AS ATIVIDADES INDUSTRIAIS na América

Indústria é o conjunto de atividades que, aplicadas à produção de riquezas, transformam a matéria-prima oferecida ao homem pela natureza.
A indústria pode ser classificada de acordo com diferentes critérios. Vejamos, a seguir, algumas dessas classificações.

Os tipos de indústria:

Quanto ao volume das matérias-primas utilizadas e das fontes de energia consumidas a indústria pode ser:

• Leve: É aquela que consome pequenas quantidades de matérias-primas e de fontes de energia. Exemplos: indústria de produtos alimentares, vestuário, calçados etc.

• Pesada: É aquela que emprega grandes quantidades de matérias-primas e de fontes de energia. Exemplos: construção naval, material ferroviário etc.

Quanto ao grau de acabamento dos produtos, a indústria pode ser:

• De base: É aquela que produz bens semi-acabados, que servirão de matéria-prima para outras fabricações. Exemplos: metalurgia, petroquímica etc.

• De bens intermediários: É aquela que produz bens já elaborados e indispensáveis para a montagem final dos produtos. Exemplo: indústria de autopeças.

• De bens finais: É aquela que produz bens prontos para o uso ou para o consumo. Exemplos: indústria automobilística, de confecções etc.

Quanto à natureza dos bens produzidos, a indústria pode ser:

• De bens de consumo: É aquela que produz bens não duráveis. Exemplos: indústria de produtos alimentares, bebidas, produtos farmacêuticos etc.

• De bens de uso: É aquela que produz bens duráveis. Exemplos: indústria automobilística, de eletrodomésticos etc.

• De bens de capital ou de bens de produção: É aquela que produz os meios indispensáveis à produção de outros bens e os transportes necessários ao desempenho das atividades industriais. Podemos simplificar dizendo que é a indústria que produz indústria. Ela é também chamada de indústria de equipamentos ou de máquinas-ferramentas.

Os fatores de surgimento e de localização das indústrias

A indústria precisa de vários elementos: matérias-primas, fontes de energia, mão-de-obra, transportes, capital, mercado consumidor e tecnologia.
Esses elementos funcionam como fatores do desenvolvimento industrial, pois podem favorecer ou dificultar as atividades industriais. Assim, a inexistência de capitais disponíveis e de mercado consumidor impede o surgimento de uma indústria. Também a falta de tecnologia é um fator restritivo ao surgimento de uma atividade industrial.

A indústria na América Latina

Enquanto a América Anglo-Saxônica se tornou altamente industrializada, o mesmo não ocorreu com a América Latina.
Na América Latina, a evolução econômica não favoreceu a ocorrência dos fatores essenciais para o surgimento das atividades industriais.
Com uma economia agrária e mineira, historicamente voltada para o exterior, a América Latina não teve o acúmulo de capitais necessários para financiar o surgimento da indústria. Ao mesmo tempo e pela mesma razão, a limitação dos mercados de consumo desestimulava a instalação de indústrias.
Entretanto, no fim do século passado e início do século atual, muitos europeus fizeram investimentos industriais em alguns países latino-americanos. Mas eram, em geral, indústrias ligadas ao beneficiamento de matérias-primas e voltadas para a exportação. É o caso, por exemplo, do surgimento da indústria petrolífera na Venezuela, das indústrias de mineração no México, no Chile, no Peru e na Bolívia, da indústria pesqueira no Peru, dos frigoríficos na Argentina e no Brasil etc.
Todavia, em alguns países da América Latina, as indústrias ligadas à exportação permitiram o surgimento de algumas condições favoráveis para que outras indústrias fossem criadas. Entre essas condições destacaram-se a produção de energia elétrica, a construção de estradas de ferro e a concentração de mão-de-obra em muitas cidades.
Por outro lado, nos últimos anos, os investimentos estrangeiros, principalmente norte-americanos, aumentaram bastante na América Latina, sobretudo nos países que já iniciaram um processo de industrialização.
Com isso, o crescimento industrial tem sido grande em alguns países, como o Brasil, a Argentina e o México. No entanto, essa industrialização é, em geral, desintegrada, ou seja, está voltada principalmente para a produção de bens de uso e de consumo, ao invés de dar prioridade para a indústria pesada, de base e de bens de capital.

México e Argentina: as tentativas de industrialização

Do período colonial até o século XX

Os países latino-americanos foram colônias da Espanha. A condição de colônia estendeu-se do final do século XV até aproximadamente o primeiro quartel do século XIX.
No decorrer desse tempo, a metrópole européia tudo fez para impedir o desenvolvimento da manufatura e da indústria em suas colônias. A Espanha temia que o desenvolvimento manufatureiro e industrial desse autonomia econômica às colônias, o que fatalmente as conduziria à independência política.
Portanto, ao longo do período colonial, o desenvolvimento manufatureiro e industrial foi muito pequeno. Mesmo após a independência política formal, a industrialização das ex-colônias foi inibida ou dificultada pelas oligarquias rurais, que não desejavam perder seus privilégios políticos e econômicos. Não era do interesse dessas oligarquias, por exemplo, que surgisse uma burguesia industrial, pois isso representaria uma séria ameaça à sua liderança política e econômica.
Tentativas de desenvolvimento industrial autônomo por parte de países latino-americanos, no século XIX, foram também dificultadas em virtude de pressões externas, notadamente por parte da Inglaterra, que na época possuía a hegemonia ou liderança sobre a América Latina.
Apesar das tentativas de industrialização realizadas no século XIX, México, Brasil, Argentina e demais países latino-americanos entraram no século XX sem ter conseguido realizar suas revoluções industriais. Suas fábricas eram basicamente do setor da industria de bens de consumo não-duráveis (produtos de couro e de lã, tecidos, confecções, alimentos, móveis etc.). Não representavam, assim, setores da atividade industrial que pudessem estimular o desenvolvimento de outras indústrias, como é o caso, por exemplo, da siderurgia, que fornece aço e estimula as indústrias metalúrgica, de máquinas, de construção naval, de material ferroviário etc., que, por sua vez, estimulam o crescimento e a implementação de vários outros setores ou ramos industriais (indústrias química, de pneus, de vidro, de tintas, a própria metalurgia etc.).

Do começo do século XX até a Segunda Guerra Mundial (1939-1945)

Já no século XX, e até a Segunda Guerra Mundial, houve um relativo desenvolvimento industrial na América Latina, explicado, basicamente, por três acontecimentos:
· A Primeira Guerra Mundial (1914-1918);
· A crise de 1929;
· A Segunda Guerra Mundial (1939-1945);
As duas guerras mundiais favoreceram o desenvolvimento industrial do México, do Brasil, da Argentina e de outros países ou sociedades latino-americanas. Com as guerras, Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos (este em relação à Segunda Guerra), tradicionais vendedores de produtos industrializados para a América Latina, diminuíram suas vendas para o exterior, porque tinham canalizado seus recursos para atender às necessidades impostas pela guerra. Isso constituiu um estímulo para o desenvolvimento industrial mexicano, brasileiro, argentino e de outros países da América Latina que, não podendo mais importar, procuraram, então, produzir.
A crise de 1929 também beneficiou a industrialização de muitos países da América Latina.
Durante a Primeira Guerra Mundial a economia dos Estados Unidos apresentou grande desenvolvimento; o país abasteceu de matérias-primas, alimentos, produtos industrializados e de capital alguns países europeus. Dessa forma, após a guerra, toda a Europa, com exceção da União Soviética, devia aos Estados Unidos.
Em 1929, porém, a economia européia já estava praticamente recuperada dos desastres causados pela Primeira Guerra. Em vista disso, as importações norte-americanas realizadas pelos europeus diminuíram, e os produtos que os Estados Unidos normalmente exportavam foram se acumulando, o que provocou uma superprodução naquele país. Não tendo para quem vender a grande produção agrícola e industrial, as empresas começaram a despedir seus empregados e também a falir.
Inicia-se a crise de 1929 que provocou um desequilíbrio mundial. Os países da América Latina que vendiam produtos agrícolas e matérias-primas para o Estados Unidos e Europa tiveram suas vendas diminuídas. Com a diminuição das exportações, diminuiu também a entrada de dinheiro nos países latino-americanos. Com menos dinheiro, eles não podiam mais importar produtos industrializados em quantidade suficiente para atender às suas necessidades.
Essa situação estimulou a expansão do setor industrial dos países latino-americanos – particularmente Brasil, México, Chile, Colômbia e Peru –, que passaram a produzir com o objetivo de abastecer os mercados internos.
Como o crescimento do setor industrial do México, do Brasil, da Argentina e de outros países da América Latina, após 1929, se fez no sentido de substituir total ou parcialmente as importações de produtos industrializados, essa fase da industrialização ficou conhecida com o nome de industrialização através do processo de substituição de importações.

A industrialização após a Segunda Guerra Mundial

O período da Segunda Guerra Mundial foi importante para o desenvolvimento industrial latino-americano, principalmente para o México, a Argentina e o Brasil.
Para se ter idéia, o México, no período da guerra, aumentou a produção de aço cerca de 25 vezes. Suas reservas em dinheiro atingiram 350 milhões de dólares; as indústrias de transformação cresceram em ritmo acelerado.
É também importante destacar que, depois da guerra, houve uma nova divisão internacional do trabalho ou da produção. Não se contentando mais em apenas exportar seus produtos, as grandes empresas norte-americanas e européias começaram a se instalar em países da América Latina, África e Ásia. Pelo menos quatro fatores contribuíram para isso: mão-de-obra abundante e barata e ausência de grande organização sindical para combater os baixos salários; matérias-primas também abundantes; ampliação do mercado de consumo, representada por uma crescente classe média urbana; a própria expansão do capitalismo do centro para a periferia do sistema, como condição para sua sobrevivência.
Assim, no período de 1950 a 1970, ocorreu uma intensa internacionalização da economia, através da crescente participação de poderosas empresas multinacionais ou transnacionais implantadas no México e na Argentina. Os investimentos estrangeiros foram realizados nos mais diversos setores: automobilístico, siderúrgico, metalúrgico, eletrônico, elétrico, alimentício, de bebidas, de pneumáticos, de construção naval, e uma variedade enorme de outros ramos industriais, comerciais e de serviços.
Estudos realizados na década de 60, no México, apontaram que, das cem maiores empresas que operavam no país, dezessete apresentavam grande participação de capital estrangeiro e 39 eram totalmente controladas pelo capital externo. Das 44 empresas restantes, 24 eram estatais e apenas vinte pertenciam ao capital privado mexicano.

A distribuição espacial da atividade industrial na América Latina (com destaque para México e Argentina)

Tipos de concentração industrial

Inicialmente, é preciso distinguir duas realidades espaciais referentes a indústria: os parques ou complexos industriais e os centros industriais.
Os parques ou complexos industriais correspondem a conjuntos de muitos e variados tipos de industrias de bens de consumo e de bens de produção, que se localizam em determinado espaço territorial.
Já os centros industriais correspondem às áreas de menor densidade industrial e menor diversificação da atividade industrial e onde as indústrias de bens de produção são escassas.
Brasil, Argentina e México, além de centros industriais, possuem também parques ou complexos industriais.

México: distribuição espacial da atividade industrial

O grande parque ou complexo industrial mexicano localiza-se na área metropolitana da Cidade do México. Entretanto pode-se localizar a atividade industrial mexicana no interior de um triangulo cujos vértices são as cidades de Guadalajara, San Luis, Potosí e Puebla (o maior centro têxtil do país), tendo como centro a cidade do México.
Além desse complexo industrial, existem outros no México: Moterrey (industria siderúrgica, metalúrgica e de material elétrico), Veracruz e Tampico (indústrias químicas e refinarias de petróleo que extraem essa fonte de energia da própria região).

Argentina: distribuição espacial da atividade industrial

O maior parque ou complexo industrial argentino localiza-se na região metropolitana de Buenos Aires. Aí existe uma grande diversificação industrial: industrias siderúrgica (que importam minérios de ferro), mecânica (Ford, Renault etc.), navais, refinarias de petróleo e uma poderosa industria têxtil e de produtos alimentícios, destacando-se, entre elas, a Bunge e Bunge, transnacional argentina de alimentos que atua em vários países.
Além de Buenos Aires, a Argentina tem outros importantes centros industriais: Rosário, Córdoba, Mendoza, Santa fé, Salta, Neuquén e Baía Blanca.
O carvão mineral é explorado em El Turbio, no sul do território, mas a produção não é suficiente para atender às necessidades internas. Assim, o país importa carvão principalmente dos EUA e da Polônia. Da mesma forma, embora tenha jazidas de chumbo, zinco, cobre, minério de ferro, ouro, minério de manganês, estanho, enxofre, prata, etc., a Argentina não é auto-suficiente na produção de vários desses minerais e precisa importa-los de vários países.
É expressiva a produção siderúrgica, mecânica, química, petroquímica, elétrica, têxtil etc. da Argentina, porém a indústria alimentícia é a mais importante, sobretudo a de industrialização de derivados de carne.

O sucateamento da indústria Argentina

As inúmeras crises políticas e econômicas que envolveram a Argentina, desde 1958, ocasionaram graves problemas na estrutura industrial do país. Mas foi a ditadura militar, instalada em 1976, que sucateou a indústria. O governo liberou as importações, e elas aniquilaram boa parte das indústrias argentinas, que não possuíam poder de competição. Muitas passaram para as mãos de transnacionais, numa situação de intensa internacionalização da economia Argentina.
Ao mesmo tempo, a ditadura foi cruel com os trabalhadores: greves foram proibidas, o salário real foi reduzido à metade e o sistema produtivo, entrando em colapso, gerou o desemprego. O sistema financeiro expandiu-se através de especulação.
A divida externa Argentina, em 1991, girava em torno de 60 bilhões de dólares. Somente em armamentos admite-se que foram gastos 15 bilhões de dólares no período ditatorial. Boa parte dos empréstimos obtidos não foram aplicados na infra-estrutura do país.
Para agravar a situação, em 1982 os militares argentinos, liderados pelo general Galtieri, que ocupava a Presidência da Republica, realizaram a guerra das Malvinas, contra a Inglaterra. O país saiu do conflito ainda mais endividado. A inflação tornou-se incontrolável (em 1984 foi de 688%), prejudicando o trabalhador assalariado e fazendo aumentar a miséria na Argentina (o que estimulou a população a fazer saques a lojas etc.).
A instabilidade política e econômica provocou e evasão do capital para o exterior e acentuou a especulação financeira (compra de dólares, aplicação em bancos etc.). Não houve investimentos na modernização do sistema produtivo. Hoje, a Argentina apresenta boa parte de sua indústria sucateada, ou seja, atrasada, sob o ponto de vista tecnológico. 

Venezuela, Equador, Peru, Bolívia e Chile:

A atividade industrial desses países é bem menos intensa que a da Argentina e do México. Existem vários centros industriais, localizados nas principais cidades: Santiago e Valparaíso (Chile), Lima, Callao e Arequipa (Peru), La Paz (Bolívia), Quito (Equador), Cartagena (Colômbia) e Caracas (Venezuela). Mas é no Chile e na Venezuela que a atividade industrial é mais intensa e diversificada.

América Central:

A industrialização é incipiente e limita-se basicamente ao processamento de matérias-primas, entre elas o tabaco, algodão, cana-de-açúcar e café.

O Canadá

A industrialização do Canadá teve início durante a Primeira Guerra (1914-1918) e ocorreu principalmente devido ao envolvimento da Inglaterra no conflito mundial.
Os ingleses eram o principal fornecedor de produtos industrializados para o Canadá; porém, com a guerra, as exportações foram interrompidas. Em vista disso, os Estados Unidos passaram a substituir a Inglaterra nas relações comerciais, financeiras, econômicas e de investimentos com o Canadá. Já na década de 20, os investimentos dos Estados Unidos e a expansão de suas empresas no Canadá superavam os investimentos ingleses.
A Segunda Guerra Mundial representou, também, outro marco no desenvolvimento industrial canadense. No período do pós-guerra, investimentos dos Estados Unidos na economia canadense consolidaram a dependência e a integração do Canadá àquele país.
No início da década de 70, o Canadá passou por outro importante momento de sua industrialização: mais de 50 bilhões de dólares foram investidos no país por empresas estrangeiras. A participação do capital de empresas dos Estados Unidos foi de 78%. Esses investimentos se fizeram em vários setores: exploração de petróleo, gás natural e recursos minerais (ouro, prata, minério de ferro, urânio, níquel, cobre, zinco etc.), indústrias de transformação, comércio e setor de serviços.
O capital dos Estados Unidos está presente em quase todos os ramos de negócio no Canadá. Em alguns setores, a sua presença ou controle chega a 100%, como é o caso da indústria de automóveis (Ford, Chrysler e General Motors), de borracha e de alumínio. A Alcan Aluminium, por exemplo, aproveita a abundância de energia elétrica a preço baixo, gerada no Canadá, pois a industrialização do alumínio necessita de muita eletricidade. A Alcan também está sediada no Brasil, onde é servida pela energia elétrica produzida na Usina de Tucuruí, no Pará, a preço especial.
Em outros setores industriais canadenses, o controle por empresas dos Estados Unidos chega a 75%. É esse o caso das indústrias química e de aparelhos elétricos e eletrônicos.
Como já dissemos, a economia canadense tornou-se um verdadeiro complemento ou apêndice da economia dos Estados Unidos.

A distribuição da atividade industrial do Canadá pelo espaço territorial

A principal área de concentração industrial do Canadá localiza-se no vale do Rio São Lourenço e na região dos Grandes Lagos. Essa área tem um eficiente sistema de transportes, composto por ferrovias, rodovias e pela grande via marítima do Rio São Lourenço, a Saint Lawrence Seaway.
Nessa região, na margem direita do Rio São Lourenço, situam-se duas importantes cidades, fundadas pela colonização francesa: Montreal e Quebec. Na margem esquerda, outras duas importantes cidades: Ottawa e Toronto, fundadas pela colonização inglesa.
Nessa área estão instalados os grandes setores industriais: siderúrgico, automobilístico, químico, de papel, elétrico, eletrônico, além de uma forte indústria de bens de consumo (de vestuário, calçados, produtos alimentícios, têxtil, de mobiliário etc.).

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