Álvaro Faleiros

Álvaro Faleiros, poeta chileno, nasceu em 1972. Concluiu seu doutorado em Língua e Literatura Francesa pela Universidade de São Paulo, e hoje ´ professor da Universidade de Brasília. Em 1995, junto a Paulo Costa, publica Parábola (Editora dos Autores). Ainda no mesmo ano, Coágulos (Editora Iluminuras). Em 1997, com Luciana Capiberibe, lança Amapeando (Nankin Editorial). Outros são: Retirante que virou Presidente (Cordel, 2002), Auto do Boi d'Água (Cordel, 2003) e Meio Mundo (Ateliê Editorial, 2007). O livro Transes é publicado na França, em 2000.

Traduziu os livros: Latitudes: 9 poetas do Québec (Noroît/Nankin, 2003), O Bestiário, de Guillaume Apollinaire (Iluminuras, 1995), Da Morte - Odes Mínimas (Editora Globo, 2003) e Caligramas de Guillaume Apollinaire (Ateliê, 2007).

QUATRO SONETOS BÁRBAROS

I


enquanto lemos jornais, putos
com esses tempos de barbárie
nas ruas e calçadas, cáries
e esgotos enchem viadutos


há bandos de manos nas ruas
alguns trazem metralhadoras
seus dentes encravam esporas
na carne fresca das peruas


no topo de uma cobertura
festejam cheios de champanhe
lucros na bolsa de valores


no morro nego na fissura
neta país sem pai nem mãe
injeta e fuma as suas dores

II


poucos se arriscam numa prática
que é o exercício do faquir
que senta em prego e come faca
traça até vidro e o que mais vir


saber a delicada arte
exige treino horas a fio
mas de cortar na própria carne
só pobre entende no Brasil


nem todos têm essa coragem
tem uma classe no país
que nem em sonho vai cortar-se


os congressistas assim
bebem aos goles o desgaste
pensando ser um elixir

III


o bairro está barra pesada
são mil playboys tirando onda
que já chegam dando porrada
na primeira moça que encontram


julgando ser ela uma puta
param o carro e sem mais
um dá seus socos o outro chuta
os lábios e os dentes da paz


se livra das últimas sobras
da dita civilização
um pai que sai com a resposta:


esse problema é da moça
que tem pele fina senão
guentaria fácil a coça.

IV


já tô cansado desse troço
ficar com água até o pescoço
é um tropeço atrás do outro
fico sem tempo para o ócio


e quando paro vem de novo
cobrança dum outro negócio
viver assim eu já não posso
ter eu de reinventar o ovo


acho melhor ficar na minha
senão eu quebro meu pescoço
não posso dar eu de galinha


senão meu saco já não coço
manter o meu verso na linha
só se o tempo for meu sócio

 
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