Contador Borges

Contador Borges nasceu em São Paulo, em 1954. Publicou os livros de poesia Angelolatria em 1997, O Reino da Pele em 2003, e A Morte dos Olhos no ano passado, todos editados pela Iluminuras. Em 2003 escreveu sua primeira peça de teatro, Wittgenstein!.

Traduziu Ciranda dos Libertinos (Max Limonad, 1988), e os livros A Filosofia na Alcova (Iluminuras, 1999) e Diálogos entre um padre e um moribundo (Iluminuras, 2001), da coleção Pérolas Furiosas. Além de O nu perdido e outros poemas (Iluminuras, 1995), de René Char e Aurélia, de Gerard de Nerval (Iluminuras, 1991)

NERVURAS
(fragmentos)


O rosto, as faces, o brilho opaco,
o riso enfeixando lenhas
de sua fogueira
rosada; os olhos,
estrelas queimando o derradeiro
fôlego, o pacto
de gloriosa cera
corpórea, anímica
horrorizando o tempo
e seus intentos, um tira-gosto
da eternidade, um tira-teimas
de moléculas
que a vida não espera
no calor da festa
no melhor do êxtase,
quando a carne esponjosa e secreta
se rasga
e saltam dentro vermelhos,
violetas intermináveis,
a voz inteira do crepúsculo que enfim se mostra
o causador de tudo
em criminosa espuma,
tudo dentro de um mesmo apuro,
de um mesmo ensejo
de provocar contido
e alterar o feito
de metáfora embalando a fala
em seu cueiro
com a mão mais clara
a tirar proveito
para redimir o escuro;
e se tanto olhar escapa,
o rosto, a tela, traz à tona
seu mar interno
seus mártires
de pálpebras abertas, insones,
os lábios em forma de escombros
que soprando as águas
se arrastam
como as vozes se arrastam
em centelhas e folhas,
como a morte domada a fórceps
e seu tumulto,
um maremoto na boca
amarelando os olhos,
algas, algas
sonoridades roucas,
conchas de vômitos homéricos, intermitentes
palavras, dispersas, escassas.

* * *


Poros pensantes, luz difusa
germe de estrelas
revoltas
na pele tecida
por dedos
e olhos de outra
mônada.
A luz é tudo para a pele,
núcleo celeste
do impulso,
a luz é sempre
um sinal de luto
na penumbra
da pálpebra,
onde a carne reina:
cachos de seios, tornozelos,
coxas aéreas,
furor de cabelos,
a cosmovisão do corpo
e seus prodígios
onde a morte (a pequena)
é o gozo
do movimento:
uma pausa
para o recomeço.

 
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