O Silêncio da Madrugada

 Por Noctivague

 

 

Incômodo silêncio protetor na madrugada. Paz, e algo como um arremedo de felicidade após mais um dia de amargos desencontros. Sobre um leito nas masmorras, o abraço de dois corpos saciados e duas almas desesperadas.

 

O braço dele a envolve firme, numa submissão exigente. Ela cuidadosamente se liberta, num suspiro doloroso. Dois pares de olhos se fixam um no outro, hesitantes entre o brilho e a sombra. A voz dela, num tímido sussurro:

 

- Por quê, Severo?

 

Ele engole seco, seus olhos se escurecem ainda mais. Os dela, temerosos, investigam os dele, à procura da verdade em sua alma.

 

- Não sei. Realmente não sei.

 

A voz dele não demonstra nada além de um abandono cansado. Ela se sente escorregar, prestes a se perder no vazio. O toque da mão dele no seu rosto a resgata; os corações dos dois por um fio.

 

- Você sabe que eu te amo...

 

Os dedos dele cobrem sua boca e suas últimas palavras, numa delicada imposição de silêncio. Os lábios levemente trêmulos e a respiração ofegante dela quase lhe queimam a pele de repente fria.

 

Tão poucas frases, cortando fundo dentro deles como finíssimos cacos pontiagudos. Ela sempre sangra primeiro; o líquido morno das suas lágrimas manchando o seu rosto, invisível. Mas é a carne dele a que sofre mais; o peito retalhado com cortes abertos duas vezes cada um, a dor dele e a dor dela, que também é dele. Mais um caco, outro talho:

 

- Por quê, Hermione?

 

Ela respira fundo e leva decididamente a mão dele até o peito. Ele sente o seu próprio coração bater acelerado, um eco em resposta ao dela.

 

- Também não sei. E isso não importa.

 

A voz dela já demostra segurança e uma quase esperança. Ele se sente estranhamente perdido, ao mesmo tempo aliviado e assustado. Os lábios macios dela tocam a palma da sua mão num beijo morno.

 

- Você sabe que eu não posso...

 

O silêncio cai sobre ele enquanto as palavras se perdem entre duas bocas que se unem num beijo agridoce. Se essas noites são tudo o que ele pode lhe dar agora, isso é exatamente tudo o que ela poderia desejar.

 

O sol despertaria em poucas horas, e eles se separariam mais uma vez. Por que ele a machuca tanto, resistindo à sua própria verdade? Por que ela o ama tanto, contrariando qualquer lógica? Sobre um leito nas masmorras, o abraço de dois amantes protegendo-se de um pesado silêncio na madrugada.

 

 

- FIM -

 

 

N/A: Já que estou sofrendo de um terrível bloqueio com relação aos meus outros esboços de fics em andamento, decidi tentar deixar isto aqui vir a público. É só um textinho que me veio à mente num estalo (Ah, que saudades desses estalos!...) e que, apesar de curto e pobre de explicações - o ponto dessa mini-fic é justamente esse, eu acho, no explanations -, me é bastante querido. Perdoem-me, mas eu o acho bonitinho e - por que não? - publicável. Espero que tenham gostado. Obrigada por lerem - e deixarem um review, sim, please? :)

 

 

Aviso: Todas as personagens do universo Harry Potter, assim como as outras referências a ele, não pertencem ao autor deste texto, escrito sem nenhum interesse financeiro, mas a JKR.

 

(Como se ninguém soubesse... Mas prevenir é melhor do que remediar.)





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