Sim há Inferno, Sim há Diabo, Sim há Karma

Capítulo 5  -  Primeiro Círculo Infernal ou da Lua

Amigos meus! Hoje, aqui reunidos novamente, vamos estudar o primeiro círculo dantesco dos mundos infernos.

É indubitável que esta primeira região submersa corresponde ao “Limbus”, o Orco dos Clássicos, citado por Virgílio, o poeta de Mântua.

Foi-nos dito, com inteira claridade meridiana, que tal zona mineral se acha vivamente representada por todas as cavernas do mundo que, unidas astralmente, vêm complementando a primeira região submersa.

Diz Dante, o velho florentino, que em tal região encontrou todos aqueles inocentes que morreram sem haver recebido as águas do batismo. Deve-se entender tudo isto de forma estritamente simbólica.

Se nós estudamos cuidadosamente o Ramaiana, o livro sagrado dos indostânicos, com assombro místico podemos evidenciar o fato contundente e definitivo de que o Sacramento do Batismo é muito anterior à era cristã.

No Ramaiana podemos verificar o insólito caso de Rama, que certamente fora batizado por seu guru.

Inquestionavelmente, ninguém recebia, nos antigos tempos, a água batismal sem haver sido, antes, plenamente instruído sobre os mistérios do sexo.

É, pois, o Sacramento do Batismo um pacto de magia sexual.

Resulta extraordinário que, ao ingressar em qualquer escola de mistérios, o primeiro que se recebia era o Sacramento do Batismo.

É indispensável, é urgente transmutar as águas puras de vida no vinho de luz do alquimista. Só assim é possível lograr a auto-realização íntima do Ser.

No Orco dos clássicos, no Limbo, encontramos muitos homens ilustrados que morreram sem haver recebido as águas do batismo.

Equivocados sinceros, cheios de magníficas intenções; porém equivocados. Pessoas que creram possível a liberação sem necessidade da magia sexual.

Assim, pois, na primeira região sublunar, debaixo da epiderme deste planeta em que vivemos, moram, frios e sepulcrais, os defuntos.

Sente-se verdadeira tristeza, suprema dor ao contemplar tantos milhões de desencarnados, vagando com a Consciência adormecida na região dos mortos.

Vede-os aí, como sombras frias, com a Consciência profundamente adormecida, como espectros da noite!

As sombras dos mortos vão e vêm por todas as partes, no primeiro círculo dantesco. Ocupam-se das mesmas atividades da vida que passou; sonham com as recordações do ontem; vivem no passado.

P. – Tem-nos explicado o senhor, Mestre, que, na primeira região subterrânea sublunar, denominada Limbo, habitam as almas dos que não foram batizados, entendendo-se por batismo um pacto de magia sexual, o que me move a fazer a seguinte pergunta: Acaso todos os seres que não tenham praticado magia sexual penetram na citada região automaticamente ao desencarnar?

V.M. – Distinto amigo! Sua pergunta resulta bastante interessante e me apresso a responder-lhe.

Quero que os senhores compreendam que a primeira região submersa é como a ante-sala do Inferno. Obviamente vivem ali as sombras de nossos seres queridos; milhões de seres humanos que jamais transmutaram as águas seminais no vinho de luz da alquimia.

São poucas aquelas Essências, aquelas almas que, depois da morte, logram realmente umas férias nos mundos superiores.

É indubitável que a maior parte dos seres humanos retorna de imediato a um novo organismo humano, passando uma temporada no Limbo, antes de se reincorporar novamente.

Não obstante, devido ao estado crítico em que atualmente vivemos, inumeráveis falecidos submergem definitivamente nos mundos infernos, passando pelas esferas tenebrosas da Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno.

A última desta regiões é definitiva. Ali passam os perdidos pela desintegração final, a morte segunda, tão indispensável. Graças a esta espantosa aniquilação, a Essência, a ala logra liberar-se das regiões do Tártaro, para ascender à superfície planetária e reiniciar uma nova evolução que haverá de recomeçar, inevitavelmente, desde o reino mineral.

P. – Como se deve entender, Venerável Mestre, o que, na linguagem da Igreja Romana, se diz que no Limbo entram os meninos inocentes?

V.M. – Distinto amigo.Isto dos meninos inocentes deve ser entendido de forma simbólica, alegórica.

Interprete-se a palavra “inocentes” não em sua forma prístina original, senão como ignorância radical.

Certamente, aquele que desconhece os mistérios do sexo é ignorante, ainda que se presuma de sábio e possua uma vasta erudição.

Recorde que há muitos ignorantes ilustrados que não somente ignoram, senão que, além disso, ignoram que ignoram. Entendido?

P. – Mestre, quer o senhor dizer que a pessoa que não tenha fabricado seus corpos solares não foi batizada?

V.M. – Distinto jovem! Alegra-me sua pergunta, o que nos dá base para uma bela explicação. As Sagradas Escrituras falam claramente do traje de bodas da alma, o To Soma Heliacon, o corpo de ouro do homem solar, viva representação dos corpos supra-sensíveis que toda criatura humana deve formar.

Em nossos passados livros já falamos claramente sobre o trabalho relacionado com a criação dos corpos existenciais do Ser e, por isso, creio que nossos estudantes gnósticos poderão, agora, entender-nos.

É indubitável que o animal intelectual, equivocadamente chamado homem, não possui tais veículos e, portanto, deve criá-lo, trabalhando na Frágua Acesa de Vulcano (o sexo). Vem-me à memória, nestes instantes, o caso de um amigo que desencarnou há já alguns anos. Este era um gnóstico convencido. Contudo, não alcançou fabricar seus corpos existências do Ser. Isto o pude evidenciar na região dos mortos, no Limbo.

Fora do corpo físico o encontrei. Tinha aspecto gigantesco e seu rosto espectral era, certamente, do panteão ou cemitério.

Andava com ele por distintos lugares, por diversas ruas de uma cidade. Inquestionavelmente, sob a região tridimensional de Euclides, no Limbo.

- Está você morto! Disse-lhe.
- Como? Impossível! Eu estou vivo! Tal foi sua resposta.

Ao passar perto de uma régia mansão, fi-lo entrar com o propósito de que se olhasse num espelho. Ele obedeceu minha indicação e, então, o vi muito surpreso.

- Trate de flutuar! Continuei dizendo. Dê um saltinho para que se convença você de que já está morto.

Aquele fantasma, obedecendo, quis voar; mas o vi precipitar-se de cabeça, ao invés de ascender como as aves. Neste instante, assumiu diversas figuras animalescas.

- Tem você agora forma de cavalo, de cachorro, de gato, de tigre,... Assim lhe fui dizendo, conforme suas distintas facetas animalescas ressaltavam.

Certamente, aquele fantasma era formado por um conjunto de eus pendenciadores e gritões que se penetravam e compenetravam mutuamente, sem se confundir. Inúteis foram meus esforços. Aquele desencarnado não pôde entender-me; era um habitante da região dos mortos. Uma soma de eus personificando defeitos psicológicos.

Apesar daqueles amigo ter conhecido a Gnose, não havia conseguido fabricar seu corpo astral. Agora só tinha, ante minha vista, um conjunto de fantasmas, dando a impressão de uma personalidade de fachada. É óbvio que tal sujeito não havia recebido o Sacramento do Batismo. Com outras palavras, diremos que não havia transmutado as águas puras de vida no vinho de luz dos alquimistas.

P. – Mestre, quer dizer, então, que os que habitam a região dos mortos, ou seja, o Limbo, sempre terão a oportunidade de retornar a uma nova matriz?

V.M. – Distinto amigo! Não olvide você que o deus Mercúrio, com seu caduceu, tira sempre as almas submersas no Orco, com o propósito de reincorporá-las num novo organismo. Só assim é possível que, um dia qualquer, possamos ser batizados de verdade. Entendido?

P. – Querido Mestre! Eu entendo que no Limbo ingressam a Essência e os eus do defunto; porém, que não é uma região de sofrimentos. Estou no correto?

V.M. – Distinto cavalheiro! Já que você fala sobre Essência e sobre eus, é bom que coloquemos as cartas sobre a mesa de uma vez, para esclarecer conceitos e definir posições doutrinárias.

Muitos crêem que o ego, o eu, o mim mesmo, o si mesmo, é algo demasiado individual. Assim o supõem, equivocadamente, os múltiplos tratadistas da moderna psicologia.

Nós, os gnósticos, vamos mais longe; gostamos de aprofundar, penetrar em todos os mistérios, inquirir, indagar, etc., etc., etc.

O eu não possui individualidade alguma; é uma soma de diversos agregados psíquicos que personificam nossos defeitos psicológicos; um punhado de erros, paixões, ódios, temores, vinganças, ciúmes, ira, luxúria, ressentimentos, apegos, cobiças, etc., etc.

Estes diversos agregados têm formas animalescas variadas nas regiões hipersensíveis da natureza.

Ao morrer, todo esse conjunto de eus pendenciadores e gritões, toda essa variada gama de agregados psíquicos continua mais além do sepulcro.

Dentro de tais valores negativos, acha-se enfrascada nossa Essência anímica, o material psíquico.

É, pois, ostensível que tal matéria anímica embutida dentro do ego submerge no Orco, no Limbo, para retornar, um pouco mais tarde, a este mundo físico.

P. – Mestre, para uma pessoa adormecida, comum e corrente, seria uma continuação de sua vida o Limbo?

V.M. – Amigo, jovem que faz a pergunta! Considero que está um pouco equivocada; é necessário perguntar melhor para esclarecer.

Não existe nenhum amanhã para a personalidade do morto. Toda personalidade é filha de seu tempo; nasce em seu tempo, morre em seu tempo.

Aquilo que continua mais além do sepulcro é o ego, soma de diversos agregados psíquicos, animalescos e brutais. Quando eu contemplava o amigo do meu relato, com dor pude entender que a personalidade dele havia sido aniquilada. Tudo o que tinha, agora, ante minha vista, era uma soma de grotescas figuras animalescas, penetrando-se e compenetrando-se mutuamente, para dar uma falsa aparência de personalidade sepulcral, fria, espectral.

Que foi feito do meu amigo? Onde estava? Como não havia fabricado o corpo astral é óbvio que tinha deixado de existir. Se meu amigo tivesse fabricado um corpo astral, mediante a transmutação sexual, se tivesse praticado magia sexual realmente, é claro que, sim, teria fabricado o veículo sideral e então teria continuado com sua personalidade astral nas regiões hipersensíveis da natureza. Desgraçadamente, este não tinha sido o caso...

Ser batizado, pois, implica em haver praticado magia sexual. Quem não procedeu assim não recebeu as águas sacramentais; é um habitante do Limbo.

P. – Mestre, esta falsa personalidade, formada por estes grotescos eus, que num tempo era seu amigo, poderia chegar a ser seu inimigo nesta região sem futuro?

V.M. – Jovem amigo! É urgente que você compreenda que o ego é constituído por muitos eus e que alguns destes podem ser nossos amigos ou nossos inimigos. Indubitavelmente, alguns eus daquele fantasma ao qual me referi continuam sendo amigos meus, mas outros é óbvio que podem ser inimigos ou simplesmente grotescos fantasmas indiferentes.

Em todo caso, é o ego quem retorna desde a região do Limbo, para repetir, neste mundo físico, todos os dolorosos dramas das existências passadas.

A personalidade, como já disse, é perecedora, não retorna jamais; e isto é algo que você deve compreender claramente. Saiba diferenciar entre o ego e a personalidade. Compreendido?

P. – Devo entender, Mestre, que o verdadeiro Sacramento do Batismo o pode receber só o que se inicia no Caminho do Fio da Navalha?

V.M.- Distinto senhor! O autêntico Sacramento do Batismo, como já disse nesta conferência, é um pacto de magia sexual. Desgraçadamente, as pessoas passam pela cerimônia batismal, pelo rito, porém não cumprem o pacto jamais. Devido a isso é que ingressam no Limbo. Se as pessoas cumprissem com esse pacto religioso, entrariam de cheio na Sena do Fio da Navalha, naquele sendeiro citado por Cristo quando disse: “Estreita é a porte e difícil o caminho que conduz à luz e muitos poucos são os que o acham.” É indispensável saber que o caminho secreto que conduz as almas até a liberação final é absolutamente sexual.

P. – Mestre, então os desencarnados que têm direito a umas férias são os que começaram a praticar magia sexual?

V.M.- Distinta senhora que faz a pergunta! Convido-a  a compreender que o ego jamais pode entrar nas regiões celestes. Para os agregados psíquicos só existe o Abismo e a morte segunda. Entendido?

Não obstante, vamos mais fundo para elucidar e esclarecer esta conferência. Quando o ego não é demasiado forte, quando os agregados psíquicos são muito débeis, consegue a Essência pura, a alma, liberar-se por algum tempo, para entrar nas regiões celestes e gozar de algumas férias, antes de retornar a este vale de lágrimas.

Desgraçadamente, hoje por hoje, o ego animal se faz muito forte em muitas pessoas e, por tal motivo, já as almas humanas não têm a dita de tais férias.

Certamente são muito raras, hoje em dia, aquelas almas que logram penetrar no Devachan, como dizem os teósofos, ou no causal.

Quero que todos os senhores compreendam o fato concreto daquelas almas, hoje por certo muito raras, que podem gozar, por um tempo, de tão felizes férias entre a morte e o novo nascimento, são o que poderíamos chamar no mundo de pessoas muito boas. Devido a isto, a Grande Lei os recompensa depois da morte. Entendido?

P. – Mestre, essas almas que conseguem escapar do ego para desfrutar de umas férias, ao reingressar em outra matriz, têm que voltar a engarrafar-se no ego?

V.M. – Amigos! O ego somente pode ser destruído, aniquilado de duas formas. Primeiro, mediante o trabalho consciente em nós mesmos e dentro de nós mesmos, aqui e agora. Segundo, nos mundos infernos, mediante a involução submersa, passando por espantosos sofrimentos.

Inquestionavelmente, as férias celestes não dissolvem o ego. Uma vez que a Essência, a alma, esgota os frutos de sua recompensa, ao retornar a este vale de lágrimas, ficará previamente engarrafada no seu ego, o eu, o mim mesmo.

P. – Mestre, quando a Essência retorna a uma nova matriz, engarrafada no ego, depois dessas férias, não traz o anelo de liberar-se para conseguir sua auto-realização?

V.M. – Distinta dama, sua pergunta é magnífica! Quero dizer à senhora, de forma enfática, o seguinte: O ascenso aos mundos superiores nos reconforta e ajuda.

Quando a Essência regressa de uma férias nos mundos superiores de consciência cósmica, vem fortalecida e com maior entusiasmo. Então, luta incansavelmente para conseguir sua liberação total. Não obstante, todo esforço resultaria inútil se não cumprisse com o pacto de magia sexual, contido no Sacramento do Batismo.

P. – Mestre, poderia dizer-nos como são as regiões do primeiro círculo dantesco ou da Luz, como se vive e que é que se faz?

V.M. – Ao cavalheiro que faz a pergunta passo a responder de imediato. O primeiro círculo dantesco, sublunar, representado por todas as cavernas da Terra, visto internamente, resulta bastante interessante.

Aí encontramos a primeira contraparte submersa de nossas cidades, ruas, aldeias, comarcas, regiões. Não é, pois, de estranhar que nesta região se viva uma vida semelhante à atual. De modo algum deve assombra-nos o fato de que os falecidos visitem as casas onde viveram ou perambulem pelos lugares que antes conheceram, ocupando-se nos mesmos ofícios ou trabalhos que costumavam fazer.

Recordo o caso patético de um pobre carregador de fardos pesados. Seu ego andava, depois de morto, levando sobre suas espáduas uma carga, volume ou fardo. Quando lhe quis fazer compreender sua situação, quando lhe dei a entender que já estava bem morto e que não tinha por que estar carregando fardos pesados sobre seu corpo, olhou-me com olhos de sonâmbulo. Tinha a Consciência adormecida; foi incapaz de me compreender.

Os defuntos seguem vendendo em seu armazéns, ou comprando mercadorias, ou dirigindo automóveis, etc., etc., etc.; cada qual naqueles mesmos trabalhos em que antes estava ocupado. Resulta assombroso ver essas cantinas cheias de embriagados desencarnados; essas casas de prostitutas fornicando mesmo depois de mortas, etc., etc., etc.

P. – Mestre, que processo seguem os que habitam o Limbo para retornar a este mundo tridimensional?

V.M. – Aqueles que habitam o Limbo devem recapitular a vida que acabam de passar, revivê-la lentamente. Concluído tal processo retrospectivo, todos os atos de nossa vida anterior ficam simplesmente reduzidos a matemáticas. Então, os juizes do carma nos fazem retornar a este vale de lágrimas, com o propósito de que emendemos nossos erros e busquemos o caminho que há de levar-nos à liberação final. Isso é tudo!

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