A Evolução do Hino Nacional Brasileiro
Ata de aprovação da
partitura para piano e canto

Símbolo
sagrado da Pátria, tal como a própria Bandeira, o Hino Nacional Brasileiro, de
Francisco Manuel da Silva – escrito em 1822/23 ou, segundo outros autores, em
1831 – e que a 6 de setembro de 1922, foi oficialmente adotado pela República,
já com letra de Joaquim Osório Duque Estrada, não tem sido preservado com a
dedicação e o carinho que deveria merecer de todos os brasileiros. Basta dizer
que o próprio Museu Histórico Nacional não possuía uma única gravação do Hino
Nacional Brasileiro, que foi, entretanto, registrado mais de 30 vezes por
algumas das mais famosas orquestras e bandas brasileiras e até, internacionais,
por exemplo, temos como execuções históricas a da Orquestra Sinfônica
Brasileira, regida pelo Maestro Eugen Szenkar, a da Orquestra do Teatro
Municipal do Rio de Janeiro, com coro, regidos por Heitor Villa-Lobos, a da
Banda do Corpo de Bombeiros, Banda do Corpo de Fuzileiros Navais, Banda
Internacional, etc. Existem também gravações curiosas, como a do tenor
Vicente Celestino, e a de Paulo Gracindo – em que este declama a letra de Duque
Estrada.
O Hino Nacional Brasileiro, segundo alguns autores, foi composto para
comemorar a independência da nossa Pátria. Se Francisco Manuel não o
escreveu nos quatro últimos meses de 1822, deve tê-lo feito no decorrer de 1823,
sendo que, neste último ano, a peça teve sua primeira execução oficial. O
compositor ainda não chegara aos 30 – precisando melhor, deveria contar, então,
com 27 ou 28 anos de idade.
Francisco Manuel da Silva, escreveu os primeiros compassos,
no balcão de um armarinho situado na Rua Senador dos Passos esquina com Rua
Regente Feijó.
Capa
Partitura Original para piano

Essa
casa comercial era também o ponto de reunião de um grupo de amigos e cultores da
música: Francisco Manuel; o cantor da capela imperial, mais tarde, cônego
Zacarias da Cunha Freitas; Laurindo Rebelo, o célebre poeta “Lagartixa”; Bento
Fernandes das Mercês; José Rodrigues Cortes; e o proprietário da loja, o
clarinetista amador, José Maria Teixeira.
O compositor fez
a música sobre uns versos do desembargador e poeta piauiense, Ovídio Saraiva de
Carvalho e Silva que circulavam entre os patriotas: “ Os bronzes da tirania / Já
no Brasil não rouquejam / Os monstros que a escravizam / Já entre nós não
vicejam / Eis se desata / Do Amazonas / Até o Prata “
Manuscrito
original

Por ocasião
da abdicação de D. Pedro I, ocorrida a sete de abril de 1831, um hino começa a
se popularizar sob o título de, Hino Sete de Abril. A música é de Francisco
Manuel ; os versos, os de Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva. Associado a
esses dois eventos de nossa história, o Hino Nacional Brasileiro – que inflama
hoje, quando executado, a alma da nossa gente, mas atormenta os pesquisadores em
particular – a qual data está realmente vinculado a 7 de setembro ou a 22 de
abril ? Foi composto, enfim, em 1822/23, ou 1831?
Um novo acontecimento histórico, a coroação de D. Pedro II, e
eis que a primitiva letra sofre uma adaptação para exaltar o soberano
brasileiro: “Negar de Pedro as virtudes / Seu talento escurecer / É negar como é
sublime / Da bela aurora, o romper”. Medíocre a versalhada, mas a musica só
fazia crescer com o tempo no coração dos brasileiros.
Ao ser proclamada a República, os que pretendiam apagar todos
os vestígios do Velho Regime, pensaram logo em substituir a música de Francisco
Manuel, e não sossegaram enquanto não foi aberto um concurso para a escolha de
um novo Hino Nacional Brasileiro.
Foi marcada para a tarde de 20 de janeiro de 1890 a escolha
solene do melhor hino concorrente. Mas, no dia 4 desse mesmo mês, um
vibrante artigo do critico musical, Oscar Guanabarino, abriu a questão em favor
do velho hino de Francisco Manuel. Argumentava que o Hino Nacional
Brasileiro, nunca fora considerado pelo povo como o hino de D. Pedro II, mas
como o Hino da Pátria. E perguntava a Deodoro: “Marechal, nos campos do
Paraguai, quando ‘a frente das colunas inimigas a vossa espada conquistava os
louros da vitória e as bandas militares tangiam o Hino Nacional. Qual era a
idéia, o nome que acudia a vossa mente no instante indescritível de entusiasmo –
Pátria ou o Imperador ? E apelava : “Decidi portanto,digno cidadão, de acordo
com a resposta da vossa consciência”. No mesmo dia Deodoro, declarava
pessoalmente a Guanabarino: “Li o seu artigo e estou de pleno acordo”.
Quando, no dia 15 de janeiro, a Marinha – tida, por alguns, como monarquista -
foi saudar o Ministro Wandenkolk e o novo Governo, no Palácio Itamarati, o Major
Serzedelo, em nome da imprensa e do povo, fez um pedido a Deodoro: que o antigo
Hino Nacional fosse considerado o da Pátria. O Marechal deu um sinal de
assentimento a Benjamim Constant, e este declarou que o Hino Nacional seria
conservado, “como o da Nação Brasileira” . Logo depois as bandas de música
do Exercito e a do 23º de Infantaria atacaram o Hino de Francisco Manuel e
Deodoro comovido, foi aclamado no meio de um delírio geral. E “ O Pais “ dois
dias depois, Guanabarino comentando o ocorrido, exortava os milhares a guardar “
esse hino que ouviste na infância. Ele representa uma idéia nobre, um nome
respeitável, encerra a história de vossas glórias e atesta a vossa gratidão
“. E como não era mais possível ao Governo Provisório, cancelar o
concurso, ficou resolvido que este apontaria, não o Hino Nacional Brasileiro –
que continuava sendo o de Francisco Manuel – mas o Hino da Proclamação da
República.
E foi assim que, ‘as 13 hs., do dia 20 de janeiro de 1890, no
Teatro Lírico, diante de Deodoro, com seus ajudantes de ordens, dos Ministros,
do Interior, da Justiça, da Guerra e da Agricultura, foram executados,
sucessivamente, por banda regida por Carlos de Mesquita, os quatro hinos
finalistas : de Francisco Braga, J. Queirós, Alberto Nepomuceno e Leopoldo
Miguez. Repetidos e – ‘a execução do de J. Queirós – muito aplaudidos, a
Comissão Julgadora, (Alfredo Bevilaqua, Frederico do Nascimento, Carlos de
Mesquita, Paulo Porto Alegre e Miguel Cardoso ) confirmou o veredicto do
público, concedendo a palma ao hino de Leopoldo Miguez, que, como os demais,
fora feito sobre os versos de Medeiros e Albuquerque. Deodoro e os
ministros assinaram então, os decretos de oficialização do Hino Nacional e do
Hino da Proclamação da República, e retornaram ao camarote, de onde o Ministro
do Interior fez a respectiva leitura. A banda repetiu o hino escolhido e, a
pedido do público, foi também executado o hino de Francisco Manuel, o que iria
produzir no público presente uma emoção indescritível. Confirmava-se
assim, entre todos, a impressão do Marechal Deodoro, o qual, ao ouvir pela
primeira vez, o hino de Miguez, dissera “ Prefiro o velho “......
Ao Hino Nacional, só faltava uma letra a altura. O escritor
Coelho Neto, em 1906, subiu a tribuna da Câmara dos Deputados e propôs que se
fizesse, para ele, “um poema condigno” Em 1908, o Ministro da Justiça, Dr.
Augusto Tavares de Lira, nomeou uma comissão para rever esse Hino, integrada por
Alberto Nepomuceno, então Diretor do Instituto Nacional de Música, e dos
maestros, Francisco Braga e Frederico Nascimento Sugerida a abertura de um
concurso para a escolha da melhor letra, e autorizado o governo a criar um
prêmio de Dois Contos de Réis, vários poemas concorreram, destacando-se o de
Joaquim Osório Duque Estrada.
Data de outubro de 1909 o seu “ Projeto de Letra Para o Hino
Nacional Brasileiro “, cujos versos iniciais eram os seguintes: “ Ouviram do
Ipiranga às margens plácidas / Da Independência o brado retumbante / E o sol da
liberdade, em raios fúlgidos / Brilhou no céu da pátria nesse instante “.
Em 1916, o poeta introduziu modificações no poema. A 21 de
agosto de 1922, o Decreto nº 4.559 autorizou o Poder Executivo a adquirir a
propriedade dos versos, e a seis de setembro do mesmo ano – isto é, na véspera
do dia em que se comemorou o Centenário da Independência, o Decreto nº 15.671,
declarava oficial essa letra. O Deputado Lourenço Baeta Neves, a
23 de junho de 1936, apresentou um projeto de lei que tornava obrigatório o
canto do Hino Nacional nas escolas primárias e nos estabelecimentos de ensino
normal, em todo o país.
A promulgação do Decreto nº 259, de 1º de outubro de 1936, pelo
Presidente, Getulio Dorneles Vargas, além da obrigatoriedade “nos
estabelecimentos de ensino mantidos ou não pelos poderes públicos“, consagrou a
orquestração de Leopoldo Miguez; a instrumentação para bandas, do 2º Tenente
Antonio Pinto Junior do Corpo de Bombeiros do então, Distrito Federal, no tom
original de si-bemól; e, para canto, em fá, o trabalho de Alberto Nepomuceno.
Pequena Biografia e foto de
Joaquim Osório Duque-Estrada

Joaquim
Osório Duque-Estrada ( nome completo ) nasceu em Pati do Alferes ( RJ ) a 29 de
abril de 1870 e faleceu a 05 de fevereiro de 1927, na Cidade do Rio de
Janeiro. Filho do Tenente-Coronel, Luiz de Azevedo Coutinho
Duque-Estrada e Dna. Mariana Delfim Duque-Estrada, era afilhado do General
Osório, Marques do Herval, de quem recebeu o segundo nome. Cursou o
Colégio Pedro II onde, em 1887, Silvio Romero o distinguiu entre os alunos
prefaciando o seu primeiro livro de poesias, Alvéolos. Recebeu o grau
de bacharel em letras em 1888.
Publicou 27 livros
– poesias, didáticos, peças teatrais, conferências, traduções e libretos de
operas – destacando além de Alvéolos, Flora de Maio, A Arte de Fazer Versos e A
Abolição, este com prefácio de Rui Barbosa.
Foi
critico-literário, mantendo por muito tempo a secção “ Registro Literário “ no
“Correio da Manhã”, no “Imparcial” e no “Jornal do Brasil”.
Em 1888 escreveu
os primeiros ensaios como um dos auxiliares de José do Patrocínio na campanha da
abolição. Nesse ano alistou-se nas fileiras republicanas, ao lado de Silva
Jardim, entrando para o Centro Lopes Trovão. Em 1891dedicou-se à diplomacia
sendo nomeado 2º Secretário de Alegação, no Paraguai. De 1893 a 1896, morou
em Minas Gerais, onde foi redator do “Eco de Cataguazes”.
Destacou-se no
magistério como professor e inspetor-geral de ensino, até o ano de 1902, quando
foi nomeado regente interino da cadeira de História Geral e do Brasil no Colégio
Pedro II. Voltou à imprensa e colaborou com quase todos os jornais do Rio
de Janeiro.
Foi eleito para a
Academia Brasileira de Letras em 1915, na vaga de Silvio Romero, sendo o segundo
ocupante da cadeira nº 17, que tem como patrono, Hipólito da Costa. Seu
discurso de posse foi respondido por Coelho Neto.
Em outubro de
1909 elaborou o seu “Projeto de Letra Para o Hino Nacional Brasileiro” ,
aprovado oficialmente, por Decreto em 06 de setembro de 1922, véspera da
comemoração do centenário da Independência.
Os belos e
patrióticos versos do nosso glorioso Hino Nacional, magnificamente adaptados à
música de Francisco Manuel da Silva, composta em 1822, consagrou para sempre o
nome de Osório Duque Estrada, como bem se expressa Roquete Pinto, seu sucessor
na Academia Brasileira de Letras: “Seu pensamento há de palpitar por entre
gerações: a gente pequenina, hoje mais feliz que a do meu tempo, pode cantar o
Hino de Francisco Manuel”.
Pequena
Biografia e foto de Francisco Manuel da Silva

Compositor, regente,
violoncelista e professor, nasceu na Cidade do Rio de Janeiro, a 21 de fevereiro
de 1795.
Começou a estudar música ainda menino com o padre José Maurício
Nunes Garcia. Aos 10 anos passou a estudar violoncelo e, quatro anos depois
ingressou como soprano no Coro da Capela Real. Em 1816, passou a estudar
contra-ponto e composição. Em 1825, era o Segundo Violoncelo da Capela
Imperial. A 14 de abril de 1831, no Teatro São Pedro de Alcântara foi
executado um hino de sua autoria, que teria sido composto naquele ano para
comemorar o “ 7 de abril “ ( abdicação de D. Pedro I ) e que, mais tarde, se
transformaria no Hino Nacional Brasileiro. Segundo alguns autores,
entretanto, o hino foi composto em 1822/1823, para comemorar a Independência do
Brasil.
Em 1833, fundou a Sociedade Beneficência Musical, da qual foi
eleito presidente. Em 1841, assumiu o cargo de Mestre Geral da Capela
Imperial e em 1842, foi nomeado, Mestre Compositor da Capela Imperial.
Ocupou cargos de direção de vários teatros e companhias líricas.
Alem de outros hinos, compôs música instrumental, música vocal e
um repertório extenso de música sacra.
Foi condecorado com a “Ordem Rosa”, no grau de Oficial, em 1857.
Em 1863 realizou o lançamento da pedra fundamental da sede do
Conservatório de Música. Sua última música foi “Peça para soprano, harpa,
harmônio e orquestra” executada na Igreja São Francisco de Paula.
Faleceu a 18 de dezembro de 1865, vitima de Tísica
Laringopulmonar.
Todas as informações prestadas acima, conferem com a brilhante explanação feita pelo Professor Francisco F. Dantas – Presidente da Academia Lorenzo Fernandes – RJ., embora tenham sido retiradas de diversas fontes.
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