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Florbela Espanca

 

FLORBELA E A DECADÊNCIA PORTUGUESA

O maior volume da crítica social e intelectual anti – capitalista – monopolista -colonialista existente um pouco por todo o mundo ocidental no período em que Florbela Espanca viveu não sabe exactamente aquilo que quer e dirige-se sobre vários campos; desejos de retorno à ordem feudal ainda que reformulada e / ou ao burguesismo comparativamente inocente do período e ideário da Revolução Francesa, reforço dos saudosismos de diversa índole e dirige-se também contra o avanço ideológico que as conquistas da ciência tinham vindo incutir no processo evolutivo do capitalismo e contra a monopolização da vida económica e das nações que se subsumiam perante outras.

Antero de Quental, por exemplo, participa na aventura ideológica da colonização, agora sem o Brasil, que aliás estava revestida de todo um conjunto de directrizes ditas progressistas e plenas de boas intenções (os socialismos utópicos de St. Simon também aí participaram) e o problema de ir explorar de uma forma mais directa as colónias era de alguma forma incentivado e até fomentado pela classe progressista que embarcava serenamente na ideia repetida do evangelismo civilizacional.

O que se criticava, isso sim, era a inoperância com que tal processo se desenvolvia, entendendo-se que o reforço do colonialismo sob nova face se constituiria no élan necessário para aquisição de um maior grau de independência perante os colonialismos estrangeiros e num retorno progressivo à velha grandeza nacional.

É a época das crises; são várias neste período conforme já referimos incluindo as crises de consciência, e o mundo, para algumas pessoas parece estar à beira da rotura e parece poder assistir-se eminentemente à redução do homem a um nada quase absoluto. Preso nas teias do homem como ser eminentemente social e no apagamento da individualidade absorvida pelo culto do global social feito Nação, os problemas sociais e políticos repercutem-se de formas quase assustadoras no campo da psique individual e levam ao reforço das ideologias e filosofias que pregam a superioridade da diferença contra a uniformidade, mas que no caso português são sempre extraordinárias.

O peso do problema da decadência e da vontade de retorno ao Portugal maior é ainda uma constante na intelectualidade portuguesa, e com uma especial incidência junto dos poetas, vá-se lá saber porquê se não se apontarem razões de escola como o refere indirectamente Jacinto Prado Coelho.

Fazendo um pequeno historial sobre este tema, este autor, leva as origens do sentimento da decadência para além (para trás) da consciência dela mesma agregando-a quer ao saudosismo de Sá de Miranda e Camões, quer ao próprio sebastianismo e estende-o por todo o percurso cultural português, detendo-se, na altura do fecho do seu trabalho, no neo-realismo e em Carlos Oliveira.

A acreditar nestas teses (e teremos que acreditar quanto mais não seja por respeito por tão ilustres personagens) o período de não decadência (ou de sentimento / consciência de não decadência) tendo durado cerca de 100 anos resultou (nesta perspectiva) numa eternização do complexo decadentista no corpo intelectual e pensante português que ainda hoje se vive. Na minha modesta opinião acho que é decadência a mais…para tão pouco tempo de fogo-fátuo.

Haverá assim que pensar que, para além do verdadeiro e profundo sentido da decadência de Portugal como grande Nação, existe já uma apologia do processo decadentista muito antes dele se manifestar como tal. Existe a construção ideológica de um fado nacional que leva à exploração do miserabilismo e à constatação, como o faz Antero do Quental em "Causas da Decadência dos Povos Peninsulares ", de que o destino nacional se pode muito bem integrar numa perspectiva de busca do absoluto algures situado entre o impossível e o inexistente. Florbela Espanca comunga, na sua poesia intimista, desta forma de pensar, tal como o comungaram muitos outros que não foram capazes ou não puderam aceitar a ideia do Portugal pequeno ou subsidiário de outras nações mais fortes.

Regressando em re-directo e para confirmar a Jacinto do Prado Coelho, já em Camões se fala da "apagada e vil tristeza", por esse caminho seguindo J.P.C. até ao sec. XIX (que é o que nos interessa agora) altura em que o romantismo regenerador expresso por Herculano desta forma constitui uma excepção: " (…) Portugal regenera-se porque se irrita da sua decadência. (…)". Ou seja, a famosa regeneração / redenção resulta da sua contrária lógica. Valha-nos isso, ao menos…que a decadência ininterrupta também cansa ( N.A.).

Mas o rol de decadentismo desesperante é retomado logo a seguir pelo texto de J.P.C. que nos atrevemos aqui a transcrever:

"(…) À medida que se aproxima o fim do século XIX, a ideia da decadência preside cada vez mais quer à ficção ( Eça, Teixeira de Queiroz, Abel Botelho, Fialho de Almeida, etc.) quer à poesia. O pessimismo alastra na Pátria de Junqueiro, onde perpassa o doido simbólico, rei destronado, herói feito mendigo e escárnio dos garotos, vagabundo que vela junto ao mar, fitando atónito as águas.

A Índia dos versos de António Nobre é um lugar subjectivo, o Impossível a que aspiram os poetas; nas Despedidas, Nobre traça o painel da decadência ("Anda tudo tão triste em Portugal/ Que é dos sonhos de glória e de ambição?") mas traz-nos a boa nova do regresso do Encoberto ("Virá El-Rei menino do Estrangeiro, / Numa certa manhã de nevoeiro?").

Já no século XX, Álvaro de Campos (heterónimo de Pessoa) explica o vazio de alma de que sofrem os portugueses pelo destino imperial cumprido:"Pertenço a um género de portugueses/ que depois de estar a Índia descoberta/ Ficaram sem trabalho."

Os poetas continuam a instilar nos seus versos uma visão deprimente da história nacional, que se lhes afigura submetida a um destino inexorável:"Somos navegadores pr’além da morte:/ Temos a Índia eterna da saudade/ Rumando para sempre a nossa sorte" (Versos de António Patrício em "Nau-Sombra").

António de Sousa retrata Portugal como um grande senhor decaído: "Dias sem sol e noites sem luar. / Tantos mendigos a bater às portas! / Sombras e um vago aroma a flores mortas: / -Aqui foi Portugal, senhor dos mares!"

Carlos de Oliveira chora o longo sono da pátria no embalo de velhas histórias:"Lá vão naus da Índia, / Lá se vão tesoiros! / e os ventos secando / As laranjas de oiro! // Ama, até quando?"

As imagens obsidentes das aventuras e feitos passados polarizam a insatisfação em face do presente, a ânsia de outra coisa ou dum absoluto inatingível." ( In Jacinto do Prado Coelho, Decadência, Dicionário de Literatura ).

Sobre este aspecto do absoluto inatingível ele funciona assim como que uma meta estendida muito para além das possibilidades de alcançamento humano, processando-se a dialéctica ideológica e poética no bater constante na tecla do "querer ser mas não poder" tão presente no conceito de amor e da vida de Florbela.

No caso português o problema do Ultimato Inglês cai como uma bomba numa sociedade que contava, conforme já vimos, com o desenvolvimento do colonialismo como elemento determinante para a independência nacional (da égide protectora e absorvente da Grã Bretanha) e consequentemente como elemento impulsionador da independência pessoal, ideia esta que se desenvolvia sem sobressaltos de maior desde os tempos do Marquês Sá da Bandeira.

Em 1875 é aprovado o Decreto de emancipação dos libertos nas províncias ultramarinas o que é considerado um marco decisivo na construção da nova ideologia colonialista nacional (de certa forma copiada do ideário francês sobre a matéria) e que a Sociedade de Geografia de Lisboa vinha a desenvolver numa perspectiva educacional global (desde a escola primária até à Universidade, desde as províncias ultramarinas até às regiões do continente) com a particularidade de procurar por esta via desviar os tradicionais fluxos migratórios para a América, redireccionando-as para as colónias.

Não fazer referência a um tal estado de espírito que, de forma mais ou menos directa terá levado ao suicídio de Antero de Quental pós ultimato, parece-nos injusto e até ofensivo para Florbela Espanca, que acaba por beber muito da sua temática depressiva não só neste ambiente psicológico e cultural nacional como bebe neste poeta e filósofo.

Ao mesmo tempo haverá a precisar que, para além das funções de direcção atribuídas nos planos aos colonizadores portugueses, se tem também no programa colonial em conta o reforço cultural dos indígenas com vista à formação de quadros médios e que o esforço educacional dos mesmos (cujo credo é deixado ao cuidado das ordens religiosas no que se refere aos escalões indígenas mais baixos) se vira para a moral cristã evangelizadora, para o respeito pela propriedade privada e pela apologia da monogamia.

As referências de Florbela Espanca ao "ser" decadente português enquanto colectividade nacional não são muito abundantes na sua forma explícita na sua poesia ; em certos passos das mesmas refere até que vive de certa forma alheada das revoluções que se passam pelo mundo, mas em rigor quase toda a sua poesia está eivada de decadência e dos canônes decadentistas interiorizados.

Os sonetos: "Caravelas", por exemplo fazem alguma fusão entre o ser de Florbela e o ser português visto nesta perspectiva, "Prince Charmant" faz uma referência ao sebastianismo e ao nevoeiro (de forma algo irónica mas sempre magoada), "Lembrança" contém um olhar saudoso sobre o ter sido e o desejar voltar a ser Portugal sob forma eufemística, "Mendiga" (uma terminologia recorrente na expressão do destinário nacional) fala da pequenez actual e dos desejos de retorno (neste caso aos livres matagais), "Nostalgia" fala-nos de um país de lenda (ou de lendas) e das riquezas tidas, o "Soneto IX" fala do que se teve e do não ter nada, "Sonho Vago" volta a falar do Desejado D. Sebastião, "O Teu Olhar" faz uma apologia da terra portuguesa no seu todo e interioriza-a, "Navios – Fantasmas" referem um regresso à meninice trazido pelos barcos / Naus agora fantasmas. Pode dizer-se que nenhum poeta passou incólume sobre esta problemática, conforme já vimos acima.

Daniel Teixeira

 

FLORBELA E O SAUDOSISMO DAS NAUS

Para demonstrar, de uma forma pouco ortodoxa, reconhecemos, que subjacente ao ideário de Florbela Espanca se pode encontrar mais sobre o sentimento da decadência agregada ao "fado" nacional, resolvemos fazer uma pequena experiência que aqui trazemos em seguida.

A alguns poemas de Florbela que apresentamos em seguida inserimos e substituímos algumas palavras e relacionamos a sua temática com a temática depressivo / utopista das descobertas e da regeneração nacional, via recuperação do Império perdido. Embora nalguns casos tenhamos quebrado a métrica, mantivemos a rima e a estrutura dos sonetos.

É apenas uma experiência, que o facto de sermos organizadores da página nos permite fazer sem consequências imediatas, mas levámos muito a sério esta transfiguração. 

( Baseado em ) Tarde no mar

Florbela Espanca 

A tarde é toda de fogo e cada nuvem esbraseia.

O horizonte, esse, é um grosso risco enegrecido.

E aqui, cada vaga revolta sucumbe na areia,

Como se fosse o tremor último de um sino,

 

Pouso o meu manto de arminho na areia

E lá vou, sem parança, sigo o traço do meu destino!

E o sol, nas casas brancas que incendeia,

Vai desenhando mãos sangrentas de assassino!

 

São assim as minhas tardes sem descobertas sobre o mar!

Que vai arremessando do céu rolos de velas

Que Apolo se entretém a destroçar...

 

E, sobre mim, rainha agora sem reino, em gestos balbuciando,

As tuas mãos de marinheiro erguidas e cedo mortas,

São como as asas cansadas do sol, que vão pela tarde agonizando...

 

( Baseado em ) Voz que se cala

Florbela Espanca

 

Amo as pedras, os astros e o luar

Que beija as ervas do atalho escuro,

Amo as águas de anil e o doce olhar

Dos animais, divinamente puro.

 

Amo a hera que entende a voz do muro

E dos sapos o brando tilintar

De cristais que se afogam devagar,

E da minha charneca o rosto duro.

 

Amo todos os sonhos que se calam

De corações que sentem e não falam,

Tudo o que é Infinito e pequenino!

 

Asa que nos protege a todos nós!

Soluço imenso, eterno, que é a voz

Do nosso grande e mísero Destino!...

 

( Baseado em ) I

Florbela Espanca

 

Gostei de ti apaixonadamente,

De ti que foste a vitória, a salvação,

De ti que me trouxeste pela mão

Até ao brilho desta chama então quente.

 

A tua linda voz de água corrente

Ensinou-me a cantar... e essa canção

Foi ritmo nos meus versos de paixão,

Foi graça no meu peito de descrente.

 

Foi bordão a amparar minha cegueira,

Foi na noite negra o mágico farol,

Foram cravos rubros a arder numa fogueira.

 

E eu, que era neste mundo uma vencida,

Ergui a cabeça ao alto, encarei o Sol!

Pois tu, qual águia real navegando, apontaste-me a subida!

 

(Baseado em ) Anoitecer

Florbela Espanca

 

A luz desmaia num fulgor de aurora,

Diz-nos adeus religiosamente...

E eu que não creio em nada, sou mais crente

Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

 

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora,

Tenho bênçãos de amor pra toda a gente!

E a minha alma, sombria e penitente,

Soluça no infinito desta hora...

 

Horas tristes que vão ao meu rosário...

Ó minha cruz de tão pesado lenho!

Ó meu áspero intérmino Calvário!

 

E a esta hora tudo em mim revive:

Saudades de saudades que não tenho...

Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...

 

( Baseado em ) A vida

Florbela Espanca

 

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;

Inútil o desejo ou o sentimento...

Lançar a Índia descoberta aos pés de alguém

O mesmo é que lançar flores ao vento!

 

Todos somos no mundo "Pedro Sem",

Uma alegria é feita dum tormento,

Um riso é sempre o eco dum lamento,

Sabe-se lá se um beijo e de onde vem!

 

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...

Uma saudade morta de um outro Além em nós renasce

Que no mesmo momento é já de Aquém perdida...

 

Sonhar-te a vida inteira eu não podia.

A gente esquece sempre o bem de um dia.

Que queres, meu mar salgado, se é isto a vida!...

 

( Baseado em ) A nossa casa

Florbela Espanca

 

A nossa casa, navegador, a nossa casa!

Onde está ela, navegante, que não a vejo?

Na minha doida fantasia em brasa

Constrói-a, num instante, é o meu desejo!

 

Onde está ela, maresia, a nossa casa,

O bem que neste mundo mais invejo?

O brando ninho aonde o meu beijo

Será mais puro e doce que uma asa?

 

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,

Andamos de mãos dadas, nos caminhos

Duma terra de rosas, num jardim,

 

Num país de ilusão que nunca vi...

E que eu moro – tão bom! - dentro de ti

E que tu ainda vives dentro de mim...

 

( Baseado em ) II

Florbela Espanca

 

Meu amor, meu Amado, vê... repara:

Pousa os teus lindos olhos de oiro em mim,

- Dos meus beijos de amor Deus fez-me avara

Para nunca os contares até ao fim.

 

Meus olhos têm tons de pedra rara

- É só para teu bem que os tenho assim -

E as minhas mãos são fontes de água clara

A cantar sobre a sede dum jardim.

 

Sou triste como a folha ao abandono

Num parque solitário, pelo Outono,

Sobre um lago onde vogam nenúfares...

 

Deus fez-me atravessar o teu caminho...

- Que contas dás a Deus indo sozinho,

Passando junto a mim, sem me encontrares? -

 

( Baseado em ) III

Florbela Espanca

 

Frémito do meu corpo a procurar-te,

Febre das minhas mãos na tua pele

Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,

Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

 

Olhos buscando os teus por toda a parte,

Sede de beijos, amargor de fel,

Estonteante fome, áspera e cruel,

Que nada existe que a mitigue e a farte!

 

E vejo-te tão longe partido! Sinto a tua alma

Junto da minha, numa lagoa calma,

A dizer-me, a cantar que já me não amas...

 

E o meu coração que tu longe não sentes,

Vai boiando ao acaso das correntes,

Como um esquife negro sobre um mar de chamas...

 

( Alterações da responsabilidade de Daniel Teixeira )

 

FLORBELA E O CÉPTICO MONTAIGNE

 Ainda sobre a problemática da depressão e do decadentismo, resolvemos também trazer aqui o grande pensador que foi Montaigne e ainda Marco Aurélio e outros que entretanto se possam vir a tornar necessários para o desenvolvimento de raciocínios. O objectivo de trazer tanto uns como outros tem alguns pontos comuns.

Para começar Montaigne pode ser visto em várias perspectivas:

de um lado Michel de Montaigne viveu uma época de crise social com transmutações dos sistemas económico sociais e com reflexos psicológicos importantes (aliás Montaigne poderá melhor ser visto como analista psicológico e antropo - cultural do que propriamente como filósofo nas concepções dos tempos modernos );

em seguida porque alguns dos textos de Montaigne se enquadram perfeitamente dentro do aspecto que temos vindo a tratar ( decadência, tristeza, suicídio, busca do Infinito, etc. ).;

por último, porque Montaigne é apontado como contendo nos seus escritos ( o qual veremos desde já ) muito das concepções defendidas pelos filósofos Estóicos. Florbela refere directamente os Pensamentos de Marco Aurélio na introdução de um dos seus livros em prosa mais emblemáticos (aquele que dedica a seu irmão morto – " As máscaras do Destino") e a sua atitude perante a morte (que não perante a tristeza) contém bastante conteúdo que poderá ser equiparado às concepções estóicas.

Mas comecemos por reconhecer Montaigne:

"Montaigne viveu numa época extremamente conturbada, da qual reflectiu algumas características fundamentais, especialmente as mais contraditórias. A primeira dessas características situa-se no plano económico, social e político das transformações que levaram à destruição da economia feudal da Idade Média e sua substituição pelas actividades manufactureiras e de comércio. A primeira metade do século XVI na França foi marcada por esse processo, notando-se cada vez maior participação do Estado nos assuntos económicos. A família de Montaigne constitui um exemplo típico dessa época em que a burguesia ascendeu ao primeiro plano da história social, sofrendo uma evolução que não se fez sem conflitos profundos." (In Montaigne, Edição Nova Cultural, São Paulo, 1991).

Sobre Montaigne (de Montaigne) recolhemos dois aspectos que consideramos puderem ajustar-se àquilo que temos vindo a desenvolver sobre Florbela Espanca. Pensamos, através da análise da poesia e dos textos escritos (quer romances ou contos quer diário e correspondência) que existem aspectos, pelo menos provisoriamente mais significativos no decurso deste ensaio que importa realçar. Um desses aspectos é o "curriculum" pessoal e temperamental de Florbela expresso numa carta desta ao Dr. Guido Batteli em 27 de Julho de 1930, ano da sua morte.

"Sou uma céptica que crê em tudo, uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada que aceita, sorridente, todo o mal da vida, uma indiferente a transbordar de ternura.

Grave e metódica até à mania, atenta a todas as subtilezas dum raciocínio claro e lúcido, não deixo, no entanto, de ser uma espécie de D. Quixote fêmea a combater moinhos de vento, quimérica e fantástica, sempre enganada e sempre a pedir novas mentiras à vida, num dom de mim própria que não acaba, que não desfalece, que não cansa!"

Por toda a carta / trecho perpassa uma consciência clara do paradoxo ou do absurdo interiorizado. Contudo, se analisarmos numa outra perspectiva também não ficaremos muito enganados. Em certo sentido Florbela é ela mesma e o seu contrário, ou seja, uma personagem que se apresenta como emanação de si mesma e que se representa como se a um espelho estivesse. A linearidade da metodologia referida como sendo dela mesma, Florbela, não é no entanto suficiente para que se obtenham conclusões claras sobre a personalidade de Florbela; em certo sentido o método é esse, ou seja, apresentar um não método, espalhar contradições de forma a deixar bem escondido, mostrando-o em duas faces, aquilo que ela mesma é, substancialmente.

Por isso pode sempre perguntar-se: O que pretende esconder Florbela?! O que não quer Florbela que se saiba dela?! Porque esconde ela desta forma a sua personalidade?! Com tanto empenho?! Mas é bem crível que ela esteja a falar verdade, e tal como diz na sua poesia, não saiba, efectivamente quem é ou como é. Se ela ou o seu reflexo. Mas, como diremos mais à frente citando Florbela e Marco Aurélio:"Isso importa?!"

Ou seja, importa que ela se dispa de todo o mistério que vai construindo sobre si, como pessoa e como poeta?! Pendemos mais para aquilo que Montaigne escreve à frente: " (…) a alma perturbada e agitada confunde-se quando lhe falta um objectivo. Em seus transportes, exige ela, sempre, algo a que culpar e contra o que agir (…)". Mas contra o que age Florbela?! Contra os moinhos de vento que são a sua necessidade de se sentir ela mesma mesmo que o seja de uma forma falaciosa?!

O seu desejo de infinito voga no reino do absurdo e da contradição: pretende ter a verdade como companheira mas aceita uma mentira piedosa, uma meia verdade, porque tem medo de amar…uma mulher que quer amar perdidamente tem medo de amar porque o amor representa para ela algo que ela pensa ou sabe não poder controlar. O seu amor, da forma que ela o entende, da forma terrena e pequenina da realidade, é entrega dela e não partilha e Florbela não quer submeter-se aos ditames desse mesmo amar. Por isso nunca amou…no verdadeiro sentido da palavra. Teve sempre medo de amar…mas cantou o amor como gostaria que ele fosse…

A 16 de Junho de 1916 Florbela escreve a Júlia Alves da Modas e Bordados "(…) o casamento é brutal como a posse é sempre brutal, sempre. Só para as mulheres, aquelas mulheres mais animais que espirituais, é que o casamento não é a desilusão de sempre – mas então nós?". Quer ela dizer, mas então as outras como eu?!

Pois bem, façamos uma pequena exploração psicológica sobre esta questão: Florbela nasceu de uma mulher não casada mas vive em casa de uma mulher casada. Será essa mulher (Mariana) uma mulher animal?! Seria o casamento entre os seus pais adoptivos uma manifestação de posse?! E seria Júlia Alves da "Modas e Bordados" solteira ou mesmo uma mulher espiritual, como o define Florbela?! Há, aparentemente aqui qualquer coisa que não bate certo…

Mas vejamos a carta seguinte do dia seguinte:"Acho o casamento uma coisa revoltante (…) a posse revolta tudo quanto eu tenho de delicado e bom no íntimo da minha alma. Ganha-se um amigo muitas vezes, é certo; um amigo que às vezes é o nosso supremo amparo, mas em compensação quantas mágoas, quantas desilusões! Quantas!"

Florbela tinha-se casado a 8 de Dezembro de 1912, ou seja, cerca de quatro anos antes. Levou assim todo esse tempo para concluir estes pensamentos e escrever esta catalinária contra o casamento e contra o estado de se ser casada e contra a instituição casamento. Convenhamos que aqui também há qualquer coisa que não bate certo…por isso é melhor lermos Montaigne…

DE COMO A ALMA QUE CARECE DE OBJECTIVO PARA AS SUAS PAIXÕES AS MANIFESTA AINDA QUE AO ACASO – MONTAIGNE

"(…)Em verdade, assim como nos dói o braço erguido para bater, se o golpe não alcança o alvo e atinge o vácuo, e assim como para tornar uma paisagem agradável é preciso que ela não se isole no espaço mas antes se apoie a um fundo apropriado e seja vista a distância suficiente,

"assim como o vento, se espessas florestas não se erguem à sua frente como obstáculos, perde sua força e se dissipa" (Lucano)

assim a alma perturbada e agitada se confunde quando lhe falta um objectivo. Em seus transportes, exige ela, sempre, algo a que culpar e contra o que agir.

(…) Vemos igualmente a alma tomada pela paixão, de preferência a não se entregar a ela, enganar-se a si própria criando um objectivo falso ou fantasista, ainda que a expensas das sua próprias convicções. (…)

Que causas não inventamos para as desgraças que nos afligem? A quem ou a que, com razão ou sem ela, não culpamos a fim de ter algo contra o que nos havermos? Em teu desespero arrancas as loiras tranças, rasgas o peito a ponto de o sangue lhe manchar a brancura; são eles a causa da morte desse bem-amado irmão que uma bala mortal tão cruelmente atingiu? Não, volta-se pois, contra outros."(…)

Portanto, e apesar de não termos conseguido saber muito sobre aquilo que se passou realmente com Florbela, parece aplicar-se integralmente aquilo que Montaigne diz. O seu "cansaço" do casamento e da posse não a impediu de se voltar a casar (após um período de concubinato e vida em comum de cerca de 18 meses) em 1921. Ou seja, cerca de cinco anos após o seu desabafo com Júlia Alves da Modas e Bordados, mantendo assim um casamento de cerca de 9 anos com uma pessoa da qual pensou um dia gostar.

Quanto ao amor idealizado por Florbela, um amor impossível de concretização, um amor platónico e observante em que ela, Florbela, é o centro atractivo à volta do qual o processo "amoroso" se desenvolve só pode ser entendido como sendo um amor não – dialogante, ou seja, um amor sem entrega sua e com entrega do outro.

Reclama contra as "esmolas" dos carinhos, exige devoção, sente-se insatisfeita com aquilo que recebe, chama por maior atenção, está sempre insatisfeita com aquela que recebe ou negoceia tolerante e submissa o pouco que recebe…breve, em nossa opinião o amor que Florbela quer é aquele que aprendeu em Soror Mariana Alcoforado e nas suas epístolas, um amor distante onde tudo se pode pedir e nada de concreto se obtém porque a finalidade é precisamente essa. Nada obter mas sim viver um amor virtual.

Estatuto cómodo para uma mulher que não quer, profundamente, amar terrenamente. "Eu quero amar, amar perdidamente! / Amar só por amar: Aqui…além… / Mais Este e Aquele, o Outro e a toda a gente… / Amar! Amar! E não amar ninguém!".

Temos neste início de um dos seus poemas mais conhecidos um conjunto de definições do Amor que começa pelo Amor que se compensa a si mesmo e a si se basta na sua simples e uniforme existência, que se move no espaço e nas pessoas, para se diluir como não sendo amor de amante e para finalizar numa negação e explicitação do amor de que se pretende falar, o amor de ser humano pelos outros seres humanos, ao fim e ao cabo, que é uma forma de, ao amar todos não se amar especificamente ninguém porque o verdadeiro amor à volta do qual Florbela ondeia não se toca, não se vive, é ilusão, é sonho, é nada. É uma amor que não tem objecto substancial.

No conto "As orações de Soror Maria da Pureza" passe o desactualizado título, Maria / Florbela é amada assim:

"O namorado encostado às grades, dizia-lhe:

"Quando te vejo vir ao longe, tenho vontade de te rezar – Avé Maria, cheia de graça – Maria! Toda tu és luz e iluminas-me! Toda tu és expressão e alma imaterial; as tuas formas são espírito revestindo outro espírito, como um manto de rendas sobre um vestido de prata. O teu olhar é mais profundo que os teus olhos, a tua boca é mais pequenina que o teu riso. Tu não pões os pés no chão, eu bem vejo como tu andas, Maria! Vens para mim, da escuridão da noite, num andor coberto de açucenas, como uma aparição, e as flores do jardim acorrem todas à tua passagem, recolhidas e graves, à beira do caminho, de mãos postas, rezando – Avé Maria, cheia de graça – como se passasse a procissão…!"

Este elogio da transcendência (passe também a má qualidade da escrita em prosa de Florbela), daquela que "é" e se representa para além de tudo e que se equipara a Nossa Senhora, é, de facto sintomático do modo de amar adoptado por Florbela. O amor não se concretiza, nunca (o namorado morre algures) e Maria passa a ser Soror Maria da Pureza (que raio de nome) voltando o impulso amoroso (se é que ele existia) para o trajecto conventual agora mais real / ficcionado onde a escritora virtualmente já a tinha metido desde o início.

O seu percurso no Convento é extremamente elogiado; primeiro passa pela fase de ser extremamente doce e obediente e acaba por elevar as orações que faz ao seu amor –noivo - morto a orações conventuais definidas como sendo" orações de amor, sacrílegas, blasfemas orações de pecado, a um noivo morto, rezadas num convento de Toledo, aos pés dos altares, por bocas puras, (…) estranhas orações de pecado!" a serem sancionadas pela ríspida Madre Superiora através de um exclamado "Sagrado Coração do Senhor, ouvi-a!". Qualquer semelhança com orações a um Cristo morto não serão coincidência, acrescentamos nós. E qualquer branqueamento das ditas orações de forma a torná-las, exemplarmente não pecaminosas ou blasfemas também não será despropositado considerar-se. As orações de Soror Maria da Pureza, revestem-se assim de um misticismo electivo em que o mundo se coloca aos pés da "pecadora" e a apresenta como sendo cada vez mais pura precisamente por orar a esse "pecado".

Daniel Teixeira

 

 

 

 

 


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