O maior amor de todos

Por Noctivague

 

"Estranho. Ela disse que estaria aqui."

"Bom, vamos nos sentar. Ela já deve estar chegando."

"Por que todo esse suspense, hein? Será que ela tem algo importante a nos contar? Você não sabe de nada?"

"Não. Estou tão curioso quanto vocês."

"Accio varinha! É, Severo? Acho que vou matar... a sua curiosidade, meu caro."

Severo tentou impedir que sua varinha voasse de sua manga esquerda, mas falhou por pouco - seus dedos chegaram a tocá-la. Em um segundo, ele estava de pé e encarando o outro bruxo.

"Lúcio. Devolva a minha varinha! O que está fazendo aqui?"

"Ora, isso são modos de receber um velho amigo?"

"Nós não somos amigos - e nunca fomos. Você deve estar com problemas de memória. Devolva a minha varinha."

"Problemas de memória... Sim, alguém aqui vai ficar com problemas de memória, mas não eu - eu lhe garanto."

"Acho melhor vocês irem."

"Não, fiquem!... Estamos só brincando. É um prazer finalmente conhecer os sogros do meu velho amigo Severo. Boa noite, Sr. Granger. Sra. Granger, é realmente um prazer conhecê-la."

O bruxo estendeu a mão aos dois, escondendo o seu asco por trás de um sorriso galanteador. O casal, assustado, não retribuiu o gesto. Severo esteve prestes a empurrar Lúcio, para afastá-lo deles.

"Com medo de que a minha brincadeirinha machuque, acidentalmente, os sogrinhos, é?"

"DEVOLVA A MINHA VARINHA, LÚCIO! Não seja covarde."

"Incrível como um bruxo sem a sua varinha não é nada, não? Vocês não acham isso engraçado? Eu acho. Não se preocupe, você vai tê-la de volta - mas, antes, quero brincar com ela um pouquinho."

Então, Lúcio se divertiu em apontar a varinha de Severo, displicentemente, ora para a mãe, ora para o pai de Hermione. Os dois não ousavam respirar, paralisados que estavam pelo medo.

"Pare com isso, Lúcio! É diversão o que você quer? Deixe-os ir - você tem a mim."

"Hum... Vou tentar não tomar isso como uma proposta indecente. Mas não, Severo, não é você que eu quero hoje. Bom, mais ou menos - você vai sentir o resultado desse nosso joguinho através deles."

Percebendo a intenção do outro, Severo teve tempo de gritar para que os Granger corressem antes que Lúcio pudesse atingi-los com um Cruciatus, e se colocou diante deles, oferecendo-se como escudo ao casal.

"Ah, Severo!... Sempre querendo bancar o herói." Lúcio deixou os dois tomarem uma certa distância, enquanto aumentava a intensidade da dor que provocava no outro bruxo. "Mas se esqueceu de que eu adoro uma caçada?"

Com um movimento rápido, ele apontou a varinha de Severo em direção ao casal, que já alcançava a esquina do comprido quarteirão. Antes que o outro bruxo pudesse se recuperar e reagir, as duas palavras já haviam sido pronunciadas:

"Avada Kedavra." Severo não teve tempo de se lançar sobre Lúcio e descarregar o seu ódio sobre ele. "Ah-ah! Estupefaça!" Então, saltando o outro bruxo, Lúcio caminhou, devagar, sorvendo o pânico que sabia que o homem estava sentindo, até o Sr. Granger, que, ajoelhado, tentava reanimar a esposa, em vão. "Oh, uma pena. Detesto ser pouco cavalheiro - parece que a minha pontaria está ruim. Era você, não ela, que eu queria atingir. Mas não se preocupe, tem pra você também."

Rindo do desespero do homem que se encolheu às suas palavras, ele sacou a sua própria varinha e disparou.

 

* * * * * * * * *

 

Sentada no sofá da sala de aspecto burocrático, um pedaço de pergaminho nas mãos trêmulas, Hermione chorava mansamente.

"É nisso que você quer que eu acredite?"

Em pé à sua frente, Severo baixou a cabeça, a esperança começando a abandoná-lo.

"Ele deve ter enfeitiçado o pergaminho para que as palavras desaparecessem e não pudessem ser recuperadas - mas eu juro, Hermione, era a sua caligrafia. Você pedia que estivéssemos lá às..." Vendo a descrença no olhar da mulher, ele desistiu. "De qualquer forma, não é nisso que eu gostaria que você acreditasse. Queria que você acreditasse em mim."

A essas palavras, a intensidade do choro de Hermione aumentou.

"E você acha que eu não queria, também? Eu depositei toda a minha confiança, todas as minhas esperanças... todo o meu amor em você, Severo..."

"Eu fiz o mesmo em relação a você."

"Se aceitei falar com você hoje, é por causa disso. Mas como você quer que eu acredite no que está me dizendo, se todas as provas estão contra você? O Prior Incantatem identificou o feitiço na sua varinha..."

"Já disse que o Lúcio usou a minha varinha, de propósito! É mais difícil, pra você, acreditar que ele seja capaz de fazer uma coisa dessas do que acreditar que eu seria capaz de matar a sua mãe?"

"Esse bilhete em branco... O meu pai não se lembra de nada do que você diz, ele tem certeza absoluta de que foi você quem a atacou..."

"O Lúcio fez isso, Hermione, o Lúcio! Ele deve ter manipulado a memória dele. Sempre achei que você fosse inteligente - e não é necessária muita inteligência pra saber que aquele filho da puta é capaz de qualquer coisa..."

"Apesar das suas acusações, ele intercedeu por você, não importa por que meios. Se não fosse por ele, você teria sido condenado ao beijo... E, por mais que a morte dela me doa, acho que isso, uma pena pior do que a morte, ninguém merece."

Severo riu amargamente.

"Ah, claro!... Que generosidade a dele! Será que ele fez isso pra aliviar um pouquinho a consciência dele? Não, aposto que ele está se regozijando com a idéia de que vou passar o resto da vida naquele buraco, sofrendo até perder a razão. E você, Hermione, sempre tão generosa também... Por que não aproveita esse seu pendor altruísta e monta uma Campanha Contra o Beijo? Vai fazer mais sucesso do que a campanha trouxa contra o sexo antes do casamento." Tendo descarregado a sua raiva, ele suspirou e disse, numa voz cansada: "Achei que você me amava.".

Ela baixou os olhos, não ousando responder, dividida entre as evidências contra o seu marido e o que sentia por ele. Os soluços sacudiam-lhe o corpo, que involuntariamente se retraiu quando ele se sentou ao seu lado.

"Escute, Hermione..." Ele ia tocá-la, mas desistiu de o fazer ao notar que o seu toque, talvez, não era bem-vindo. "Alvo já fez muito por mim conseguindo essa permissão pra que eu viesse até aqui hoje antes do julgamento e pudesse vê-la. Mas há uma coisa que só você pode fazer por mim - você me ama, Hermione?"

"É claro que amo!" Ela desistiu de refrear os seus sentimentos. "Mas... Mas... É da minha mãe que estamos falando..."

"Olhe pra mim, Hermione. Olhe pra mim e diga que você acredita em mim. Só isso já é o suficiente pra que eu não enlouqueça naquele lugar. Eles não vão conseguir me destruir se eu tiver certeza de que você me ama..."

Ele segurou-lhe o queixo delicadamente, voltando o rosto dela na sua direção e obrigando-a a encará-lo. Ela deixou seus olhos se perderem nos dele, enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto. Mas logo os fechou.

"Eu te amo, Severo, muito... Eu ainda te amo, não posso negar. Mas o que você está me pedindo é demais pra mim. Como é que eu posso fechar os olhos a todas as provas e dizer que acredito em você?"

Um dos guardas que o escoltaram até ali os interrompeu:

"Tudo isso é muito triste, muito romântico, mas está na hora de irmos."

Severo não lhe deu importância.

"Então, você está enganada. Você não me ama, Hermione." Ele se levantou e se deixou arrastar pelos dois guardas até a saída. "Você acabou de pronunciar a minha sentença. Adeus."

Incapaz de se mover ou de pronunciar qualquer outra palavra, Hermione se deixou ficar sobre o sofá, enquanto seus olhos marejados de lágrimas acompanhavam Severo corredor afora. Foi somente quando ele sumiu de suas vistas que ela se permitiu dar palavras à sua dor.

"Oh, Merlim!... Por quê?..."

 

* * * * * * * * *

 

"Pensei que você fosse entrar."

"Eu não agüentaria."

"Então, pelo que pude ver no rosto dele, a conversa entre vocês não teve o resultado que eu esperava."

Hermione ficou em silêncio, envergonhada, um sentimento imenso de culpa e de perda pesando sobre os seus ombros.

"Você sempre soube que eu estava certo em confiar no Severo enquanto a maioria das pessoas o condenava. A dor que você está sentindo pela perda da sua mãe deve ser maior do que eu posso imaginar, Hermione - mas você não deveria deixar que isso a cegasse para a verdade."

"A verdade, Alvo, é que eu amo aquele homem, você sabe disso, e que eu gostaria muito de poder acreditar nele e de que nada disso estivesse acontecendo... Mas como você quer que eu negue todas as evidências contra ele, negue o que o meu pai está dizendo que aconteceu diante dos olhos dele? Ele queria que o Severo fosse julgado por um tribunal trouxa... Foi difícil convencê-lo de que, sendo bruxo, ele devia ser julgado entre nós. Eu não posso simplesmente virar pra ele e dizer que vou ficar do lado do meu marido, só porque ele é o homem que eu amo, e ignorar o assassinato da minha mãe!"

"Pense bem, filha - e você pode, então, ignorar o que sente por ele e o que, no fundo, sabe que é a verdade? Você pode abandoná-lo desse jeito?"

"Oh, Alvo!... Por que você está fazendo isso comigo?"

"Porque eu quero chamá-la à razão, só isso. Porque disso, e não da sentença que foi pronunciada lá dentro, depende a vida dele, Hermione."

"A sentença já foi...?"

"Sim."

"E ele foi condenado?"

Alvo sorriu um sorriso triste.

"Ele já estava condenado quando entrou por aquela porta, minha querida."

Ela recomeçou a chorar. Resistindo à vontade de consolá-la, o velho bruxo deixou que a dor fizesse o seu trabalho e lhe disse, antes de deixá-la sozinha:

"Talvez ele ainda não tenha sido levado. Está nas suas mãos salvá-lo, Hermione. Sala 207."

Ela continuou a chorar por mais um tempo, olhando para o chão à sua frente, enquanto ouvia o som dos passos de Alvo sumirem pelo corredor. Então, não suportando mais o sofrimento e sabendo que devia fazer alguma coisa - qualquer coisa - para tentar diminuí-lo, ela secou as lágrimas, se levantou e se pôs, depressa, a caminho da sala mencionada pelo bruxo. Ela tinha que chegar lá antes de o levarem embora.

"Desculpe-me, mas a senhora não pode entrar aí."

"Como não? É o meu marido que está aí dentro. Eu quero vê-lo."

"Sinto muito. Não posso deixá-la entrar. É a regra."

"Eu preciso falar com ele, preciso dizer uma coisa pra ele antes que ele seja levado pr’aquele inferno! Quanto você quer pra me deixar passar, hein?"

"Olhe, dona, vou fingir que não escutei o que a senhora disse, só porque estou vendo que a senhora está muito nervosa. Façamos o seguinte: a senhora me diz o que quer dizer pra ele, eu entro e, se ele ainda estiver aqui, digo pra ele..."

"Não! Não adianta... Ele tem que ouvir isso da minha boca, ele tem que olhar nos meus olhos e ver que estou dizendo a verdade. Deixe-me entrar, por favor... Pela alma de um homem condenado!"

"Eu sinto muito, mas, se a senhora não quer mesmo que eu entre e fale com ele no seu lugar, não há mais nada que eu possa fazer."

"SEVERO! Severo, você está me escutando? Sou eu!..."

Hermione esmurrava a porta, enquanto lutava para não ser arrastada dali pelo guarda, que hesitava em usar a sua varinha contra ela.

"Eu te amo e eu acredito em você! Eu acredito em você, Severo. Você está me ouvindo?"

"Moça, por favor... Posso perder o meu emprego se a senhora continuar a fazer esse escândalo aqui..."

"Então, me deixe entrar!"

"Não posso, dona..."

"Eu juro que vou fazer o que puder pra provar a sua inocência, Severo. Você não vai apodrecer naquele lugar, meu amor. Eu não vou deixar que isso aconteça, porque eu te amo. Eu te amo e eu acredito em você. Você consegue me escutar, Severo? EU ACREDITO EM VOCÊ, MEU AMOR! Eu acredito em você..."

"Que escândalo é esse, Hazard? Será que você não consegue nem dar conta de uma mulher histérica?"

"Ora, Sr. Gray..."

"O que você quer, gritando desse jeito?"

"Quero ver o meu marido. Quero que ele saiba que..."

"Tarde demais. Faz..." O homem consultou o relógio. "quase dez minutos que ele foi levado. Pode parar de fazer escândalo, porque ele não pode mais escutá-la. A essa altura, já deve estar chegando lá."

A essas palavras, Hermione se deixou escorregar, apoiada contra a porta, até o chão.

 

* * * * * * * * *

 

Mas não era tarde demais - ainda não. Juntos, Alvo e Hermione trabalhavam incansavelmente para tentar provar a inocência de Severo. Lúcio havia sutilmente ameaçado Hermione de que ela poderia vir a se tornar órfã de mãe e pai, caso continuasse insistindo naquela besteira de investigação. Por isso, o Sr. Granger se vira obrigado a ir morar com a filha na casa que o seu odiado genro havia construído para o casal.

"Você devia ir dormir, ao invés de ficar perdendo o seu tempo com essas coisas que não vão resultar em nada. Isso ainda vai acabar prejudicando..."

"Boa noite, pai. Pode ir dormir; eu já vou."

"Não sei como alguém tão inteligente como você pode relutar tanto em aceitar a verdade. É uma ofensa à memória da sua mãe o jeito como você se sacrifica tentando tirar aquele infeliz do buraco onde ele merece estar."

"Pai, por favor... Nós já conversamos bastante sobre isso e eu não quero discutir com você agora. ‘Aquele infeliz’, como você diz, é o meu marido, e também..."

"Infelizmente! Eu sabia que aquilo não era homem pra você, mas a sua mãe - Deus, que ironia! - insistiu tanto, dizendo que devíamos deixar você fazer o que achava melhor, o que achava que faria você feliz... E agora, Hermione? Sua mãe está morta e seu marido está preso por tê-la assassinado! Você está feliz agora?"

Hermione suspirou, tentando se controlar, e fechou o grosso livro do qual vinha tomando notas há alguns minutos.

"Não, pai, eu não estou feliz - não mais, não exatamente. Mas o culpado por isso não é o Severo, então, poupe-o de mais essa acusação, sim? Garanto que vou voltar a ser a mulher mais feliz do mundo assim que conseguir tirá-lo de lá, e espero que isso satisfaça você também."

"Se aquele miserável for libertado, não importa se amanhã ou daqui a trinta anos, você nunca mais vai me ver. Vou embora desta maldita casa, com ou sem supostas ameaças de morte, e você nunca mais vai ouvir uma palavra de mim."

"Duvido que, em poucos meses, você não voltaria atrás nessa sua decisão. Você não seria tão durão assim, pai, eu te conheço." Ela sorriu quando o homem lançou um olhar vacilante à sua forma enrolada em um pesado cobertor. "Sente-se aí que eu vou lhe mostrar uma coisa." Quando ele atendeu o seu pedido, ela sacou a sua varinha. Ainda traumatizado, ele estremeceu. "Não precisa ter medo, pai. A magia, assim como a ciência trouxa, pode ser usada tanto para o bem, quanto para o mal, e é uma pena que você tenha ficado tão marcado pelo seu mau uso. Mas eu nunca faria nada que pudesse te machucar."

"Eu sei, filha, me perdoe. É que eu não consigo esquecer..."

"Tudo bem, pai. Mas preste bem atenção ao que vou dizer: vou fazer uma coisa, você vai observar e vai me dizer o que eu fiz, certo?"

"Certo..."

O Sr. Granger não estava entendendo aonde a filha queria chegar, mas deixou que ela prosseguisse.

"Depois, vou lançar um pequeno feitiço de memória em você - nada demais, não se preocupe - e você vai me dizer, de novo, o que acha que eu fiz. Por último, vou desfazer esse feitiço e você vai se lembrar do que eu realmente fiz. Preparado?"

"Acho que sim..."

Então, Hermione se levantou, contornou a mesa, deu um beijo no pai e disse que o amava.

"Me diga o que acabei de fazer."

"Ora, você se levantou, veio até aqui, me beijou e disse ‘Eu te amo, pai.’. Foi isso."

"Exatamente. Agora, vou fazer o feitiço de que falei e você vai me dizer de novo o que acha que fiz. Posso?"

O homem assentiu com a cabeça. Em poucos segundos, ele estava cobrindo a bochecha esquerda com uma das mãos e olhando horrorizado para Hermione.

"Você não fez isso!... Hermione, como pôde?! E tudo por causa daquele homem... Eu não acredito."

Rapidamente, ela apontou a varinha para ele, que se encolheu, e desfez o feitiço. Aos poucos, o homem, assustado, foi se lembrando do que realmente acontecera.

"E então, pai? Agora você entende?"

"Eu... Ora, Hermione!... Por um instante, cheguei a acreditar que..."

"Que eu lhe dei um tapa no rosto e disse que te odiava, não é?" Ele assentiu com a cabeça mais uma vez. "Fui eu quem implantei essa falsa memória na sua mente. Do mesmo jeito que aquele desgraçado fez pra que você acreditasse que foi o Severo, e não ele, que matou a minha mãe. Só que ele deve ter usado um feitiço mais poderoso - um feitiço de magia negra" A essas palavras, o homem se arrepiou. "- pra que não conseguíssemos desfazê-lo, pra que você não pudesse se lembrar da verdade e testemunhar contra ele."

O Sr. Granger estava hesitante - sua razão trouxa o impedia de acreditar naquelas palavras e na própria experiência pela qual ele acabara de passar.

"E, supondo que isso seja mesmo verdade, por que você não me mostrou isso antes? Por que me deixou acreditar por tanto tempo que o seu marido é culpado?"

"Simples: porque o que acabei de fazer é ilegal." Imediatamente, o homem ficou preocupado. "Mas não tem importância - eles não podem me prender por isso, não com o seu testemunho e a prova, pela minha varinha, de que desfiz imediatamente o feitiço, não se preocupe. Com o Malfoy me processando por calúnia, uma coisa a mais, uma a menos, não faz diferença." Ela suspirou, cansada. "O importante é que você acredite em mim, pai. Eu preciso do seu apoio, assim como o Severo precisa do meu. Se o Alvo e eu conseguirmos fazer você se lembrar da verdade e provar que o Malfoy enfeitiçou você, ele vai pra Azkaban no lugar do Severo. O meu marido está salvo - e nós também."

O homem olhou para ela e pegou sua mão.

"Tudo bem, filha. Vou me esforçar pra acreditar, serve?"

"Já é alguma coisa." Ela sorriu. "Vamos pra cama. Já é tarde."

 

* * * * * * * * *

 

"Conseguimos, Hermione. Ele já pode receber visitas, finalmente."

"Oh, graças a Merlim!..."

"Só tem um probleminha..."

"O quê?"

"Ele se recusou a ver qualquer pessoa - e nós não podemos entrar lá sem o consentimento dele."

"Como assim, não podemos entrar sem o consentimento dele?"

"Uma das poucas coisas a que eles têm direito em Azkaban: decidir, quando têm direito a visitas, se querem recebê-las ou não."

"E quem disse que ele não quer nos receber?"

"O advogado de vocês."

"Não pode ser, Alvo! Depois de tantos meses tentando fazer com que... Ele não quer me ver, é isso. Ele não me perdoou ainda por não ter acreditado nele desde o começo. Ele não quer me ver, mesmo sabendo que... Oh, Alvo!... Ele deve estar me odiando..."

O velho bruxo segurou a mão de Hermione, carinhosamente, para lhe transmitir segurança.

"Não, Hermione. Você é a pessoa que ele mais amou na vida - ele não poderia odiar você, muito menos agora, por mais tempo que passasse naquele lugar horrível, sendo alimentado pelo ódio daquelas criaturas. Eu o conheço como se fosse meu filho - ele está magoado, sim, sem esperança, e não quer sofrer mais, é isso. Mas vai ficar bem assim que vir você novamente."

"Mas como, se ele não me deixa ir vê-lo?"

"Na verdade, seria melhor que você não fosse, mesmo. Aquilo não é lugar para uma mulher..."

"Nós já discutimos isso, Alvo. Eu vou e ponto final. Quero dizer, vou, assim que conseguir dar um jeito de entrar lá mesmo sem o consentimento dele."

"O.k., já que é por uma boa causa... Eu não posso fazer isso, porque todo mundo me conhece - esse é um dos males de estar nos cartões dos sapos de chocolate!... -, mas você pode tentar entrar lá como se fosse uma enviada do St. Mungus. Conheço um pessoal lá que poderia marcar essa sua visita ao detento Snape, a pedido da esposa dele, arranjar vestes apropriadas para você, uma varinha com identificação, enfim, lhe dar cobertura."

"Sério? Você faria isso por mim, Alvo?"

"Ora, minha querida... Me diga uma coisa que eu não faria por você - por vocês todos."

"Obrigada, Alvo. Nem sei como vou poder lhe retribuir tudo o que tem feito por nós nesses últimos tempos."

"Vá lá, dê-lhe a esperança de que ele tanto precisa para suportar a sua situação, lute por ele e trate de ser feliz e de fazê-lo feliz também - só isso já basta."

"Pode deixar." Hermione sorriu. "Prometo que vou fazer o que estiver ao meu alcance - e um pouquinho mais."

 

* * * * * * * * *

 

"Por aqui, Dra. ... Lunt. Ele não é um dos nossos prisioneiros mais violentos, mas foi condenado por ter assassinado uma trouxa, então, não é bom abusar. A sala é dividida por um campo de força que impede que ele se aproxime de você ou mesmo a veja, embora você possa vê-lo, é claro, para examiná-lo, e falar com ele, graças a um feitiço que altera a sua voz - tudo para garantir a sua máxima segurança. Não que eles possam fugir daqui, mas nunca se sabe. Caso você precise tocá-lo, é só estender suas mãos através do campo - do seu lado, ele é permeável. Você não pode atravessá-lo, sob o risco de destruí-lo e ativar o alarme de segurança, mas pode puxar um braço ou uma perna para o seu lado, se for preciso um exame mais cuidadoso."

"Obrigada, Sr. Corbett."

"Ah, e há três guardas vigiando a sala, pela sua segurança."

Três guardas. Hermione se perguntava como conseguiria dizer a Severo tudo o que viera lhe dizer, com três pares de olhos e ouvidos atentos a cada palavra sua, a cada movimento seu.

"Muito obrigada. Tenho certeza de que vai correr tudo bem, não se preocupe."

"Vejo você na saída, então." O bruxo lançou-lhe um olhar preocupado. "Se precisar de alguma coisa, é só chamar que eles a socorrerão. Boa sorte."

Tocando a maçaneta da porta com a varinha que lhe fora emprestada pela verdadeira Dra. Lunt, Hermione entrou na sala destinada aos exames médicos periódicos dos prisioneiros. Teve que se conter quando viu seu marido, tão mudado em tão pouco tempo, em pé contra a parede à sua frente, um ar de completa indiferença quanto ao que se passava ao seu redor.

"Ãhn, Sr. Snape, você está me ouvindo?"

Ele não se deu ao trabalho de responder.

"Vim ver se está tudo em ordem com você. É importante que eu saiba se você consegue me escutar. Você não precisa falar comigo se não quiser, é só me dar algum sinal de que está me ouvindo. Eu posso vê-lo perfeitamente - então, não adianta fingir que não está aí."

Severo deu um sorriso de escárnio que fez o coração de Hermione se acelerar - se ele não havia perdido esse hábito ainda, era sinal de que não estava tão mal assim.

"Certo, já vi que você pode me escutar perfeitamente também. Agora, quero que você se aproxime do campo de força para que eu possa examiná-lo direito." Ela estava prestes a se revelar para ele e precisava lhe dar um aviso para que ele não estragasse tudo. "Mas cuidado com o que vai fazer, Sr. Snape. Há três guardas vendo e ouvindo tudo o que se passa nesta sala e eles não vão hesitar em enfeitiçá-lo ao menor passo em falso que você der."

Outro sorriso de escárnio, respondido por um sorriso genuíno de Hermione. Quando ele, finalmente, parou mais ou menos à sua frente, ela se deteve por alguns segundos a observá-lo e seus olhos se encheram de lágrimas - que ela logo secou, para não chamar a atenção de nenhum dos guardas. Ele estava muito mais magro e pálido do que costumava ser; uma barba densa lhe cobria o rosto fino e seus cabelos, imundos, já passavam muito da altura dos ombros; seu olhar, emoldurado por olheiras negras e fundas, parecia haver perdido a força que outrora possuía. Ela jurou para si mesma que veria aqueles olhos brilharem novamente.

"Atenção, Sr. Snape. Vou passar uma mão através do campo para examiná-lo melhor e trazer uma das suas mãos para o meu lado, o.k.? Não vá dizer ou fazer nenhuma besteira - não se esqueça dos guardas."

Aquela mulher o estava irritando profundamente com aqueles avisos idiotas e se, até então, não passara pela sua cabeça fazer nada contra ela, nesse momento, ele desejava que não houvesse nenhum guarda ali, para que pudesse, ao menos, torcer os dedos daquela infeliz. Era nisso que estava pensando enquanto observava o campo de força oscilar diante dele, ao contato dos dedos trêmulos que tentavam atravessá-lo - sim, ela devia estar mesmo morrendo de medo dele, pra tremer daquele jeito.

De repente, aquela mão pequena e tímida estava completamente do seu lado e ele pôde reconhecer, por sob a luva de borracha que a cobria, a antiga aliança de ouro branco trabalhado que fazia par com a sua própria. Seu pulso se acelerou e ele engoliu em seco, ficando visivelmente perturbado, mas não fez movimento algum. A mão de Hermione continuava estendida à sua frente, esperando.

"Vamos, Sr. Snape, me dê a sua mão, por favor. Vou fazer algo diferente com você, vou tentar uma terapia alternativa para o seu caso. Me dê a sua mão - os guardas sabem que você não vai me fazer nenhum mal, não precisa se sentir intimidado."

Hermione, ansiosa, teve que esperar durante mais algum tempo, até que Severo, finalmente, se decidisse a atender o seu pedido. A sua mão também estava trêmula quando tocou a dela, pela primeira vez em tantos meses. No início, ele estava um pouco arredio, sem muita vontade de responder àquele toque angustiado, mas sem coragem de negar a si próprio aquele pequeno contato tão ansiado. Ela puxou a mão dele até o seu lado, gentilmente.

"Sabe qual é o segredo para sobreviver a Azkaban, Sr. Snape? Há apenas duas alternativas, dependendo do que você deseja para a sua vida caso venha a sair daqui um dia: o ódio ou o amor profundos. Como médica, eu lhe recomendo o amor." Ela levou a mão dele até o peito, segurando-a firmemente sobre o seu coração, que batia acelerado. Preocupado com os guardas, ele se retraiu. "Não se preocupe, Sr. Snape, eles estão vendo que você não está me fazendo nada de mau. Eu disse que tentaria algo diferente com você, não disse? E você não está tocando o meu seio, está tocando o meu coração - há uma grande diferença entre essas duas coisas. Garanto que a sua esposa não vai ficar com ciúmes."

Severo não estava entendo aonde ela queria chegar, mas se deixou levar.

"Está sentindo? O meu coração batendo - é amor." Então, ela puxou a outra mão dele e a trouxe até si. "Isto - é amor também. Está sentindo? Está sentindo, Sr. Snape? O maior amor de todos... É nele que você precisa se concentrar enquanto estiver aqui."

Ele estava sem reação - não podia acreditar no que a sua mão esquerda lhe dizia. Sendo guiada pela de Hermione, ela acariciava algo redondo e saliente, coberto por vestes e em cujo interior havia alguma coisa que se agitava, de tempos em tempos, respondendo ao seu toque - alguma coisa não, alguém. O seu filho - o maior amor de todos. Então, não era só mais um sonho, era verdade - Hermione, sua esposa, a mulher que ele amava, estava grávida. Ela estava esperando um filho seu - e por esse filho, assim como por ela, ele lutaria com todas as suas forças.

"Preciso ir agora, Sr. Snape, mas quero que grave bem o que lhe disse: concentre-se nessa pequena amostra de amor para que você possa sobreviver a Azkaban e, quem sabe, um dia, sair daqui e retomar a sua vida. Falando nisso, tenho um recado da sua esposa pra você. Sim, nós nos conhecemos e, quando ela soube que eu viria até aqui, me pediu que lhe dissesse que ela o ama e acredita em você. Parece que ela tentou lhe dizer isso logo depois do julgamento, mas já tinham trazido você pra cá, não sei. Bom, é isso, Sr. Snape. Preciso ir mesmo. Que Merlim olhe por você."

Sim, Merlim estava olhando por ele.

Havia um brilho nos olhos de Severo que dizia que ele não enlouqueceria, que ele não desistiria.

Não mais.

 

(FIM)

 

* * * * * * * * *

 

N/A: Putz, terminei. Sinto que escrevi um monte de besteiras, um monte de clichês horrorosos, um monte de frases ultra-dramáticas, um monte de cenas pouco verossímeis... Nem sei se alguém vai conseguir chegar até essa nota, mas... Sei que esta fic está uma melação só, de tanto "amor", mas o que posso fazer, se foi assim que ela nasceu na minha mente? A idéia me surgiu assim que acordei e, dessa vez, resolvi não deixá-la de lado até que conseguisse escrever alguma coisa com ela - embora devesse estar estudando, betando, traduzindo ou escrevendo outras coisas. Acho que devo agradecer a Sarah, pelo argumento de o Severo ser acusado de assassinar, neste caso, a Sra. Granger, de a Hermione não acreditar nele num primeiro momento e da gravidez dela, além de, claro, o Lúcio ser o verdadeiro culpado - ou seja, devo agradecê-la pela metade da fic! ::risos:: A filha do comensal da morte (a quem ainda não leu, vale a pena) deve ter ficado gravada no meu subconsciente - muito obrigada, minha querida Sarah. A ela, todos os elogios; quanto aos defeitos desta minha fic, eles ficam por minha conta mesmo. De qualquer forma, agradeço a atenção de quem quer que esteja lendo isso. No fundo, até que me diverti, apesar de tudo, e cheguei a cogitar a hipótese de uma fic longa ou de, pelo menos, uma continuaçãozinha - mas sinto que, por enquanto, é melhor deixá-la como está. Não quero cair no ditado do "quanto mais mexe, mais fede". ::risos:: Beijo e muito obrigada.

 

Aviso: Todas as personagens do universo Harry Potter, assim como as demais referências a ele, não pertencem ao autor deste texto, escrito sem nenhum interesse lucrativo, mas a JKR.

(Como se ninguém soubesse... Mas prevenir é melhor do que remediar.)





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