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O cão é que tem a culpa (uma história)
Deus criou o cão, o cão lambeu-lhe a mão e Deus fez-lhe uma festa na cabeça.
«Que queres tu, cão?»
«Queria ficar a morar aqui contigo, no céu, deitado no tapete em frente da porta�»
«Não pode ser», disse Deus, «não preciso de cão, pois ainda não criei os ladrões.»
«Quando é que os vais criar, Senhor?»
«Nunca. Estou cansado. Trabalhei cinco dias, é tempo de descansar. Criei-te a ti, cão, a minha obra-prima. Será melhor ficar por aqui. Um artista nunca deve esgotar a sua inspiração. Se continuasse a criar, talvez as coisas me saíssem mal. Vai, cão � vai para a terra, e sê feliz!»
O cão suspirou fundo:
«Que farei na terra, Senhor?»
«Comerás, beberás, crescerás e multiplicar-te-ás�»
O cão ainda suspirou mais fundo:
«Que é que queres mais?»
«Quero-te a ti, meu Senhor e Mestre. Não queres descer também à terra?»
«Não», disse Deus, «não, cão. Asseguro-te que é impossível instalar-me na terra, para te fazer companhia. Tenho mais que fazer. O céu, os anjos, as estrelas, dão-me muito trabalho�»
O cão baixou a cabeça e seguiu o seu caminho; mas, ao fim de pouco tempo, voltou para trás.
«Ai, Senhor Deus, se ao menos houvesse lá em baixo um outro Senhor, alguém parecido contigo�»
«Não», disse Deus, «não há�»
O cão fez-se pequenino e pediu com meiguice:
«Se tu quisesses, Senhor, podias tentar�»
«Impossível», disse Deus, «o que está feito está feito. O meu trabalho está acabado. Não vou criar nunca um ser melhor do que tu. Se criasse ainda mais alguém, ia sair mal, tenho esse pressentimento�»
«Ai, Senhor Deus», disse o cão, «não tem importância que saia mal, desde que eu possa segui-lo quando ele anda a deitar-me a seus pés quando esta parado�»
Deus sentiu admiração por ter criado um ser tão bom e disse ao cão:
«Vai, será como desejas�»
Voltou para a sua oficina e criou o homem.
E o cão ficou feliz e contente.
Fonte:
Livro: O basset-hound
Autor: A. Cármen Heinsius
Editorial: Precença Lda.
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