Cartas de São Francisco
O Senhor te abençoe!
E com isto reconhecerei que amas
realmente o Senhor e a mim, servo Dele e teu, se fizeres o seguinte: não haja
irmão no mundo, mesmo que tenha pecado a não poder mais, que, após ver os
teus olhos, se sinta talvez obrigado a sair de tua presença sem obter misericórdia,
se misericórdia buscou. E se ele não buscar misericórdia, pergunta-lhe se não
a quer receber. E se depois disto ele se apresentar ainda mil vezes diante de
teus olhos, ama-o mais do que a mim, procurando conquistá-lo para o Senhor. E
tem sempre piedade de tais irmãos. E logo que puderes, leva ao conhecimento dos
guardiões que decidiste firmemente agir assim.
Para todos os capítulos da Regra
que tratam de pecados mortais, faremos, com ajuda de Deus, no capítulo de
Pentecostes, um único capítulo assim redigido:
Se algum irmão, por instigação
do inimigo, pecar mortalmente, seja obrigado, sob obediência, a recorrer ao seu
guardião. E todos os irmãos que souberem do pecado dele não o envergonhem nem
descomponham.Tenham antes grande misericórdia com ele e mantenham oculto o
pecado de seu irmão, porquanto os sãos não tem necessidade do médico, senão
os enfermos (Mateus 9,12). Sejam igualmente obrigados, sob obediência, a enviá-lo
acompanhado ao seu custódio. O custódio, por sua vez, o atenda com misericórdia,
como desejaria ser tratado se estivesse em idêntica situação. E quem tiver
cometido pecado venial se confesse a um irmão que for sacerdote; e se não
houver sacerdote no lugar se confesse a outro irmão até que haja um sacerdote
para absolvê-lo canonicamente, como já ficou dito. Os aludidos irmãos não
tenham outra faculdade de impor-lhe penitência senão esta: “Vai e não
peques mais!” (João 8,11 )
Eu Frei Francisco, homem inútil e
indigna criatura de Deus Nosso Senhor menor, digo no Senhor Jesus Cristo, que
guardem consigo este escrito e ponham-no em prática, com o beneplácito de Deus
onipotente, agora e sempre, até o fim do mundo.
Abençoados sejais pelo Senhor
Deus vós que isto fizerdes; que o Amado Senhor Jesus Cristo esteja convosco
eternamente.
Janeiro de
1220
Querido Ministro e Irmão,
Paz e Bem!
Louvemos ao Senhor, de quem
procede todo bem e em quem está a razão de toda a nossa existência; pois Deus
é amor e quem permanece no amor, Deus permanece nele e ele em Deus.
E ainda mais uma coisa, pela qual
quero ver se de fato amas realmente o Senhor e a mim, servo Dele e teu, se
fizeres o seguinte: Não haja irmão no mundo, mesmo que tenha pecado o mais
gravemente possível e não poder mais, que, após ver os teus olhos, se sinta
talvez obrigado a sair de tua presença sem obter misericórdia, se misericórdia
buscou; que jamais este irmão deva sair sem ter achado o perdão, que esperava
receber de ti. E embora ele não queira o perdão; então deves perguntar-lhe se
ele não o quer. E se não buscar misericórdia, pergunta-lhe se não a quer
receber. E se depois disto ele se apresentar ainda mil vezes diante de teus
olhos, mostra-lhes mais carinho e ama-o mais do que a mim, para que o conquistes
para o Senhor. E tem sempre piedade de tais irmãos, que no trato com eles,
mistures sempre o vinho da justiça com o azeite da misericórdia.
Eu Frei Francisco, o menor de
vosso servo, vos confirmo a benção do altíssimo Pai, e seja cumulado na terra
com a benção do seu dileto Filho em unidade com o Espírito Santo Paráclito.