A Flauta e os Pássaros


                   "Uma bruxa malvada que se divertia em transformar músicos em bichos. Os oboístas ela transformava em patos; os fagotistas em elefantes; os trombonistas e trompistas em onças e leões; os clarinetistas em macacos; os violinistas, violistas e os cellistas em aranhas, sapos, rãs ou corujas, nem me lembre em que eram transformados os pianistas.
                   Mas sei que os flautistas eram metamorfoseados em curruiras, canarinhos, bem-te-vis, por especial preferência da bruxa, ela transformava os flautistas em passarinhos. E assim todos viviam infelizes, mesmo os passarinhos apesar de poder voar em liberdade e cantar suas canções; eles viviam infelizes, pois nada se compara ao privilegio de sermos gente, feitos a imagem de Deus, e podermos trabalhar por um mundo mais justo, mais belo e feliz.
                   Mas, a bruxa também perdera a paz e a alegria, pois vocês sabem que ninguém é feliz tendo ódio no coração. E assim munindo-se de suas mandingas mágicas e sortilégios, ela faz voltar a forma primitiva os pobres músicos, com exceção dos flautistas os quais ela não consegue livrar do encantamento. Estes sabendo que só com a morte da bruxa ficariam livres do seu feitiço, põem-se a persegui-la impiedosamente com bicadas e golpes de asa, a bruxa corre, grita, chora desbragadamente; já sem forças, o seu choro vai diminuindo, diminuindo e derrepente ouve-se o gorjeio festivo dos pássaros comemorando a sua libertação que se aproxima..."

                                                                                                                                                 Lenda de introdução à música
                                                                                                                            "Os Pássaros Amarelos e a Bruxa Chorona"
                                                                                                                                                         João Dias Carrasqueria

                   A mitologia grega pode explicar um pouco da relação entre a flauta e os pássaros.
                   Esta apresenta o semideus Pã, filho de Hermes e Penélope que, através da sua flauta construída por ele com o caniço em que transformara a ninfa Syrinx. Esta por sua vez é a mesma palavra que denota um órgão da voz altamente desenvolvido de pássaros que cantam, os quais as vocalizações complexas têm mesmerizado humanos desde da aurora da história.
                   A utilização imitativa dos pássaros pela flauta surge ainda no período barroco com o compositor italiano Antonio Vivaldi (1678 - 1741) com o seu Concerto no 3 em Ré maior para flauta, orquestra de cordas e continuo op.10 - Il Gardellino - O Pintassilgo.
                   1) Pássaro encantador com explosões de alegria desinibida dentro de uma armação frágil (utilizando escala da tônica e trinados) ;
                   2) Canção de leveza, colorida e liberdade, delicado, primoroso e puro;
                   3) Sua chamada luminosa penetra na floresta silenciosa (utilização de trinados).

                   Outra obra do período barroco é do compositor francês François Couperin (1668 - 1733) que reuniu suas duzentas e vinte peças para cravo em 27 Ordens. A famosa melodia de Le Roussignol en Amour - O Rouxinol Apaixonado que pertence à lamentosa Ordem 14 em Ré maior que foi escrita para flauta e cravo, que tem aqui um papel ornamental.
                   O canto do pássaro solitário e apaixonado é uma melodia simples e que se torna difícil com a execução de todos os seus ornamentos (trinados, grupetos, mordentes) e notas desiguais escritas. Couperin precisou escrever, logo depois, L'Art de Toucher le Clavecin - A Arte de Tocar Cravo, para explicar como se devia tocar a sua música.

                   A Sonata para Flauta e Piano de Francis Poulenc tornou-se rapidamente uma das obras mais populares e executadas do repertorio de flauta. Quando comissionado pela Fundação Coolidge em 1957 para escrever uma obra de câmara, que seria dedicada à memória de sua fundadora, Poulenc decidiu que escreveria uma sonata para flauta e piano, atendendo então aos já constantes pedidos de seu amigo, o flautista Jean-Pierre Rampal. Em janeiro de 1958, com permissão da Fundação Coolidge, Rampal fez a estréia da Sonata no Festival de Strasbourg com Poulenc ao piano, semanas antes do que seria a estréia oficial na sede da fundação em Washington, no dia 14 de fevereiro.
                   Rampal acompanhou o compositor na elaboração da Sonata, o que fez dele uma espécie de "autoridade" no assunto. Em um relato que fez à revista americana Flute Talk (publicado em maio de 1991) Rampal revela alguns detalhes interessantes sobre o compositor e seu processo de composição além de outras curiosidades sobre a Sonata:
                   Quando foi chamado à casa de Poulenc para uma primeira leitura da Sonata, recebeu desde pequenos rascunhos para tocar juntamente com o compositor. Após a leitura, Rampal mostrou-se preocupado dizendo a Poulenc que faltava coerência, e que alguns dedilhados eram quase impossíveis. Mas Poulenc descartou totalmente suas preocupações dizendo que este era seu jeito de trabalhar e garantindo que a peça seria ótima. Rampal visitou Poulenc por vários meses testando tudo o que ele escrevia, sugerindo algumas mudanças e compartilhando idéias com o compositor, sem no entanto saber para onde a obra caminhava, e achando que nem mesmo Poulenc saberia. Mas ao contrario de suas preocupações, a peça foi tomando forma lentamente como Poulenc dissera.

                   "Os pássaros" na Sonata:

                   Poulenc mesmo utiliza a flauta em algumas de suas obras orquestrais, como no Concerto para dois pianos, fazendo a flauta sugerir pássaros na orquestra.
                   Na sua Sonata para Flauta e Piano não é diferente: Jean-Pierre Rampal nos revela que a Sonata de Francis Poulenc conta à estória de um pássaro melancólico que, sozinho, relutava em voar.
                   Poulenc utiliza a flauta e por vezes o piano para reproduzir tanto o canto do pássaro quanto alguns de seus gestos, como o bater das asas. O primeiro movimento começa exatamente com uma figura de fusas que lembra a maneira como os pássaros batem suas asas quando o vento sobre contra eles, por vezes rapidamente (escritos em forma de trinados), outras vezes lentamente (grupos de fusas). À medida que a melodia se desdobra seu canto é ouvido e mais batidas de asas aparecem. Seu espírito oscila entre a melancolia de estar solitário e alguns momentos de alegria.

                   O compositor francês Olivier Messiaen (1908 - 1992) escreveu a música Le merle noir - O pássaro preto - que traz outra dimensão o qual a flauta é caracterizada idealmente: ao canto natural do pássaro. Como peça da prova do Conservatório de Paris em 1951, ele fez sua primeira experiência com uma obra curta focando inteiramente o canto do pássaro, que eventualmente ele conduziu às obras como o Catalogue d'oiseaux - Catálogo de pássaros escrito para piano posteriormente. Em Le merle noir as cadências como seções alternadas de flauta com um suave acompanhamento, segundo o qual é principalmente canônico. Os padrões rítmicos permanecem irregulares e assimétrico no seu decorrer, e uma seção final combinada, são soltas de repente simultaneamente três linhas em um vendaval furioso, complexo que é empolgante para a sua audiência e para artistas semelhantes.

                   Os Pássaros Amarelos e a Bruxa Chorona, música composta pelo flautista brasileiro de João Dias Carrasqueira (1908 - 2000) o qual era chamado carinhosamente de Canarinho da Lapa0 retratou o gorjeio dos pássaros-flautistas festejando a libertação do feitiço da bruxa. O canto de cada espécie de pássaro torna-se distinta por respectivos ornamentos como: o trinado, frullatto, trêmulo, percussão, etc.

                   Em algumas obras sinfônicas a flauta foi escolhida para traduzir o canto dos pássaros na orquestra como: O Pássaro de Fogo de Igor Stravinsky, Pedro e o Lobo de Sergei Prokofiev e Carnaval dos Animais de Camile Saint-Saëns (onde a flauta imita não exatamente o canto do pássaro, mas o bater de suas asas).

                   Sinto que nós flautistas ainda continuamos enfeitiçados pelos compositores (bruxos) no grande desejo de reproduzir o canto dos pássaros, para nós resta o privilégio de cantar e encantar a todos com as mais belas melodias da natureza!


Discografia: The Flute Wizard
                    João Dias Carrasqueira - flauta e Maria José Carrasqueira - piano
                    Régia Música

                    Concertos para flauta e flautim de Antonio Vivaldi
                    Julius Baker - flauta

                    Le Roussignol
                    Odette Ernest Dias - flauta e Bridget de Moura Castro - piano
                    L'Art Produções

                    Paris
                    Emmanuel Pahud - flauta e Eric Le Sage - piano
                    EMI Classics



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