O
Ingrediente
por Aline
Snape
Spoilers:
Todos os livros até o 5º
livro
Agradecimentos:
Agradeço a Sarah Snape
pela amizade, a Crisnap a quem dedico esta fic, e a todos os autores de fics que
indiretamente me inspiram.
Resumo:
O
Prof. Snape precisa de um ingrediente trouxa para fazer uma poção rara. O
Prof. Dumbledore pesquisou o ingrediente e descobriu que dentistas trouxas
utilizam a tal substância. Então ele pede para Severo ir até a casa dos pais
da Hermione para conseguir o tal ingrediente. É claro que a aluna Hermione
Granger deverá ir junto, já que o mestre de poções não consegue se virar
muito bem sozinho no mundo trouxa. Os dois partem calados no trem de Hogwarts até
a plataforma 9 ¾, em Londres. Lá Hermione o guia até sua casa. Severo Snape
é muito bem recebido pelos pais dela, pois é uma honra ter uma visita tão
ilustre. A Srª Granger desconfia dos sentimentos de sua filha e começa
observar melhor o professor. O Sr.
Granger fica muito impressionado com a inteligência do bruxo e faz o possível
para tornar-se seu amigo. Severo procura ser o mais educado possível porque no
fundo se sente bastante constrangido naquela situação: sabe perfeitamente o
que se passa em seu coração. Na volta os dois não conseguem mais esconder
seus sentimentos e acaba acontecendo o inevitável...
- Por que não perguntou a ele? Harry quis saber.
-
Porque ele anda muito mal humorado ultimamente... No mínimo ele iria me
ironizar e me mandar procurar a resposta na biblioteca. Hermione lembrou-se do
esbarrão e fez uma careta feia.
- Ele é sempre assim, não só ultimamente... Refletiu Harry.
-
Você tem razão Harry, aquele morcego... Mal amado... Nunca ninguém vai gostar
do pobre infeliz! Nem sei por que o diretor ainda dá emprego para ele... Disse
Rony.
Hermione ficou pensando nas palavras de Rony, “será que nunca ninguém vai gostar dele”? Ela sabia que sentia alguma coisa por ele, mas não conseguia definir ao certo o que era: compaixão, carinho, admiração? Tinha medo de pensar no professor e descobrir algo que não queria saber. Rony repetiu a pergunta, pois Hermione estava longe em seus pensamentos.
-
Que ingrediente é esse que você está pesquisando?
Harry
também quis saber: - Sim, aquele ingrediente que se adiciona por último na poção.
Ele tem a função de... que mesmo, Hermione?
-
O professor disse que é uma espécie de cola, mas deve ser totalmente atóxica,
pois a poção é para ser ingerida. É uma poção anticancerígena rara porque
é difícil conseguir este ingrediente. Parece que ele tem a função de seqüestrar
as células atípicas, unindo-as e desta forma o organismo consegue eliminar. O
problema é que em todos os livros que pesquisei, nenhum se refere a este tipo
de cola. Não consegui a composição química dela.
-
Talvez o Prof. Snape saiba... Disse Harry.
-
Acho que não... Vocês viram a cara de frustração dele quando comentou que o
Prof. Alvo Dumbledore deveria tomá-la devido à idade avançada? Respondeu
Hermione.
-
Então pela primeira vez o “grande mestre em poções” não conseguiu fazer
uma poção... Concluiu Rony.
-
Pode ser por este motivo que o Prof. Snape anda tão mal humorado! Será que o
Prof. Dumbledore está com câncer? Hermione perguntou aflita, olhando para os
amigos.
-
Só vamos saber se perguntarmos... Disse Harry.
-
Deixa comigo, depois do almoço vou perguntar para o diretor sobre sua saúde.
Sei que ele não vai responder de forma direta, mas o impacto da pergunta talvez
revele alguma coisa...
Hermione aproveitou alguns minutos antes da primeira aula da tarde para
ir até o escritório do diretor. Ele
sempre amável e com enorme sorriso convidou-a para sentar e acompanhá-lo num
chá.
-
Obrigado, mas não posso demorar, professor! Daqui a pouco tenho aula com a profª
Mc Gonagall!
-
Não se preocupe, depois eu falo com ela. Ela vai lhe dar presença, pois eu
precisava mesmo falar com a Srtª... Preciso de um enorme favor seu...
O Prof. Severo está preparando uma poção para mim, mas falta um
ingrediente...
Hermione gelou, olhou assustada para ele: - O senhor está bem,
professor?
-
Oh, sim! Obrigado por se preocupar comigo, mas eu estou bem! Vocês todos sabem
que não posso mais esconder a minha idade, então preciso tomar uma poção
para garantir a longevidade! Alvo disse olhando para ela e depois para os
quadros, cujos retratos ouviam atentamente a conversa.
Hermione sabia exatamente do que se tratava e deixou o diretor bastante
surpreso com suas informações:
-
É a poção anticancerígena, não é? O Prof. Snape ditou a fórmula e
comentou que o último ingrediente era muito difícil conseguir, por isso não
íamos ter aula prática. Não consegui descobrir nada na biblioteca, o que
vamos fazer?
-
Parabéns, a Srtª está sempre bem informada! Eu também revirei todos os
nossos livros, mas por incrível que pareça, encontrei o tal ingrediente no
compêndio de odontologia de trouxas... Sabemos que seus pais são dentistas e
que certamente eles fazem uso deste ingrediente. Gostaria muito que nesta
sexta-feira, você e o Prof. Severo fossem até a casa de seus pais para que
eles nos informassem quanto a composição química e viscosidade deste produto
e nos indique o endereço para adquiri-lo. A Srtª acha que eles poderão nos
ajudar?
-
Claro professor! Será um prazer, tenho certeza que eles ficarão muito
satisfeitos em ajudar! Logo Hermione lembrou que ouviu-o dizer “ você e o
Prof. Severo”. Ficou pensativa e parecia preocupada. Alvo reparou:
-
Algum problema?
-
Nenhum, só pensei que talvez eu possa fazer isso sozinha e poderíamos poupar o
Prof. Snape de fazer esta viagem. O senhor sabe que ele não é chegado ao mundo
trouxa...
-
Sei... Por isso faço questão que a Srtª vá junto. Só ele poderá definir o
grau de viscosidade do ingrediente, infelizmente você não teve a aula prática
e não saberia definir... Por outro lado, se ele for sozinho... Ele não conhece
seus pais, não sabe pegar um táxi... Não saberia se virar em Londres sem usar
magia... Da última vez ele me criou enorme confusão: entrou numa farmácia e
pediu óleo de rícino. O balconista perguntou para quê ele queria e Severo de
muito mau humor disse que era tratamento para o cabelo! O balconista se irritou
e bem, você deve imaginar a confusão... Eu fui chamado para aplicar o feitiço
da memória no rapaz e livrar o Severo de prestar depoimento na delegacia.
Hermione não se agüentou e teve que rir, imaginando a cena.
-
Hermione, será que os seus pais se importariam em recebê-lo? Sabemos que ele
tem um temperamento difícil... Não quero de forma alguma criar confusão para
eles e para você...
-
Não se preocupe professor. Acho que ele irá se comportar, ele sabe ser educado
quando quer... Alvo sorriu
para ela, concordando.
Hermione lembrou-se de uma ocasião no início daquele ano em que eles conversaram na biblioteca. Era sábado de manhã, quase todos tinham ido a Hogsmeade. Ela preferiu ir à biblioteca estudar e adiantar seus trabalhos. O local estava vazio, apenas ela e a bibliotecária, quando Severo Snape entrou. Severo estava procurando um livro de poções, que estava com ela. Ele reparou que ela era a única aluna e reconheceu logo a capa do livro que estava procurando em cima da mesa, onde ela estava. Pediu licença e perguntou se ela poderia lhe emprestar por alguns minutos, pois precisava elaborar umas questões da prova. Ela ofereceu o livro a ele e disse que poderia levar, mas ele pediu licença novamente e se sentou na mesma mesa que ela estava. Começou a rascunhar num pedaço de pergaminho, enquanto folhava o livro. Ficaram algum tempo em silêncio. Hermione prosseguiu sua leitura, mas era difícil se concentrar. A presença dele ali tão perto, de certa forma a incomodava. Quando Severo terminou as anotações, dobrou o pergaminho, colocou no bolso e começou a conversar com ela. Mostrou para ela o último capítulo daquele livro, que tratava de poções proibidas. Hermione ficou muito interessada em saber por que eram proibidas e estava cada vez mais empolgada nas explicações dele. Naquela manhã esqueceram-se que eram professor e aluna.
Conversavam animadamente, pareciam velhos amigos. Desceram juntos para o
salão principal na hora do almoço. Só então se separaram. Severo foi se
sentar ao lado do diretor, na mesa dos professores. Hermione sentou-se sozinha,
seus amigos e demais colegas de turma estavam em Hogsmeade. Estava sem fome, não
conseguia parar de pensar nele. Como estava diferente, parecia ter dupla
personalidade... A partir deste dia sabia que sentia algo por ele, mas tinha
medo de descobrir...
Hermione se retirou da sala do diretor, foi até o corujal. Mandou um
bilhete para seus pais dizendo que ela e o professor iriam visitá-los na
sexta-feira à noite, a pedido do diretor, para que eles providenciassem o
quarto de hóspedes.
Severo em sua masmorra estava aflito só em pensar na tarefa que teria
pela frente. Por que o diretor não permitiu que ele fosse sozinho? Poderia
aparatar na ordem da fênix e de lá ele se virava. Com o endereço nas mãos
pegaria um táxi e com certeza chegaria até a casa do Sr. Granger. Está certo
que ele não sabia lidar com libras, mas poderia aprender até sexta-feira. Até
comprou um livro sobre o mundo trouxa...
A idéia de ir com Hermione não lhe agradava. Sabia que no fundo sentia
alguma coisa pela aluna. Seria só admiração? Tinha medo de descobrir. Tinha
medo de encarar os pais dela. Afinal deveria ter a mesma idade que o pai dela...
Sexta-feira, após o café da manhã, Alvo Dumbledore e Minerva
McGonagall despediram-se de Severo e Hermione. Enquanto alcançava um envelope
para Severo, Alvo informou-os: aqui tem libras suficientes para comprar vinte
frascos do ingrediente, pagar o deslocamento de ida e volta, as refeições, e
para pagar as suas diárias no hotel, Severo! Hermione, por favor, arrume um
hotel razoável para o seu professor, de preferência próximo à casa de seus
pais. Não queremos dar trabalho a eles. Vocês dois retornem no trem de
domingo, eu e a Minerva ficaremos aguardando.
Severo guardou o envelope no bolso e ajudou a moça a subir na carruagem.
Hagrid os levou até a estação de Hogwarts. Olhou Hermione com certa preocupação
ao vê-la embarcar no trem acompanhada do sinistro Prof. Snape, mas era ordem do
diretor e ele deveria cumprir sem questionar.
O trem estava praticamente vazio. Entraram numa cabine e arrumaram suas
bagagens. Hermione sentou-se próxima à janela, de frente para Severo. Até
aquele momento não haviam trocado nenhuma palavra, exceto no salão principal
quando se cumprimentaram.
Severo pegou um livro em sua bagagem e começou a ler. Estava tão
compenetrado na leitura que até se esqueceu que estava acompanhado.
Hermione ficou olhando a paisagem na janela. As montanhas de Hogwarts
afastando-se cada vez mais naquela bela manhã ensolarada. Algum tempo depois o
trem passou por várias árvores e agora Hermione podia ver o reflexo do
professor no vidro da janela. Ficou horas contemplando o rosto do professor e
seus pensamentos deixavam-na cada vez mais confusa. Não conseguia mais admirar
a bela paisagem lá fora, somente o reflexo dele tomava sua total atenção.
“Por que ele era tão solitário? Se realmente não era mais comensal da
morte, então por que agia daquela forma? Gostaria tanto de ser sua amiga... de
vê-lo sorrir... Todos conheciam seu passado, mas parecia que ninguém se
importava com seu presente ou seu futuro, exceto o diretor que sempre demonstrou
um carinho especial por ele”.
Hermione buscava uma justificativa para o comportamento dele e concluiu
seus pensamentos imaginando o quanto seu professor era infeliz...
Horas após o início da viagem, o lado que Hermione viajava começou a pegar sol. Ela tinha duas opções: fechar a cortina ou sentar-se ao lado do professor. Se fechasse a cortina, provavelmente iria interferir na claridade do ambiente e não queria atrapalhar a leitura dele. Pediu licença, mas Severo não ouviu, ou se fez que não ouviu. Sentou-se ao lado dele e como era muito curiosa, esticou o pescoço para tentar ler a capa do livro. Não conseguiu e achou que aquele silêncio já estava passando dos limites. Resolveu iniciar uma conversa: - Professor, por favor, que livro o senhor está lendo? Severo mostrou-lhe a capa. Hermione leu em voz alta: -“ Tudo o que você precisa saber sobre o mundo dos trouxas”! Deve ser interessante... Depois o senhor me empresta? Severo não perdeu a oportunidade de ironizar:
- Será que a Srtª vai encontrar alguma coisa que ainda não sabe?
Hermione não deu a mínima para seu mau humor e preferiu ser bem
educada. No íntimo estava disposta a quebrar aquele gelo, a descobrir o outro
lado daquele homem que ele não se deixava conhecer.
-
Tenho condições de avaliar o grau de fidelidade das informações deste livro,
por isso gostaria de dar uma olhada...
-
Eu não tenho dúvidas quanto a isto. Respondeu Severo, com meio sorriso.
-
Posso lhe ajudar! Afinal, creio que foi por isso que o diretor me mandou vir
junto...
-
Sei... Severo fechou o livro e
entregou-o a ela: - Pode ver, preciso mesmo fazer uma pausa.
Hermione folhava o livro com bastante interesse. Os principais tópicos
sobre meios de transporte, comunicação, locais públicos, esporte, lazer...
Meia hora depois devolveu o livro a ele e comentou:
– Parece ser muito bom, foi escrito por trouxa...
-
Só que este livro apenas descreve ou cita as coisas, não explica como funciona
tanta tecnologia... Argumentou Severo.
-
O que você gostaria de saber mais, exatamente?
Perguntou Hermione, querendo ser prestativa.
-
Na verdade, estou mais interessado em saber por que os trouxas são tão hostis?
Hermione ficou um pouco chateada com aquela pergunta, mas estava decidida
a não se aborrecer.
-
Nem todos, Prof. Snape! Acho que bruxos e trouxas se equivalem. Têm gente boa e
má em ambos os mundos... Concluiu Hermione.
Severo ficou um pouco pensativo e teve que concordar com ela.
Logo depois uma moça entrou com um carrinho para servir o almoço.
Quando Hermione foi pegar seus galeões para pagar, Severo já havia pago
o seu e o dela.
-
Obrigado professor, mas... Ele não a deixou terminar e disse: - Não me
agradece, na verdade é a escola que está pagando, estamos á serviço...
Almoçaram em silêncio. Depois da refeição, Severo encostou-se no
estofado da poltrona e cochilou. Hermione retirou um livro de sua mochila e começou
a ler. Era um livro de trouxa, um romance. Depois de algumas páginas, ela olhou
o rosto adormecido de Severo, tão pálido, tão sereno. Fixou seu olhar nos lábios
dele e ficou imaginando que sabor teria seus beijos. “ Céus estou ficando
maluca por este homem! Até agora ele só me ironizou. Por que eu não paro de
pensar nele? Ele nunca me notará, eu não passo de uma aluna impertinente para
ele”. Hermione estava muito melancólica com estes pensamentos.
Severo acordou e voltou a ler seu livro, já estava nas últimas páginas. Estava muito admirado de saber que sem o uso de magia, os trouxas levavam uma vida bastante confortável. Ao terminar a última folha, virou-se para Hermione para lhe perguntar algo e viu que ela também estava lendo um livro. – Posso saber que livro é este que a Srtª está lendo? Ela ficou surpresa, jamais imaginaria que ele tivesse tal interesse. Hermione mostrou-lhe a capa, meio encabulada, repetindo o ato dele. Severo leu em voz alta: -“Romeu e Julieta”... O que é? Ele quis saber.
Hermione ficou vermelha de tão envergonhada. Pensou um pouco e achou
melhor responder: - É um livro clássico, muito famoso para os trouxas. É
classificado como romance, mas para mim parece mais um drama...
-
A Srtª me empresta quando acabar de ler? Hermione
ficou mais surpresa ainda com aquele pedido: - Empresto, mas acho que o senhor não
vai gostar...
Aquela horinha de sono fez bem a ele, parecia de bom humor. Percebeu que
sua aluna ficou envergonhada e quis provocá-la: - Por que a Srtª acha que não
vou gostar? Por ser romance ou por ser drama? Perguntou com um sorriso maroto
nos lábios.
Hermione não sabia o que dizer, estava muito sem graça. Olhou para o chão
pensativa. Severo resolveu amenizar a situação na qual a colocou.
– Estou pensando em escrever um livro sobre a minha vida. “A vida de
um comensal da morte” : seria um belo romance ou um drama e tanto, depende do
ângulo de vista... Você não concorda? Acho que vou gostar do livro “Romeu e
Julieta”, talvez ele me inspire... Se a Srtª me emprestar, é claro...
Hermione gaguejou um pouco quando disse: - É que eu nunca pensei que o
senhor teria interesse por outros assuntos, além de poções, plantas ou artes
das trevas...
Severo
sorriu quando disse: - Tenho interesse em muitas outras coisas também...
Hermione sentiu o olhar dele penetrando-a profundamente. Seu rosto ficou
vermelho e seu corpo trêmulo. Voltou os olhos para o livro, mas era impossível
ler alguma coisa. O que ele quis dizer com aquilo? Por que a colocava em situações
embaraçosas?
Severo ficou pensando o quanto ela ficava graciosa com aquela
ingenuidade, aquela timidez. Se ela fosse um pouquinho mais velha... Ele
provavelmente não conseguiria resistir... Prosseguiram a viagem em silêncio.
À tarde a moça trouxe o carrinho com chá e torradas.
Hermione guardou o livro e sentou-se novamente próxima à janela.
Procurou observar a paisagem e tentar tirá-lo de seus pensamentos. Contava os
minutos para o final da viagem. Severo ora olhava a paisagem, ora olhava os
cabelos cacheados dela e imaginava a maciez, o perfume. Ficava pensando se algum
dia teria coragem suficiente para se declarar a ela.
No final da tarde, quando estavam quase chegando Hermione assumiu sua
postura de guia e disse: - Professor, o senhor deverá guardar a sua capa! Os
trouxas não estão acostumados com estas vestes e o Sr. chamará muito a atenção...
Severo agradeceu, levantou-se, tirou a capa e dobrou-a com cuidado. Ele já
estava pronto para desembarcar. Severo
vestia roupas sociais pretas. Estava muito bem arrumado. Sem a capa passava como
um trouxa muito elegante. Hermione vestia calças jeans, uma camiseta de malha e
um casaquinho leve por cima.
Severo carregou as suas bagagens e de Hermione. Em seu mundo nunca
precisou carregar bagagens. Era serviço de elfos ou nada que um simples feitiço
não resolvesse. Não levavam muitas coisas, apenas o suficiente para passar
dois dias.
Ao sair da estação de trem, Hermione chamou um táxi. Ela e Severo
sentaram-se muito próximos. Ele não sabia qual a nota pegar para pagar a
corrida, por isso preferiu sentar-se atrás com ela. Hermione disse o endereço
para o motorista. Meia hora depois chegaram em frente à casa onde os pais dela
residem. Severo mostrou o envelope e ela retirou uma única nota que entregou ao
motorista. Este lhe devolveu algumas moedas de troco. Severo pegou as bagagens.
Hermione havia descido do táxi e já estava tocando a campainha.
Sua mãe veio atender com um enorme sorriso no rosto. Abraçou e beijou
sua filha carinhosamente. Hermione apresentou o professor à sua mãe que o
cumprimentou com um forte aperto de mão.
-
Entrem, por favor! Sr. Snape fique à vontade! O meu marido foi ao mercado
comprar umas cervejas para vocês, mas já deve estar voltando. Hermione, minha
filha, leve a bagagem dele para o quarto de hóspedes.
-
Sra. Granger, por favor, eu não posso ficar aqui. O diretor me disse para
arrumar um hotel perto da sua casa. Eu não quero incomodar...
-
Não senhor! Não é incômodo nenhum! É um enorme prazer receber um bruxo tão
distinto quanto o senhor! O diretor
que me desculpe, mas desta vez o senhor é o nosso convidado!
-
Agradeço muito, mas realmente eu não posso aceitar... Neste instante o Sr. Granger chegou; deixou as compras em
cima da mesa da sala de jantar e foi até a sala cumprimentar o professor. Deu
um forte abraço em Severo e depois foi abraçar a filha. Hermione beijou o pai
com muito carinho. Severo não pôde evitar uma pontinha de ciúmes daquele
beijo. Nunca recebera um beijo dela e tudo indicava que jamais receberia, pois
faltava apenas um ano para ela se formar. Quanto muito no dia da formatura,
receberia um aperto de mão, se ao menos fosse diretor de sua casa... Severo
parecia longe com esses pensamentos, olhou novamente o Sr. Granger e reparou que
era um homem relativamente jovem, deveria ter trinta e poucos anos... Por Merlin!
Ele deve ter a minha idade! Eu não posso me apaixonar por uma adolescente que
poderia ser a minha filha... O que está acontecendo comigo?
Severo voltou a se concentrar nas pessoas à sua frente e procurou
esquecer momentaneamente aqueles pensamentos insanos.
O
Sr. Granger reforçou o que a esposa tinha dito: - O Sr. ficará aqui conosco!
Nada de ir para hotel, o Sr. é nosso convidado e é uma honra recebê-lo.
Venha, Sr. Snape! Venha tomar uma cerveja comigo!
E puxou-o pelo braço, levando-o até a mesa da sala de jantar.
A Sra. Granger trouxe rapidamente dois copos. Enquanto Severo
experimentava aquela bebida diferente, a Sra. Granger guardou as compras e dava
continuidade ao preparo do jantar. Hermione pediu licença e se retirou. Subiu
as escadas em direção aos quartos, levando as bagagens. Tomou um banho rápido,
arrumou-se e logo depois foi se sentar junto aos homens.
Pegou uma lata de refrigerante e enquanto tomava ficou ouvindo a
conversa.
-
A minha filha nos contou tudo sobre o senhor. Sabemos que é o professor mais
inteligente da escola!
-
Creio que ela exagerou um pouco... Disse Severo virando-se para ela com olhar de
censura. Severo não pode deixar de reparar nela. Com os cabelos molhados do
banho e com aquelas roupas diferentes... Roupas de trouxa certamente! Como
estava atraente! A Sra. Granger
trouxe um prato de aperitivos e também reparou nas roupas que Hermione
escolhera para vestir. Usava uma mini saia e uma blusinha curta combinando, calçava
sandálias baixas. Parecia confortável e estava muito bonita. Não era uma
noite quente para usar aquelas roupas, muito embora não era frio. Estava uma
noite bastante agradável.
- Muito gostosa esta bebida! É um pouco diferente da cerveja amanteigada
de meu mundo... A Srtª não bebe? Perguntou a ela.
-
Não, eu prefiro refrigerante! Esta cerveja tem um ter de álcool bem mais
elevado e não é amanteigada como aquela.
Respondeu Hermione.
Severo pegou a latinha e começou a ler o rótulo, ficou espantado com o
teor alcoólico.
-
É realmente, isto significa que duas é o limite. Acima disto torna-se uma poção
perigosa! Concluiu. O Sr.
Granger sorriu e disse: - Que nada! Hoje vamos comemorar a sua visita. Tome
quantas quiser!
A Sra. Granger se aproximou para colocar os pratos e talheres na mesa.
Hermione se ofereceu para ajudar. –
Não se preocupe filha. Fique descansando, vocês fizeram uma longa viagem e
devem estar cansados! Já está tudo pronto, eu já vou servir!
Severo não pode evitar a pergunta: - Vocês não tem elfos domésticos,
ou melhor, algo que os substitua? O
Sr Granger não entendeu nada, mas Hermione respondeu: Aqui chama-se empregada
doméstica e ela só trabalha oito horas por dia, tem o final de semana livre...
Eu sempre achei que os elfos deveriam se libertar da escravidão!
Severo respondeu: - Lembre-se que o trabalho que eles executam não é tão intenso assim, eles podem muito bem fazer uso da magia para auxiliá-los, já os daqui, não!
Hermione não se
convenceu: - Mesmo assim, professor, servir vinte e quatro horas é exagero!
Foi a vez do Sr. Granger entrar na conversa: - A minha filha é sempre
teimosa assim?
-
Quase sempre! Respondeu Severo, olhando para ela com um sorriso maroto.
-
Papai, até o senhor? Estou vendo... os dois vão falar mal de mim?
-
Já que perguntou, por favor, professor, me diga como é a sua aluna em sala de
aula?
A Sra. Granger trouxe duas travessas de salada e ficou parada esperando
para ouvir a resposta. Hermione se encolheu um pouco, aguardando o que ele iria
dizer.
Severo estava se sentindo muito especial, o centro das atenções.
Preferiu falar a verdade, sem precisar aumentar ou diminuir nada.
-
A Srta. Granger é a melhor aluna de Hogwarts nestes últimos anos! Ela se
dedica em todas as disciplinas e consegue sempre as melhores notas. Até na
minha disciplina... Severo sorriu ao dizer isso. Hermione sabia muito bem o que
ele queria dizer com aquilo, era muito difícil conseguir a nota máxima com
ele, porque ele não deixava passar nenhum detalhe na correção.
Os pais dela se olharam e pareciam muito orgulhosos da filha. Severo não
ia perder esta oportunidade e prosseguiu: - Por outro lado, ela anda sempre com
dois amigos que estão sempre metidos em confusão. Logo ela às vezes também
se mete nestas confusões por causa deles e outras vezes os tira de inúmeras
enrascadas... Hermione corou um pouco, mas era tudo verdade o
que ele dizia. Severo no fundo nunca gostou destas companhias para ela. Harry
era muito arrogante e Rony um boboca, era como um desabafo dizer aquilo.
- E quanto a sua postura em sala de aula? Ela conversa muito com os dois?
Atrapalha a sua aula? A mãe de Hermione quis saber.
-
Não, de modo algum! Acho que é a única que consegue prestar atenção em tudo
que eu digo! Por isso é a minha melhor aluna... Severo teve que dizer, mas
arrependeu-se logo em seguida, poderia deixar transparecer alguma coisa e pensou
no quanto ela atrapalhava as suas aulas ultimamente por causa deste sentimento
que ele não queria admitir.
A Sra. Granger pediu ajuda ao marido para trazer o carneiro assado e
ambos entraram na cozinha. Nestes poucos instantes que ficaram a sós, Severo
perguntou a ela se ficou chateada com o que ele disse. – De modo algum,
professor! Você só falou a verdade... Quando seus pais retornaram, somente a mãe
de Hermione percebeu que ambos olhavam-se de forma diferente, pareciam enfeitiçados
um pelo outro.
– Vamos jantar! Severo já ia se levantar, quando a Sra.
Granger disse: O senhor pode ficar neste lugar! Espero que goste da refeição!
Hermione
sentou-se ao lado do professor, uma vez que a mesa era retangular e no outro
lado era o lugar dos pais dela. Esta aproximação repentina deixou Severo
discretamente feliz.
Severo já estava terminando sua segunda lata de cerveja, quando o pai dela lhe alcançou outra. Ele aceitou, mas estava preocupado. Poderia acabar falando bobagem. Era melhor ele ponderar o que iria dizer. Hermione iniciou o assunto do ingrediente, o principal motivo deles estarem ali. O Sr. Granger ouviu tudo com atenção e depois os tranqüilizou:
- Vocês vieram no local
certo! Usamos sim, este ingrediente, é de grande importância para restauração.
Amanhã levarei o Sr. Snape no meu consultório para lhe mostrar os diferentes
tipos.
-
Papai, o Prof. Dumbledore pediu para que comprássemos alguns frascos para
levar. Amanhã encontraremos alguma loja aberta?
-
Sim, mas somente na parte da manhã. Pode deixar, Hermione eu irei com ele!
Tem uma rua no centro da cidade que só vende materiais odontológicos.
Vai ser muito fácil resolver isso! Você pode ficar em casa e fazer companhia
para a sua mãe. Faço questão de levar o Sr. Snape para conhecer o centro da
cidade. Agora virando-se para ele e
dizendo bem baixinho: - Tem uns barzinhos que funcionam vinte e quatro horas,
talvez o Sr. tenha interesse em conhecer... A propósito, o Sr. não é casado,
é?
Hermione ouviu e não gostou nenhum pouco: - Papai! Acho que o Sr. já
está na terceira cerveja... Mas seu pai não deu a mínima importância e
Severo lhe respondeu:
-
Não, eu não sou casado! Sr. Granger, eu estou a serviço e acho que vamos
deixar o barzinho para uma próxima vez...
-
Está certo! Mas vai me prometer que voltará a me visitar...
-
Não tenha dúvida Sr. Granger, depois de ser recebido desta forma... Eu só
tenho a agradecer tanta gentileza e com certeza voltarei a visitá-los.
Severo até ficou um pouco assustado com tanta convicção que falou
isso, seria já o efeito da cerveja ou já contava com um futuro promissor ao
lado da jovem? O pai da moça
parece que conquistou, agora teria que ser gentil com a futura sogra...
-
Sra. Granger, a carne está maravilhosa! A combinação dos temperos está
perfeita, me parece que a Sra. usou a proporção certa de manjerona, sálvia,
louro, páprica, vinho branco, alho... Severo
numerou corretamente todos os temperos. O casal ficou impressionado.
A Sra. Granger ficou muito curiosa: - O Sr. sabe cozinhar?
-
Sei, mas já faz um tempinho que não preciso mais cozinhar. Eu moro no castelo
e lá todas as refeições são preparadas pelos elfos. A última vez que
cozinhei foi quando estava fazendo mestrado na França. Mas este dom eu
desenvolvi mesmo fazendo as poções. Aprendi muito sobre plantas em geral,
ervas medicinais, ervas aromáticas. A degustação é só uma questão de tempo
para se aperfeiçoar.
O
Sr. Granger ficou muito interessado e perguntou:
-
Me fale, Sr. Snape como devemos proceder para degustar um vinho?
-
É a minha bebida favorita, depois do champagne, é claro. Temos uma seqüência
a seguir: inicialmente avaliamos a cor, depois o aroma e por último o sabor...
Se for vinho branco, este não poderá estar oxidado, pois o sabor ficará
alterado; percebe-se pela tonalidade da cor. O aroma geralmente é frutado, de
acordo com a variedade da uva que lhe deu origem; e o sabor, bem o sabor é
bastante pessoal. Cada um tem seu vinho branco preferido. Se for vinho tinto,
este deverá ser envelhecido. A cor rubi indica um vinho envelhecido
corretamente. Bouquet representa um conjunto de aromas, que também vai variar
de acordo com a variedade da uva utilizada e por fim o sabor que é bem mais
encorpado que o vinho branco.
-
Belíssima explicação! Exclamou o Sr. Granger. - Amanhã no almoço serviremos
vinho. O Sr. me ajudará a escolher!
Hermione já estava acostumada com as explicações detalhadas dele e não
se surpreendeu com a aula que acabara de dar a seus pais.
-
Amanhã eu pretendia almoçar em um restaurante, sei lá... Não quero dar
trabalho. Afinal a empregada tem folga... Severo
olhou discretamente para Hermione.
-
Sem problemas, conheço um ótimo aqui perto. Então está combinado, quando
voltarmos do centro, passamos aqui para pegar as meninas...
O Sr. Granger demonstrava ser muito carinhoso com a esposa e filha.
Após o jantar, a Sra. Granger serviu sorvete de sobremesa. Depois foram
se sentar na sala. O Sr. Granger ligou a televisão e Severo ficou assistindo
sem entender muita coisa. O livro que leu dedicou várias páginas sobre o
assunto, mas ele não achou tão divertido quanto o autor do livro.
Hermione ajudou a sua mãe a tirar a louça da
sala de jantar. Depois retornaram a sala. Já estava ficando tarde e tanto ela
quanto ele estavam cansados da viagem. A
mãe de Hermione disse para a filha acompanhá-lo até o quarto de hóspedes. -
Hermione lhe mostrará onde é o banheiro e se quiseres tomar um banho,
fique à vontade! Severo agradeceu,
desejou boa noite ao casal e subiu as escadas na companhia de Hermione.
Hermione mostrou para ele como ligava a água quente do chuveiro. – Não
posso usar a minha varinha para fazer isso? Perguntou de modo quase infantil.
-
Claro que não, nem precisa! É muito simples! Olhe, esta aqui sai água quente,
a outra água fria... Você regula a temperatura que quer, abrindo as duas!
Simples, não?
-
Não vai me dar choque?
- De modo algum... Hermione teve que rir. Quando ia sair do banheiro, Severo segurou delicadamente o braço dela e disse baixinho em seu ouvido:
- Você está muito bonita esta noite!
Hermione ficou vermelha e saiu o mais rápido que pode.
Sentou-se na cama de seu quarto e as palavras dele se repetiam em sua
mente. Ela não sabia se ele dissera aquilo por causa do efeito da cerveja ou se
estava acontecendo alguma coisa com ele. Com ela já fazia tempo que sabia o que
estava acontecendo. Neste momento a
sua mãe veio lhe dar um beijo de boa noite e percebeu o quanto ela estava
abalada emocionalmente.
- Filha, não me leve a mal, mas você se arrumou esta noite para ele, não foi? Hermione apenas olhou tristemente para ela.
– Você gosta dele, não?
Hermione disse que sim, não podia mais esconder seus sentimentos.
Precisava se desabafar com alguém. Será que sua mãe poderia lhe ajudar?
-
Ele já é um homem feito. Tem certeza que ele não é casado, não tem ninguém?
É tão difícil encontrar alguém como ele ainda solteiro... É muito
inteligente e muito atraente... Se eu não tivesse o seu pai, não sei não...
Falou brincando para descontrair um pouco.
-
Mãe, estou sofrendo tanto por isso... A Sra. Granger abraçou a sua filha. –
Entendo Hermione, eu já passei por isso também. Veja bem, ele gosta muito de
você, demonstrou isso quando a elogiou. Mas não sabemos se ele gosta da mesma
forma que você gosta dele... Você me parece muito jovem para ele...
-
Mãe, o que eu posso fazer? - Neste
caso, nada. Deixe as coisas acontecerem. Se ele sentir algo a mais por você,
ele vai lhe dizer.
Hermione
parecia se sentir mais aliviada. – Você acha mesmo que ele vai me dizer?
-
Hermione, querida quando as pessoas se apaixonam, acabam se revelando mesmo sem
querer. É inevitável esconder um sentimento que nos transforma tanto, ficamos
diferentes. Você está diferente e eu percebi. Se ele ficar diferente, você
também vai perceber...
-
Você acha que o papai o aceitaria?
-
Que pergunta boba, Hermione! Você não reparou como o seu pai está tratando
ele? Seu pai está encantado com ele! Provavelmente já até pensou na
possibilidade de tê-lo como genro. Mas você não me perguntou se eu o
aceitaria? Hermione
agora ficou confusa. – Mamãe...
-
Filha, eu quero o melhor para você. Só o aceito se ele lhe fizer feliz, você
sabe disso. Não se esqueça, tem a diferença de idade... Você sabe quantos
anos ele tem?
-
Não, mas ele estudou em Hogwarts na época dos pais do Harry.
-
Foi o que eu imaginei, ele deve ter a idade do seu pai... Fez uma pausa e entrou
no assunto que queria: - Hermione, você percebeu que está mais alta, logo esta
sua mini saia está um pouco mini demais...
-
Eu não reparei, está feio?
-
Claro que não, só acho um pouco provocativo. Seu professor também reparou...
-
Verdade? Hermione não sabia se ficava contente ou não.
-
Era o que eu estava tentando lhe dizer... Ele já é um homem. Você é uma
adolescente ainda. Não é uma boa idéia provocá-lo. Se ele está sozinho e
carente, talvez queira você apenas para se divertir...
(Bem papo de mãe, não acham?)
-
Mamãe, como posso saber quais as intenções dele?
-
Hermione, você faz cada pergunta... Eu
não sei exatamente, mas se ele tiver um brilho no olhar, você saberá.
Pelo menos com o seu pai foi assim...
-
Muito obrigada, mamãe! Torce por mim, ta?
Hermione beijou a sua mãe. Ela se levantou e antes de sair do quarto só
repetiu a frase: - Se ele lhe fizer feliz...
Severo saiu do banheiro e foi para o quarto de hóspedes. Logo depois
Hermione foi ver se ele precisava de alguma coisa.
-
Não se preocupe, tenho a minha varinha comigo... Falou com um sorriso maroto.
-
Boa noite, professor! Hermione
ficou curiosa em vê-lo de pijama. Nunca em Hogwarts teria esta oportunidade.
Ambos adormeceram facilmente devido ao cansaço da viagem. Severo que
estava habituado a acordar cedo e por estranhar um pouco o local também acordou
cedo no dia seguinte. Arrumou-se e desceu as escadas. Encontrou o casal também
acordado, que o cumprimentou e convidou-o para um delicioso café da manhã.
Hermione ficou dormindo quando seu pai e Severo saíram. O consultório
do casal era naquela quadra. Foram caminhando e conversando. Ao chegar no
consultório, Severo já sabia toda a formula química do ingrediente. O Sr.
Granger estava bastante impressionado com a memória do professor, a facilidade
que tinha para aprender as coisas. De lá pegaram um táxi e foram até a rua
dos dentistas, como era conhecida. Severo olhou as lojas com grande interesse.
Comprou os ingredientes que precisava e ainda tinham bastante tempo para
conhecer outras ruas.
Na rua de baixo ele avistou um grande templo, muito bonito com estátuas
de anjo. Quis entrar para conhecer por dentro. Era uma igreja. O Sr. Granger lhe
explicou rapidamente todo o significado da fé para os nascidos trouxas.
Disse-lhe que existia uma crença de que quando se entra pela primeira vez numa
igreja, faz-se um pedido e se a pessoa tem fé, o seu pedido se realiza. Severo
mesmo achando aquela crença tola, inconscientemente fez um pedido.
Na outra rua entraram numa grande livraria. Severo parecia estar no paraíso,
foi direto para a seção de livros sobre plantas. Acabou comprando alguns e
saiu de lá com um pacote.
Quando retornaram já estava quase na hora do almoço. Hermione e a mãe
estavam arrumadas e esperando-os para irem ao restaurante.
Hermione estava muito bonita, vestia um conjunto de saia e blazer de
linho branco, com uma blusa delicada cor de rosa por baixo. Seus cabelos soltos
cor de mel realçavam no contraste da cor branca.
Severo ao vê-la cumprimentou-a e sorriu. Como ela estava linda! Estava tão acostumado a vê-la quase sempre de uniforme que
qualquer roupa que ela usasse chamaria a sua atenção. Deixou o pacote de livros em cima da mesa e acompanhou
Hermione até a porta. O Sr. Granger chaveou a porta, depois abraçou a sua
esposa e saíram. Fizeram questão de irem um pouco mais na frente para deixá-los
mais à vontade. Severo narrou a
sua aventura da manhã, falou dos livros que comprou. Estava muito feliz, nem
parecia o mesmo Severo de Hogwarts. Hermione reparou nesta mudança e lembrou o
que sua mãe disse na noite passada “Ficamos diferentes”... Uma pontinha de
esperança começou a surgir.
O restaurante era bastante requintado. Severo puxou a cadeira para ela e
depois sentou-se ao seu lado. Ele escolheu o vinho. O garçom trouxe quatro taças
e depois que Severo degustou e aprovou, a bebida foi servida.
O almoço estava ótimo e a companhia estava melhor ainda. Severo pouco
se importava com o valor da conta, havia economizado na diária e fazia questão
de pagar a conta dos quatro. O Sr. Granger não queria aceitar de jeito nenhum,
mas Severo sempre muito teimoso disse: - Esta é a única condição para que eu
volte a visitá-los... Devemos dividir as despesas. Não é justo o senhor pagar
tudo! Ele teve que concordar para não perder o amigo.
Ao saírem do restaurante, a mãe de Hermione deu uma ótima sugestão ao
casal: - Filha, por que vocês dois não vão ao shooping passear? Aposto que o
Sr. Snape gostará de conhecer, se ele gostou de ver as ruas do centro...
-
Ótima idéia, mamãe! E virou-se para Severo e perguntou: - Quer ir, professor?
-
Claro, Srtª Granger! Ele faria qualquer coisa para ficar sozinho com ela...
Os pais dela despediram-se e fizeram o percurso de volta. Hermione e
Severo seguiram caminhando até a esquina. Havia uma sinaleira. Hermione parou
para esperar o sinal de pedestres abrir, mas Severo não estava acostumado com
estas coisas e já ia passar. Hermione segurou-o pela mão. – Hei! Espere
ainda não é a nossa vez!
-
E como eu vou saber quando é a minha vez? Perguntou bastante confuso.
-
Assim que mudar a cor da sinaleira: quando ficar verde, segue; vermelho
significa pare!
-
Hum, interessante! Verde é a cor da Sonserina, logo é a mais importante...
-
Nada a ver, Sr. Snape! Ela achou
graça no que ele disse. A
sinaleira ficou verde para os pedestres, mas Severo permaneceu no lugar.
Hermione segurou novamente a sua mão e de mãos dadas atravessaram a avenida.
Severo estava achando muito agradável ficar de mãos dadas com ela. Aquela
sensação de proximidade, de querer ultrapassar a barreira de professor e
aluna. Não tinha idéia do que fazer para conseguir isso, só sabia que era
muito agradável estar a seu lado. Quando chegaram do outro lado da rua,
continuaram de mãos dadas. Hermione também gostava da idéia de entrar no
shooping de mãos dadas com ele.
Severo reparou na porta de vidro que se abria antes da pessoa tocá-la e
não precisava falar nenhum feitiço...
– Vocês também fazem uso de magia?
-Oh,
não! Funciona desta forma, quer ver? Hermione soltou a mão dele e foi na
frente. Quando pisamos neste tapete, um botão é acionado e a porta abre.
Venha, é a sua vez!
Severo
entrou no shooping e começou a olhar as vitrines. Tudo era muito mais elegante
do que as lojas do beco diagonal. Ficou deslumbrado com a escada rolante.
Hermione o levou no segundo piso, onde ficavam os cinemas. Ela quase não
acreditou quando ele a convidou para assistir a um filme. Ele havia lido no
livro durante a viagem que cinema era um dos lugares preferidos para casais de
namorados. Queria saber o motivo ou se o local poderia ajudá-lo a conquistar
sua amada. Enquanto ele comprava as entradas (deu uma nota de valor muito alto e
recebeu várias de troco), Hermione tirou seu celular da bolsa e avisou sua mãe
que eles iriam ao cinema, para não se preocupar. Entre um filme infantil, uma estréia, cuja fila era
quilométrica, optaram por um filme histórico.
Hermione não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Ela sentada
ao lado do tão odiado (agora amado) professor de poções, juntos no cinema...
O filme era sobre a história de Joanna D’Arc, que foi considerada
bruxa e por isso morreu queimada na fogueira. O final trágico deixou Hermione
com lágrimas nos olhos. Severo percebeu que ela estava chorando e a abraçou
carinhosamente. Ofereceu seu lenço a ela e ficou pensando no livro, ao menos
desta vez concordou com o autor. Ficaram assim, abraçados, até que as luzes se
acenderam e restavam poucos casais no cinema. Infelizmente aquele momento mágico
terminou e eles saíram. Severo não poderia continuar abraçado a ela, uma vez
que não teria justificativa... Hermione até pensou na possibilidade de voltar
a chorar para ver se ele a consolava novamente, mas não saberia encenar.
Enquanto voltavam para casa, comentavam cada detalhe do
filme. Severo achou muito interessante a visão que os trouxas tinham de bruxos,
era na verdade a mesma idéia que ele tinha dos trouxas. Antes de conhecer a família
de Hermione, eram os trouxas que deveriam ser queimados na fogueira... Agora
tudo estava diferente, ele conseguia ver os dois lados da questão.
O sol estava encoberto por nuvens e a noite se aproximava quando
chegaram. O Sr. Granger veio recebê-lo
com uma cerveja. Severo aceitou e foi conversar com seu novo amigo na belíssima
varanda da casa. Ele estava realmente precisando de uma poção para relaxar,
depois de tê-la em seus braços e não conseguir falar nada sobre seus
sentimentos merecia no mínimo tomar um porre...
Hermione subiu e foi tomar seu banho. Quando terminou foi para seu quarto
se arrumar, sua mãe a aguardava para saber se o relacionamento havia
progredido. Hermione narrou o que
houve no final do filme e perguntou a ela: - Podemos chamar de progresso ou foi
só uma atitude gentil da parte dele?
-
Só o tempo vai responder, minha filha! Não se apresse, tudo tem o seu tempo...
Hermione, o que você acha de encomendarmos umas pizzas para o jantar?
- Acho ótimo! As duas desceram as escadas e foram telefonar para fazer a
encomenda. Depois reuniram-se a eles na varanda.
A conversa agora era sobre a bisavó de Hermione. Ela era bruxa puro
sangue que se apaixonou por um trouxa e desistiu do mundo da magia para viver ao
seu lado. Conta-se que a família dela nunca aceitou tamanha desgraça. Depois
de duas gerações trouxas, nasceu Hermione. O Sr. e Srª. Granger ficaram
abismados com a carta de Dumbledore convidando a menina para estudar em
Hogwarts. No íntimo sabiam que o desenvolvimento da filha era excepcional.
Eventualmente aconteciam determinados fenômenos que eles não sabiam explicar,
como por exemplo a facilidade com que aprendeu a ler, tinha apenas três anos.
Hermione e sua coleção de livros infantis: sabia todas as histórias e adorava
narrá-las para seus pais antes de dormir. Certa vez viram os livros levitarem
em cima da cama, onde ela estava deitada. Agora tudo fazia sentido. Era uma
bruxa! Tudo indicava que sendo a melhor aluna de Hogwarts, teria um futuro
promissor como tal, mas no mundo bruxo! Seus pais teriam que se acostumar com
visitas passageiras, como aquela...
Quando a pizza chegou foram jantar. Severo preferiu se controlar na
cerveja, pois precisava passar uma boa imagem. Se estivesse em sua masmorra,
certamente tomaria a poção mais forte que tinha para esquecer-se da chance que
teve e deixou escapar... Hermione estava calada pensando no regresso, tudo
voltaria a ser como antes... Esta viagem ficaria gravada em sua memória. Este
dia não poderia terminar, como era bom senti-lo tão perto, amigo de seus pais,
seu amigo... Ela nem percebeu quando Severo sorria para ela enquanto alcançava–lhe
uma fatia de pizza. Sua mãe teve que chamá-la: - Filha, o professor está lhe
oferecendo um pedaço! Você parece tão distante!... – Desculpe, professor!
Eu só estava pensando na longa viagem que temos amanhã cedo...
– É verdade! Concordou Severo. - Se ao menos o diretor nos deixasse
usar o pó de flu para voltar! Mas ele acha que a viagem de trem é mais
segura... – Por causa de
Voldemort? Hermione quis saber. – Sim! Severo respondeu.
Somente ele e Dumbledore sabiam o risco que a moça corria em estar na
sua companhia. Severo, mesmo sendo um ex-comensal, era ainda perseguido pelo
grupo, por trabalhar para o diretor... A
missão que tinha era extremamente importante, tinha que levar sua aluna de
volta a Hogwarts de forma segura. Ele era responsável por ela. Confiava nas
orientações do diretor e faria exatamente o que ele determinou. Voltariam sem
falta no trem de domingo. O Sr. Granger insistiu para que ficassem até segunda,
mas Severo deu sua palavra a Dumbledore e nada o faria mudar de idéia.
-
Está certo, já que não podem ficar, amanhã cedo eu os levo de carro até a
estação de trem...
Após terminarem a refeição foram sentar-se na sala. Assistiam ao
noticiário, enquanto o Sr. Granger comentava cada notícia apresentada.
Hermione estava ficando entediada e resolveu ir até a rua olhar a noite. Severo
pediu licença e a acompanhou. Naquele momento ele estava preocupado com a
segurança dela. Não poderia deixá-la sozinha. Tinha um pressentimento ruim.
A Srª. Granger aproveitou a oportunidade de ficar a sós para perguntar
ao marido o que ele achava de um possível namoro da filha com o professor. –
Para falar a verdade benzinho, eu estou desde ontem esperando ele pedir nosso
consentimento para namorá-la, mas ou isto já é ultrapassado, ou no mundo dos
bruxos é algo irrelevante... –
Mas meu bem, você não percebeu que ele deve ter a sua idade? Hermione só tem
dezesseis anos...
-
Querida, não me leve a mal, mas eu iria fazer a festa se tivesse uma garota com
dezoito aninhos!!! É só ele ter um pouco mais de paciência... Logo ela será
maior de idade. Você tinha dezessete anos quando começamos a namorar,
lembra-se?!
-
Não sei, não... Tem algo muito estranho, ele é um homem bonito, atraente,
muito inteligente, por que então está sozinho?
-
Porque não encontrou ninguém inteligente como ele... Você está imaginando
coisas. Ele me parece uma ótima pessoa, é muito educado, gentil, é uma
companhia bastante agradável... Só discordo quanto a ser bonito e atraente!
Falou rindo e abraçando a esposa.
Lá fora, Hermione olhava assustada para o céu. Sabia que o temporal se
aproximava. Reparou que ele estava atrás dela e comentou algo. Severo tinha que
admitir estava perdidamente apaixonado por ela e não conseguiu prestar atenção
no que ela disse. Estava decidido a puxá-la para si e beijá-la ali mesmo, no
jardim da sua casa. Mas, ao se aproximar um pouco mais, um relâmpago clareou o
céu e Severo viu logo em seguida a marca dos comensais. Pegou-a pelo braço e
entraram muito rápido na sala. Naquele
exato momento os pais dela estavam se beijando e Severo ficou um pouco
encabulado em interromper. – Me desculpe, eu não queria atrapalhar... –
Ora, Sr. Snape, não precisa se desculpar... Amanhã nós teremos o tempo todo
para isso, não é meu amor?
-
Se vocês não se importam, eu gostaria de tomar um banho e ir dormir cedo. Boa
noite, Sr. e Srª. Granger!
-
Boa noite, Sr. Snape! Fique à vontade!
-
Hermione, minha filha, acompanhe seu professor até o quarto, veja se ele
precisa de algo...
-
Está bem, mamãe!
Ao chegar no quarto de hóspedes, Severo foi correndo pegar sua varinha mágica.
–
Srtª Granger, vá pegar a sua varinha também. Você viu a marca de comensal no
céu, não viu?
– Vi sim, senhor! Eu já volto!
Severo foi até a janela e lançou vários feitiços de proteção ao
redor da casa. Hermione chegou e ajudou a reforçar os feitiços.
–
Professor, o senhor acha que fomos seguidos até aqui?
-
Talvez... Mas pode ser apenas um comensal se comunicando com outro.
–
Não era Valdemort convocando os comensais? Ela perguntou um tanto assustada.
Severo lembrou da marca que tinha no braço e respondeu seguramente:
-
Não! Mesmo assim precisamos tomar cuidado! Ele percebeu que ela ainda estava
assustada: - Não se
preocupe, com estes feitiços ficaremos seguros!
Agora o temporal estava mais perto, começou a ventar e os relâmpagos
eram mais freqüentes, seguidos dos trovões.
-
Professor, se o senhor for tomar banho é melhor ir logo... Às vezes costuma
faltar luz no meio dos temporais...
Hermione foi para seu quarto arrumar suas coisas e Severo foi tomar
banho. Assim que ele terminou, quando estava se secando, faltou luz e ele não
estava com sua varinha. Enrolou-se na toalha e abriu a porta para ver se entrava
alguma claridade. Estava tudo muito escuro. Hermione foi até o corredor com sua
varinha iluminando o local para auxiliá-lo. Severo ficou muito agradecido, pois
não conseguia enxergar nada. Hermione o conduziu até o quarto de hóspedes.
Estavam muito próximos quando ele lhe desejou boa noite. Ela estava tão
inebriada com o perfume dele, recém saído do banho, somente com uma toalha
enrolada na cintura, que agia agora mais por instinto do que racionalmente.
Parada bem em frente a ele e na pontinha do pé para ficar um pouco mais alta,
seu rosto muito próximo ao dele, sua boca como por um magnetismo buscou a dele
e quando estava quase beijando-o, sua mãe perguntou lá de baixo se ela
precisava de uma vela. Ela respondeu que não, pois já iriam dormir.
Afastou-se um pouco dele e bastante ruborizada, desejou-lhe boa noite,
sussurrando em seu ouvido. Voltou para seu quarto, muito chateada. Não
conseguia dormir só em pensar naquele beijo que pretendia lhe dar... “Nunca
mais vou ter outra chance destas” E suas lágrimas começaram a cair.
Severo tinha dúvidas quanto ao suposto beijo. Chegou a sentir o calor
dos lábios dela aproximando-se dos seus, ou era apenas imaginação? Estava
agora mais preocupado com a segurança dela. Pela primeira vez pensou em
desistir de tudo para vê-la segura... Sabia que sua vida como ex-comensal era
muito arriscada e não poderia deixá-la correr riscos. Amava-a acima de tudo,
abriria mão de sua felicidade para vê-la segura... E com estes pensamentos
adormeceu.
No dia seguinte, Hermione acordou cedo, não conseguiu dormir direito.
Aguardava-o para tomarem cafés juntos. Severo acordou, arrumou rapidamente sua
bagagem e se arrumou. Vestia uma camisa azul e calça social preta, estava muito
bonito.
Ao chegar na sala de jantar para tomar café, encontrou a Srª. Granger e
Hermione que interromperam a conversa para cumprimentá-lo. O Sr. Granger
acabara de tirar o carro da garagem e também veio tomar café. – Bom dia meu
amigo! Passou bem a noite, apesar de todo o temporal? O Sr. Granger perguntou.
-
Bom dia! Dormi bem, obrigado!
O Sr. Granger procurou conversar, mas Severo estava mais quieto, parecia
triste. A Srª. Granger notou e ficou imaginando o que houve entre ele e sua
filha na noite passada.
-
Querem saber de uma coisa? O Sr. Granger olhou para a filha e para Severo quando
continuou: a minha casa vai ficar muito vazia sem vocês... Voltem quando
puderem! Vamos sentir saudades, não é meu amor? E agora olhando para a esposa. Ela concordou e Hermione
levantou-se do seu lugar e foi até o pai, abraçando-o e beijando-o. Novamente
Severo sentiu um pouquinho de ciúmes por não ter aquela demonstração de
carinho tão evidente. Ele preferiu não dizer nada. Depois do susto da noite
passada ele já não tinha mais certeza de nada.
Depois que terminaram o café, a Srª. Granger despediu-se da filha e de
Severo. Abraçou-o e lhe disse baixinho: - Cuide bem da minha pequena! Severo
sorriu e disse que não precisaria se preocupar que ele a cuidaria bem.
Severo percebeu que apesar da resistência inicial, agora ela estava mais
amável com ele. Desde que chegou, ele tinha quase certeza de que a Srª Granger
sabia de seus sentimentos para com a filha, só pelo olhar que ela lhe dirigia.
Chovia mais forte quando eles chegaram na estação. Estavam dentro do
horário. Despediram-se do pai dela e foram procurar uma cabine vazia. Havia
mais passageiros do que na ida, foi mais difícil encontrar um lugar vazio.
Guardaram as bagagens e quando Hermione foi sentar na poltrona de frente
para ele, ele a chamou, convidando-a para sentar-se do seu lado. Ela quase não
acreditou. Sentia-se muito triste por estar retornando. Adorava a escola,
adorava estudar, mas sua tristeza era por causa dele. Nunca imaginou que
retornaria mais apaixonada ainda. Estava quase chorando quando sentou-se, por
isso preferiu dar uma certa distância para não se jogar nos braços dele. Ele
agora não tinha mais dúvidas quanto aos sentimentos dela, estava tão claro
naquele olhar tristonho... Quando o trem iniciou a viagem, Severo não conseguiu
mais suportar, tinha um nó na garganta. Não sabia se conseguiria dizer tudo
que sentia, mas estava decidido a tentar:
-
Srtª Granger, preciso lhe falar umas coisas... Primeiramente quero dizer-lhe
que fiquei encantado com seus pais! Eles são adoráveis! Me senti muito bem na
sua casa, ou melhor, me senti muito feliz... Há muito tempo que eu não sabia
mais o que era felicidade... Ela
pensou em dizer algo, mas qualquer palavra que tentasse falar a faria chorar.
Preferiu continuar calada. Ele prosseguiu: - Ontem quando atravessamos a rua de
mãos dadas eu me senti um adolescente apaixonado... Por isso a convidei para
entrarmos no cinema. Eu não sabia que o ambiente era escuro, nunca estive num
cinema antes... Lá dentro senti uma vontade irresistível de lhe beijar, mas não
sabia como você reagiria. Tive medo... Preferi prestar atenção na história e
esquecer o beijo. No final, quando você começou a chorar, novamente tive que
controlar meus impulsos para não lhe agarrar ali mesmo e lhe beijar. Quando lhe
abracei para confortá-la iria lhe dizer o quanto você significa para mim, mas
este nó que sinto na garganta não me deixou falar nada. Você aceitou o meu
abraço e eu me senti feliz por isso. Em nenhum momento eu quis lhe magoar.
Nunca ficamos tão próximos um do outro. Eu estava muito feliz por ter você tão
perto de mim. Fez uma pausa e continuou:
- Lembra-se de ontem à noite, quando você saiu da sala e foi lá fora?
Eu criei coragem e fui atrás de você. Quando ia me aproximar para beijá-la,
vimos a marca no céu. Neste
instante percebi a loucura que iria fazer. Não posso te expor aos meus riscos.
Você sabe que sou um ex-comensal, todos pensam que sou um traidor por trabalhar
para Dumbledore e por isso sou perseguido. Eu tenho que esquecê-la, vou-lhe
pedir um favor, não comente a ninguém o que quase aconteceu conosco. Vamos
voltar a ser professor e aluna... Prometo não tirar mais ponto de sua casa!
Procurou sorrir ao dizer isso, para aliviar toda aquela tensão que sentia. Na
verdade sentia-se péssimo por falar tudo isso...
Ele a amava e tinha que abrir mão deste amor para a segurança dela.
Fez-se um longo minuto de silêncio. Hermione estava com o rosto
encharcado pelas lágrimas. Não conseguiu dizer nada, simplesmente atirou-se em
seus braços e o abraçou fortemente. Seus soluços a sufocavam e Severo sentiu
as lágrimas escorrerem de seu próprio rosto. Acariciava os cabelos dela com
uma mão e com a outra apertava-a contra seu peito. Hermione tentou compreender
tudo o que ele lhe disse, mas jamais iria aceitar que ele a esquecesse, não
depois de ouvi-lo falar sobre seus sentimentos.
Se tivesse que morrer por ele, ela o faria.
Esperou se acalmar um pouco, quando os soluços cessaram, ela levantou a
cabeça e seus lábios estavam muito próximos aos dele. Sua boca procurou a
dele com voluptuosidade e ela o beijou com toda a paixão que sentia. Aquele
beijo reprimido da noite... Severo correspondeu ao beijo. Como ele queria aquele
beijo... Novamente sentia a felicidade correr em suas veias. Beijaram-se por um
longo tempo. Parecia um beijo mágico que neutralizava tanto sofrimento. Ao se
separarem ele já gentilmente iria reprimi-la: - Hermione, meu amor, acho que
você não me entendeu... Nós não podemos... Ela o fez calar com outro beijo.
Foi um beijo doce, terno, apaixonado. Depois do beijo foi a vez de Severo ouvir
o que ela tinha a lhe dizer. – Severo, eu o amo!
Ano passado comecei a reparar em você, eu te admirava demais. Não podia
ser só admiração de uma aluna pelo seu professor... Como eu sofria calada nas
suas aulas... Nesta viagem eu descobri o que é a verdadeira felicidade!
Conviver com você nestes dias, foi como chegar ao paraíso... Não me peça
nada que eu não possa cumprir... Eu não posso deixar de amá-lo. A minha vida
não tem mais sentido sem você. Eu prefiro morrer a ficar sem você. Se você
me ama, nos dê esta chance. Juntos com o Prof. Dumbledore temos condições de
vencer o Valdemort. Podemos ser felizes...
Severo ficou calado pensando em cada palavra, sabia que no fundo ela
tinha razão, juntos talvez tivessem grandes chances em derrotar o lord das
trevas... Talvez... Mas ainda havia a diferença de idade, a condição de
professor e aluna, casas rivais... –
Hermione, querida, não sei se o professor Dumbledore irá aceitar nosso
relacionamento... Você conhece as normas da escola tão bem quanto eu. Você é
ainda tão jovem e eu... Eu tenho a idade do seu pai... Se seu pai soubesse
quanto eu a amo, creio que nem me receberia no portão de sua casa...
Pela
primeira vez naquela manhã Hermione sorriu. Lembrou-se do que a mãe dela havia
dito “Seu pai está encantado com ele! Provavelmente já até pensou na
possibilidade de tê-lo como genro”. –
Arrume outra desculpa, o meu pai lhe aceitou, já a minha mãe...
– O que tem a sua mãe? Ele agora parecia preocupado, sabia que a mãe
dela o olhava de forma estranha... -
A minha mãe só o aceita se você me fizer feliz... Disse com enorme sorriso
nos lábios.
Severo, embora feliz, estava muito confuso, pois não sabia mais se devia
seguir a razão ou a emoção... Buscou os lábios dela e a beijou como nunca
havia beijado ninguém antes, com tanto amor. Sentia-se jovem, sentia-se vivo
novamente. Era uma sensação que há muito não conhecia...
A viagem de volta foi a mais romântica possível. Trocaram inúmeros
beijos, abraços, palavras carinhosas. Severo
sentiu-se com quase vinte anos a menos, parecia um adolescente apaixonado. A
chuva forte batia no vidro da janela. Eles estavam tão felizes, conhecendo-se
um ao outro que nem perceberam o tempo passar. Recusaram o almoço, aceitaram
somente suco e mais tarde o chá com torradas. Não tinham fome, precisavam
aproveitar cada momento mágico daquela viagem, quando viram já estavam
chegando a estação de Hogwarts. Hagrid veio recebê-los com um imenso
guarda-chuva. Seguiram na carruagem em silêncio. Minerva e alvo os esperavam na
porta do castelo.
Depois dos abraços, Severo entregou a encomenda e o envelope com o
restante do dinheiro para o diretor. Alvo os convidou para jantarem com ele e a
Minerva, em seu escritório. Assim ficariam mais reservados, longe da vista dos
alunos. Ele e Hermione foram para seus quartos tomar banho. Depois
encontraram-se para jantar com o diretor e a vice-diretora. Severo narrou
superficialmente a sua aventura no mundo trouxa. Não queria demonstrar a
felicidade que sentia. Na verdade sentia-se muito confuso com o relacionamento
que iniciara com sua aluna. Não estava preparado ainda para contar ao prof.
Dumbledore...
Quando terminaram a sobremesa, o diretor gentilmente pediu para que as
damas se retirassem, pois precisava conversar a sós com Severo. Severo ficou
pasmo com o que ele lhe disse: - Muito bem, meu jovem! Agora me fale sobre o
motivo de toda esta felicidade estampada em seu rosto... O motivo chama-se
Hermione ou eu estou enganado? -
Como o senhor sabe? Com certeza não precisou me espionar...
– Severo, meu filho, quando tiveres a experiência de vida que eu
tenho, certamente você também conseguirá ver o que os olhos não vêem... Eu
sempre desconfiei de vocês dois, mas sabia que a sua postura de um homem
reservado, sério, respeitado, e por que não temível professor, a afastava.
Esta era a sua arma para lhe proteger, ou estou errado? Eu estou me sentindo
responsável, fui eu quem proporcionou esta aproximação de vocês. Era inevitável
que um dia isto fosse acontecer... Quais são os seus planos? Os pais dela
sabem? Você não se importa de compartilhar um pouco desta felicidade comigo e
com a Minerva, se importa?
Severo ficou sem saber o que dizer.
Para quem deseja saber o que aconteceu depois desta viagem, sugiro que
leia ou releia a fic “Entrevista com o morcego” Partes I e principalmente a
parte II; e ainda a songfic “Reflexões de Severo” é uma continuação
desta fic.
Fim