Balacobaco
Planeta Terra 
Rio de Janeiro

 
 
Entrevista com Ruy Proen�a
Ruy  Proen�a: S�o Paulo, SP. Nascido a 9 de janeiro de  1957.
Engenheiro  de  minas.  Autor de: Pequenos  S�culos,  poemas,
Klaxon,  S�o  Paulo, 1985; A lua investir� com seus  chifres,
poemas, Giordano, S�o Paulo, 1996. Como um dia come o  outro,
Nankin,  1999. Participou das colet�neas de poesia  do  Grupo
C�lamo: Li��o de Asa, Iluminuras, S�o Paulo, 1993; Vila  Lira
Rica,  dos  Autores, S�o Paulo, 1995; Desnorte,  Nankin,  S�o
Paulo,  1997.  Teve  poemas publicados na  Anthologie  de  la
po�sie  br�silienne, edi��o bil�ng�e, organiza��o  de  Renata
Pallottini, Chandeigne, Fran�a, 1998; Colet�nea de poesia Fui
eu,  organiza��o  de  Eunice Arruda, Escrituras,  S�o  Paulo,
1998;  Revista Continente Sul Sur, n� 9, Porto Alegre,  1998;
Revista Orion, n� 1, S�o Paulo, 1998; Jornal RioArtes, n� 25,
Rio  de Janeiro, 1998; Revista Cult, n� 13, S�o Paulo,  1998;
Revista Anto, n� 3, Portugal, 1998; Revista Inimigo Rumor, n�
4,  Rio de Janeiro, 1998; Revista Poesia Sempre, n� 9, Rio de
Janeiro, 1998; Jornal Correio Brasiliense, 15.03.98;  Revista
Ruptures,  n� 13, Canad�, 1997; Jornal Versus, S�o Paulo,  n�
17,  1977.  Desde  1990  integra o grupo  C�lamo  de  cria��o
po�tica.  Cr�ticas sobre a obra do autor: Paes,  Jos�  Paulo.
Boletim  de sa�de. In: O lugar do outro � ensaios,  Topbooks,
Rio  de  Janeiro,  1999;  Pacheco, Ana  Paula.  Revela��o  em
negativo. In Revista Cult, n� 24, S�o Paulo, 1999.
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Balacobaco - O t�tulo do seu segundo livro, �A lua  investir�
com  seus chifres�, foi tirado do poema �Varanda�, onde  diz:
�a poesia envenenou-me / j� n�o h� mais tempo�. A poesia �  a
salva��o ou o come�o da perdi��o? Uma vez poeta sempre poeta?
� uma corrida para dizer tudo enquanto h� tempo?
Ruy Proen�a - Escreve-se menos por saber de antem�o sobre  as
coisas,  mais  por buscar compreend�-las. A pergunta  �o  que
voc�  quis dizer com isso?� � uma pergunta que, no  fundo,  o
poeta  faz  a  si mesmo o tempo todo, sem ter a  resposta  na
ponta  da  l�ngua. Se no fazer po�tico houvesse o imp�rio  da
raz�o,  n�o haveria poesia. A poesia � uma esp�cie de  l�gica
�s   avessas.  Voc�  tocou  na  ambig�idade  do  s�mbolo   do
envenenamento: o que envenena, mata. Mas, paradoxalmente,  se
o  veneno  for  a poesia, a v�tima pode estar  �condenada�  a
voltar  ao  para�so. � um ponto nevr�lgico  na  leitura,  sem
d�vida. Igualmente, a id�ia da finitude do tempo (�j� n�o  h�
mais  tempo�),  contraposta  ao final  (�exatamente  assim  /
passar� um mil�nio�). Isso me faz lembrar uma frase do Joyce:
�com ou sem mim, todos os dias v�o ao seu fim�. Mas � preciso
ir  mais  adiante. Associar lua com cebola, cebola com  olho,
olho com cora��o. �s vezes acontece isso: o poema detona  uma
rea��o  em  cadeia,  algo parecido com as fiss�es  nucleares.
Outro dia li que o Roland Barthes dizia que o poema deve  ser
lido  como  uma  cebola. Tem v�rias camadas  conc�ntricas  de
significa��o.  �  preciso ir abrindo  camada  a  camada,  at�
chegarmos a alguma compreens�o mais globalizante.
A  prop�sito do verso que deu t�tulo ao livro, e j� fugindo �
sua  pergunta, � curioso observar o seguinte. Cheguei  a  ele
por  caminhos  tortos. Minha m�e costumava dizer:  �  preciso
segurar  o  touro  pelos chifres, querendo dizer:  �  preciso
enfrentar  a  vida  de frente. Imaginei essa  imagem  da  lua
investindo  com seus chifres, � semelhan�a de um touro.  Sim,
porque  a poesia pode ser perigosa. Mas como todos os  poetas
j�  pensaram  tudo  antes  de n�s,  n�o  deixaram  nada  para
descobrirmos,  aos  poucos  eu, o Fabio  Weintraub  e  outros
amigos, fomos descobrindo v�rias refer�ncias a esse topos,  o
chifre  da  lua, come�ando por Hor�cio (�lua, rainha  bicorne
dos  astros�),  passando  por  Alvarenga  Peixoto,  Mallarm�,
D�maso  Alonso, Garcia Lorca, Sos�genes Costa, Carlos  Felipe
Mois�s etc.
B   -   No   poema   �Lugares�  o   escuro   �   oposi��o   a
praias/estrelas/vidente.  O  que  �  a  escurid�o   para   um
escritor? Como � o seu processo de cria��o/ilumina��o?
RP  - Em princ�pio toda cria��o vem do escuro, assim como vem
do sil�ncio. Se j� estamos prenhes at� as tampas de imagens e
sons,  somos obrigados a nos descondicionarmos para novamente
perceber o milagre da vida. A poesia � a mem�ria da chama  de
um  f�sforo  na  escurid�o. O fogo se apagou, mas  deixou  um
rastro  em algum canto da mem�ria. � a imagem deste fogo,  do
espanto,  do  deslumbramento que  tivemos  enquanto  a  chama
existiu  a  ponto de nos queimar os dedos, que nos d�  alento
para  viver. � portanto algo de sagrado, uma centelha divina,
que  nos  alimenta. E precisamos disso, pois toda  tecnologia
inventada,  todo  conforto, n�o foram ainda  capazes  de  nos
tirar das cavernas.
No  poema  �Lugares� mencionado, o que me chama a  aten��o  �
esse  espa�o desconhecido dentro de n�s, que chamo  de  alma,
como  poderia  chamar de outra coisa, �o  eu  profundo�,  por
exemplo. � um espa�o invis�vel, nem sequer podemos contar com
a  ajuda de um f�sforo para clare�-lo. Nossa �nica arma ent�o
� nossa intui��o, o olho voltado para dentro. E nesse espa�o,
talvez  um  cego enxergue mais que um vidente.  Nele,  c�u  e
praia  s�o geograficamente intercambi�veis, o mundo  da  alma
n�o tem p� nem cabe�a. A simetria do poema empresta uma forma
�  voz  do  poema,  e  por a� vai... Duas  imagens  foram  os
estopins deste poema: a primeira, uma amiga contando  de  uma
praia na Bahia, Nova Vi�osa, em que a noite e a praia s�o t�o
escuras, que n�o se consegue distinguir bem a areia reluzente
do c�u estrelado. A segunda, uma cr�nica do Nelson Rodrigues,
descrevendo o fantasma da cegueira em sua vida: na  inf�ncia,
a  imagem de um quarteto de m�sicos cegos tocando na  cal�ada
em  frente � sua casa; na idade adulta, a constata��o tr�gica
� sua filha era cega.
B - Em �Teve esta sina� o amor n�o est� �nem na mis�ria e nem
na  opul�ncia�. Qual o lugar que a l�rica amorosa tem em seus
livros?
RP - O amor � tudo na vida. Por conseq��ncia, tamb�m em minha
poesia. H� antes de mais nada um amor c�smico, pelos seres do
mundo,  quer sejam eles vivos ou coisas. Falar de uma galinha
�  uma  forma  de  am�-la. Que o leitor n�o  me  interne  num
manic�mio por t�o pouco!... Mas h� tamb�m poemas sobre o amor
stricto sensu. E h� tamb�m um desassossego, um desencanto  em
rela��o ao ser humano, que n�o deixa de ser uma forma de amor
ao  contr�rio,  isto �, como seria bom se n�o houvesse  tanta
viol�ncia,  tanta  mediocridade, tanta  desigualdade.  Alguns
leitores,  ainda  apegados � poesia  rom�ntica  ou  �  poesia
confessional, estranham s� muito raramente encontrarem o �eu�
em  minha poesia. Mas citando o poeta Ronald Polito, que  por
sua  vez  dialoga  com  Jo�o Cabral...,  �n�o  h�  nada  mais
subjetivo  do  que  n�o falar de mim�. �  essa  minha  l�rica
amorosa:  o  que  est�  solto por a�,  o  que  faz  parte  da
experi�ncia  coletiva  e  n�o  depende  s�  de  mim.   Porque
dificilmente  imaginaria  que uma  l�rica  amorosa  puramente
autobiogr�fica poderia interessar a algu�m mais, al�m de  mim
mesmo e de minha parceira.
B - �Edif�cio de her�is� � um poema piada? Muita gente torcia
os olhos para o humor no poema, como encara a quest�o?
RP  -  N�o  entendo  bem porque a pergunta  foi  colocada  no
pret�rito imperfeito. Posso tranq�ilamente imaginar que ainda
haja  pessoas que tor�am o nariz... H� muitos escritores  que
tendem  a  sacralizar a poesia. A sacraliza��o ritualista  da
poesia  pela poesia � asfixiante, n�o passa de uma maquiagem.
O  verdadeiro sagrado respira humor por todos os poros,  e  �
bem  poss�vel  que Deus agora esteja se divertindo  com  essa
conversa. A vida � feita de contradi��es e o humor  pode  ser
uma  senha para compreend�-las e suport�-las. O humor  �  uma
arma  poderos�ssima para enfrentar os desencantos  do  mundo.
Digo uma arma e n�o a arma. O que estraga � querer transform�-
lo  em  dogma.  �  apenas um caminho  poss�vel  que,  se  bem
utilizado,  pode mitigar nossa dor de existir. H�  diferentes
formas  de  humor,  das mais sutis �s mais escrachadas,  e  a
literatura est� repleta de exemplos: lato sensu, h� humor  em
Machado,  em  M�rio de Andrade, em Guimar�es Rosa,  em  Paulo
Leminski e em Dora Ferreira da Silva, por paradoxal que  isto
possa parecer no caso de Dora. O importante, � que esse humor
� sempre particular. Em Dora e Rosa aproxima-se do epif�nico.
Em  Leminski � mais luciferino. De resto, toda grande  poesia
recente, de Pessoa a Drummond, � recheada de humor. Como  diz
o   Sebasti�o  Uchoa  Leite,  �radicalmente  s�rio  /  s�   o
cemit�rio�.
B  -  Qual tipo de ferramenta � o poema? �� preciso quebr�-lo
(...) // destru�-lo / reconstru�-lo?�
RP  -  Oct�vio  Paz, se n�o me engano, assim como  Manoel  de
Barros,  dizem que a poesia � uma arte que lida com o in�til.
A poesia n�o tem valor de mercado. Esta talvez seja sua maior
virtude. Talvez se constitua num dos raros dom�nios em que  a
ditadura  do  dinheiro n�o conta, assim  como  todo  processo
civilizat�rio conta muito pouco. Isso a transforma num  ponto
privilegiado  de  encontro. � quase um  encontro  primordial,
tribal,  no  melhor sentido. Nesse espa�o, nossos  ancestrais
dialogam  conosco em p� de igualdade. O poema  pode  ser  uma
ferramenta,  na  medida  em que nos  transporta  para  outros
lugares inusitados. Neste sentido, o poema �O Chevrolet�,  do
livro  �Como  um dia come o outro�, � um desdobramento  desta
tem�tica. S�o poemas metaling��sticas, que colocam em  cheque
a constru��o do poema. O poema ao qual voc� se refere procura
mostrar  o quanto h� de trabalho por tr�s de um poema,  muito
pouco  ou  quase nada nasce espontaneamente. H�  trabalho  de
experi�ncias  pessoais  acumuladas,  leituras,  escritura  do
poema,   retrabalho.   Al�m  disso,  o   poema   tematiza   o
deslocamento,  o descondicionamento, para criar  um  ambiente
prop�cio � desautomatiza��o de nossas id�ias, comportamentos,
gestos  etc.  Se formos pensar no tanto que  h�  de  suor  na
composi��o de um poema ou texto liter�rio, talvez mudemos  de
id�ia com rela��o a um Deus bem humorado.
B - Em tempo onde a met�fora e a linguagem conotativa n�o s�o
alicerces  t�o  comuns  de uma dic��o po�tica,  voc�  utiliza
estes  �motores�  para  construir  os  seus  poemas.  Qual  a
import�ncia da tradi��o? Quais s�o os poetas e escritores que
admira?
RP - Desculpe-me, mas dizer que a linguagem conotativa n�o  �
um  alicerce  da  poesia  me parece  um  grande  equ�voco.  A
linguagem  conotativa  se  confunde  com  a  pr�pria   fun��o
po�tica, t�o procurada pelos te�ricos da linguagem. De resto,
nenhuma  linguagem  �  puramente  conotativa,  nem  puramente
denotativa. O que talvez voc� tenha raz�o em afirmar,  �  que
determinados poetas s�o menos metaf�ricos. Mas s�o raros e  �
preciso  relativizar  esta afirma��o. Mesmo  em  poetas  como
Chico  Alvim,  onde a met�fora imag�tica �  menos  freq�ente,
ainda assim se faz presente. Al�m disso, um poeta nunca  �  o
mesmo  ao longo da vida, e pode ser que o pr�prio Chico Alvim
n�o se reconhe�a neste ju�zo.
Se com sua pergunta voc� quis dizer que minha po�tica � muito
imag�tica,  concordo. E sinceramente, n�o sei  bem  porque  �
assim. A vis�o � um sentido hegem�nico em n�s, caso contr�rio
ainda  estar�amos  farejando o ch�o e  cheirando  na  rua  as
partes  pudendas das pessoas. O que, ali�s,  n�o  seria  nada
mal...
     
Quanto  � segunda parte da quest�o, sinto que muitos  de  n�s
desprezamos a tradi��o quando come�amos a escrever, arrogando-
nos  soberbamente  a propriedade de sermos originais.  �  uma
bobagem! Quando nada conhecemos, quando nossa refer�ncia �  o
nada, nos superestimamos, porque diante do zero tudo passa  a
ser  original...  Quanto  mais ficamos  sabendo  das  coisas,
quanto  mais  lemos,  mais vamos tendo consci�ncia  do  nosso
tamanho reduzido. Corremos at� o risco de descobrir que nosso
lugar  �  t�o  pequeno, quem sabe menor  que  uma  cabe�a  de
alfinete,  que  desistamos  da  empreitada.  Pode  muito  bem
ocorrer  este  fato. Ent�o teremos descoberto  que  tudo  n�o
passou de vaidade. Mas at� chegar esse dia... Depois, c�  pra
n�s,  mesmo que n�o d�ssemos a m�nima pela tradi��o, ser�amos
dela  ref�ns  �  nossa revelia. Estou com Ana Cristina  Cesar
quando  diz:  �podemos optar pela est�tica da  pregui�a,  mas
nunca pela pregui�a da est�tica�.
     
Eleger  os  poetas e escritores de nossa admira��o  �  tarefa
ingrata  e  falaciosa.  Poderemos  estar  mentindo  para  n�s
mesmos. Para a poesia, uma bituca de cigarro � t�o importante
quanto  um  grande amor. Um catecismo do Carlos  Z�firo,  t�o
importante  quanto um Bernardo Soares. E depois, ser�o  tr�s,
trinta  ou  trezentos  e cinquenta, como  preferia  M�rio  de
Andrade? Nossa pretens�o n�o tem limites: queremos no  m�nimo
o  absoluto... Minhas leituras n�o diferem muito das de todos
os  poetas...  E  a  vida inteira �  pouca  para  ler  o  que
desejamos. Espero que ao morrer me deixem passar na alf�ndega
com todos os livros que quero ler e ainda n�o tive tempo.  Se
me limitarem a bagagem a 20 ou 30 kg, tratarei de levar o que
j�  li:  Guimar�es Rosa, Pessoa, Borges, Drummond,  Bandeira,
Jorge de Lima, Murilo Mendes, Sos�genes, Jo�o Cabral, Jos� J.
Veiga,  al�m, � claro, de alguns livros dos amigos.  Primeiro
porque  gosto deles; depois, porque odiaria que falassem  mal
de  mim  na  minha aus�ncia... E ia me esquecendo:  tamb�m  o
famoso  livro �A cria��o das criaturas�, do professor  Tacus,
que n�o era professor, e muito menos Tacus.
B  -  No seu terceiro livro �Como um dia come o outro� h� uma
radicaliza��o da tem�tica rumando ao absurdo.  Longe  de  ser
surrealista,  como  assinala Fernando  Paix�o  na  orelha  do
livro,  qual o lugar do absurdo em sua poesia? �  um  projeto
liter�rio, uma escolha?
RP  - � poss�vel que os leitores vejam na minha poesia o  que
eu  pr�prio n�o vejo. Eu jamais diria que minha poesia �  uma
poesia  do absurdo, embora reconhe�a que em alguns  poemas  o
fant�stico,  no  que este tem de s�ntese entre  o  real  e  o
imagin�rio,  esteja presente. Pessoalmente, vejo meus  textos
deste �ltimo livro mais como uma pequena cosmogonia, ou, quem
sabe,  um  pequeno  besti�rio. Nele est�o  presentes  animais
reais  e animais mitol�gicos. O homem tamb�m faz parte  desta
paisagem,  embora  de  modo  menos  prestigioso.  Agora,  n�o
gostaria que o livro fosse reduzido a esse esquema. Cada tema
abordado � usado para falar do mundo, segundo uma determinada
vis�o.  H�,  assim,  temas variados  que  se  entrecruzam:  a
inf�ncia, o medo, o poder, a mis�ria, o amor... E uma quest�o
de  fundo,  que  � uma tentativa desesperada  de  reencontrar
Pas�rgada.  A vida civil � muito opressora; ela  �  que  �  o
verdadeiro absurdo.
Quanto  ao  projeto liter�rio, se for pensado como um  grande
sistema  pr�-concebido, n�o tenho nada a  ver  com  ele.  Mal
consigo ter um projeto para o dia seguinte. Outra coisa � que
um  livro  significa uma escolha, segundo  alguns  crit�rios.
Quero dizer que o que est� no livro n�o reflete totalmente  o
trabalho de cria��o. Outras ramifica��es, outras experi�ncias
s�o  exploradas paralelamente. Vistos a posteriori, uma parte
dos  textos engavetados n�o passam de simples exerc�cios. Mas
quem   sabe   se  entre  eles  n�o  h�  tamb�m   poemas   que
eventualmente sejam o in�cio de um outro livro,  adiante,  de
dic��o bem diferente da que aflorou neste...
B  - Voc� gosta de n�meros! H� n�meros por todos os lados  em
sua  obra.  Gostar da matem�tica aproximou  o  engenheiro  ao
construtor po�tico?
RP - Primeiramente, gostaria de fazer uma restri��o quanto ao
enunciado da sua pergunta. Quando voc� diz que em meus livros
�h�  n�meros por todos os lados� voc� est� sendo hiperb�lico.
Os  desavisados  podem  pensar que se  trata  de  manuais  de
matem�tica... Bem joeiradas as coisas, salvo 2 ou 3 poemas em
que  os  n�meros  entram propositalmente  em  profus�o  �  eu
citaria  �mesmo que tivesse cem bocas�, em �A  lua  investir�
com seus chifres�, e �Balada�, em �Como um dia come o outro�,
a  apari��o  dos n�meros � bastante comedida e pedestre.  Mas
afinal,  os  n�meros  fazem ou n�o parte de  nosso  cotidiano
tanto  quanto  as  palavras?  Por que  discrimin�-los?  Seria
desprezar  uma s�rie de talentos acumulados, das civiliza��es
antigas  �  fen�cios, �rabes, gregos etc. � at� nossos  dias,
passando  por  muitos fil�sofos. Quando digo que  os  n�meros
fazem  parte  do  dia-a-dia tanto quanto as  palavras,  quero
dizer  que  n�o se vai a uma padaria comprar p�o e leite  sem
que  se fa�a uma conta. Ademais, por ironia ou n�o, os poetas
costumam estar entre os mais viciados em n�meros. Faz  apenas
cerca  de  um  s�culo  e  meio que a poesia  metrificada  foi
contestada  e, mesmo assim, continuar� talvez resistindo  por
s�culos  afora. Isso vem ao encontro do que digo. Ali�s,  nas
artes,  a  matem�tica n�o � privil�gio da  poesia:  a  m�sica
erudita, a pintura geom�trica (um Escher, por exemplo), fazem
igualmente largo uso de suas no��es.
Ap�s todas essas considera��es, posso responder objetivamente
� sua pergunta. Embora reconhe�a que a matem�tica, assim como
a filosofia, a hist�ria, a teoria liter�ria e outras �reas do
conhecimento concorram para enriquecer a constru��o do poema,
eu diria que, para mim, num primeiro momento, escrever poesia
foi  uma rea��o vital contra o predom�nio das ci�ncias  ditas
exatas.
Hoje em dia, vendo as coisas em retrospectiva, imagino que h�
duas  no��es  da minha forma��o espec�fica de  engenheiro  de
minas  �  e  mais  particularmente ainda como  engenheiro  de
beneficiamento   de   min�rios  �,  que   de   alguma   forma
transparecem em meu trabalho. A primeira delas � a  id�ia  de
concentra��o,  de depura��o: fazer o m�ximo de  esfor�o  para
separar o mineral �til da ganga, at� obter um produto o  mais
concentrado  poss�vel. A segunda id�ia �  a  no��o  do  tempo
geol�gico   que,  para  nossa  escala,  �  quase   um   tempo
metaf�sico, e, por isso, se aproxima de um tempo sagrado.
B  -  �A  cerejeira  / poder� // um dia  //  provar  de  suas
cerejas�  �  um belo poema curto. Como encara a vertente  que
avalia por tamanho a qualidade de uma obra?
RP  -  Nunca ouvi falar dessa vertente. Felizmente n�o existe
essa fita m�trica m�gica capaz de avaliar um poema. Isso  nos
obriga a estudar, pesquisar, refletir, lan�ar o olhar curioso
sobre  as  coisas.  N�o queremos ser o balconista  que  vende
tecidos  a  metro  no  balc�o.  Queremos  algo  maior,   como
desorganizar o mundo para reconstru�-lo � nossa maneira.
O bom poema � aquele que � conciso. Isso nada tem a ver com o
tamanho   do  poema.  Um  poema  longo  como  �Os  lus�adas�,
guardadas  as  devidas  propor��es, � um  poema  t�o  conciso
quanto o �Amor / humor� de Oswald de Andrade, ou �Cronologia�
de Jos� Paulo Paes (�A.C. / D.C. / W.C.�). O que importa, � a
velha  m�xima:  dizer o m�ximo no m�nimo.  Cada  qual  saber�
dizer  at�  onde  vai o seu talento para  escrever  um  poema
longo, sem afrouxar o verbo no meio do caminho. Al�m do  que,
muitas  vezes, um poema longo � a somat�ria de v�rios  poemas
menores. Incluo nessa categoria �Inven��o de Orfeu� de  Jorge
de Lima.
B  -  Deus anda cada vez mais cient�fico? Em que ci�ncia  Ele
existe?
RP  -  N�o me julgo com autoridade suficiente para avaliar  a
exist�ncia  de  Deus. Se existe, o abandonamos pelo  caminho.
Principalmente aquele patriarcal, onipotente. Em nossa  �nsia
de  dominar e domar a natureza, fizemos Deus sair de cena. Na
hist�ria da filosofia podemos acompanhar o seu decl�nio. Hoje
vivemos um mundo feito de fragmentos. Deus faz muita falta ao
poeta. O poeta � um ser atemporal. Est� mais bem representado
pelos alquimistas do que pelos cientistas contempor�neos. Mas
somos  t�o bons em ci�ncia, que freq�entemente nos espantamos
com   nossas   cria��es.  Em  certo  sentido,  nos   tornamos
superiores aos deuses, e hoje em dia eles se sentam em bancos
escolares  para  aprender conosco. Mas nada ser�amos  se  n�o
houvesse  uma  centelha divina em cada um de n�s.  E,  se  em
mat�ria  de  tecnologia fomos t�o longe, em  outros  assuntos
somos  um zero � esquerda. � por isso que, como j� disse,  se
corrigirmos nosso acentuado grau de miopia, veremos que ainda
vivemos numa caverna escura.
B - Como � pertencer ao grupo de estudos �C�lamo�?
RP - O objetivo primeiro do C�lamo � ser um grupo de cria��o.
Todo   o   mais   �  pesquisa,  estudo,  divulga��o   �   s�o
conseq��ncia.  Trata-se de um trabalho de cria��o  individual
sob  est�mulos que s�o partilhados. Neste sentido,  at�  onde
sei, o C�lamo � uma experi�ncia in�dita. Sabemos de grupos de
pintores,  como os do grupo Santa Helena, que sa�am  a  campo
com  seus  cavaletes  para pintarem sob  um  mesmo  est�mulo.
Outros  dom�nios  art�sticos d�o  abertura  para  o  trabalho
conjunto, como o teatro, o cinema, a m�sica. J� com a cria��o
liter�ria,  isso  �  muito  dif�cil  de  ocorrer.   Temos   a
experi�ncia  de Murilo Mendes com Jorge de Lima em  �Tempo  e
eternidade�,  mas  � um caso isolado. Os  escritores  s�o  em
geral  ciosos  de  sua privatividade, de sua  intimidade.  Na
verdade,  compensam  o ato da cria��o  isolada  �  a  solid�o
volunt�ria  �  comunicando-se com alguns  de  seus  pares.  O
escritor  que  n�o  troca experi�ncias, provavelmente  estar�
perdendo,  mais  do que ganhando, em termos  de  viv�ncia.  O
trabalho  realizado no grupo, pode n�o resultar em nada  mais
do  que  um  esbo�o ou pode, at�, resultar num bom  poema.  �
importante frisar que o trabalho em grupo em hip�tese  alguma
exime  os  escritores  de seu trabalho  individual.  As  duas
coisas  se  potenciam e, no frigir dos ovos, acredito  que  o
resultado � um enriquecimento dos trabalhos pessoais. Estamos
juntos  h� praticamente 10 anos. H� pessoas no grupo  que  j�
publicaram mais de um livro, como � o meu caso e o  do  Fabio
Weintraub, outras publicaram o primeiro, como o Cesar  Garcia
Lima  e  o  Luiz  Gonzaga Neto, e outras est�o  prontas  para
estrear.  Sem  o  trabalho em grupo,  talvez  n�o  tiv�ssemos
chegado nem na metade do caminho de onde estamos.
B  - Como encarou a mat�ria da revista Veja que ridicularizou
e ironizou poetas?
RP  -  � um pouco sintom�tico ver um jornalista como o Carlos
Graieb,  que j� fez boas cr�ticas de poesia no tempo  em  que
trabalhava  para o Estad�o, entre elas da Hilda  Hilst  e  do
pr�prio  Carlito  Azevedo, que aparece na reportagem,  baixar
tanto  o n�vel. Infelizmente algumas corpora��es hoje em  dia
fazem  quest�o de quebrar a espinha de seus servidores,  para
n�o dizer servos. Quero acreditar que o pr�prio Carlos Graieb
n�o  acredita  no que escreveu. O term�metro de  uma  revista
como essa, que, do jeito que est�, est� mais para �Ratinho no
lix�o�, � mercadol�gico. O que estou dizendo n�o justifica  a
postura  do jornalista e n�o o exime de sua responsabilidade.
Mas  vamos ao que interessa: nossa melhor resposta para  esse
tipo de imprensa � nossa poesia.
B - Voc� tem alguma ep�grafe que o acompanhe?
RP  - N�o, n�o tenho. Mas como gosto muito do An�bal Machado,
aproveito  para  citar uma ep�grafe que uso  na  abertura  do
livro  �A lua investir� com seus chifres�: �Dizei-me se  ando
longe  da  guitarra onde nasci.� � um pouco uma profiss�o  de
f�.
B - Qual o papel do escritor na sociedade?
RP  - O Drummond, que viveu numa �poca em que grandes utopias
ainda  eram  plaus�veis, a uma certa altura de sua  vida,  na
virada  dos  anos  50,  percebeu que, como  escritor,  jamais
conseguiria influir na m�quina do mundo como gostaria.  Perto
dos  pol�ticos  profissionais,  sentia-se  como  uma  crian�a
desamparada.  Tratou de limitar-se �quilo  que  sabia  fazer,
dando o melhor de si.
     
Acho   um  tanto  paradigm�tico  este  exemplo.  Posso  estar
redondamente enganado, sendo reducionista, mas  acho  que  se
cada  um  �  o  escritor, o guarda-noturno,  o  motorista  de
�nibus,  o  professor, o m�dico, o advogado, o jornalista,  o
jornaleiro,  o  lixeiro � dessem o melhor de si  naquilo  que
fazem,  o  mundo j� seria um pouco melhor do  que  �.  Talvez
consegu�ssemos  at�  ser  melhor representados  no  Congresso
Nacional.

 

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