![]() |
![]() |
David
Hume
A
Origem das idéias e o hábito
Paulo Roberto Mermejo |
“Seja filósofo mas para alem da filosofia seja Homem”
David Hume, Nasceu em Edimburgo, em 1711 e desde cedo
com uma forte inclinação aos clássicos e a filosofia, a ponto de se rebelar
contra o desejo de seus parentes que queriam-no Advogado. Sem grandes conquistas
no campo acadêmico mas com grande influência política Hume transitou entre as
principais correntes filosóficas que lhe eram contemporâneas estabelecendo
amigáveis relações com o iluminismo francês a ponto de acolher em sua proteção
J.J. Rousseau.
Sua obra prima será o “O tratado da natureza humana”em três
volumes, a princípio ignorado por seus contemporâneos mas que lhe rende o
privilégio de ser o mais lido e discutido dos autores de seu tempo.
|
A Natureza Humana a
partir do método de raciocino experimental. |
Como
Tales de Mileto, com sua filosofia da natureza precede a Sócrates com sua
filosofia do homem, Hume acreditava estar a frente de Galileu e Newton com sua
“ciência da natureza humana”. Porem não contava que a natureza humana
contida no método experimental, perde grande parte da emoção e do sentimento.
No caminho da compreensão racional da natureza humana, Hume elege a
percepção com o referencial dos conteúdos da mente. As percepções se
distinguem em duas grandes classes: as impressões e as Idéias. As primeiras se
referem a vivacidade com que se apresentam a nossa mente e as outras segundo a
ordem e a sucessão temporal.
As percepções que se apresentam com maior força e violência, são
as impressões. O seja, todas as sensações, paixões e emoções. Já as idéias
são percepções mais amenas que se sucedem às impressões. Para Hume toda
percepção é dupla: primeiro, sentida depois, pensada. Há uma inter-relação
entre ambas, porém a segunda sempre está subordinada a primeira. Assim a
impressão é originária e a idéia é dependente.
Daí o autor tira o seu primeiro princípio da ciência da natureza
humana;
“Todas as idéias simples provêm, mediata ou
imediatamente, de suas correspondentes impressões”.
Com este primeiro princípio o filósofo põe por terra o princípio
inatista das idéias, ou seja, para ele, nós só temos idéias depois de ter
impressões, e somente esta que são originárias.
As impressões e idéias podem, se distinguir entre, impressões e
idéias simples e impressões e idéias compostas. As impressões simples são
aquelas imediatas: quente, frio etc, as impressões complexas nos chegam a
partir de um objeto ou uma coisa: a impressão de uma casa, um carro etc.
As idéias simples tem uma correspondência imediata das impressões
simples, já as idéias complexas tanto pode, serem cópias de impressões
complexas, como podem derivar de combinações múltiplas de nosso intelecto.
Para Hume as idéias complexas se formam a partir de um repertório de impressões
que se encontram disponíveis em nossa memória. Além da memória, o humano
ainda conta com sua faculdade imaginativa.
Há ainda, segundo ele, uma força que une as idéias – a
associação- que pode ser caracterizada pela semelhança, pela contigüidade e
pela sua relação de causa e efeito. Assim quando pensamos em uma foto, nos
remetemos imediatamente ao personagem que nela está impresso (semelhança), ou
quando nos pedem uma informação na rua e montamos um mapa mental que
possibilite indicar o melhor caminho a nosso interlocutor (contigüidade), ou
ainda quando sentimos o cheiro de fumaça e logo nos alertamos para um possível
foco de chamas(causa e efeito).
Destes postulados o Filósofo tira o seu segundo princípio da ciência
da natureza humana:
“Para provar a validade de cada idéia sobre a qual se discute é necessário apresentar a sua relativa impressão. No caso das idéias simples, isso não suscita problemas,pois não pode estar presente em nós nenhuma idéia simples sem que tenhamos experimentado a correspondente impressão. No caso das idéias complexas, isso já constitui um problema, devido à sua gênese múltipla e vaiada.”
Com este segundo princípio, uma nova questão perambula pela força
criadora de David Hume: a questão das idéias universais.
|
As
idéias Universais e o hábito |
Aqui, mais uma vez vem a tona o problema dos universais. A quetão é
saber de onde derivam as idéias gerais: não este ou aquele objeto mas o
conceito geral do objeto,não esta ou aquela cadeira mas o conceito de cadeira.
Para o Filósofo Os universais não passam de idéias particulares que por
semelhança são conjugadas com outras idéias, também particulares e, por isto
recebem um caráter de maior extensão. Hume argumenta que os defensores dos
universais se equivocam quando
postulam que o intelecto humano é capaz de distinguir mentalmente aquilo que não
está separado na realidade, para ele só é distinguível aquilo que é separável.
Argumenta ainda que as idéias são cópias de impressões que só pode ser
particulares.
Mas daí outra questão vem a tona. Como pode uma idéia
particular ser usada de modo geral? Hume reponde
com o argumento de que as temos um repertório de idéias organizadas por
semelhança e que se intensifica a medida que vivenciamos novas situações. Um
bom exemplo pode ser o mecanismo de generalização usado pelas crianças. A
principio todos os animais de quatro patas, são ao “au-au” mas aos poucos
vai se produzindo no seu intelecto uma discriminação que categoriza cada espécie
e gênero.
A associação de idéias se processa de tal forma que as semelhanças
possibilitam dar a elas o mesmo nome “prescindindo das diferenças
de grau, de qualidade e de quantidade que elas podem apresentar”.
Até aqui,
Hume compartilha suas convicções com um outro filósofo que o precede –
Berkeley - mas inova quando propõe o
princípio do hábito.
Como
as palavras são usadas para designar idéias análogas e não sendo capaz de
fazer reviver todos os indivíduos, limita-se a reviver o “hábito”
“que contraímos ao examina-las. As idéias não estão realmente na mente,
como esperam os idealistas, mas estão em potência, estamos prontos a
considerar este ou aquele objeto novo a partir da semelhança sempre que surgir
uma nova necessidade.
“A palavra desperta uma idéia individual e, juntamente
com ela certo hábito. E esse hábito produz toda outra idéia individual,
conforme requer a ocasião. Mas, como é impossível, na maioria dos casos, a
produção de todas as idéias ás quais o nome pode ser aplicado, nós
abreviamos esse trabalho, limitando-o a uma consideração mais restrita, sem
que surjam dessa abreviação muitos inconvenientes para os nossos raciocínios.
Nesse trabalho, um dos fenômenos mais extraordinário é que, produzida pela
mente uma idéia individual, o hábito que acompanha a primeira idéia,
despertada pelo termo geral ou abstrato, sugere muito mais a segunda.”.
|
ABERTURA |