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Documentos secretos revelam atuação dos
EUA
Guardião do maior repositório de documentos sobre a presença americana no Brasil durante a Segunda Guerra, o pesquisador Leonardo Barata tem um acervo de 2.500 fotografias do período, além de vários documentos secretos. O material foi recuperado nos arquivos do Departamento de Guerra, Departamento de Estado, FBI (Polícia Federal dos EUA), CIA (Agência de Inteligência Norte-Americana) e dos serviços de inteligência militar e naval dos EUA.
Tudo começou em agosto de 1997, quando o pesquisador entrou na Biblioteca Nacional, em Washington (onde se encontra a maior parte dos arquivos norte-americanos sobre a guerra), em busca de informações sobre Parnamirim Field, a maior base militar americana fora dos EUA, instalada em Natal. "Levei um susto com o que encontrei, pensava em Parnamirim e revelou-se uma verdadeira ocupação militar dos americanos no Brasil", declara Leonardo Barata.
Nos EUA, o pesquisador encontrou desde recibos de aluguel de caminhão usado pelas tropas até relatórios dos pilotos no momento dos ataques aos submarinos dos países inimigos. "A minúcia é muito grande", diz. Ele também pesquisou na França e na Rússia, com breves incursões na Alemanha e na Itália. Enquanto o Museu da Aviação e da Segunda Guerra não fica pronto, a documentação está guardada em um escritório, no bairro de Petrópolis.
PONTO ESTRATÉGICO - No museu, o acervo ficará disponível para todo tipo de consulta. "As informações devem ser socializadas. O material que estou recuperando é importante para o país todo, não só para Natal". Os documentos revelam que os norte-americanos instalaram 23 bases da Marinha e nove da Força Aérea do Exército no território brasileiro, do Amapá até Florianópolis.
Pela proximidade com o Norte da África, Natal foi considerada pelos americanos, em maio de 1941, um dos quatro pontos estratégicos mais importantes do mundo, junto com o Estreito de Gibraltar, o Canal de Suez e Dardanellos, todos no Mediterrâneo. Os EUA tinham interesse em ocupar a cidade temendo uma invasão do território norte-americano por parte dos países do Eixo (Alemanha, Japão e Itália), através de Natal.
Por conta da posição estratégica, os americanos estavam dispostos a invadir o Brasil se o presidente Getúlio Vargas (governou o Brasil de 1930/45 e de 1951/54) não tivesse aderido aos países aliados (EUA, Inglaterra e URSS), no ano de 1942. O relatório `Natal, Visto por um Ângulo Militar', enviado pelo encarregado de negócios no Brasil William Burdett para o secretário de Estado dos EUA deixam claras as intenções.
No documento, com data de 16 de outubro de 1940, os americanos dizem que o aeroporto de Natal, por não ser guardado por tropas ou polícia, é vulnerável a ataques vindos da África e do Açoures. Na avaliação dos norte-americanos, poderia acontecer uma ocupação também em outras cidades da costa, inclusive o Recife. Um dos trechos do relatório diz, textualmente: "A chegada de um destróier americano pode produzir um bom efeito moral".
ESPIONAGEM - Outros documentos revelam uma grande atividade de inteligência no Brasil, na época. Espionavam no país italianos, alemães, ingleses e americanos. A Marinha Americana contava com 11 bases de espionagem no país, situadas em Salvador, Belém, Florianópolis, Fortaleza, Maceió, Natal, Recife, Rio Grande, Santos, São Luiz e Vitória. Os comandantes das bases não respondiam ao comandante da 4ª Frota, mas diretamente à Diretoria de Inteligência, em Washington.
Os espiões se escondiam sob o eufemismo de Observador Naval, designação que davam à função. No Recife, atuaram como observadores navais Charles C. Dunn, Horace A. Hunnicutt, Richard C. Miller, Harvey B. Luckett. O FBI controlava a vida dos estrangeiros e todos os despachos de carga feitos pela alemã Lufthansa e pela italiana Lati-Linee Aeree Transcontinentali. Todas correspondências interceptadas e os perfis dos supostos nazistas eram encaminhados ao diretor do FBI, Edgar Hoover (1895-1972). A bisbilhotagem americana também era realizada pelo serviço de inteligência do Exército e pelo Officce Strategic Service (atual CIA). Do lado alemão a espionagem era feita pelos serviços de inteligência do Exército e da Marinha.