O Espírito das Rosas

Por Noctivague

 

"Severo, você sabe o que preciso lhe pedir para fazer - mais uma vez. Se estiver disposto... Se estiver preparado..."

Talvez eu não devesse ter lhe pedido isso novamente - já tinha sido uma grande sorte ele ter escapado ileso da última vez... Talvez ele não devesse ter aceitado passar por tudo aquilo de novo - e justamente quando ele pensava que, finalmente, a vida estava lhe dando uma trégua... Mas ele disse sim - a culpa não é toda minha. Ou é?

"Estou, Alvo."

Dessa vez, ele não empalideceu. Era como se já estivesse resignado ao seu destino. Mas não pude deixar de notar o tom de sua voz e a luz de seus olhos - eles eram, já, duas estrelas em vias de extinção, aguardando apenas o momento único do seu brilho derradeiro. E eu sabia - ah, sim, eu bem sabia!... - a quem aquela última chama seria dedicada.

"Então, boa sorte, meu filho."

Ao contrário do que normalmente faria, ele não saiu imediatamente, mas ficou ali, imóvel diante de mim - e eu adivinhei que ele hesitava entre a vontade de me dizer alguma coisa e a necessidade de se calar. Por um longo segundo, nós dois somente nos encaramos. Então, decidi tomar a iniciativa e quebrar aquele diálogo telepático, já que ele não tinha coragem o bastante para fazê-lo - como é irônico pensar que a coragem faltaria àquele homem num momento aparentemente inofensivo como aquele...

"Severo, bem... Você pode levar isto pra se lembrar dela."

Sempre em silêncio, ele quebrou o nosso contato visual, fixando seus olhos sobre a palma da minha mão esquerda para examinar o pequeno objeto circular que eu lhe oferecia. Não precisei lhe explicar o que era aquele disco delgado de marfim - quando ele o tomou de mim e o pressionou brevemente entre os seus dedos, a imagem da garota surgiu imediatamente no círculo de cristal, num sorriso que fez vir lágrimas aos olhos do homem que a contemplava.

"Obrigado, Alvo."

Naquele momento, já me sentia culpado pela sua desgraça, passada e futura. Mas não íamos ficar ali chorando juntos feito dois velhos bruxos sem esperança - afinal, tínhamos uma guerra a vencer. Ele guardou suas lágrimas e eu tratei de procurar em mim o que todos no castelo sempre chamaram - meio pejorativamente, eu sei, mas... - de "as idéias brilhantes de Alvo Dumbledore".

"Vou providenciar para que a Srta. Granger desperte - literalmente - sobre um leito de rosas amanhã - um pequeno agrado em seu nome, Severo."

"Rosas? Meio inadequado, não acha?"

Vendo - sem que eu soubesse (apenas desconfiava...) que era pela última vez - aquela sobrancelha tão caracteristicamente erguida, não pude deixar de rir, o que quebrou um pouco a tensão do lugar.

"Sim - e trate de não estragar a surpresa, nem de dizer que a idéia não foi sua, hein? Aproveite bem esta noite, Severo."

"Pode deixar, Diretor."

Quando ele finalmente saiu, ambos tínhamos sorrisos significativos nos lábios - e um peso enorme no coração... Ah, lá está ela! Bela e terrível visão que me rouba as noites e preenche a minha insônia com esse canto que deleita e machuca!... Oh, Alvo, Alvo - seu velho morbidamente romântico... Não é a voz dela que lhe impede de descansar a cabeça cansada sobre o travesseiro, você sabe disso - é essa vozinha dentro do seu próprio crânio que lhe recita, noite após noite, os versos da tragédia desses dois. Você bem sabe que muitos desses versos foram escritos pela sua própria pena, e que foi você - você, e mais ninguém - quem os obrigou a encenarem os seus ttriistes papéis.

 

In the coldest time of year,

(Na época mais fria do ano,)

darkness all around my heart.

(escuridão por todo o meu coração.)

I was alone but didn’t fear

(Eu estava sozinha, mas não tinha medo)

to wander in the light of stars.

(de vagar à luz das estrelas.)

In the bright and silent night,

(Na noite brilhante e silenciosa,)

winds would knock and disappear.

(ventos soariam e desapareceriam.)

Still I felt the feeling near,

(Eu ainda sentia a sensação por perto,)

like the first time you were ever here.

(como na primeira vez em que você esteve aqui.)

 

You’re so far away, so far away,

(Você está tão longe, tão longe,)

you left me, you told me you would stay.

(você me deixou, você me disse que ficaria.)

You never said goodbye

(Você nunca disse adeus)

and I’ll keep asking why,

(e eu continuarei perguntando por quê,)

I keep on asking how,

(eu continuo perguntando como,)

oh, come unto me now.

(oh, venha para mim agora.)

 

Por que não fecho simplesmente essa janela de uma vez por todas e vou pra cama, ao invés de ficar me torturando com essa canção, com essas lembranças, com essa culpa...? Melhor: por que fui abrir essa maldita janela naquela primeira noite, naquela noite em que perdi para sempre mais um dos meus professores, mais um dos bruxos mais queridos pra mim? Agora, não consigo fechá-la até que essa visão desapareça das minhas vistas e esse som se perca do alcance dos meus ouvidos... Foi minha curiosidadezinha, a qual sempre me manteve a par de tudo o que se passa nesse castelo, que me prendeu a esse ritual mensal - assim como foi ela que me fez invadir a privacidade dos dois, com um pequeno feitiço indiscreto, mal aquela manhã se insinuava no horizonte. Minha curiosidade e minha sensação de culpa.

"Ô, droga!... Maldita alergia..."

"Severo?..."

"Acordei você?"

"Oh, Severo!..."

"Me desculpe - é que..."

"Não acredito!... Que coisa mais... Foi você quem fez isso?"

"Bem, é - fui eu."

"Você passou por cima da sua alergia e tudo por mim? Só pra me fazer essa surpresa? Oh, Severo, isso é tão lindo..."

"Ora, Hermione - ..."

"Saúde, meu amor."

"Obrigado."

"Isso foi a coisa mais linda que já recebi na vida... Mas - por quê, Severo? Não estou reclamando, é claro, mas gostaria de saber se tem algum motivo especial por trás de tudo isso..."

"Tem, sim - eu te amo."

"Também te amo... Mas - tem certeza de que é só isso? Você está estranho..."

"Você gostou mesmo disso? Gostou da surpresa?"

"É claro que gostei! Você sabe que rosas vermelhas são as minhas flores favoritas..."

"Então, vou providenciar para que todos os meses, na noite dessa mesma data, chovam pétalas de rosa sobre você, minha querida - toneladas de pétalas de rosas vermelhas, como essas."

"Isso tudo não é o suficiente? Você está mesmo estranho, Severo Snape. Cheio dos mistérios... Adorei a idéia, é claro, mas, me diga - por que tudo isso agora? E não tente me enganar."

"Porque eu te amo, Hermione Granger - já lhe disse. E, já que você gosta tanto assim dessas rosas, quero que sempre as associe a mim, só isso."

"Sei... Você não me engana - sei que tem mais alguma coisa além disso. Vou aceitar a sua oferta - mas sei que você está preocupado com alguma coisa, meu amor. Já que não ouvi o pedido de casamento que estava esperando, só me sobrou a outra hipótese: você está com pensamentos funestos nessa sua mente indecifrável... Por acaso você está tramando alguma coisa muito perigosa, Severo? Você sabe que não gosto de vê-lo se arriscando tanto assim, enquanto nós ficamos aqui, bem seguros sob o teto de Hogwarts..."

"Chhh... É muito cedo ainda pra você começar a me dar bronca, minha querida Sabe-Tudo. Estava pensando em aproveitar ao máximo essa manhã com você - assim que eu me livrar dessas flores e desse perfume todo; se não, você vai acabar me chutando pra fora da cama, de tanto espirro... Me permite?..."

"À vontade."

 

I have breathed the morning air,

(Eu respirei o ar da manhã,)

I have heard the four winds blow.

(eu escutei os quatro ventos soprarem.)

I was weary but prepared

(Estava exausta mas preparada)

to follow down this lonely road.

(para seguir por essa estrada solitária.)

In the room where lovers sleep,

(No quarto onde amantes dormem,)

winds would knock and disappear.

(ventos soariam e desapareceriam.)

Still I felt the music near,

(Eu ainda sentia a música por perto,)

like the first time we were ever here.

(como na primeira vez em que nós estivemos aqui.)

 

You’re so far away, so far away,

(Você está tão longe, tão longe,)

you left me, you told me you would stay.

(você me deixou, você me disse que ficaria.)

You never said goodbye

(Você nunca disse adeus)

and I keep wondering why,

(e eu continuo me perguntando por quê,)

I keep on wondering how,

(eu continuo me perguntando como,)

oh, come inside me now.

(oh, venha para dentro de mim agora.)

 

Desfiz o feitiço rapidamente - posso ser um romântico mórbido, mas não sou nenhum voyeur -, mas a imagem daquele beijo tão desesspeerado que se seguiu ao pequeno diálogo não se apagou da minha mente até hoje. Acredito que ele não tenha mesmo se despedido dela; ele não queria preocupá-la, tanto quanto não queria ter que deixá-la - mas aquele foi, de fato, um dos seus últimos beijos, um beijo de despedida. Ele partiu naquela mesma manhã, umas poucas horas mais tarde, e eu fui a última pessoa a vê-lo - a pessoa que garantiu, com um feitiço inesgotável, que Hermione fosse mesmo banhada por pétalas de rosas todos os meses, naquela mesma data, para sempre.

E cá estou eu - debruçado sobre o peitoril da minha janela aberta, ouvindo o cantarolar de um fantasma que assombra os arredores do castelo há anos, uma triste noite por mês, com uma chuva de rosas sobre si e um intenso perfume que se espalha com o vento sempre frio que corta o ar por onde quer que a sombria figura passe, não importa em que época do ano. Os alunos a chamam simplesmente de "O Espírito das Rosas" - eles não conhecem a sua verdadeira história. Só sabem que sinto, ao mesmo tempo, um imenso carinho, uma enorme compaixão - e um tremendo pavor diante dela. Não que ela realmente assombre o castelo, me persiga, ou qualquer coisa desse tipo - na verdade, ela se foi sem ao menos imaginar o tanto de culpa que tenho pelo seu suplício eterno, e se limita a visitar discreta e humildemente, nessas noites, o lugar quase sagrado em que conheceu tanto a maior alegria quanto a maior tristeza de sua vida. É a minha própria consciência que me aterroriza, com perguntas que sei que jamais serão respondidas - e se você não tivesse mandado ele pra lá? Será que ele ainda estaria vivo? Será que ela ainda estaria viva?...

"Está vendo só, Professor Dumbledore? Eu disse pra você, disse pra vocês todos, que ele não morreu!... Vocês se enganaram. Ele vai voltar - estão sentindo o perfume no ar? As rosas? Estão vendo? Ele vai voltar - por mim."

Pobre garota, minha pobre garota... As tais rosas que deveriam simbolizar a eternidade do amor dos dois acabaram por levá-la à loucura, pelo que desconfio. Ela passou a esperar pelo retorno dele, sem abandonar as suas esperanças de louca, durante muitos meses vazios que se seguiram à notícia de que ele havia sido cruelmente torturado até a morte por todo o bando de fiéis seguidores de Voldemort, a pedido do seu mestre, que finalmente descobrira estar sendo traído. "A pedido do seu mestre"... Eu também fiz o meu pedido a ele, e foi esse pedido que o destruiu, antes mesmo do pedido de Voldemort.

"As rosas... Será que é por isso que ele não vem? Ele era alérgico... Faça as rosas irem embora, Professor, eu lhe peço!... Ele não pode com flores, ele não vai vir se eu estiver cheirando a rosa!... Não, não... É ele quem me manda essas rosas, não é? É, é sim, é ele. Ele me disse pra associá-las a ele, sempre - é, foi isso que ele me disse. Então, ele gosta sim das rosas... Pode deixá-las em paz, Professor Dumbledore. Se elas vêm, é sinal de que ele também não demora muito... Ele logo vem com elas, eu sei. Ele vem - ele vem me buscar."

Oh, minha filha!... O que você foi fazer?!... E como eu não consegui impedi-la? Você finalmente percebeu que ele não voltaria mais, que ele não viria buscá-la - então, num momento que poderia ser considerado tanto de loucura como de extrema lucidez, você decidiu ir atrás dele. E, pelo visto, vocês ainda não se encontraram, não é mesmo? É por isso que você sempre volta, com as rosas, o perfume, o vento, a canção... Você ainda está à procura dele. E a culpa disso tudo é minha. Se eu ao menos pudesse ajudá-los a se encontrarem, se eu ao menos pudesse lhes dar alguma paz...

- Não quero saber quem é o culpado, não vai ajudar em nada saber. Merlim!... Como está frio!... Vou fechar essa janela.

 

(FIM)

 

N/A: E então, gostaram? Eu não gostei muito, sem falsa modéstia, mas espero que alguém tenha gostado, ao menos um pouquinho. Esta songfic foi escrita como resposta (fora da data em séculos...) ao desafio "Unable to stay, unwilling to leave" ("Não podendo ficar, não querendo partir", numa tradução livre) do WIKTT, lançado por Lushlucius. Acho que o título do desafio já diz o bastante sobre as regras - não tenho muita certeza de tê-las seguido direitinho, mas... Elas não diziam nada sobre songfics, se era algo "permitido" ou não, então, como eu queria escrever uma fic com essa canção há um bom tempo, resolvi aproveitar a oportunidade. Não saiu exatamente o que eu havia imaginado, mas acho que está "legível". Agradeço a todos os que leram a fic e estão tendo a paciência de ler essa nota imensa. Ah, e a canção é "So Far Away", do Roxette, e eu a conheço de um álbum belíssimo, o Tourism.

 

Aviso: Todas as personagens do universo Harry Potter, assim como as outras referências a ele, não pertencem ao autor deste texto, escrito sem nenhum interesse financeiro, mas a JKR. A canção, "So Far Away", pertence à dupla sueca Roxette.

(Como se ninguém soubesse... Mas prevenir é melhor do que remediar.)





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