Balacobaco
Planeta Terra
Rio de Janeiro

 
ENTREVISTA COM RODRIGO GARCIA LOPES
Rodrigo  Garcia  Lopes  (Londrina, PR,  2/10/65)  �  formado  em
Jornalismo, tendo trabalhado em jornais e ve�culos liter�rios em
S�o  Paulo e Curitiba. De 1990 a 1992 viveu nos Estados  Unidos,
onde  realizou  mestrado na Arizona State  University  com  tese
sobre  os romances experimentais de William S. Burroughs.  Neste
per�odo, reuniu material para seu livro Vozes & Vis�es: Panorama
da   Arte  e  Cultura  Norte  Americanas  Hoje  (ensaios  e   19
entrevistas com escritores e artistas como John Ashbery, William
Burroughs,  Marjorie  Perloff, Allen Ginsberg,  Nam  June  Paik,
Charles Bernstein and John Cage). Em 1990, Sylvia Plath:  Poemas
apresentava  a  poesia  da  poeta  norte-americana  ao   p�blico
brasileiro.  Em 1994 lan�ou Solarium (Iluminuras), reunindo  sua
produ��o  po�tica desde 1984. Em 1996 lan�ou uma  nova  tradu��o
das  Illuminations  de Rimbaud, Iluminuras - Gravuras  Coloridas
(tamb�m  pela  editora Iluminuras) No ano passado,  seu  segundo
livro  de  poemas,  visibilia, foi lan�ado pela  editora   Sette
Letras  (RJ).  � membro do conselho editorial da revista  Medusa
(Curitiba) e, com bolsa da CAPES, realiza pesquisa de  doutorado
na  Arizona  State  University sobre a poesia modernista  norte-
americana  e  Laura  Riding. Participou das antologias  Artes  e
Of�cios  da  Poesia  (Artes  e  Of�cios,  1991),  Outras  Praias
(Iluminuras,  1998)  e Esses Poetas (Aeroplano,  1999).  Prepara
Polivox.
Balacobaco -Voc� est� confeccionando "Polivox". Conte-nos o  que
vem a ser o projeto?
Rodrigo  G.  L.  -  Polivox  �  um  projeto  po�tico  que  venho
desenvolvendo  h�  cerca de tr�s anos.  Consiste  num  livro  de
poemas que coloca em discuss�o, via poesia, algumas preocupa��es
est�ticas,  existenciais, e filos�ficas que me interessam  neste
momento em que nos aproximamos do fim-de-s�culo. Uma delas  �  a
investiga��o  sobre a hip�tese de um poema longo,  um  �pico  da
percep��o,  nestes tempos de Internet e explos�o  informacional.
Tamb�m  h�  o  interesse  em retomar o poema  como  um  modo  de
investiga��o. Hoje o ambiente em que vivemos est�, como sabemos,
constantemente invadido por simula��es de vozes,  fragmentos  de
narrativa, de "textos". N�o h� como fugir disso. No poema  longo
que leva o t�tulo, tento pensar o poema n�o como um objeto "bem-
acabado"  e  autot�lico e sim em continuar algumas investiga��es
de uma po�tica do processo iniciada na �ltima parte de Solarium,
de 1994.
Nos  aspectos  formais,  o  livro vai servir  para  comprovar  a
validade de uma escrita po�tica polif�nica hoje, em que  n�o  h�
m�todos  de  escrita superiores aos outros. Como  discute  Peter
B�rger,  uma das conquistas dos movimentos de vanguarda,  apesar
de  seu  "fracasso" em seu objetivo ut�pico de destruir  a  Arte
enquanto institui��o e mudar a sociedade - muitas vezes tornando-
se  uma em si mesma - a import�ncia do Dada�smo, Surrealismo,  e
dos dois Futurismos foi fundamental para desconstruir e liquidar
a  id�ia  de que um estilo se sobrepuje aos demais e  seja  tido
como "universal". Foi atentar ao perigo de enfatizarmos a poesia
como  algo separado da pr�tica da vida di�ria, foi questionar  a
id�ia  burguesa de "autonomia" da arte, de Tradi��o, de "rigor",
foi  detonar a id�ia de "unidade", substitu�da pelo conceito  de
"montagem",    fragmenta��o,   por   uma   subjetividade    mais
esquizofr�nica e aleg�rica. Meu projeto parte desses princ�pios.
No  poema Polivox por exemplo, tento compreender o poema como um
hiperespa�o,   onde  a  linguagem  est�  o  tempo   todo   sendo
intersectada e fragmentada por outros discursos, outras "vozes".
Isso  � o que vejo ocorrer nos textos de Burroughs, por exemplo:
o  texto  como  zona de turbul�ncia,  interzone. Vox,  aqui,  se
refere  n�o  tanto a id�ias rom�nticas de "a voz  do  poeta",  a
express�o   de  um  eu  l�rico,  mas  sim  como  um  instrumento
polif�nico, sempre outro. O objetivo � criar uma estereofonia no
texto po�tico. Tamb�m � preciso problematizar o conceito de voz,
que  �  o  que  quero neste livro. Concordo com o  poeta  norte-
americano Charles Bernstein quando ele afirma que voz  deve  ser
uma das possibilidades da poesia e n�o sua ess�ncia.
B  -  Conseguiu ser o "xam�" para incorporar v�rias  "entidades"
po�ticas? Como �/foi o seu processo criativo?
RGL - A id�ia do poeta enquanto xam� � ancestral, tanto quanto a
pr�tica  da  poesia,  e  foi formulada de diversas  maneiras  no
modernismo internacional. Est� presente na po�tica vision�ria de
Blake mas sobretudo em Rimbaud. Est� presente, de forma sutil  e
mais  apol�nea, nas "m�scaras" poundianas e seu dito de  que  os
poetas s�o as antenas da ra�a humana. Est� presente em Artaud  e
na  "Teoria do Duende", de Lorca. Entre estas possibilidades, eu
ficaria  com Jerome Rothenberg e sua id�ia mais humilde do  xam�
n�o  como um t�tulo a ser conquistado (pois isso implicaria  uma
mera atualiza��o rom�ntica da id�ia do poeta enquanto "g�nio"  e
"inspirado" dos rom�nticos), mas no sentido em que  ele  lhe  d�
numa  entrevista  �  revista  Medusa:  como  um  modelo  para  a
configura��o de sentidos e intensidades atrav�s da linguagem.
A  cria��o  de  poemas  envolve m�ltiplos  aspectos:  n�o  �  s�
trabalho,  estudo, medita��o e, claro, a vida,  enfim,  mas  uma
atitude  cr�tica e po�tica em rela��o ao mundo e  as  linguagens
que  nos  cercam. Poesia �, para mim, n�o s� a arte da linguagem
mas uma forma de percep��o do mundo. �s vezes o poema � fruto de
uma id�ia, uma intui��o perseguida inicialmente em pensamentos e
que  carregamos por um tempo at� coloc�-la no papel. Noutras,  o
poema  acontece quando estamos "distra�dos" e, neste sentido,  o
acaso  �  muito  importante:  chame esse  fen�meno  de  insight,
"satori",   transe,  possess�o...Em  todo   caso,   o   elemento
dionis�aco � muito importante para o processo po�tico. A  poesia
brasileira sempre tendeu mais para a mente do que para corpo, ao
menos como ela � lida canonicamente hoje, e � preciso enfatizar,
por  exemplo, a fisicalidade da mente. N�o h� d�vida de que  o/a
poeta  �, em muitos aspectos, semelhante ao "cavalo" dos rituais
afro-brasileiros. Ele/a serve de ve�culo, um m�dium, para que  a
linguagem e a beleza ritual�stica da poesia se manifestem.  �  o
fen�meno  da glossolalia, falar em linguagens diferentes.  Seria
mais  uma  esp�cie  de  super-concentra��o da  sensibilidade  no
momento  de escrever um poema. Ou, como diz George Oppen,  poeta
do   Objetivismo   americano:  o  poema  como   um   �teste   da
sinceridade�, um ato perceptivo. N�o me guio tanto pelos  temas.
Como j� dizia William Carlos Williams, qualquer assunto pode ser
digno de ser transformado em poesia.
B  -  O Livro � dividido em tr�s partes, "Polivox", "Olhares"  e
"Experi�ncias  Extraordin�rias"  onde  busca  em  cada   uma   a
especificidade de forma e conte�do. Poderia falar um pouco sobre
cada uma das partes?
RGL - Polivox traz poemas experimentais, mas sob uma perspectiva
p�s-concreta,  no  sentido da tradi��o po�tica brasileira.  Nele
est�o  presentes  n�o s� o poema longo que eu falei,  "Polivox",
mas  experi�ncias com o cut-up burroughsiano,  o  hipertexto,  a
colagem,  o  fluxo de consci�ncia. J� em "Olhares" trabalho  com
formas  bem  antigas de poesia. O vers-de-societ� e  a  tradi��o
fescenina do epigrama - influenciados pelas tradu��es de Marcial
para  o  livro  que estou preparando - bem como  os  haikais  da
persona do poeta Satori Uso. Criei este poeta japon�s que  teria
imigrado para o interior do Paran� para uma p�gina de literatura
que  editava  na  "Folha de Londrina", em 1985. Como  n�o  podia
publicar  meus pr�prios poemas, achei mais pr�tico  inventar  um
poeta  e uma sensibilidade, inventando todo um percurso  para  a
po�tica  de  Uso.  Por isso, costumo dizer que,  �  maneira  dos
heter�nomos  de  Pessoa,  Uso � uma  sensibilidade  distinta  da
minha,  f�sica  e  juridicamente  falando.  Portanto,  o   livro
trabalha  com  a  id�ia  de  polifonia  n�o  s�  em  termos   de
diversidade, mas na presen�a de outras "vozes" como as de Uso  e
Marcial. Estes s�o dois epigramas da se��o "Latrin�lia":
                 Agora ele � esteta, j� que doutor
                 n�o pareceu seu forte;
                 Quando fala em rigor
                 logo pensam em "rigor mortis"
                 
                 **
                 
                 
                 Este mau cheiro, Anaximandro,
                 N�o vem de mim, cagando, e sim
                 de sua mente pensando.
B  -  Voc� visou erigir somente a parte est�tica dos poemas?  As
quest�es humanas s�o sempre as mesmas?
RGL  -  Sim  e  n�o. Por um lado, estamos num momento  �nico  na
hist�ria  humana,  t�o ou mais complexo do que  o  fin-de-si�cle
passado  ou qualquer outro per�odo. E imposs�vel fazer  qualquer
futurologia  quanto  o  que  vai  acontecer,  mesmo   porque   a
eventualidade  de  estarmos pr�ximos de um  contato  com  outras
civiliza��es  - quando a NASA decidir abrir sua  caixa  preta  -
mudar�   radicalmente  a  vis�o  que  temos   do   ser   humano.
Sexualmente,  a apari��o da AIDS nos fez regredir a  um  per�odo
pr�-Revolu��o Sexual. Hoje estamos descobrindo que  Globaliza��o
significa,  cada  vez mais, Americaniza��o. Ao mesmo  tempo,  as
guerras religiosas e limpezas �tnicas, a influ�ncia massificante
da   m�dia,   a   pornogr�fica  mis�ria  e   injusti�a   sociais
brasileiras, n�o s�o coisas que podem passar batidas.  H�  temas
eternos porque nossa experi�ncia aqui como animais humanos,  com
nossos   mecanismos   de   cogni��o,  passa   por   experi�ncias
freq�entemente em conflito: o amor, o desejo, a alegria, o medo,
a  morte,  a consci�ncia pol�tica e ecol�gica, al�m do  problema
fundamental para n�s, poetas, que � o da comunica��o humana.
B  -  Ser�  a  poesia a arte da escuta?" O que � mais importante
para  o  poeta,  escutar a si ou ouvir a  pluralidade  de  vozes
existentes?
RGL-Os  dois.
B  -  Pode-se  dizer que os poemas "CANZONE" e "Millenium  #  1"
derivam  do  mesmo  tronco po�tico. Mas  esteticamente  s�o  bem
diferentes,concorda?
RGL - Sim, na minha poesia eu me recuso, entre outras coisas, em
adotar uma id�ia fechada de lirismo. Em muitos poemas eu sou  um
poeta   l�rico,   mas  n�o  um  lirismo  careta,   "condoreiro",
sentimental�ide, mas um lirismo no sentido musical, de melop�ia,
bem como de uma vis�o de vida, como forma de percep��o do mundo,
um  lirismo de nosso tempo. Um "delirismo",  se quiser. Todos se
esquecem  que Cummings, por exemplo, que nos acostumamos  a  ver
como  um  poeta "concreto", era um poeta que, atr�s do arcabou�o
t�cnico e da desconstru��o da sintaxe, era profundamente l�rico,
�s vezes at� piegas. O que � preciso � expandir o terreno l�rico
e  permitir que este lirismo dialogue com outros discursos,  com
outras formas po�ticas, com estados que aparentemente podem  n�o
ser  a princ�pio considerados �l�ricos� . At� mesmo poetas  como
Augusto e Haroldo t�m momentos de intensidade l�rica, n�o �?  Ao
mesmo  tempo,  acho  rid�culo  que  alguns  poetas  jovens  hoje
continuem   com   uma  id�ia  velha  de  poesia,   atrelados   a
pressupostos  rom�nticos,  parnasianos,  como  se  n�o   tivesse
nenhuma revolu��o po�tica desde Mallarm�, Blake e Rimbaud,  al�m
das   energias  liberadas  pela  contracultura.  �  simplesmente
rid�culo.  Este "fen�meno" po�tico, assim como a canoniza��o  do
Concretismo, bem como do Tropicalismo segundo Caretano  Verboso,
coincide  com  a  ascens�o ao poder de um representante  de  uma
elite acad�mica e aparentemente "cabe�a" ao posto pol�tico  mais
importante  do  pais. S� agora a ficha est�  come�ando  a  cair.
Estamos caindo na vala de exterm�nio do academicismo.
Voltando  a  falar de lirismo, acho que o poeta  que  se  afasta
demais  de  uma vis�o l�rica de poesia ou abandona a pr�tica  de
uma  vez,  como Rimbaud, ou ent�o passa a atacar a  poesia  como
tendo  como  sua maior defici�ncia justamente no  lirismo  (como
ocorreu  com a poeta norte-americana Laura Riding, por exemplo).
A  sensibilidade  po�tica talvez seja melhor explicada  como  um
equil�brio  yin/yang entre pensamento & emo��o, lucidez  &  e  a
outra l�gica da poesia, mente & corpo. Neste contexto, voc�  ter
citado o "Canzone" � ilustrativo disso que estou falando. Pensei
o  poema  para  ser recitado numa performance com "cama  sonora"
meio  Idade  M�dia e meio jazz, e nele tento traduzir  em  minha
experi�ncia  a vis�o de um per�odo muito anterior  ao  nosso,  o
Duoccento  de Guido Cavalcanti, sobretudo a vis�o da mulher,  do
ser  humano  mulher, por�m transposta para nossos  dias.  Outros
dois poemas dialogam diretamente com Cavalcanti em Solarium:  "O
Amor   �  Uma  Mulher  de  Olhos  Invis�veis"  e  "Balada".   J�
"Millenium"  toca  no ponto do "horror ao vazio"  neste  fim  de
s�culo  simultaneamente viciado e entupido de imagens, da  crise
da  linguagem  e  da comunica��o, da superficialidade  que  mina
qualquer profundidade, evocando o "horror vaccui" barroco.
B  -  O  haicai  tem  forma  espec�fica.  Existem  puristas  que
estabelecem  uma  m�trica,  uma  tem�tica  e  uma  certa   vis�o
contemplativa  para  a exist�ncia do haikai.  Como  encara  esta
vertente mais conservadora? Fale sobre "Miragem de uma imagem".
RGL  -  O haikai deve ser entendido n�o s� como um poema escrito
em estado de "zen", mas como um dos muitos instrumentos po�ticos
� disposi��o do poeta. De certa forma, a prolifera��o de haikais
na   poesia   brasileira  nos  �ltimos  anos  atenta   para   um
facilitarismo e fraqueza expressiva. Qualquer coisa � chamada de
poema.  Um dos efeitos disso, acredito, pode ser explicado  pela
influ�ncia  de Alice Ruiz e Leminski na poesia jovem brasileira.
Mas mesmo eles n�o escrevem ou escreviam s� haikai, mas foi esta
parte  da produ��o deles que acabou pegando. (E, j� que  estamos
falando de lyrics, ambos s�o tamb�m s�o excelentes letristas). O
haikai  tem  um  problema: enquanto forma, pode  ser  facilmente
transformada  em maneirismo repetitivo. A raz�o de  eu  publicar
uma  se��o  de haikais no meu livro tem mais a ver n�o  com  uma
filia��o a uma voga, j� que eles foram escritos h� 15 anos,  mas
para me ver livre do fantasma do Satori Uso.
B - Voc� s� � poeta quando est� escrevendo um poema?
RGL  - Obviamente n�o, � preciso ser poeta full time, mesmo  que
n�o  estejamos escrevendo poemas. A busca do sentido nunca p�ra,
pois  a mente e o corpo trabalham 24 horas por dia. Buscamos  um
sentido  para  aquele objeto logo ali, para uma  sensa��o,  para
aquela  imagem, assim como nos sonhos a mente fecha  portas  que
ela mesma abriu, enquanto segue compondo. O poeta pode n�o estar
fisicamente,  num papel, fazendo poesia, mas num  certo  sentido
ele  est� escrevendo e compondo o tempo todo. Acredito na poesia
n�o  s�  enquanto um belo objeto mas enquanto um  processo.  Uma
forma  de conhecimento. A poeta Laura Riding tem uma frase muito
bonita  com  rela��o a isso: "fazer um poema � como  estar  vivo
para  sempre". Ou como ela diz: para escrever e ler um  poema  �
preciso  superar uma tremenda in�rcia. N�o acredito, como  diria
Leminski,   em   poetas  de  fim-de-semana.  A   resposta   mais
contundente  para este tipo de quest�o � que,  como  ele  dizia,
"para  ser poeta � preciso ser mais que poeta". N�o basta apenas
dominar  o  c�digo,  �  preciso algo mais, paix�o,  intensidade,
percep��o, alegria de viver, consci�ncia hist�rica, sob o  risco
de  sua  poesia ser formalmente OK mas n�o dizer porra  nenhuma.
Voltando  � quest�o da concis�o e do haikai, uma id�ia poundiana
que  herdamos via Concretismo, por exemplo, � que  poema  bom  �
poema  curto  e imagista. Esta vis�o tornou-se um  paradigma  ou
"norma"  que muitas vezes se traduz numa brevidade que  n�o  diz
muita coisa (ao inv�s de estar falando o m�ximo com o m�nimo  de
palavras),  e  parece estar como que bloqueando  a  apari��o  de
outras  possibilidades po�ticas por aqui -  isso  se  dando  via
infla��o  de  haikais  ou  na  canoniza��o  do  poema  curto   e
�t�cnico�.  Na minha opini�o, quase sempre � a falta  de  f�lego
que  restringe, hoje, um poeta, necessariamente, ao poema curto.
Concis�o  n�o  � s� uma quest�o de quantidade mas de  qualidade.
Num  poema curto, como ocorre hoje em muitos poemas concretos  e
em  poetas  contempor�neos brasileiros, voc� pode ser conciso  e
n�o  dizer coisa alguma. Fica aquela sensa��o de que "concis�o",
muitas vezes, � desculpa para a falta de f�lego e estreiteza  de
vis�o  do  poeta,  para  uma falta do  que  dizer  camuflada  de
brevidade.  Este,  ali�s,  � o tema de  um  poema  recente  meu,
"Dizer,"  que polemiza com isso. A personalidade do  poeta  e  a
personalidade do poema s�o, de certa maneira, especulativas.  Se
voc�, enquanto pessoa, � um bosta, um ressentido, as chances  de
sua  poesia  ser ressentida e uma bosta se tornam  bem  maiores.
Claro que h� sempre a chance de um bosta se safar da acusa��o de
"ruim"  apenas pelo dom�nio de uma t�cnica: � que isto passou  a
bastar, no Brasil, para valorizar um poeta como sendo "bom" ou "
ruim". � o que ocorre hoje com os poetas de terno e celular.  Se
voc�  vive  trancafiado  numa  sala  com  ar  condicionado   num
apartamento  nos  Jardins  escrevendo  poemas  com   uma   vis�o
meramente   liter�ria  ou  burguesa  em  mente,  a  conseq��ncia
imediata � a incapacidade de enxergar o que est� fora do  texto,
al�m da p�gina.
B  -  A  segunda  parte  de "Paradoxos do Tempo"  �  dedicada  a
Leminski.   Quais  foram/s�o  as  suas  principais   influ�ncias
po�ticas?
RGL  -  Creio  que  Leminski  afetou,  embora  com  intensidades
diferentes, a poesia de muitos poetas interessantes e talentosos
surgidos  nos  �ltimos  anos e que s�o relativamente  diferentes
entre  si: penso em nomes como Ademir Assun��o, Maur�cio  Arruda
Mendon�a,  Ricardo  Corona,  Josely  Vianna  Baptista,   Arnaldo
Antunes,  Mario Bortolloto, Jaques Brand, Fernando  Karl,  entre
outros. Como cr�tico, poeta, agitador cultural, Leminski, em meu
trabalho, � sem d�vida uma das refer�ncias mais importantes, mas
n�o  a  ponto  de tornar sua influ�ncia numa nova ortodoxia,  ou
escolinha,  como ocorreu com a poesia concreta.  Este  risco  os
poetas jovens que admiro est�o conseguindo evitar, o que �  bom.
Os  m�sicos tamb�m influenciaram-me bastante, pois n�o  d�  para
separar  muito  a poesia de sua musicalidade, de sua  ocorr�ncia
musical.  N�o  s� Chico, Gil, Itamar Assumpc�o, Arrigo  Barnab�,
mas m�sicos como Bach, Debussy, Zappa, Tom Waits, jazzistas como
Bill  Evans  e  Chick Corea, foram parte importante  para  minha
sensibilidade. Os primeiros poetas que li foram Rimbaud,  Eliot,
Pound, Artaud, os beats, Vin�cius e Drummond. Costumo dizer  que
os poetas da gera��o "Frigidaire" da qual fa�o parte, e que teve
sua  forma��o durante o per�odo da ditadura (1968-1985)  n�o  s�
aprenderam  a  evitar certas bobagens da poesia  marginal,  como
tamb�m  prestaram  com  honras seu  servi�o  militar  na  poesia
concreta  e  est�o  aptos a continuar o  trabalho  de  renova��o
po�tica,  mas  com uma vis�o muito mais ampla, enriquecida,  com
todos  os  erros e acertos. Poesia � uma arte,  e  n�o  moda  ou
modismo,  como  muitos poetas e a m�dia do  eixo  Rio-S�o  Paulo
parecem querer refor�ar. Ali�s, n�o me surpreenderia se pintasse
por  a� uma vers�o da "Caras" s� com os poetas da NPB. Ao  mesmo
tempo, vejo poetas na m�dia desfiarem orgulhosamente seu ros�rio
de  autores can�nicos (Drummond, Cabral, Oswald etc), orgulhosos
de  se  inserirem dentro de uma "tradi��o" de poesia brasileira,
dentro  de  uma id�ia de linha evolutiva que sempre  me  pareceu
suspeita.  �  uma id�ia no m�nimo conservadora e  difundida  por
Eliot em "Tradi��o e Talento Individual", de 1919! Pois deixa eu
dizer uma coisa com toda a sinceridade: como poeta, Miles Davis,
John  Coltrane e Charlie Parker tiveram impacto muito  maior  na
minha poesia do que os poetas que "o rebanho que saca" n�o cansa
de  citar.  Digo  isso com toda sinceridade, e  sem  desmerecer,
claro,  a  import�ncia  de  um Vin�cius,  de  um  Drummond,  dos
concretos.  Mas,  como costumo dizer brincando  com  os  amigos:
"apertem os cintos, o plano-piloto sumiu".
B  -  Como podem conviver tantos estilos dentro de um poeta  s�?
Esta  �  a  "miss�o"  do  poeta  na p�s-modernidade:  trazer  ao
presente o futuro recriado, o "tempo redescoberto"...
RGL  -  O  ser  humano  �, por natureza,  uma  sensibilidade  em
conflito,  n�o �? Como querer, ent�o, que os produtos  culturais
de  uma  mesma pessoa sigam uma ordem ou m�todo determinado?  Eu
n�o  aceito isso. Geralmente os "c�tricos" s�o incapazes de  ver
diversidade na op��o est�tica n�o como um "vale-tudo"  mas  como
uma  op��o est�tica! Nos cansamos de regras. Geralmente o  poeta
acha um �estilo�, um maneirismo, e se cola nele para o resto  da
vida como um c�o a um osso. E isso muitas vezes pra desculpar  a
falta  de vis�o e outras possibilidades, costumam dar o nome  de
"m�todo".  Os cr�ticos, por outro lado - se � que ainda  existem
cr�ticos de poesia no Brasil que mere�am esta designa��o - est�o
sempre a buscar valores como "unidade", "coes�o", "forma".  Para
mim,  como  disse  Charles  Olson,  "forma  �  uma  extens�o  do
conte�do". Ou seja: cada poema � uma aventura diferente da que a
precedeu.   Por isso, cada um pede uma forma adequada  para  sua
investiga��o  que  �,  ao  mesmo tempo, irrepet�vel.  Como  fa�o
quest�o de enfatizar, quando digo �diversidade� po�tica n�o � no
sentido  de  uma  concess�o liberal-democr�tica,  uma  variedade
festeira pol�tica e poeticamente correta, e sim como os  sentido
de  "conflito",  "diverg�ncia" e " dissid�ncia"  que  a  palavra
carregaetimologicamente.
B  - "IN A SILENT WAY" � um poema de beleza �mpar. � lapidado  e
perfeito em sua "arquitetura po�tica"... Voc� concorda que  �  o
poema feito atualmente no Brasil? O que est� em voga?
RGL  -  O  poema  foi escrito por volta de 1986,  quando  ficava
ouvindo maravilhado os discos de Miles Davis, sobretudo "Bitches
Brew" e "In a Silent Way". Acho que o poema tenta captar, em sua
forma  e  musicalidade verbal, o estado que me sentia e o  lugar
onde  estava ao escrev�-lo. Acho-o um poema bem simples. Se voc�
se  refere a uma po�tica claramente musical e imagista,  com  as
linhas   justapondo,  parataticamente,  imagens   e   sensa��es,
concordo. Mas j� digo que o poema feito atualmente no Brasil, ao
contr�rio  do que querem os neo-formalistas e neo-acad�micos,  �
mais  diverso, conflituoso e plural do que ser�amos  capazes  de
visualizar.  S� tenho certeza de uma coisa: o que est�  em  voga
n�o � a poesia.
     
para contato com o poeta Rodrigo Garcia Lopes:
mailto:[email protected]
mailto:[email protected]

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