RAZÕES PARA SER PADRE
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
06 de Março de 2007
Na
sociedade atual, hedonista e
secularizada, a figura do Padre é objeto de muita
discussão, inclusive através
da mídia. Freqüentemente, pessoas que pouco entendem
do assunto, se permitem a audácia, talvez até com boa
intenção, de dar
sugestões sobre como deveria ser o sacerdócio
católico. O Presbítero,
habitualmente chamado pelo povo de Padre, possui o segundo grau do
Sacramento
da Ordem. Portanto, é Sacerdote, assim como o Bispo, que tem a
plenitude deste
Sacramento. Nesta reflexão, vamos considerar algumas
razões para ser Padre,
isto é, participante do Sacerdócio de Jesus Cristo, hoje
e sempre.
Primeiramente,
é preciso
compreender que o Padre foi chamado por Deus. Não é uma
vocação que alguém
escolhe, porque se julga apto para tal, ou porque acha interessante. A
escolha
é de Deus, e o seu chamado não se discute. Por isso, o
sacerdócio é um
privilégio, imerecido. Quando da eleição dos
Apóstolos, e também dos
discípulos, Jesus passou a noite
O
Padre é homem de Deus. Esta é
sua característica fundamental. Tudo que se queira acrescentar
à sua figura,
são detalhes acidentais. Jesus, aos 12 anos, afirmou:
"Não sabíeis que
devo ocupar-me das coisas de meu Pai?" (Lc
2,49).
Tal é a realidade mais profunda do Padre - as coisas do Pai.
Isto não impede
que seja uma pessoa politizada e comprometida com a realidade que o
cerca. Não
se trata de fazer política partidária, que não
compete ao ministro ordenado,
mas da orientação ao seu rebanho para a prática da
cidadania e um
posicionamento segundo a moral cristã, sempre tendo em vista o
bem comum.
Apesar
do secularismo, a que já
aludimos, o homem hodierno busca,
sequiosamente, o
rosto de Cristo. Por isso, o Padre é chamado a ser representante
do próprio
Senhor: ele O torna novamente presente. E quanto mais transparente e
mais
perfeita for essa presença, melhor responderá às
indagações dos que a procuram.
Nosso pranteado Papa João Paulo II nos exortava a contemplar o
rosto de Cristo,
para revelá-lo aos outros. Chegou a dizer que
os Padres são o
"Coração de Jesus" - expressão forte, que
significa o amor de Jesus,
divino e humano, que o Padre deve transparecer, através da
missão que
exerce. O povo quer ver, tocar, perceber, ouvir o Cristo na pessoa do
Padre.
Por isso, a palavra do Padre não é
dele mesmo, mas é a
Palavra de Deus. O toque sacramental do Padre não é um
toque meramente humano,
mas ultrapassa esta dimensão e penetra no divino, do qual o
sacerdócio é, de
fato, mediação.
Esta
configuração ao Cristo tem
profundas raízes teológicas, que atestam a exclusividade
do sacerdócio para os
varões, como participação no único e eterno
sacerdócio do próprio Cristo. Jesus
não escolheu nem sua própria Mãe
Santíssima, para compor o grupo daqueles que
seriam a base apostólica da sua Igreja. Mas não é
nosso propósito discutir este
assunto, no presente texto. Apenas confirmamos a posição
da Igreja, em nome de
quem o Papa João Paulo II falou, quando expôs, claramente,
seu ensinamento a
este respeito.
Ainda
segundo o saudoso Papa, na
sua Exortação Apostólica Pastores Dabo Vobis -
"Dar-vos-ei Pastores segundo o meu
Coração" (Jr 3,15), de 25 de
março de 1992, o
Padre tem que possuir 5 qualidades essenciais:
1°
Ser homem, física e
psicologicamente, sadio.
2°
Ser pessoa de oração, portanto
piedoso. Pietas, em latim, significa um
devotamento
filial aos pais. O Padre deve ter um afeto filial, carinhoso para com
Deus,
nosso Pai, e é a partir desse modelo, que ele vai buscar a
delicadeza paterna,
e materna, que demonstrará na sua experiência humana de
diálogo com o mundo de
hoje, homens e mulheres do nosso tempo.
3°
Ser uma pessoa culta. A
formação intelectual de um Padre exige um mínimo
de 7 anos de estudos
universitários, incluindo as Faculdades de Filosofia e de
Teologia, além da
comprovada competência pastoral.
4°
Ser um verdadeiro pastor. Deve
conhecer os problemas que se abatem sobre a humanidade, para dar a
resposta
pastoral necessária, dentro de uma visão eclesial
coerente.
5°
Ser um elemento de equipe, que
saiba viver em comunidade e para a comunidade. Que nunca trabalhe
só, a não ser
nas coisas do trato direto com Deus. Tudo o mais seja feito em conjunto
com a
comunidade a que ele serve. Isto exige afabilidade, equilíbrio e
capacidade de
diálogo.
Como
seguidores de Cristo, os
Apóstolos tiveram que deixar tudo: "Quem ama seu pai ou sua
mãe mais que a
mim, não é digno de mim. Quem ama seu filho mais que a
mim, não é digno de
mim" (Mt 10,37). Trata-se da
doação integral da
pessoa e da sua capacidade de amar, para que Cristo dela disponha em
favor dos
mais necessitados: os pobres, os pecadores, os que sofrem de
múltiplas
carências, os que nos procuram para aconselhamento. Para estar
disponível a
tudo isto, permanentemente, é preciso ter um amor exclusivo.
São Paulo diz,
claramente: "O solteiro cuida das coisas que são do Senhor, de
como
agradar ao Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo,
procurando
agradar à sua esposa" (1Cor 7,32-33).
Portanto,
tem um coração dividido.
O
Padre não pode viver assim. O
seu amor, as suas energias, a sua competência, tudo deve estar a
serviço das
ovelhas do seu rebanho. Por isso, a Igreja, desde os primórdios,
introduziu o
celibato, seguindo a exigência que Jesus fez aos Apóstolos
sobre deixar tudo.
Apesar do que afirmam as críticas apressadas a esta norma
antiqüíssima, o
celibato sacerdotal não é a causa de eventuais problemas
afetivos.
O
Pontifício Conselho para a
Família tem afirmado, muitas vezes, que se encontram na
família os maiores
problemas da atualidade, sob qualquer ponto de vista: pastoral, social,
cultural. Não adianta querer resolver uma suposta carência
afetiva na vida do
Padre, apelando para o Matrimônio, como se fosse a
solução mágica. Na vida a dois também
há solidões. E muitas. Talvez, até, mais
dolorosas do que no celibato. Os psicólogos estão
aí para comprová-lo. A doação
integral do amor faz parte da condição existencial do
Padre. Sendo uma vocação,
é a única capaz de realizá-lo como pessoa. Quem
não for capaz disto, por um
compromisso total, irrestrito e perpétuo, não é
chamado para o sacerdócio,
segundo a vivência da Igreja Latina, Ocidental.
Rezemos
para que Deus nos dê sempre bons e
santos Padres, segundo o seu Coração:
"A promessa do Senhor suscita no coração da Igreja a
oração, a súplica
ardente e confiante no amor do Pai de que, tal como mandou Jesus o Bom
Pastor,
os Apóstolos, os seus sucessores, e uma multidão
inumerável de presbíteros,
assim continue a manifestar aos homens de hoje a sua fidelidade e a sua
bondade" (Pastores Dabo Vobis,
n°82).
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