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"A
purificação"
Por definição encontramos no dicionário que
o significado de "catarse" é limpeza, depuração,
purificação.
Que
outras coisas fazem aqueles que se dedicam a uma distração,
a um divertimento com extremo gosto e apuro? Que outra coisa fazem
aqueles que esquecem tudo o mais no momento de puro êxtase
quando realizam o que mais gostam por simples vontade, inexplicável
impulso inconsciente de bom?
O
brilho dos botões, o tamanho e a planura da mesa verde,
a iluminação, o apetite, o prazer.
Os botões tem vida, vida mesmo, com coração,
pulmão e fezes, a gente conversa com eles, um papo silencioso,
estranho mas verdadeiro. Os nossos botões. A gente sabe...
Botão é jogo de criança. Isso dizem uns.
Com essa idade jogando botão, ora veja... Apregoam outros.
E a gente quieto. Mal sabem eles que estão com a razão.
Sim, estão com a razão. Mas não toda.
A
medida que a noite de quinta se aproxima, a nossa idade diminui,
a minha pelo menos, rapidamente, para alcançar a dos outros.
Mas em contra partida, a importância e a seriedade do jogo
aumenta, e vai deixando de ser jogo de criança, também
rapidamente. A idade em que se dá o encontro dessas duas
correntes, que se deslocam em sentido contrário, é
indefinida, porém, certamente não é infantil.
É nesse encontro então que acontece a "pororoca
orgásmica"...
Sim, a "pororoca orgásmica", momento único
de prazer do botonista. A alegria do gol e da vitória,
do chute na trave, da cobertura bem feita, ou a surpresa negativa
do gol contra, da lateral cedida e da falta. Ah, e do pênalti.
Esquecemos do pênalti. Hum..., meio sem graça o pênalti.
E assim a noite passa, rapidamente. Sobram lembranças dela
que aos poucos se desvanecem na semana de trabalho.
Para
os de "má noite", o travesseiro duro aos poucos
amolece e os malditos botões passam a ser olhados, novamente
com algum sentido positivo. Para os que brilharam, o pensamento
que insiste na lembrança é o dos adorados heróis
fazendo seus gols nos devaneios que precedem o sono.
Mas disto tudo sempre sobra algum lucro, tanto para uns como para
outros.
Pouco a pouco modelamos nossos impulsos, numa espécie de
praxiterapia, aprendendo a aceitar a derrota, as vezes cruel e
injusta, quase sempre de indisfarçável ou melhor
dizendo, de disfarçada solidariedade e falsa compreensão.
O aceitar a derrota, o sofrer calado, ou com explicações
que nada adiantam, a sensação terrível de
que nada mais de bom existe na vida, por incrível que pareça
é salutar, pois que inconseqüente. Esta conformidade
forçada, sutilmente nos prepara para a aceitação
também de inevitáveis derrotas na vida, estas sim,
por vezes conseqüentes de atrozes. Nos ensina que por mais
próximo que pareça o fim do mundo, sempre haverá
outra noite de quinta, outra manhã de sol, outro domingo
no parque.
CLÓVIS
ANGELI
Médico Traumatologista - Sócio Fundador da Assoc.
de Fut. de Mesa de Taquara/RS. Revista Futebol de Botão
N.º 5 - Pág. 2
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