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"Os meus botões..."

Durante alguns anos, tive um programa fixo para todas as noites: jogar botão. Espalhar aqueles círculos de plástico pelo quadro de madeira, conhecido como "Estrelão", foi meu passatempo preferido. Ou melhor: foi minha grande paixão. Ali nasceu meu amor pelo rádio, pois que narrava todos os lances que eu mesmo fazia acontecer. Mas não jogava contra ninguém; o fazia sozinho, pois sempre que chamava algum amigo o clássico da noite acabava em briga.

O jogo de botão me traz saudades, mas hoje me traz tristeza também. Fico triste porque, outro dia, comentei com um garoto, vizinho de casa, mais ou menos uns 12 anos, que quando tinha a idade dele era louco pelo brinquedo, adorava jogar botão. E ele, sem a menor cerimônia, me perguntou: "Mas você jogava botão em quem?"

A pergunta do meu pequeno vizinho me fez refletir. Nossas crianças, hoje em dia, não sabem mais a graça das brincadeiras antigas, aliás nem as conhecem. Não sou do tempo da bola de meia nem do pião, mas tive a sorte de viver numa época em que se podia brincar na rua sem ter o medo de que algum traficante me oferecesse algo. Por isso, jogava botão na calçada em frente à minha casa, no terraço, no quintal. Quintal... taí outra coisa que o meu pequeno vizinho talvez também não saiba mais o que é.

Mas voltando ao jogo de botão, tenho certeza de que ele me ensinou muito do que sei hoje sobre futebol. Meus times, independentemente de quais tenham sido, jogavam sempre com três atacantes. Nada dessa história de 4-4-2, 3-5-2 e até o tal do 4-5-1, que deixa o coitado do centroavante totalmente isolado, olhando quem nem um bobo para a cara do goleiro adversário. Meus times eram sempre ofensivos, e quem colou o ouvido na porta do quartinho do fundo ou deu uma espiada no quintal ou na calçada, certamente ouviu um monte de gritos de "gol" que eu não cansei de narrar.

Sei que você, agora, deve estar pensando que o meu time de botões do Palmeiras ganhava todos os jogos. Não ganhava, não. Na verdade, ganhou alguns, mas perdeu outros. A imparcialidade era condição básica para o jogo, principalmente porque organizava campeonatos com tabela, escala de árbitros, regulamento, etc. Mas admito que, quando o Verdão perdia, tinha vontade de atirar às paredes aqueles círculos de plástico e, imaginando a cara de cada jogador, olhar bem na fuça de cada um e xingar pra valer.

E aí, deu vontade de jogar botão? Se você tiver paciência, ainda é possível encontrar em lojas de brinquedos e algumas bancas de jornais aquela trave de plástico, a bolinha achatada, a palheta, os botões e o goleiro com um rabinho meio estranho, que lhe dava movimentos.

Ainda é possível, meu amigo, voltar a ser feliz. Como uma criança com os seus botões.

MÁRCIO TREVISAN
Assessor de Imprensa do Palmeiras e um apaixonado pelo Futebol de Mesa

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