A canção do anão 

Por Noctivague

 

Naquela manhã, o Salão Principal parecia mais calmo do que de costume - o que era um péssimo sinal, pois indicava que algo grande, muito grande, estava prestes a acontecer. Ou o Diretor faria um de seus anúncios malucos que afetaria a vida de todos no castelo por mais tempo do que o desejado, ou algum aluno sofreria um acidente repentino no meio do café-da-manhã, ou... Alguém aprontaria alguma.

O Professor Snape já estava de olho nas mesas, uma águia a observar ameaçadoramente sua próxima presa - mais exatamente, ele estava de olho na mesa da Grifinória, aquele bando de idiotas metidos a sabidos e corajosos. Mas não, tudo parecia em paz por lá - o Potter e seu escudeiro Weasley esqueciam de comer, tão envolvidos que estavam em alguma discussão emocionante (quadribol, muito provavelmente, não aulas); a Sabe-Tudo Granger explicava algum ponto de um texto em um pergaminho (seria a sua tarefa do dia?) para o Finnigan, que aproximava o seu rosto bem mais do que o necessário para escutá-la (por que diabos isso o incomodava?!); o par Patil-Brown não parava de se remexer em suas cadeiras, como se estivessem sentadas sobre um formigueiro, loucas para chamarem a atenção de uns garotos muito disputados da Corvinal, enquanto o Longbottom só balançava a cabeça ao lado delas, com uma aparência visivelmente desolada (seria por causa de uma das meninas ou por causa da sua aula, a primeira do dia para eles?); um pouco mais além, o Creevey tentava pegar o seu ídolo de surpresa (quando esse menino estúpido iria crescer, por Merlim?!), enquanto ele fazia demonstrações para o colega à sua frente através de mímicas ridículas; entre duas cadeiras desocupadas, a menina Weasley tomava sossegadamente seu café-da-manhã, como se não estivesse ali (ela nunca chamava mesmo a atenção de ninguém, normalmente, a não ser quando era raptada por algum bruxo das trevas muito conhecido e temido, ou quando causava algum desastre nas suas aulas).

Seus olhos passaram rapidamente pela mesa da Corvinal, detiveram-se um pouquinho mais na da Lufa-Lufa e, finalmente, permitiram-se passear distraidamente pela mesa da sua própria Casa. Aparentemente (mas só aparentemente - ele conhecia muito bem seus alunos e sabia que nunca se podia confiar no seu ar tranqüilo), nada de estranho ou errado por lá, tampouco - Draco Malfoy, o seu "protegido", com a dupla Crabbe-Goyle dividida à sua direita e à sua esquerda, como sempre, e rodeado de um punhado de puxa-sacos que o ouviam atentamente contar alguma história que lhes soava muito divertida (muito provavelmente, mais uma de suas "façanhas" mais do que um pouquinho exageradas pelo narrador, ou o enésimo plano para provocar São Potter e seus fiéis); Mila Bulstrode fitava fixa e significativamente Pansy Parkinson (por Salazar Slytherin! O que era aquilo?!) que, sentada a algumas cadeiras dela, fitava fixa e significativamente, por sua vez, o centro das atenções da mesa; Blás Zabini estava com um ar de quem não dormira bem à noite (tinha que se lembrar de checar melhor os corredores mais próximos aos dormitórios da Sonserina, embora não fosse sua intenção se ver obrigado a descontar pontos de sua própria Casa) e cabeceava de tempos em tempos, num transe provocado pela voz do loiro exibido.

Faltavam apenas alguns minutos para a refeição no salão terminar e todos darem início, finalmente, às suas respectivas tarefas do dia. O Mestre de Poções já tinha desviado sua atenção das quatro mesas e virava a sua caneca, bebendo de um só gole o resto do seu café preto, enquanto se regozijava com uma idéia repentina que lhe ocorrera para atemorizar o menino Longbottom e seu estúpido sapo Trevo - mas será que isso é possível?! Você está feliz porque está pensando no Longbottom, não na insuportável da Granger, homem!... Longbottom. Longbottom e seu pavor imensurável, não Granger e seu... Droga! Severo se engasgara na mesa dos professores, chamando para si a atenção da maioria das pessoas no salão. Com um "Eu estou bem." pra lá de irritado, ele desfez a preocupaç&ati lde;o do Diretor que, amável, lhe perguntara se estava tudo bem, e se levantou para sair do aposento antes de seus colegas, decidido a descontar o máximo de pontos possível da Grifinória por aquele engasgo - seria esse o acidente daquela manhã? De resto, tudo acabaria na mais santa paz?

Draco também já se preparava para deixar a sua mesa, tendo acabado de contar a sua interminável história fantástica que mantivera os seus ouvintes entretidos por todo o café-da-manhã. Ele nem conseguira comer direito e tentava mastigar e engolir alguma coisa antes de sair, só para não passar a manhã de estômago completamente vazio - também, quem mandou ser tão idiota e ficar perdendo tempo com... Com... Com aquele bando de deslumbrados! Isso, com aquele bando de deslumbrados. Mas, no fundo, ele sabia muito bem que gostava de ter "aquele bando de deslumbrados" ali, sempre à mão. Sim, ele realmente gostava de ter...

"Ô!... O que foi, Goyle, seu imbecil?! Precisava quase quebrar minhas costelas?..."

"É que... Eu te chamei, mas você não me ouviu... Parecia que estava no mundo da lua... Olhe!"

Então, o garoto à sua direita, com cara de quem não sabia como se desculpar, apontou para um ser bizarro que vinha na direção deles, esticando muito o pescoço e perguntando aqui e ali por Drago Malfoy.

Ali estava o "acidente" do dia - o primeiro acidente do dia, a propósito: um anão horroroso empunhando desajeitadamente uma harpa como se fosse uma arma, não um dos mais finos instrumentos musicais que existem, e procurando pelo famoso sonserino.

Sim, era Dia dos Namorados mais uma vez em Hogwarts e, embora o Professor Lockhart estivesse há muito afastado da escola (para alívio dos garotos e uma pontinha de desapontamento das garotas), seus malditos anões mensageiros continuavam a marcar presença todo santo ano pelos corredores do castelo naquela data tão especial (para completo desgosto dos professores). Alvo Dumbledore era um velho romântico que acreditava nessas singelas formas de demonstração de amor e afeto como uma boa saída para promover um espírito positivo entre os membros das diferentes casas e, até mesmo - por que não? -, entre os membros do quadro de professores e funcionários de Hogwarts - enquanto observava o primeiro anão do dia caminhar apressadamente em direção a uma das pontas da mesa da Sonserina, o Diretor, sorrindo beatificamente, se perguntava o que um sonserino faria caso re cebesse um adorável cartão de Dia dos Namorados inesperado. Mais especificamente, o que um certo sonserino faria caso recebesse um cartão de uma certa colega sua, que parecia ter se decidido a se arriscar naquele ano, movida por um de seus presságios... O amor era mesmo lindo - ainda que o teimoso do jovem Severo não concordasse nem um pouquinho com isso. Mas quem sabe a nossa querida Sibila não estivesse certa, dessa vez?...

"Tenho um cartão musical para entregar a Drago Malfoy em pessoa."

"Aqui não!", Draco certamente adorava exibir suas conquistas por aí, mas não gostava nem um pouquinho da idéia de pagar o maior mico na frente de toda a escola.

Do outro lado do salão, Harry se levantara de sua cadeira, para apreciar melhor o espetáculo, sentindo que a vingança, realmente, é um prato que se come frio - e, quanto mais frio, melhor. Rony se controlava para não começar a rir antes do tempo. Todos tinham, de fato, parado para assistir à cena que estava por vir, muito curiosos - só Virgínia Weasley parecia não ter se afetado com o "acidente" e continuava a bebericar tranqüilamente o seu café com leite. Ela estava apreciando o gosto daquilo.

Quando Draco fez menção de se levantar, empurrando para trás a cadeira em que estava sentado, o anão, num movimento brusco para impedir que ele fugisse, derrubou-o ao chão, com cadeira e tudo. A isso, os sonserinos se assustaram - que nada de grave tivesse acontecido ao seu "líder espiritual"! - e a maioria do salão se pôs a rir incontrolavelmente, mesmo forçadamente - aquilo nem era tão engraçado assim, mas uma chance de humilhar o presunçoso do Malfoy não era de se desperdiçar. Só uns poucos alunos muito altruístas, como Hermione, se preocuparam com o que poderia ter acontecido ao colega - Simas, ao lado dela, segurava-se para não cair na gargalhada também e respondia-lhe que, muito provavelmente, tudo estava bem, ninguém morria por cair ridiculamente de uma cadeira. Pelo rosto de Gina, era impossível saber a que grupo ela pertencia, se à esmagadora maioria que morria de rir, ou à meia meia dúzia que se compadecera do detestado sonserino.

"Muito bem - ", disse o anão, empoleirado sobre o estômago do pobre rapaz, "vamos ao seu cartão cantado!".

Uma melodia desconhecida de 99% dos alunos - exceto, obviamente, alguns dos nascidos trouxas que ainda cultivavam um contato considerável com o seu mundo de origem, em suas visitas de férias ou feriados - começou a ser tocada (muito mal tocada, por sinal) pela harpa encantada, e a voz desafinada do anão, tão horrorosa quanto a sua aparência, pôde ser ouvida por todo o aposento, para completo desespero do garoto esticado sob ele.

 

 

Dear momma’s boy

[Caro filhinho-da-mamãe]

I know you’ve had your butt licked by your mother

[Sei que a sua mãe lambeu a sua bunda]

I know you’ve enjoyed all that attention from her

[Sei que você desfrutou de toda aquela atenção dela]

and every woman graced with your presence after

[e de cada mulher agraciada com a sua presença depois dela]

 

 

Nova explosão de risadas. Era verdade - Draco não vivia espalhando que era o "expert" em mulheres, que vivia tendo que lidar com o fato de tê-las se lançando aos seus pés feito gotas de chuva numa tempestade?! A começar pela mãezinha dele, é claro.

 

 

Dear narcissus boy

[Caro menino Narciso]

I know you’ve never really apologized for anything

[Sei que você nunca se desculpou de verdade por coisa alguma]

I know you’ve never really taken responsability

[Sei que você nunca se responsabilizou de verdade]

I know you’ve never really listened to a woman

[Sei que você nunca escutou de verdade uma mulher]

 

 

"Não - ele prefere os homens, mesmo!", alguém gritou de uma das mesas.

Mais risadas e uma onda de comentários que ameaçavam abafar a voz do anão - e como Draco queria que aquela maldita voz fosse silenciada!

 

 

Dear me-show boy

[Caro menino exibido]

I know you’re not really into conflict resolution

[Sei que você não gosta de resolver conflitos]

or seeing both sides of every equation

[ou ver ambos os lados de toda equação]

or having an uninterrupted conversation

[ou ter uma conversa não-interrompida]

 

 

"Tsc, tsc... Ele é muito burro pra isso!"

Outro grito de uma das mesas, outra explosão de gargalhadas, outra onda de comentários.

Do alto de seu assento, Alvo começava a cogitar a hipótese de interromper aquilo tudo - afinal de contas, ele queria promover o espírito positivo entre os alunos, e não lhes dar outro meio para entrarem em conflito. Mas ele sabia que, uma vez tendo começado a sua cantoria, o anão não se permitiria ser interrompido por nada nesse mundo. O Diretor suspirou profundamente, pensando que não havia nada a ser feito naquele caso e já lamentando ter que cancelar, para os próximos anos, aquela idéia tão formidável do saudoso Professor Lockhart, depois desse acidente desagradável.

 

 

And any talk of healthiness

[E qualquer conversa sobre ser saudável]

and any talk of connectedness

[e qualquer conversa sobre ligar-se a algo ou alguém]

and any talk of resolving this

[e qualquer conversa sobre resolver isso]

leaves you running for the door

[faz você correr para a porta]

 

 

"Como o bom covarde que ele é!"

Desesperado, Draco não sabia o que pensar, perdido entre um turbilhão de sentimentos - raiva daquele anão ridículo que ousava fazê-lo passar por tamanha humilhação em meio a praticamente todo o castelo (ele tinha que dar um jeito de fazer o seu pai encontrar uma forma de punir aquele desgraçado!); ódio daqueles alunos estúpidos que se aproveitavam da situação para rirem dele feito idiotas, como se quisessem botar os pulmões para fora (eles não perdiam por esperar...); curiosidade por saber quem tinha sido o infeliz que lhe enviara aquilo, sem dúvida com a intenção clara de humilhá-lo (mas é claro que tinha sido o maldito do Potter! Quem mais poderia ser? Quem?... Será?... Não, ela não faria isso - ou faria?...); vergonha por saber que ela estava presenciando tudo aquilo também (Merlim, diga que n&at ilde;o foi ela!).

 

 

(Why why do I try to love you

[Por quê, por que eu tento amar você]

try to love you when you really don’t want me to)

[tento amar você quando você não quer mesmo que eu ame?]

 

(Why why do I try to love you

[Por quê, por que eu tento amar você]

try to love you when you really don’t want me to)

[tento amar você quando você não quer mesmo que eu ame?]

 

 

De repente, um quase silêncio tomou conta do salão - então, aquilo não era só uma brincadeira?... Havia mesmo uma garota apaixonada por trás daquele cartão? Impossível - quem?!

Então, Draco teve certeza de quem era a responsável por aquilo - embora ele não quisesse acreditar, quem mais diria, mesmo de uma maneira nada ortodoxa, que o ama, ou quase? Só podia ser ela.

 

 

Dear egotist boy

[Caro menino egotista]

You’ve never really had to suffer any consequence

[Você nunca teve que sofrer nenhuma conseqüência de verdade]

You’ve never stayed with anyone longer than ten minutes

[Você nunca ficou com ninguém por mais do que dez minutos]

You’d never understand anyone showing resistance

[Você nunca entenderia ninguém que mostrasse resistência]

 

 

"O irresistível charme macabro dos Malfoy!...", alguém ainda se arriscou a tentar fazer graça, mesmo depois da súbita mudança de "clima" do salão.

Dessa vez, menos risadas ecoaram pelo recinto.

 

 

Dear popular boy

[Caro menino popular]

I know you’re used to getting everything so easily

[Sei que você está acostumado a conseguir tudo tão facilmente]

a stranger to the concept of reciprocity

[um estranho à noção de reciprocidade]

People honor boys like you in this society

[As pessoas honram meninos como você nessa sociedade]

 

 

"Ei, nem todo mundo aqui é um sonserino!..."

Menos risadas ainda - aquilo estava mesmo começando a perder a graça, para o desapontamento daqueles que viam nessa situação inusitada uma oportunidade única de acabar com o nojento do Malfoy.

 

 

And any talk of selflessness

[E qualquer conversa sobre altruísmo]

and any talk of working at this

[e qualquer conversa sobre trabalhar isso]

and any talk of being of service

[e qualquer conversa sobre ser útil]

leaves you running for the door

[faz você correr para a porta]

 

 

"Como o bom covarde que ele é!" - o refrão ainda foi gritado por alguns alunos, mas sem muito entusiasmo.

 

 

(Why why do I try to help you try to help you

[Por quê, por que eu tento ajudar você, tento ajudar você]

when you really don’t want me to)

[quando você não quer mesmo que eu ajude?]

 

(Why why do I try to help you try to help you

[Por quê, por que eu tento ajudar você, tento ajudar você]

when you really don’t want me to)

[quando você não quer mesmo que eu ajude?]

 

 

Nenhuma palavra dessa vez, apenas alguns risinhos sem graça e uns olhares intrigados.

 

 

You go back to the women who will dance the dance

[Você volta para as mulheres que vão dançar a sua dança]

You go back to your friends who will lick your ass

[Você volta para os seus amigos que vão lamber a sua bunda]

You go back to ignoring all the rest of us

[Você volta a ignorar todo o restante de nós]

You go back to the center of your universe

[Você volta para o centro do seu universo]

 

 

À menção do egocentrismo do garoto (evidente e inegável, aliás), vozes voltaram a ser ouvidas, mas Draco não lhes dava mais atenção. Ele estava concentrado em seus pensamentos, numa tentativa de escapar àquelas vozes hostis e, principalmente, àquela voz irritante que insistia em lhe lançar à cara todos aqueles desaforos que, no fundo, ele sabia não serem exatamente mentiras a seu respeito.

E aquilo estava começando a doer - sim, doía muito mais do que ele gostaria de admitir, muito mais do que o peso daquele ser esdrúxulo sobre o seu estômago, muito mais do que se ela tivesse escolhido lançar-lhe um Cruciatus. Ele não imaginava que ela tinha tanto poder.

Bem, ela tinha lhe avisado para não subestimá-la, não tinha? Tinha - e ele, em sua autoconfiança exagerada, não lhe dera atenção. Agora, tinha que agüentar as conseqüências de tamanha estupidez.

 

 

Dear self-centered boy

[Caro menino auto-centrado]

I don’t know why I still feel affected by you

[Não sei por que ainda me sinto afetada por você]

I’ve never lasted very long with someone like you

[Nunca durei muito tempo com alguém como você]

I never did although I have to admit I wanted to

[Nunca durei, embora tenha que admitir que queria]

 

 

Tamanha estupidez tinha sido se aproximar daquela garota maldita - a maior estupidez que já cometera em toda a sua vida, sim. Mas uma estupidez tão... Tão... Deliciosa!... Droga! Por que ele foi deixar isso acontecer?! Por que foi se envolver - se envolver de verdade - com aquela menina que agora se mostrava também diabólica - tanto quanto ele mesmo, ou até mais? Quando foi que ele perdeu o controle das coisas? Quando lhe entregou as rédeas daquilo que não era pra ser mais do que uma provocação ao escudeiro do Potter e, ao mesmo tempo, um mero passatempo saboroso? Um passatempo apimentado, com a cor daquela cabeleira perfumada e inacreditavelmente sexy...

Um sorriso esteve prestes a se esboçar nos lábios de Draco àquela lembrança - mas não era um de seus sorrisos de escárnio quase que perfeitamente copiados do seu protetor, e sim, um sorriso genuíno. Apesar da situação em que se encontrava, ele sentiu, sim, vontade de sorrir - então, ela confessava que ainda sentia alguma coisa por ele e que gostaria de que as coisas dessem certo, mesmo com "alguém como ele". Mas... Quem eram os "outros" como ele? Ela estava falando sério, ou era só uma passagem qualquer da canção? Bom, de qualquer forma, isso era um ponto a seu favor - mas ele não cantou vitória dessa vez, como normalmente faria; pelo contrário, sentiu um medo enorme de ter perdido, perdido tudo, e desejou poder fazer alguma coisa, qualquer coisa, para salvar o pouco que ainda possuía. Desejou, com todas as suas forças, q ue não tivesse feito nada de tudo de ruim que sabia ter feito para ela, em sua estúpida intenção de cumprir o seu plano contra o pobretão até o fim e em sua teimosa negação de assumir para si mesmo o que estava começando a sentir pela sua vítima.

Se soubesse que ele acabaria tombando, vítima de sua própria armadilha, como naquelas ridículas historinhas sem um pingo de imaginação em que o feitiço acaba virando contra o próprio feiticeiro... Malditas historinhas!

 

 

Dear magnetic boy

[Caro menino encantador]

You’ve never been with anyone who doesn’t take your shit

[Você nunca esteve com ninguém que não engolisse a sua merda]

You’ve never been with anyone who’s dared to call you on it

[Você nunca esteve com ninguém que ousou chamar você disso]

I wonder how you’d be if someone were to call you on it

[Me pergunto como você ficaria se alguém o chamasse disso]

 

 

Agora ela estava pegando pesado - muito pesado, mais do que ele pensava que podia suportar. E ele começava a se perguntar qual era a intenção dela com tudo aquilo, se lhe mandar um recado, um aviso, ou se apenas acabar com ele, humilhá-lo, pura e simplesmente. Era um sinal para que eles se falassem novamente e resolvessem de uma vez por todas o que havia entre os dois, ou um sinal cruel e insensível de fim de jogo, para que ele soubesse muito bem que tinha perdido a partida que considerava sua desde o início?

Aquilo era uma prova de amor ou de ódio?

Enquanto Draco tentava descobrir a resposta a essa pergunta que martelava na sua cabeça, junto com a voz daquele anão desgraçado, os outros alunos voltavam a rir com vontade - ninguém esperava que o Malfoy fosse insultado publicamente, e com tamanho efeito, daquela maneira. Todos os que já tinham sido humilhados por ele em algum momento de suas vidas ou que nutriam uma aversão antiga por ele, ainda que sem motivo direto algum, sentiam-se realizados e frustrados ao mesmo tempo, por não poderem chamá-lo de merda - era isso o que ele era, afinal, não eeera? Um merdinha. - em voz alta, pois o olhar do Diretor os advertia acerca de uma provável punição coletiva caso eles continuassem a humilhar maldosamente o colega indefeso ou ousassem baixar ainda mais o nível da situação.

 

 

And any talk of willingness

[E qualquer conversa sobre boa vontade]

and any talk of both feet in

[e qualquer conversa sobre envolvimento pra valer]

and any talk of commitment

[e qualquer conversa sobre compromisso]

leaves you running for the door

[faz você correr para a porta]

 

 

Sim, ele sentia uma vontade enorme de sair correndo dali, daquele inferno povoado por grifinorianos, lufa-lufas, corvinais e sonserinos (sim, alguns sonserinos não resistiram e também se juntaram à turma dos que promoviam o massacre do seu monitor, por vingança ou por pura maldade mesmo - mas esses seriam os primeiros a pagar, ah, se seriam!...) às gargalhadas e liderado por um anão cantando impassivelmente, tudo isso acompanhado pelo som de uma harpa mal enfeitiçada.

Mas, antes de sair, ele daria o troco à responsável por aquele espetáculo - ou não se chamava Drago... Não! Draco Malfoy. Só não sabia ainda exatamente que tipo de troco seria o mais eficiente... Já que ela estava se aproveitando dos sentimentos, do relacionamento dos dois (espere aí - mas quem disse que ele tivera algum sentimento, algum relacionamento ligado àquela menina tola?), ele também podia muito bem usar essa arma, entrar no jogo dela - pelo menos, era do que ele tentava se convencer enquanto contava os segundos para que aquela música maldita finalmente acabasse.

Maldita música - trouxa, só podia ser... De onde ela a tirara? - que... Dizia tanta coisa.

 

 

(Why why do I try to change you

[Por quê, por que eu tento mudar você]

try to change you when you really don’t want me to)

[tento mudar você quando você não quer mesmo que eu o mude]

 

(Why why do I try to change you

[Por quê, por que eu tento mudar você]

try to change you when you really don’t want me to)

[tento mudar você quando você não quer mesmo que eu o mude]

 

 

Na verdade, Draco não era o único a começar a se sentir impaciente para que aquela palhaçada toda chegasse logo ao fim, e para ir embora dali.

Os professores, que haviam ficado no salão por não saberem se o Diretor lhes permitiria se retirarem ou não (certo - alguns estavam ali por pura curiosidade mesmo) já davam mostras de uma profunda irritação, e alguns começavam a se levantar para sair. Era tarde, o sinal já havia tocado há muito tempo (quase ninguém o ouvira, entretidos que estavam pela canção do anão), e eles tinham seus compromissos para atender - mais precisamente, aulas a serem dadas, mesmo que todos os alunos do colégio ainda estivessem fora das suas respectivas salas.

Alvo também tinha o cansaço e o desgosto estampados em sua face envelhecida. Ele nunca havia se sentido tão impotente diante de uma travessura de um aluno antes, e não sabia que atitude tomar a respeito dessa. Uma punição era obrigatória, evidentemente, por mais que ele detestasse ter que apelar para esses métodos tão retrógrados e ineficientes de educação - mas o grau dessa p,unição dependeria de como essa história toda terminasse (e quando, ó Quatro Grandes, aquilo tudo acabaria? Aquela cantoria parecia não ter mais fim! Como ele se arrependia de ter mantido aquela idéia maluca de anões-cupido...).

Os alunos não estavam menos cansados daquilo tudo - afinal, toda brincadeira tem hora pra acabar e a repetição leva ao tédio. No fundo, ninguém estava mais se divertindo com aquela situação; a graça chegara ao fim, depois de alguns minutos que pareciam se arrastar até o infinito. Harry sentara-se de volta à sua cadeira; Rony passava e repassava distraidamente as mãos pelos seus cabelos vermelhos; Simas voltara a dedicar toda a sua atenção a Hermione, que fingia muito bem não captar os sinais significativos que ele lhe dirigia; Parvati e Lilá se aproveitaram da confusão para abordar os dois corvinais em quem estavam de olho; Collin já parara de bater fotografias daquele acidente cômico há algum tempo (pelo menos, Draco já podia parar de reclamar de que o alvo exclusivo da câmera de Creevey era o São Potter...); Crabbe e Goyl e pareciam tão aflitos quanto o seu mentor, já antecipando a bronca que levariam por não terem sido capazes de parar um simples anão; Bulstrode também se aproveitara da situação para se aproximar de Pansy Parkinson e a consolava, enquanto a menina se desesperava por ver Draco daquele jeito e por se lembrar do jeito mais rude do que o usual com o qual ele a vinha tratando já há uns bons meses; Zabini tirava um cochilo, a cabeça e os braços abandonados sobre a mesa à sua frente.

Somente duas pessoas pareciam não desejar que a canção chegasse ao fim tão logo - Neville não estava nem um pouco a fim de encarar uma aula dupla de Poções logo após um café-da-manhã tão agradável; Gina também estava desfrutando calmamente daquele café-da-manhã tão especial de Dia dos Namorados e não queria ter que ver aquela mágica de repente esgotada, à última nota daquela canção trouxa.

 

 

You go back to the women who will dance the dance

[Você volta para as mulheres que vão dançar a sua dança]

You go back to your friends who will lick your ass

[Você volta para os seus amigos que vão lamber a sua bunda]

You go back to being so oblivious

[Você volta a ser tão distraído]

You go back to the center of the universe

[Você volta para o centro do universo]

 

 

No entanto, ela sabia que aquilo tinha que acabar e que, de qualquer forma, já estava mesmo no fim - há muito tempo. Mas havia sido tão bom dançar ao som daquela música... Ela quase se arrependia de ter dado o último passo. A orquestra chegava ao fim de sua performance e o seu parceiro logo lhe faria a convencional mesura de despedida. Então, era hora de ela tomar a sua posição também.

Com um olhar ao ponto onde deduzia que ele estava, Gina se levantou e se pôs a caminhar, sem pressa, em sua direção - quase ninguém notou, cada um entretido novamente pelos seus próprios assuntos particulares. Apenas quando o silêncio voltou a reinar completamente no salão foi que as dezenas de olhares se voltaram sobre ela, uma figura tão pequena e aparentemente insignificante estendendo sua mão para o grande garoto arrasado no chão.

"Vamos, eu ajudo você a se levantar, Draco."

A isso, Rony fez menção de se levantar também e ir até lá, mas Hermione o impediu. Agora ela entendia o motivo pelo qual sua amiga lhe pedira emprestado aquele CD e seu discman encantado para funcionar em Hogwarts (sim, aquilo era um clichê horroroso, mas era também muito prático e ela não deixaria de ouvir música trouxa só por medo de não parecer "clichê"). Hermione estranhara a fascinação que Gina começara a demonstrar pela cantora canadense desde que ouviram juntas aquele álbum na sua casa em Londres, nas últimas férias - ao contrário de seu pai, Virgínia Weasley não se mostrava muito interessada pelas coisas trouxas. Aí estava a explicação - Hermione sorria ao pensar na coragem da "menininha Weasley", que, pelo visto, era muito maior do que a dela própria (para esse tipo de assunto, pe lo menos). Sua amiga tivera a coragem de se deixar levar por um sentimento "proibido" por um sonserino arrogante, coisa que ela mesma tentava evitar a todo custo, em vão - a propósito, estava começando a se sentir ansiosa por sair dali e ir depressa para as masmorras, para a sala de aula de Poções. Afinal de contas, eles já tinham perdido um tempo precioso de aula e ela não gostava nada de perder aulas - especialmente aquelas aulas... Hermione voltou de seus devaneios com um puxão mais brusco do braço de Rony, que não conseguia se conter diante da cena que estava presenciando.

"Não preciso da sua ajuda, Weasley!"

Finalmente livre do anão, Draco se esforçava por se colocar de pé, dolorosamente - aquela queda tinha sido mais feia do que ele supusera. Gina continuava a lhe estender a mão, solicitamente.

"Você se machucou?"

"Saia daqui, menina imbecil!"

Ele estava sendo duro, mas boa parte da culpa pelo humor dele era dela, ela sabia disso. Então, tentou não se deixar abater por aquelas palavras rudes - afinal, a letra daquela canção não devia ter soado nem um pouco menos cruel para ele, também - e se ajoelhou ao seu lado.

"Não queria que você se machucasse, acredite."

"Não se julgue tão poderosa assim, Weasley - você não me atinge."

Ajudado por ela, muito a contragosto, Draco estava finalmente de pé - mas Gina não soltara a sua mão, continuando a segurá-la de um jeito tão firme quanto o olhar que lançava ao garoto à sua frente.

"O anão esqueceu de dizer que o remetente da mensagem ainda está disposto a continuar tentando mudar, ajudar e amar o seu pequeno Narciso - quer dizer, se ele entendesse o recado e fizesse a sua parte também, é claro."

Draco não respondeu nada - apenas puxou bruscamente a sua mão, libertando-se, e encaminhou-se em direção à saída. À porta, ele se voltou para ela e disse, em voz alta o suficiente para que todos os que ainda permaneciam no salão o ouvisse:

"Com licença - eu tenho aula de Poções agora. Não posso perder mais tempo com besteiras. Espero que o seu showzinho não tenha lhe custado a sua casa, Weasley. Não conseguiria dormir pensando na minha culpa por mais um bando de pobretões desabrigados..."

Com o fim do show, os outros também se dirigiam à saída, prontos para enfrentarem mais um dia (e que dia!) no velho castelo.

"O que isso significa, Virgínia?! Você poderia fazer o favor de me explicar essa palhaçada toda?! Hein?! Ficou surda de repente? Deve ter sido aquele anão maldito que você contratou pra cantar o Malfoy! Vamos, fale!... Você sabe que a mamãe não vai gostar nada de saber disso e que o papai vai ter um ataque de desgosto! A única filha deles... A caçulinha... Pode esperar um berrador pro jantar, porque eu vou mandar uma coruja pra casa e você vai ver só..."

"Com licença, Sr. Weasley." Era o Diretor. "Preciso falar com sua irmã um minutinho, sim? E o Professor Snape já deve estar impaciente, esperando por vocês nas masmorras - se eu fosse vocês, não me demoraria nem mais um segundo."

Com isso, Rony, arrastado por Harry e Hermione, saiu do salão, ainda furioso. Gina não sabia o que era pior - os berros de Rony ou o sermão de Dumbledore. Mas ela assumia a total responsabilidade pelo que tinha feito - era exatamente o que sentia que devia fazer e estava aliviada por tê-lo feito, finalmente, embora isso talvez tenha lhe custado mais caro do que ela desejava. A raiva do irmão, a incompreensão ou o deboche dos colegas, uma punição severa do próprio Diretor e... O desprezo (ela torcia para que fosse somente desprezo, e não ódio) do garoto que ela ridicula e masoquisticamente amava.

"Perdoe-me pelo transtorno, Diretor, mas eu..."

"Parabéns, Srta. Weasley."

Parabéns? Por um segundo, Gina se perguntou se não tinha mesmo ficado surda - ou louca, vai saber... - ou se Dumbledore resolvera adotar a tática de ironia ferina do Snape.

"Você demonstrou uma tremenda coragem e nobreza hoje, minha querida menina. O menino Malfoy tem sorte em poder contar com uma grifinoriana de tanto valor como você."

Gina ainda não conseguia articular nenhuma palavra, mas abriu um belo sorriso ao velho bruxo à sua frente.

"Mas - você sabe que terei que lhe dar uma punição, não?" Ela concordou com a cabeça. "Por ter perturbado o café-da-manhã com uma baita travessura, por ter exposto deliberadamente um colega ao ridículo - e por ter feito com que eu me visse obrigado a finalmente atender aos pedidos dos professores e cancelasse os anões-cupido do dia dos namorados..."

"Sinto muito, Professor Dumbledore." Ela ainda sorria - o velho Diretor era mesmo uma figura!...

"Acho que quinze pontos da sua Casa e detenção com o meu caro Rúbeo por uma semana são o suficiente - não concorda?" Gina balançou a cabeça novamente - isso era bem menos do que ela esperava ou merecia, ela sabia. "Pode ir agora, Srta. Weasley - e tente não se meter em mais nenhuma confusão por hoje, sim?"

"Obrigada, Diretor. Não se preocupe - todos nós já tivemos o bastante por hoje."

Quando a viu atravessar as grandes portas do Salão Principal, Alvo também se retirou, pela saída reservada aos professores, suspirando ao pensar que aquele dia estava apenas começando - eles todos ainda teriam um dia e tanto pela frente, ele podia prever.

"Weasley."

Saindo de trás de um pilar, onde tinha estado esperando pela saída dela, Draco se pôs repentinamente à frente de Gina, o que a assustou.

"Draco!"

Um silêncio constrangido.

"O que você está fazendo aqui ainda? Não devia estar nas masmorras, desfrutando da agradabilíssima aula do seu queridíssimo Professor Snape? Pensei ter entendido que você estava com pressa."

"Você só fala besteira, você só faz besteira... Sabia, Weasley?" Ela ia responder, despeitada, mas ele a interrompeu: "E é exatamente por isso que eu adoro você.".

Então, seguiu-se um típico beijo de reconciliação, com sabor de mágoa e paixão, como em um final de uma novela mexicana qualquer - quem disse que eles não se beijariam desesperadamente também, como em todas as histórias de amor contrariado tão batidas, hein? Draco só não queria que fosse ali no salão, no meio de todo mundo, como firme adepto da Causa Contra "Soar Clichê" que era - mas namorar Virgínia Weasley não era um clichê pra ele, também?... Bom, mas a esse ele abria uma exceção.

"Quer besteira maior do que se apaixonar por um filhinho-de-mamãe como eu?"

Abraçados, eles trataram de escapar dali e ir matar aula em algum lugar mais reservado, para curtirem juntos o restante daquele incomum dia dos namorados - uma sala esquecida nas masmorras, talvez?...

 

 

 

 

Enquanto Gina terminava sua conversinha com o Diretor e era abordada por Draco, os outros alunos do último ano da Grifinória e da Sonserina alcançavam, finalmente, o corredor que levava à sala de aula de Poções - o corredor mais temido de todo o castttelo. Liderando a fila de alunos preocupados (e temerosos) pelo atraso, Hermione de repente parou, à entrada da sala, como se tivesse sido atingida por um Petrificus Totalus.

 

 

Love me tender, love me sweet

[Me ame ternamente, me ame docemente]

All my dreams fulfilled...

[Todos os meus sonhos preenchidos...]

 

 

Ninguém podia acreditar no que estava vendo (e ouvindo) - alguém tinha mandado um cartão musical para Severo Snape e ele agora jazia no meio de sua sala de aula, com um anão muito parecido com o que atacara Draco sentado sobre o seu pescoço, mal tomando cuidado para não o sufocar (como será que aqueles anões tão pequeninos conseguiam imobilizar um homem muito maior do que eles e causar tamanho estrago?...). Todos competiam por um espaço à porta para testemunharem cena tão insólita - e eles que pensavam que, depois do que tinham presenciado no café-da-manhã, não se surpreenderiam com mais nada naquele castelo!... -, mas ninguém se atrevia a rir ou dizer uma só palavra. Apenas se limitavam a se perguntar mentalmente quem teria cometido semelhante loucura, que ultrapassara, e muito, a de Gina. Hermione não cedeu seu lugar privilegiado à e ntrada para ninguém, nem mesmo para os seus amigos Harry e Rony, que lhe imploravam com olhares de cachorrinhos perdidos.

"Ah, droga!... Agora que já acabou o show ela sai... De que adianta? Não conseguimos ver quase nada, mesmo..."

Quando a canção finalmente terminou e o anão dava mostras de se levantar, ela se dirigiu até onde Severo estava, completamente subjugado, como raras vezes estivera em toda a sua vida.

"Vamos, eu ajudo você a se levantar, professor."

"Não preciso da sua ajuda, Granger."

"Você se machucou?"

"Saia daqui, menina tola!"

Sentindo uma terrível sensação de déjà-vu*, Rony não se conteve e gritou:

"Não acredito, Mione! Não, eu não acredito!... Me diga que não é verdade, por favor! Diga que você não fez isso... Mandar um cartão inocente pro babaca do Lockhart quando se é uma menininha boba de doze anos é uma coisa, mas mandar uma coisa ridícula dessas pro nojento do Snape quando se é uma adolescente de dezessete é outra coisa completamente diferente - e infinitamente mais grave! Você enlouqueceu, Hermione?!"

"Eu não! Você enlouqueceu, Rony Weasley! Como pode pensar que eu faria uma coisa tão estúpida como essa, hein?!" A essas palavras, ela se calou de repente, levando a mão à boca, como se tivesse dito algo que não queria ter dito. Severo apenas ergueu uma sobrancelha e lhe lançou um de seus olhares mordazes. "Quero dizer... Não que mandar um cartão de Dia dos Namorados pra você, professor, seja algo estúpido, mas essa música... Quero dizer, esse anão, entende?, não é exatamente a idéia que eu tenho de algo romântico... Eu jamais faria uma coisa dessas..." Rony estava boquiaberto - sim, ela estava louca, coitada!... Depois de sua irmã, a sua melhor amiga... "Não é você, professor, é... É essa coisa!..." Hermione apontava para o anão que se retirava, arrastando sua harpa atrás de si. "Bem, não é bem isso, é que..." Quanto mais ela, a Sabe-Tudo, falava, mais se comprometia. Severo estava começando a achar tudo aquilo um pouco menos desagradável.

"Saiam daqui já, todos vocês!" Ainda chocados pela cena que tinham acabado de presenciar, ninguém se moveu. "Ficaram surdos de repente? SAIAM!"

Quando a metade dos alunos já alcançava o meio do corredor, em seu caminho de volta aos andares superiores, ele declarou, em sua voz letalmente macia:

"Dez pontos pela sua gritaria em minha sala, Sr. Weasley, e mais dez pontos pelo ‘nojento do Snape’." Rony bufou, sendo puxado para fora da sala por um Harry apressado, com Hermione bem atrás dele. "Você fica, Srta. Granger - detenção, por desrespeito a um professor." Agora sim, Rony estava furioso - e sua amiga estava perdida. "Não lhe dei permissão para discorrer sobre minha possível vida sentimental em meio aos seus colegas - aliás, não lhe dei permissão para discorrer sobre a minha vida sentimental de maneira alguma."

Trancando a porta com um feitiço poderoso, ele ainda disse, antes que mais um beijo de novela acontecesse naquela manhã em Hogwarts:

"Mas posso pensar em lhe dar permissão pra fazer parte dela, se você quiser."

 

 

"Você sabe que não fui eu quem lhe mandou aquele cartão horroroso, não sabe?"

"Eu sei - foi a Professora Trelawney. O anão me falou sobre uma história de previsão, de destinos traçados... Um monte de besteiras. Só queria saber como ele conseguiu me encontrar aqui embaixo... Pensei que estivesse seguro nas masmorras."

Ah - aí estava a explicação para a sonolência excessiva de Blás Zabini naquela manhã!... Sibila Trelawney lhe fizera uma ameaça de um destino trágico caso se recusasse a cumprir o papel que ela lhe previra na união de dois corações destinados a ficarem juntos - e, caso um destino trágico não fosse o suficiente, ela lhe garantira uma detenção, cinqüenta pontos a menos da Sonserina e uma prova especialmente difícil, ao acaso (você sabe como funciona o acaso, não sabe, minha criança?...), entre os vários tipos de provas que ela preparava para cada turma. Então, não restara outra alternativa a Zabini, a não ser passar aquela noite marcando todo o caminho até a sala de aula de Poções com um feitiço invisível que guiaria o anão de Lockhart até o Diretor de sua Ca sa na manhã seguinte.

"Coitada da Trelawney!... Mais uma previsão furada, então?..."

"Graças a Salazar Slytherin!"

"E a Godrico Gryffindor."

Severo fez uma careta de desgosto, mas logo sorriu maliciosamente à sugestão de Hermione:

"Já que estamos matando aula mesmo, que tal escaparmos daqui e irmos pr’algum lugar mais reservado, pra curtirmos juntos o restante desse Dia dos Namorados tão incomum? Uma sala esquecida nas masmorras, talvez?..."

"Sala esquecida nas masmorras é coisa pra amadores. Não tem lugar mais reservado nesse castelo do que os meus aposentos particulares, Srta. Granger."

Uau - ele a estava convidando para ir até o quarto dele, era isso? Não - era mais do que isso: ele a estava convidando para ir pra cama com ele. Merlim!...

À entrada dos aposentos de Severo, os dois se depararam com um outro casal que buscava mais privacidade na escuridão das masmorras. Por um segundo, os quatro hesitaram - O Malfoy e a menina Weasley? O Professor Snape e a Sangue-Ruim? É isso aí, amiga! É isso aí, amiga! -, mas logo trataram de fazer de conta que não tinham se visto. Eles tinham coisas mais urgentes de que tratar naquele momento.

Que aqueles dois casais tão "clichê" desfrutassem de um Dia dos Namorados agradável em paz - com a bênção de Salazar Slytherin e Godrico Gryffindor, e a santa boa-vontade de Alvo Dumbledore em "promover um espírito positivo" em Hogwarts.

E um viva aos malditos anões-cupido de Gilderoy Lockhart, é claro.

 

(FIM)

 

N/A: Nossa, acabei! Tem alguém aí ainda? Eu também me cansei com aquela canção que não acabava mais (a propósito, é "Narcissus", do mais recente álbum de estúdio da Alanis, "Under Rug Swept"; a outra, a que Sibila dedicou a Severo, é "Love Me Tender", do Elvis Presley - como se ninguém soubesse...) e com todas as besteiras que escrevi - me perdoem. Mas é que me bateu um ânimo para finalmente me arriscar a escrever algo que não fosse estritamente SS/HG (bom, como esse é o meu casal favorito, não poderia deixar de incluí-lo na fic, de qualquer jeito, mesmo que essa não fosse a minha intenção inicial... Hehehe!) - querem coisa melhor do que DM/VW? Pô,,, assim eu não deixo de trabalhar um relacionamento "proibido" e ainda invado o território dos populares escritores de fics sobre esse casal mais popular ainda aqui n o Brasil! Quem sabe dessa vez não tenho mais do que três ou quatro leitores?... Hahaha!... Mas não abandono SS/HG por nada nesse mundo - leitores, fama, detenção, pontos, destino trágico... Eles são o máximo - embora escrever sobre o Draco e a Gina tenha sido bem divertido também. Ah, e perdoem-me aqueles que são fãs da Professora Sibila Trelawney - no fundo, não tenho nada contra ela; é só que, como estava lidando com clichês... Espero que entendam. :) Brincadeiras à parte (aliás, essa fic toda foi uma grande brincadeira, na verdade), espero que vocês tenham gostado - me dêem um desconto, sim? Nunca tinha tentado nada além de SS/HG na vida. Se o resultado não saiu tão ruim assim, quem sabe não escrevo algo mais "sério" numa próxima vez? Vocês é quem decidem... Que tal darem uma olhada n as minhas outras fics também (todas SS/HG)? Hehehe... Uma auto-promoçãozinha inocente não machuca ninguém. Agradeço a sua paciência - e os seus reviews, sim? :) Ah, mas guardem possíveis insultos com vocês, tá? Sei lidar bem com "crítica construtiva", mas não acho legal detonar o trabalho de alguém que só queria se divertir e divertir mais algumas outras pessoas um pouquinho - os revoltados perigosos já foram?... Bom, um abraço a todo mundo que leu e curtiu a fic, nem que seja só um pouquinho. Até a próxima!

 

*déjà-vu: do francês; literalmente, o "já visto"; é aquela sensação que temos às vezes de já termos vivido ou presenciado determinadas coisas.

 

Aviso: Todas as personagens do universo Harry Potter, assim como as demais referências a ele, não pertencem ao autor deste texto, escrito sem nenhum interesse lucrativo, mas a JKR. A primeira canção citada, "Narcissus", pertence a Alanis Morissette, e a segunda, "Love Me Tender", a Elvis Presley.

(Como se ninguém soubesse... Mas prevenir é melhor do que remediar.)




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