ARTIGOS ATUAIS

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FELIZ O HOMEM QUE SUPORTA A TENTA��O

 

Foi preciso que a tenta��o te provasse, justamente porque eras agrad�vel ao Senhor. Somente o crist�o santificado e cheio do Esp�rito pode vencer as armadilhas do dem�nio. Quando fazemos nossa op��o por Deus, permanecendo em Cristo, teremos de suportar as diversas provas, pois esta � a trilha do �nico caminho poss�vel para o crist�o que tem que estar �no� mundo, mas que n�o quer ser �do� mundo, come�a a� nosso combate com o inimigo. S� lhe resistimos quando nos submetemos a Deus, suportando toda esp�cie de tenta��o, na certeza que a vit�ria � certa com os m�ritos de Cristo. � o Esp�rito Santo quem travar� a batalha por voc�. Esta � uma guerra espiritual. S� alcan�aremos a vit�ria completa quando nos tornarmos canais e deixarmos o Esp�rito Santo travar o combate por n�s.

Muitas vezes a tenta��o se torna um fardo, justamente por cairmos na ilus�o de querer lutar sozinho. Confiando em nossa capacidade queremos reter e esconder as pequenas ocasi�es que foram motivo de queda diante de Nosso Senhor. Por isso � fundamental que n�o escondamos nada de Cristo, deixe-O ser Senhor e Mestre absoluto de sua vida � �V�s conheceis, � Deus, a minha insensatez; e minhas faltas n�o vos s�o ocultas� (Sl 68,6)

Um garotinho que brincava certa vez com um vaso valioso, colocou a m�o dentro dele e n�o conseguia retir�-la. Seu pai tamb�m tentou o melhor que p�de, em v�o. J� pensavam em quebrar o vaso, quando o pai disse: �Tente mais uma vez agora, meu filho. Abra a m�o e estique bem os dedos, como estou fazendo, e ent�o puxe�. Para surpresa de todos, a crian�a respondeu: �Ah, n�o pai. N�o posso esticar meus dedos assim, porque se eu esticar, vou deixar minha moeda cair.�

Muitos de n�s s�o como este garotinho, t�o empenhados em se agarrar � moeda sem valor do mundo, que n�o aceitam perde-la, preferindo esconder o pecado e tudo aquilo que Cristo quer libertar e operar em nossas vidas.

O pecado em si tem um precedente, que � de maior ou menor dura��o: a tenta��o. Acontece, por�m, que pessoas de grande zelo de perfei��o chegam a confundir pecado e tenta��o. � preciso conhecer a tenta��o em suas particularidades, mas, n�o prender-se a ela, como fez o garotinho com sua moeda, o que corresponde a uma certa garantia contra ela.

Diz a Sagrada Escritura que Deus �tenta�. Com isso quer ela, apenas dizer que Deus, muitas vezes, nos sujeita a provas. Foi o que tamb�m Mois�s falou ao povo: �O Senhor vosso Deus, vos experimenta para saber se de fato amais ao Senhor vosso Deus com todo vosso cora��o e com todo vosso ser� (Dt 13,4). Isso tudo n�o passa naturalmente de nossa linguagem humana. � evidente que Deus n�o tem necessidade da �tenta��o� para conhecer-nos, como fazem os pais com os seus filhos, e patr�es com seus empregados. �Deus sabe por si mesmo o que havia no homem� (Jo 2,25). A prova��o de que fala Mois�s s� poder� ser chamada de �tenta��o� em sentido muito figurado.

Tenta��o, propriamente, � a sugest�o, o est�mulo para o mal. Pode ela originar-se dentro de n�s mesmos, por exemplo, com alguma representa��o sensual, com a lembran�a de alguma inj�ria recebida. Trata-se nesses casos de tenta��es puramente internas. Quando por�m, s�o fatores estranhos que consciente e de caso pensado, nos estimulam para o mal, ou quando pessoas ou coisas nos atrai para o pecado, trata-se de tenta��es externas. Se, em casos determinados, n�o houver sugest�o nenhuma, quer externa ou interna, evidentemente tamb�m n�o h� pecado. Tamb�m o que � para algu�m causa de tenta��o, pode absolutamente n�o s�-lo para outro. E, igualmente, pode dar-se o caso de sentir-se uma pessoa muita estimulada para o mal em determinada ocasi�o, e no entanto, nada ou quase nada sentir em outra ocasi�o id�ntica. Nesse caso h� que levar muito em considera��o idade, predisposi��o, educa��o, vida interior, estado moment�neo f�sico ou ps�quico, e umas tantas outras coisas. Assim vivem uns rodeados com tenta��es violentas e continuadas, enquanto outros raramente s�o acometidos por elas, e sem grandes pertuba��es.

Segundo S�o Greg�rio, a instiga��o para o mal, ess�ncia ali�s da tenta��o, consiste primeiramente numa sugest�o, isto �, num convite que me leva a pecar. O que � mau apresenta-se como sendo de estonteante beleza. Assim, para Eva os frutos da �rvore apresentavam-se gostosos e de aspecto agrad�vel, portadores da ci�ncia do bem e do mal. E o tentador mostrou a Jesus �os reinos da terra em todo o seu esplendor�, dizendo-lhe �tudo isto ti darei, se, prostado, me adorares� (Mt 4,8). Com a queda dos nossos primeiros pais, a sugest�o produz em n�s homens, muitas das vezes, natural deleite, isto �, nossos apetites baixos e desordenados comprazem-se no mal. Esse deleito � como �sim� de nossa natureza inferior em resposta ao convite que lhe � feito. � nessa altura que o nosso eu superior, o livre arb�trio, se defronta com a alternativa que o obriga a uma decis�o. Nossa vontade est� sendo tentada. Como diz Santo Agostinho: �Sem a liberdade n�o poder� existir a virtude�. E, no caso, de tamb�m dizer �sim� ao convite, ela resistiu a tenta��o, consentindo deliberada e livremente no prazer, at� ent�o natural. E, com isso, o pecado est� consumado, pelo menos intencionalmente. Negando, por�m, aceitando esta verdade, dizendo �n�o� a vontade, saiu-se vencedora da tenta��o.

Poder�amos perguntar de onde vem a tenta��o? S�o Tiago escreve que: �Ningu�m, quando for tentado, diga: � Deus que me tenta. Deus n�o � tentador de coisas m�s; e Ele n�o tenta ningu�m. Mas cada uma � tentado pela sua pr�pria concupisc�ncia, que o atrai e alicia� (Tg 1,13-14). Eis a raiz venenosa, causadora de todas as tenta��es procedentes do nosso �ntimo. A elas associam-se as provoca��es de fora, provocando-lhes o v�rus mal�fico. E mais aquela mania infeliz, que n�o tem nenhuma raz�o de ser e que vivemos acalentando em nosso peito: de sempre querer rebelar-nos contra as leis de Deus. Tudo por causa dessa �nsia irrefre�vel do gozo dos sentidos, do gozo dos bens da fortuna e das honrarias. Diz S�o Paulo que os desejos da carne s�o contr�rios ao do Esp�rito. J� n�o bastara esse ardor j� prestes a gerar labaredas, vem o mundo, por sua vez, a ati��-lo ainda mais. N�o tanto as coisas do mundo; pois estas s� foram feitas para nos levar at� Deus. O que faz com que elas nos provoquem tenta��es � a desordenada m� concupisc�ncia dentro de n�s. �Mundo�, segundo a Sagrada Escritura, � a concupisc�ncia da carne, � concupisc�ncia dos olhos, � a soberba da vida. Elas fazem dos homens seus escravos (I Jo 2,15). E depois, por meio delas, nos provocam e nos move para o pecado. Umas vezes mais, outras vezes menos. Com seu mau exemplo. Por palavras. Por meio de revistas e jornais. Pela televis�o. Por filmes. Com imagens e com mil outros atrativos de sedu��o e poder que a natureza humana tende a agarrar-se e n�o mais querer soltar.

Vemos que o dem�nio, o mundo e a carne s�o as tr�s for�as que nos seduz para o mal. Andam sempre juntas, revezando-se, apenas nas fileiras de nossa caminhada, principalmente quando estamos com o firme prop�sito de fazer a vontade de Deus, eis que  tenta��o vem com toda for�a. Est�o sempre a nossa frente causando-nos danos a nossa vida espiritual e material, pois a natureza deca�da estar� sempre sendo influenciada por elas.

N�o nos deve confundir, as tenta��es. Elas fazem parte de nossa condi��o humana. Mesmo as almas mais nobres e os santos n�o foram poupados. Nos encontramos no estado de prova��o. A vida do homem na terra � uma luta, por isso o Salvador quis ser tentado. Ali�s para consolo nosso. Difere a tenta��o de uma pessoa para outra apenas quanto a esp�cie, freq��ncia ou intensidade. Todo disc�pulo de Cristo ter� de carregar a sua cruz. Mas, nem as v�rias esp�cies de tenta��o, nem a freq��ncia das mesmas e sua intensidade conseguem intimidar-nos. Tenta��o n�o � pecado. Mais ela dep�e a nosso favor. Vejamos o que diz S�o Cipriano: �O dem�nio s� procura abater aqueles que encontra de p�. E S�o Greg�rio diz: �Os que considera seus, o dem�nio n�o lhes move vexames�.

�Vivemos neste mundo entre o Reino de Deus e o reino do dem�nio�, diz Santo Agostinho. Constantemente vemo-nos obrigados a tomar atitudes. Da�, para n�s, a import�ncia de uma luta bem definida e firmemente dirigida. Ela � individual, particular, como acontece, ali�s, na tenta��o.

Durante a tenta��o, � aconselh�vel demonstrar desprezo para as tenta��es leves, ignorando-as simplesmente. Porque, se quis�ssemos resistir de maneira positiva e declarada, poderia acontecer de acumularmos as pr�prias propor��es da tenta��o. Acabar�amos no m�nimo exaustos e zonzos, e, no fundo sem raz�o cab�vel. A flexibilidade e o sossego de esp�rito s�o pot�ncias que n�o devemos abrir m�o. O que acabamos de falar, por exemplo, para o caso das tenta��es de vaidade, de m� suspeita, de inveja, as vezes ocasionadas pelas raz�es mais f�teis. O mesmo vale para as fantasias passageiras, pensamentos, desejos e sensa��es contra a pureza do cora��o. Assim tamb�m no caso de tenta��es contra a f�, que podem surgir repentinamente, e importunar durante longo tempo e sempre de novo, sob a forma bastante generalizadas. O mesmo de d� nas tenta��es de blasf�mias, e outras semelhantes. S�o Francisco de Sales, o grande conhecedor de almas, tem uma palavra de orienta��o nesse sentido: �Deixa que o vento sopre e n�o d�s aten��o ao sussurro das folhas, julgando-o erradamente tinido de armas�. Ele compara essa esp�cie de tenta��es a mosquitos que vivem a dan�ar diante de nossos olhos, procurando picar-nos, quer numa quer noutra parte do rosto. Diz ainda S�o Francisco de Sales: �Mesmo se muito nos importunassem, nenhum mal nos poder�o fazer, enquanto estivermos firmemente dispostos a servir a Deus. Despreza, pois, essas pequenas provoca��es, n�o lhes dando aten��o, porquanto a n�o merecem. Deixa-os zumbir, se lhes aprouver, pois n�o passam de mosquitos.�

Em se tratando de tenta��o mais graves n�o podemos agir assim. Aqui seria imposs�vel darmo-nos por satisfeitos e contentar-nos com uma resist�ncia generalizada e simplesmente passiva. � urgente resistir-lhes de maneira formal e ativa. Estar�amos mal avisados, se fossemos silenciar diante de falsas e perigosas insinua��es. Poderia facilmente parecer estarmos de acordo, sem falar no perigo a que nos expomos a pecar. A resist�ncia deve ser imediata, sem vacilar, nem hesitar, sem refletir muito nem nada diminuir. Come�emos a resistir t�o logo detectarmos o perigo, e soar a voz da consci�ncia. � bem mais f�cil repelir o inimigo que se encontra a porta, do que afast�-lo quando j� dentro de casa e senhor dela. Apaga-se mais facilmente a labareda do que a fogueira. Ao m�nimo sinal de amea�a do pecado, o verdadeiro temor a Deus e o amor ardente, instintivamente erguem a m�o a fim de aparar o golpe. A resist�ncia deve ser determinada. Brincar com a tenta��o, acarici�-la, � dar-lhe brecha, � fornecer-lhe coragem para voltar com redobrada viol�ncia.

Toda pessoa zelosa e temente a Deus sofre com a tenta��o. A solicita��o constante para o mal lhe torna-se pesada cruz. E por isso geme com S�o Paulo: �Infeliz de mim! Quem me libertar� deste corpo que me acarreta a morte?� (Rom 7,24). E todavia, foi a sabedoria e a bondade de Deus quem introduziu tamb�m essa cruz nos planos de salva��o. Deus quer fazer da tenta��o escola de virtudes e de ap�stolos. O inimigo de nossa alma pretende arrastar-nos para o exterm�nio, a que o levou seu pr�prio pecado. Deus, por Sua vez, permite a tenta��o, precisamente para, por meio dela, distanciar-nos do mal, e cada vez mais, elevando-nos � nobreza da virtude.

Cabe a prova��o fazer-nos mais vigilantes e mais piedosos, consertar os fundamentos danificados do edif�cio da virtude, prevenindo cat�strofe ainda mais grave. Seja motivo para nossa felicidade apreciar devidamente o que as tenta��es vem evitar, confirmar, resguardar e favorecer em nosso ideal de perfei��o. A tenta��o faz tudo para nos tornar descrente do amor de Deus. As tenta��es formam como que o lastro da nau de nossa exist�ncia. S�o elas que em alto mar possibilitam e mant�m a embarca��o no seu justo n�vel.

Confirmamos como o anjo assegura ao jovem e ardoroso Tobias: �Porque tu eras agrad�vel a Deus, foi necess�rio que a tenta��o te provasse� (Tob 12,13). Mesmo assim as tenta��es podem causar verdadeiro des�nimo no campo do progresso espiritual. Diz Santo Agostinho: �� nas tenta��es que se processa o avan�o.� Quanto maiores s�o os dons gratuitos do Esp�rito Santo, tanto mais pesados lhes s�o tornados as lutas. E n�s, simplesmente porque n�o somos tentados contra certa virtude, julgamo-nos senhores dela. Como diz S�o Pedro Cris�logo: �N�o � no bom tempo que o piloto mostra o que sabe, e sim na hora em que o vento e o temporal agitam a nau. Com o c�u claro qualquer um � capaz de manejar o leme�. Acontece que s� mesmo a experi�ncia pessoal p�e a pessoa ao par do complexo desenrolar das diversas propor��es interiores. E quem j� tomou parte em duras lutas sabe o que vai e o que passa pela alma de quem � gravemente tentado. Aquele que n�o tem experi�ncia pouco sabe. �Quem nunca foi provado, que sabe ele?� (Ecli 34,9).

Todo nosso passado cheio de tenta��es e prova��es, n�o deve nos causar pesar, mas sim, j�bilo. Na certeza de que, ao olhar para frente, descobriremos que fomos eleitos e agrad�veis aos olhos do Senhor Deus, pois o que era causa de perdi��o agora serve de alavanca para nossa salva��o. E que tudo isto tornou-se o grande motivo de nossa alegria, onde tivemos a oportunidade de desfrutar e experimentar o Seu amor. Era como uma moeda que nos era dada a cada dia para comprar a Sua gl�ria; nos fazendo crescer, amadurecer e dar frutos - �Feliz o homem que suporta a tenta��o. Porque, depois de sofrer a prova��o, receber� a coroa da vida que Deus prometeu aos que o amam�.   

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