Não um Mestre de Poesia - um Mestre de Poções

 Por Noctivague

 

N/A: Não acredito que eu possua qualquer dom como poeta (tampouco Severo o possui, nessa mini-fic!), mas me senti tentada a arriscar alguma coisa, depois de ter lido alguns versos escritos por uma amiga minha (a Hermione não podia ficar sem resposta, podia?) - Sarah, essa aqui é pra você. Obrigada a todos por tirarem um tempinho pra ler isso. Eu adoro vocês. Ah, e é claro que seria melhor se vocês todos já tivessem lido a mini-fic da Sarah (Caderno de Poesia), da qual retirei a inspiração pra essa aqui e da qual retirei também alguns versos que eu cito no final da fic (marcados com *).

 

 

"Hermione, minha querida, estou falando com você - você poderia, por favor, responder a minha pergunta? Pra quem você escreveu todos esses poemas?"

Oh, Merlim! O que ela poderia dizer a isso?...

"Ah, mãe, você não devia ter lido eles sem pedir a minha autorização antes!... Isso não é justo..."

Ela estava tentando ganhar algum tempo para formular uma desculpa enquanto a sua boca cuspia palavras de reclamação - o seu cérebro era bem rápido, era verdade, mas não quando se tratava daquele assunto em particular.

"Preciso lembrá-la de que eu sou sua mãe?..."

Essas palavras foram ditas num tom gentil, e não num tom autoritário, mas elas queriam dizer o que queriam dizer - a Sra. Granger estava esperando uma explicação.

"E preciso lembrá-la do significado da palavra ‘privacidade’?"

Dois pares de vivos olhos castanhos se fixaram um no outro por um momento.

"Desculpe, mãe... É que... Eu não queria que ninguém soubesse que venho escrevendo esse tipo de coisa - você entende? No fim das contas, são só alguns versos bobos que vieram à minha mente enquanto estávamos acampando, nada mais - eu lhe garanto. Acho que a natureza me inspirou, só isso..."

A digna senhora não estava muito convencida disso.

"Enquanto estávamos acampando?... Hum... Sei... Me diga - isso tem alguma coisa a ver com o jovem Sr. Galley, por acaso? Ele sem dúvida é introvertido, um pouco distante, talvez - mas é definitivamente charmoso, também..."

Sua mãe nunca perderia todas as esperanças de vê-la casada com um "cavalheiro digno (e normal)" - e o filho mais velho da família Galley, seus vizinhos e amigos da vida inteira, parecia ser uma ótima escolha.

"Mãe!... Dá pra parar? Quantas vezes preciso lhe dizer que não estou interessada nele - que não estou interessada em ninguém, a propó..."

"Ora, você já tem dezoito anos - eu já namorava o seu pai há dois anos quando tinha a sua idade. Além do mais, livros não são a companhia mais prazerosa que uma garota poderia ter, sabia?..."

Aquilo estava indo longe demais.

Visivelmente irritada, Hermione tomou o caderno das mãos de sua mãe, e sentenciou, enquanto deixava o aposento:

"Acho que posso escolher perfeitamente qual é a ‘companhia mais prazerosa’ pra mim - agora, com licença."

A garota foi se esconder no quintal - ela sentia que estava precisando de algum tempo sozinha, de um pouco de privacidade. Se sua mãe já a chateava o bastante, imagine-se o inferno que sua vida se tornaria se ela descobrisse quem era, na verdade, a inspiração para aqueles poemas quase inocentes... Hermione se sentou sobre um banco de madeira, e começou a dar uma olhada no caderno, para se certificar de que sua mãe não tinha lido nada muito comprometedor. Da próxima vez, ela se lembraria de enfeitiçá-lo contra pessoas indiscretas.

 

 

Não sabes o quão sombrios

os dias são para mim

agora que estás distante

Eu não sabia, também. 

 

Não, eu não sabia que

havia uma coisa dessas

guardada dentro de mim

Não sabes disso, também.

 

Não posso dizer - é isso

vida maravilhosa ou

uma dor que me desgraça?

Não podes dizer, também.

 

Não podes ver os meus olhos

- Sou muito grato por isso

Por acaso percebeste...?

Não posso vê-los, também.

 

Por favor, não entendas mal

o que ainda não posso compreender 

Sabemos bem que se pode

tomar desgraça por felicidade.

 

Pergunto a mim mesmo, é esse o meu caso

e desejo que me digas que não

Ah, ouvir uma só palavra tua...

Poderia eu ser assim tão sortudo?

 

Sempre foste tão esperta

e eu me fazendo de bobo

‘Stá em tuas mãos decidir

Serias assim cruel?

 

Deves estar te sentindo chateada

- Eu deveria dizer sinto muito

Sinto que tudo o que faço é por nada

Poderias simplesmente esquecer?

 

Temo que essas linhas estão erradas

- Certamente sou um bobo, sem dúvida

Pra estancar esse fluxo de palavras

Teria eu coragem o suficiente?

 

Nós disso sempre soubemos,

Não sou bom, sou é bem menos

(Acho que sou ainda pior em rimas)

Mas sei que te amo, e agora, o que fazemos?...

 

 

"Hermione! Hermione, onde diabos você está?!"

A mulher foi gritando para os fundos da casa - ela sentia que estava precisando de mais palavras, de alguma explicação. Se sua filha pensava que aquilo era, de alguma forma, aceitável, ela nem podia imaginar o que viria a seguir - e temia perder o controle das coisas... A Sra. Granger parou bem em frente à garota, um rolo de pergaminho em sua mão trêmula, um olhar chocado (e ameaçador) em seu rosto. Como ela desejava também poder lançar uma maldição contra aquela menininha atrevida!...

"Me diga - para o seu próprio bem - que isso é só uma brincadeira estúpida, uma brincadeira bem estúpida."

À visão da sua mãe verdadeiramente nervosa e ao tom áspero daquelas palavras, Hermione congelou - oh, Merlim, ela não podia ter escrito nada mais "explícito" como "Eu te amo, Severo Snape." ou "Severo, meu amor..." em uma página perdida daquele caderno, e sua mãe não podia ter encontrado isso em algum lugar no seu quarto, no meio das suas coisas... A propósito, sua mãe a estava espionando?! Estar apaixonada pelo seu desprezível professor de Poções não era uma coisa "politicamente correta", certo - mas espionagem estava longe de ser algo "correto", tampouco.

"Você mexeu nas minhas coisas? Pensei que todo mundo respeitasse o espaço um do outro nessa casa, mas desconfio que estava errada - então, não acho que você tem o direito de vir aqui gritando comigo, e..."

"CALE A BOCA! Cale a boca, sua menininha pretensiosa..." A mulher parou para respirar fundo. A garota estava completamente quieta, mal respirando. "Agora, você vai ler isso - em voz alta -, e depois vai me dar algumas explicações - e vai me ouvir depois disso. Oh, Deus, como eu queria que seu pai estivesse aqui nesse exato momento... Mas você vai explicar toda essa porcaria pra ele quando ele chegar - ah, sim, você vai, mocinha!"

Somente quando a Sra. Granger lhe entregou (muito rudemente, por sinal, quase o esfregando na sua cara) o rolo de pergaminho que ela pensara ser uma página perdida do seu caderno de poesia, Hermione se lembrou de que aquilo não poderia ser um dos seus escritos, pois seu caderno era feito de papel trouxa comum. Aquilo não poderia ser um dos seus escritos, pois não era, definitivamente, a sua caligrafia - era a de uma outra pessoa. Ao passar os olhos sobre as linhas, ela teve a certeza de que conhecia bem aquela caligrafia - não, ela não estava enganada; era... Oh, Merlim, era mesmo...? Sua voz estava falha, enquanto ela lia as palavras em voz alta, do jeitinho que sua mãe a mandara fazer:

 

 

Não sabes o quão sombrios

os dias são para mim

agora que estás distante

...

 

 

Aquela situação era realmente constrangedora - mas realmente empolgante ao mesmo temmpoo! Então, ele estava confessando os seus sentimentos por ela - era isso? Mas isso deveria ser uma coisa bem íntima, bem particular - sua mãe não deveria estar lá...

 

 

...

 

Não posso dizer - é isso

vida maravilhosa ou

uma dor que me desgraça?

...

 

 

"Mãezinha, por favor... Me deixe apenas..."

"Continue. Você vai falar mais tarde."

 

 

...

 

...

Sabemos bem que se pode

tomar desgraça por felicidade. 

 

 

Àquela altura, Hermione não sabia se devia rir ou chorar...

Sua mãe permanecia parada como uma estátua.

 

 

...

 

...

‘Stá em tuas mãos decidir

 Serias assim cruel?

 

 

"Mãezinha... Você não entende que isso é...?"

"Não, eu não entendo nada, Hermione - então, por favor, prossiga com a sua leitura, e talvez nós duas entenderemos isso melhor no final."

 

 

...

 

Temo que essas linhas estão erradas

- Certamente sou um bobo, sem dúvida

...

 

 

Bem antes do final, Hermione começou a chorar suavemente. Ela não conseguia, de jeito nenhum, impedir as lágrimas de escorrerem pelas suas bochechas - parcialmente por causa da crueldade inesperada de sua mãe, mas principalmente por causa da gentileza inesperada de seu "cavalheiro digno (e bruxo)".

A raiva da Sra. Granger ainda estava em um nível bem elevado, mas, como ela era, normalmente, uma mulher calma e compreensiva, seu coração estava começando a doer por causa daquela coisa toda, e ela lutava para não chorar junto com a filha.

 

 

P.S.: Pelo bem de nós dois, eu gostaria de que não fizéssemos nada, mas temos que fazer alguma coisa - pois eu amo você, Hermione Granger. Não consigo evitar, embora tenha tentado - bastante, creia-me. Posso chamá-la de ‘Hermione’? Ah, como eu espero que um dia você me deixe chamá-la de ‘minha Hermione’... Só isso: ‘minha Hermione’ - não sinto vontade, mesmo, de lhe impor o meu nome, se eu for um homem tão sortudo a ponto de tê-la ao meu lado algum dia. Eu seria mais do que feliz em me tornar ‘o seu Severo’... Não deixe um homem velho sofrer muito - por favor, mande-me uma resposta pela minha coruja. Ela deve entregar esse rolo de pergaminho na janela do seu quarto (não me pergunte como eu sei qual é a sua janela) e esperar por mais ordens da sua parte. E perdoe-me por minha ten tativa grotesca de expressar meus sentimentos por você em verso (percebi seu interesse por esse tipo de coisa há muito tempo) - eu sou um Mestre de Poções, não um Mestre de Poesia, afinal de contas.

 

 

A garota leu as últimas linha em um sussurro, mais para si mesma do que para sua mãe. Ela estava emocionada pelos sentimentos que aquelas palavras expressavam - e com medo do que elas realmente significavam, aos olhos da sua família.

A mulher limpou a garganta antes de falar:

"E então...?"

Hermione não ousava erguer os olhos para encarar a alta mulher à sua frente, e não conseguia falar uma só palavra, tampouco.

Vendo que sua filha estava nervosa demais para dizer qualquer coisa, a Sra. Granger ficou apenas olhando para ela, observando o seu rosto de quem chorava, a sua forma trêmula, as suas mãos pequenas que seguravam firmemente aquele rolo de novidades mais-do-que-perturbadoras. Entretanto, o seu olhar não era irado e acusador, mas gentil e preocupado.

"Isso não é uma brincadeira, é?"

A garota apenas balançou a cabeça, e disse, numa voz rouca:

"Acho que não - espero que não..."

A mulher reprimiu um suspiro nervoso, e mordeu o lábio inferior.

"É por ele que você se tornou uma poetisa?"

"Por favor, mãezinha, eu não preciso da sua zombaria... Tudo já tem sido difícil o suficiente pra mim sem isso - então eu lhe peço que tente respeitar os meus sentimentos, nada mais. Sei que isso tudo deve ser difícil pra caramba pra você, também, então, não estou lhe pedindo pra aceitar ou mesmo entender, mas o fato é que..."

"Você o ama."

"Como eu nunca amei ninguém antes."

"E desconfio que não haja nada que nós, o seu pai ou eu ou sei lá quem, possamos fazer pra mudar isso, certo?"

"Temo que não."

"Então, pegue as suas coisas - quero dizer, o seu caderno e o poema que você recebeu -, e vá para o seu quarto - agora."

Hermione não podia acreditar que sua mãe a estava castigando do jeito que costumava fazer quando ela era uma criança, antes mesmo de ela ir para Hogwarts. Seus pais nunca batiam nela, mas, sempre que fazia algo muito errado, ela era obrigada a passar o resto do dia trancada no seu quarto, aonde suas refeições eram levadas. Podia, até mesmo, lembrar-se de um dia em que conseguiu destrancar a porta, somente olhando fixamente e apontando o seu dedo firmemente para ela, pedindo-lhe ardentemente que se abrisse... Seu pai dissera, de brincadeira, que eles deviam ter cuidado com ela, pois ela podia agir com tanta precisão e com tanto silêncio quanto um ladrão profissional. Ela não sabia, então, que era uma bruxa, e as palavras de seu pai causaram uma impressão negativa muito forte sobre ela, logo, ela não tentou nada parecido com aquilo mais - até que, finalmente, rece beu aquela carta que mudaria completamente a sua vida. Tão completamente que ela nem podia imaginar - de certa forma, aquela carta também lhe trouxera aquele que ela pensava ser o homem da sua vida. Sim, ela crescera, e não havia dúvida de que era uma bruxa agora - uma bruxa bastante poderosa, por sinal. Ela estava pronta para "destrancar a porta" definitivamente e ir viver com ele, com o homem que ela amava, caso os seus pais não fizessem um esforço para entender o amor dos dois. Ela deixaria o mundo trouxa para sempre...

"Por que você está me olhando desse jeito? Eu não lhe disse pra pegar as suas coisas e ir para o seu quarto, mocinha?..."

"Mãe, escute - não quero desrespeitá-la, mas se você acha que eu vou..."

"Sim, eu acho - eu acho que você vai pegar os seus poemas, ir para o seu quarto, e pensar bastante sobre o que aconteceu aqui hoje." Hermione tentou interrompê-la, mas ela continuou: "Mas não leve muito tempo pra pensar sobre isso - há uma coruja faminta esperando por você na sua janela, e um homem ansioso esperando por essa coruja em um castelo em algum lugar da ilha... Acho melhor você se apressar. Creio que é mesmo um crime fazer os pobres animais e os pobres homens sofrerem...".

Apesar do clima mais leve que havia no ar, as duas mulheres ainda não se sentiam confortáveis o bastante para realizarem qualquer grande demonstração de afeto, como se abraçarem, por exemplo. Elas ainda tinham que lidar com os pensamentos e sentimentos contraditórios que estavam se chocando uns contra os outros dentro delas. Mas os sorrisos que trocaram eram genuínos.

Enquanto Hermione caminhava até a casa, ela podia ouvir sua mãe murmurar:

"Mas eu... eu o considero / A límpida água da cascata / Com a qual banho meu corpo / Num dia quente de verão*... Hum... Nada mal. Algo entre lírico e sensual... Nós disso sempre soubemos, / Não sou bom, sou é bem menos / (Acho que sou ainda pior em rimas)... Sem dúvida - você é péssimo. De qualquer forma, isso mostra que você tem um senso de humor, no fim das contas. Mas sei que te amo - sim, acho que é isso o que importa mesmo... -, e agora, o que fazemos?..."

Quando estava quase cruzando a porta, ela ouviu sua mãe dizer em voz alta:

"Hermione, espere! Só mais uma coisa..."

Ela se voltou para olhar na direção da mulher agora sentada sobre o banco, e disse, num tom preguiçoso:

"Sim, mãezinha..."

"Me prometa que vocês dois não vão tentar carreira no ramo da Poesia, hein? Vocês definitivamente não têm o dom - nem você, nem ele. Transfiguração e PPoçções não me parecem tão ruins, no fim das contas..."

"Ah, muito engraçado... Detesto ter que dizer isso, mas acho que você também não poderia ter tentado carreira como humorista. Vá tratar os dentes dos seus clientes, e nos deixe em paz com os nossos versos, tá?"

"Tá, como queira..."

Enquanto a Sra. Granger via a filha fechar a porta atrás de si, ela sussurrou:

"Em paz com os seus versos ruins e o seu amor incomum..."

 

*** *** ***

 

N/A 2: Acho que o tal poema que o Severo manda pra Mione fica melhor - ou menos ruim - na versão em inglês mesmo... Sem contar que, em inglês, o poema se torna ambíguo, pelo fato de os adjetivos usados não se distingüirem entre masculinos e femininos - então, não sabemos ao certo quem escreveu o poema, se ela ou ele, até terminarmos a sua leitura e chegarmos à cena do confronto entre mãe e filha. Pena que isso se perdeu em português - fazer o quê...

 

Aviso: Todas as personagens do universo Harry Potter, assim como as outras referências a ele, não pertencem ao autor deste texto, escrito sem nenhum interesse financeiro, mas a JKR.

(Como se ninguém soubesse... Mas prevenir é melhor do que remediar.)





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