novamente, uma centelha de esperança.
Ela se
levantou e ofereceu-lhe sua mão.
Ele
olhou-a quase que descrente por um momento, antes de chacoalhar-se de leve e
agarrá-la, permitindo que ela o ajudasse a se levantar da poltrona baixa.
Ela
sacou sua varinha do seu bolso novamente, e ofereceu a ele. Ele aceitou-a dessa
vez, limpando o sangue que estava secando no cabo na ponta solta de sua camisa.
Ele
olhou para o que tinha sobrado do que um dia tinha sido sua roupa imaculada e
franziu a testa, murmurando um encantamento complicado que a Hermione não
reconheceu.
Era
obviamente um bem útil, aliás, porque mesmo que ele não tenha retornado a
casaca e a camisa a suas condições originais, elas foram reparadas e abotoadas
a um estado respeitável.
Ele
devolveu sua varinha para ela, então, e ela encarou-o, confusa. Ele
pressionou-a em sua mão, no entanto, forçando-a a pegá-la.
– Em
todo caso – ele murmurou, pegando a bolsa de couro.
Ela
avançou para tocá-la, também, mas ele segurou-a fora de alcance por um
momento.
–
Obrigado, Hermione – ele disse seriamente –, Eu... você... – Ele
suspirou. – Só, obrigado.
– E
obrigada – ela devolveu honestamente. – Por tudo.
Ele
ofereceu a Chave de Portal para ela e, colocando sua própria mão nela, também,
ela tocou-a com sua varinha, dizendo –, Portus.
Juntos, eles voltaram para Hogwarts.