Balacobaco

ENTREVISTA COM NELSON ASCHER
Nelson  Ascher  nasceu  em S�o Paulo em  58,  filho  de  pais
h�ngaros.  Fez quase um ano de Medicina (no jornal do  centro
acad�mico  dessa faculdade publicou seu primeiro artigo,  que
falava  de J.L.Borges) e depois ingressou na Funda��o Get�lio
Vargas de SP, onde se formou. Nessa �poca (final dos anos 70)
publicou,  no  Jornal da Tarde sua primeira resenha  e,  numa
revista  feita  na USP, suas primeiras tradu��es  de  poesia.
Cursou, em seguida, o Mestrado em Comunica��o e Semi�tica  na
PUC, passou a escrever para a Folha de S�o Paulo, publicou um
livro  de  poemas, Ponta da L�ngua (edi��o do  autor,  83)  e
come�ou  a  trabalhar nesse mesmo jornal. Foi  editorialista,
coordenador da se��o de livros e editor do Folhetim, escreveu
cr�tica  liter�ria, cinematogr�fica etc.. Em  88/89  criou  a
Revista  USP e se tornou seu editor, cargo no qual permaneceu
at�  94. Desde 89, quando  visitou o Leste europeu e assistiu
�  queda  dos  regimes comunistas da regi�o,  escreve  tamb�m
sobre pol�tica internacional. Seus livros mais recentes  s�o:
O  Sonho da Raz�o (93) e Algo de Sol (96), ambos de poesia  e
publicados  pela Editora 34; Pomos da Disc�rdia (93,  Editora
34)  e  Cr�tica  (N�o  S�) Liter�ria (Editora  Cone  Sul,  no
prelo),  os  dois reunindo ensaios e artigos; O Lado  Obscuro
(96, Memorial da Am�rica Latina) e Poesia Alheia (98, Editora
Imago),  os  dois  coletando tradu��es. Em 99  participou  da
tradu��o  de  A Dama de Espadas, de P�chkin Editora  34),  de
Alice  no  Pa�s das Maravilhas (Editora do Col�gio Objetivo)e
das obras de Borges (Editora Globo). Coordena uma cole��o  de
literatura do Leste europeu na Editora 34, ganhou  uma  bolsa
Vitae  em  97  e foi tamb�m correspondente de  uma  r�dio  de
Budapeste, Hungria.5

Balacobaco - Voc� afirmou em mat�ria na Folha:  �Ser  hoje
contra ou a favor de Greg�rio implica principalmente tomar
partido num debate sobre o barroco, seu significado e  sua
relev�ncia  para a literatura moderna.� Qual a import�ncia
do  barroco  para  a  literatura  brasileira?  Quem  �   o
verdadeiro  Greg�rio de Matos? � um g�nio ou um plagi�rio?
Um bom ladr�o ou um bandido?
Nelson  Ascher � Faz algum tempo que escrevi  esse  texto,
mas,  se  estou  bem lembrado, eu tinha em mente  tanto  a
assim  chamada �quest�o gregoriana�, quanto o papel que  a
reavalia��o do barroco desempenhou, sobretudo nos anos 20,
na  trajet�ria de alguns modernismos, mais especificamente
os de l�ngua inglesa (com a aten��o que, por exemplo, T.S.
Eliot dera a John Donne e aos outros poetas �metaf�sicos�)
e  espanhola (o pr�prio nome da Gera��o de 27  comemora  o
tricenten�rio  da  morte  de  G�ngora  e  �   tomado   das
celebra��es  realizadas em 1927 por Garc�a  Lorca,  D�maso
Alonso e outros). Nenhuma escola, �poca ou estilo � bom ou
ruim por si s�. E o mesmo acontece com o barroco, que  tem
momentos  espl�ndidos  e  outros, deplor�veis.  Na  l�ngua
portuguesa e, especificamente no Brasil, o barroco  sofreu
por  mais  tempo do que nos pa�ses/l�nguas  acima  de  uma
rejei��o  em  bloco. E Greg�rio, por ser (ou  representar)
n�o exatamente um poeta, mas um conjunto de poemas mais ou
menos  atribu�dos a um autor a respeito de quem  pouco  se
sabe, acabou amargando mais uma rejei��o. Al�m disso, esse
poeta,  ou melhor, esses poemas foram atingidos pelo  fogo
cruzado de mais uma quest�o, qual seja, a de quando come�a
independentemente uma literatura brasileira que n�o � mais
ou  t�o somente uma sub-se��o da lusitana. Para finalizar,
sempre reaparece a famosa discuss�o acerca do pl�gio,  mas
as respostas cl�ssicas para isso s�o, primeiro, que n�o  �
f�cil  acusar  de plagi�rio um autor que virtualmente  n�o
deixou manuscritos aut�grafos ou obras publicadas em  vida
e, depois, que, como vem colocada, a acusa��o de pl�gio se
fundamenta  num conceito de originalidade que �  posterior
ao  barroco.  S�o,  como se pode ver,  v�rios  debates  se
entrecruzando.  Seja  como for, nosso  modernismo  deve  a
alguns outros que, por sua vez, devem n�o ao barroco,  mas
a  uma  releitura  dele. O que v�rios poetas  e  ensa�stas
passaram  a  colocar, n�o necessariamente  nesses  termos,
seria  a  indaga��o de por que dever�amos  nos  nutrir  do
barroco  ingl�s  ou ib�rico em vez de ir  direto  ao  que,
naquela �poca, se fez em nossa l�ngua. A partir da�  temos
v�rias  leituras, seja de nosso barroco, seja do Greg�rio.
Para  quem l� e/ou faz poesia, por�m, uma coisa s�  �  que
conta:  sob  o nome dele existe um n�mero nada desprez�vel
de  poemas  que vale a pena freq�entar e com os  quais  h�
muito  o  que  aprender.  As outras  quest�es,  parece-me,
pertencem  mais  �  comunidade acad�mica,  aos  fil�logos,
historiadores etc., e � a eles que cabe resolv�-las. P
B - ``Pomos da Disc�rdia'' � um livro de ensaios. H� idade
certa   para  escrever  poemas,  novela,  conto,  romance,
ensaio?
NA  -  Sim  e  n�o.  Na  hist�ria da  literatura  pode-se,
obviamente,  achar  de  tudo.  Eu  diria,  por�m,  que  os
instrumentos  necess�rios para se escrever  um  bom  poema
podem  ser  obtidos  ou dominados relativamente  cedo  por
algu�m.  O  mesmo vale para um conto ou um  breve  romance
po�tico.  Um grande romance, que n�o o seja s� no  tamanho
mas  tamb�m  na  extens�o do que revela,  mostra,  discute
etc., requer mais tempo, viv�ncia, experi�ncia. Isso   n�o
�  uma  regra: s� uma constata��o pragm�tica.  �  poss�vel
escrever  um romance a partir de um m�nimo de conhecimento
da realidade, do mundo, do que quer que seja. Acontece que
os mestres do passado nos legaram, nessa �rea, uma heran�a
dif�cil.  A forma romance pressup�e, at� certo  ponto,  um
mergulho longo e profundo numa multiplicidade de coisas  e
fatos  e,  para que um romance mais ou menos se justifique
diante do leitor, ele precisar�, digamos, mostrar servi�o.
Um  romancista culto deve ser capaz de fazer tudo o que um
autor  de best-sellers faz, e mais. E um autor de romances
comerciais  �  capaz  de  falar,  entre  duas  capas,   de
pol�tica,  sexo,  trabalho, mec�nica de carros  e  avi�es,
constru��o de bombas nucleares e deus sabe mais o qu�. Por
que  um  romancista �culto� e �liter�rio� n�o deveria  ser
capaz  de nos oferecer pelos menos isso? No geral,  por�m,
n�o  creio que haja idade e cada qual de n�s deve arriscar
o  m�ximo o quanto antes, j� que ningu�m sabe quanto tempo
ainda  lhe  resta. E se algu�m que o fez acabou escrevendo
algo ruim, bom, isso n�o � crime: m�os � obra e tentar  de
novo, at� dar certo. Ou n�o. Porque em nenhum desses ramos
os   resultados  s�o  garantidos.  As  coisas  variam   de
indiv�duo para indiv�duo e, ademais, cabe levar em conta o
inesperado,  a  sorte ou o azar, enfim, o que  antigamente
cham�vamos de destino.
B  -  Hoje  o  Poeta  � um erudito. Fala  v�rias  l�nguas,
traduz,  escreve  ensaios... Qual  o  real  valor  de  uma
forma��o  t�o s�lida? A poesia necessita de tanta erudi��o
para acontecer? O poeta virou um burgu�s?
NA � Novamente, tenho que apontar que h� lugar para tudo e
todos.  Conhe�o bons poetas n�o eruditos e  vice-versa.  O
pr�prio  conceito  de  erudi��o �  complicado.  Creio  que
muitos poetas aprendem l�nguas e l�em autores estrangeiros
justamente para tentar sair da camisa-de-sete-varas em que
nossos  antecessores nos colocaram. Um poeta como Drummond
fez  tanta coisa �e t�o bem- que,  para quem quer escrever
seus  pr�prios  poemas,  isso se torna  quase  assustador,
castrante  mesmo:  �O que existe ainda  para  se  escrever
depois  dele  (ou de Bandeira, Cabral, Vin�cius,  Haroldo,
D�cio,  Augusto, Gullar)?� Quando parece  n�o  haver  mais
sa�da,   visitar  outras  �pocas  ou  lugares   �   sempre
refrescante. No meu caso, falar algumas l�nguas tem  menos
a  ver com uma forma��o s�lida (que n�o julgo ter) do  que
seja  com  o  fato  de  eu ser filho de  estrangeiros  (e,
portanto,  bil�ngue desde casa), seja com o de eu  ter  me
interessado  na  adolesc�ncia por coisas  e  autores  cujo
acesso  em  portugu�s n�o era t�o f�cil. Por  outro  lado,
acho  sim  que,  numa  �rea, o  poeta  deve  ter  uma  boa
forma��o:  em poesia. E essa se consegue lendo  e  relendo
poetas,  novos  ou  velhos, bons ou  ruins,  nacionais  ou
estrangeiros. Imagino que um poeta, antes de escrever  uma
�nica  linha, seja aquele que gosta de poesia,  porque  l�
poesia,  tem  o gosto pelo que outros escreveram,  decorou
poemas  de  Cam�es  ou Castro Alves ou Mario  de  Andrade,
tanto  faz. O poeta, imagino, quer ser poeta porque, antes
de  mais  nada, gosta realmente do que os outros  fizeram,
fazem,  acha  tudo  isso  legal,  importante.  �  a  �nica
forma��o que se requer de um poeta. O que vier al�m  disso
pode  ser  importante para ele, mas  s�  o  ser�  para  os
leitores  se  ele fizer bom uso de tudo o que  sabe  -  em
termos  de  poesia, bem entendido. N�o creio assim  que  o
poeta tenha virado um burgu�s, ainda mais porque, num pa�s
como  o  nosso,  cuja burguesia � grossa e crassa,  nem  a
erudi��o  nem  a  cultura podem ser  considerados  valores
burgueses. N�o faz tanto tempo assim, saber das coisas era
tido  como  progressista e informar delas  os  outros  era
chamado de revolucion�rio.
B  -  O  que voc� sente quando escreve um poema? O  que  o
poeta  deve  sentir? Quais os caminhos que a sensibilidade
n�o  deve penetrar... sob pena de o poeta estar escrevendo
algo  aqu�m  de  sua capacidade? Como  �  o  seu  processo
criativo?
NA � Primeiro, n�o h� �o que deve sentir�: cada qual sente
coisas  diferentes  em  horas diferentes.  Quando  escrevo
prosa,  geralmente me sinto � vontade, exceto pelo  aperto
do �deadline�. J� escrever poesia � algo que, por requerer
mais  concentra��o, me exaure. �s vezes, quando acho  que,
aqui  e  ali, consegui algo interessante, sinto-me at�  um
tanto  euf�rico  (mas  isso  logo  passa:  bastam  algumas
releituras). Quanto aos caminhos penetr�veis ou n�o,  isso
tamb�m  �  muito  pessoal. Alguns poetas  e/ou  escritores
derivam  boa mat�ria-prima para seus textos de �xtases  ou
impasses  amorosos, enquanto o resultado, para  outros,  �
paralisia  ou  mudez em um dos/ou em ambos os  casos.  Dos
grandes  poetas  esperamos, habitualmente, n�o  respostas,
mas   pelo  menos  um  vocabul�rio  para  nossas  pr�prias
experi�ncias.  At�  que  ponto, por�m,  encontraremos  uma
parcela  desse vocabul�rio em um poeta, mais um  pouco  em
outro  e assim por diante � algo que, de leitor em leitor,
muda  bastante  e,  obviamente, muda no  correr  do  tempo
dentro  de cada leitor espec�fico. Nada impede que, diante
da  perda  de  algu�m querido, uma pessoa repita  para  si
mesma o verso de Baudelaire �Le printemps adorable � perdu
son  odeur�  (mesmo  que seja outono) e  que  outro  diga,
digamos,  �De  repente,  n�o  mais  que  de  repente�.   O
problema de tentar generalizar quando se fala em poesia  �
que,  sempre que parece que chegamos a uma regra absoluta,
ocorre-nos imediatamente um exemplo �bvio e not�rio que  a
contradiz.
Meu  processo criativo (de poemas), se � que tenho  um,  �
algo  relacionado com os estados obsessivos. Parto de  uma
id�ia,  uma  palavra,  algo que  vi  ou  at�  �pecado  dos
pecados!-  de  uma encomenda espec�fica  (�Voc�  n�o  quer
escrever um poema sobre futebol para ser publicado durante
a   copa  de  94,  ou  sobre  La  Fontaine  para  sair  no
tricenten�rio do nascimento dele?�) e a� come�o  a  pensar
no   assunto   de  v�rias  formas:  racional,  irracional,
sem�ntica, sonora, pessoal, impessoal,  livre-associativa,
delirante.  Acumulo  palavras, dados, coisas  irrelevantes
etc.  Num  determinado  momento come�o  mais  ou  menos  a
entrever o que poder�amos chamar de uma forma, que mais do
que  com  metro,  rima etc., tem a ver com  o  desenho  da
frase.   Essas   coisas,  escrevo  �  m�o;   vou   abrindo
par�nteses,  colchetes, cobrindo o  papel  na  horizontal,
vertical,  de  formas obl�quas e assim por diante.  Quando
chego  finalmente a algo rudimentar, mas que tem, na minha
concep��o,  come�o, meio e fim, a� eu  passo  o  resultado
para  meu  computador (antes era a m�quina  de  escrever),
imprimo  e  continuo  a  anotar  e  corrigir  numa   c�pia
impressa. Quando esta j� beira a ininteligibilidade, passo
as  corre��es  para  o  computador e continuo  no  �print�
seguinte.  O central para mim, no entanto, �  o  que  fa�o
antes   de   ir  ao  computador,  pois  isso  requer   uma
concentra��o  mais  ou menos ininterromp�vel.  Depois  que
consegui �configurar� o poema, ele passa a ser, para  mim,
algo que existe independentemente e eu posso entrar e sair
dele  mais  ou menos � vontade, retocando-o de  tempos  em
tempos at� que alcance n�o um estado de �acabado�, mas  de
�apresent�vel�. Mesmo assim, n�o raro, continuo a  alter�-
lo  por  muito tempo, mesmo depois de publicado, pois  n�o
acredito na id�ia de poema �ideal�, �perfeito� etc.
B  -  Jos�  Paulo  Paes dizia que poesia �  talento.  Jo�o
Cabral  de  Mello Neto afirma que � trabalho. Como  encara
esta diverg�ncia?
NA  -  � uma velha discuss�o, mas confesso que n�o consigo
ver  qualquer  contraposi��o ento re as duas  coisas,  uma
situa��o de �ou ou�. N�o h� ramo ou atividade em  que  n�o
esperemos  de um bom profissional tanto talento  quanto  a
aplica��o,  o  trabalho.  Uma cozinheira,  um  m�dico,  um
mec�nico, um vendedor podem ser talentosos, mas  isso  n�o
os  exime  de  terem  que  aprender,  estudar,  dar  duro,
trabalhar  pesado  .  Por que isso n�o  se  aplicaria  aos
poetas?  Um  bom m�dico salva vidas, uma boa cozinheira  �
capaz  de  nos  dar prazeres maiores do  que  a  m�dia  da
poesia,  um  mec�nico lida com complica��es  inimagin�veis
para o comum dos mortais e um vendedor de verdade pode nos
fazer  comprar coisas que nunca sonhamos ter. Se um  poeta
for bom o bastante para se equiparar, em seu ramo, com  os
melhores  dentre esses outros profissionais, ele  deve  se
considerar feliz. A poesia � uma atividade, nem melhor nem
pior  do  que  as  outras, e requer  compet�ncia  inata  e
adquirida,  dedica��o,  paci�ncia,  esfor�o,  intelig�ncia
etc.
B  -  Numa  cr�tica ao seu livro ``Algo de Sol'',  Marcelo
Coelho   afirma  que  a  sua  po�tica  �persegue   o   que
desapareceu  e  se sente perseguida pelo que  desaparece.�
Como � o ser e o n�o ser ao mesmo tempo? Os fantasmas  n�o
s�o  apenas parte do passado? Qual o lugar do devir em sua
po�tica?
NA  �  Na minha inf�ncia, minha m�e e minha av�, que  eram
herdeiras  de um longa tradi��o narrativa centro europ�ia,
contavam-me (como muitas m�es e av�s sempre fizeram, fazem
e  far�o) contos-de-fada. Ambas eram grandes contadoras de
est�rias.  �s  vezes,  contudo, elas estavam  ocupadas  ou
cansadas e, ent�o, meu pai as substitu�a. As est�rias  que
ele  contava eram diferentes, eram quase hist�rias,  quase
Hist�ria:  o  cavalo de Tr�ia; R�mulo, Remo e  a  Loba  de
Roma;  a  Grande  Armada espanhola que  tentou  invadir  a
Inglaterra;  Napole�o  em  Waterloo.  Com  o  tempo   essa
hist�ria  foi  chegando mais perto do presente  e  ficando
mais  detalhada.  Talvez  venha  da�  meu  interesse  pela
hist�ria em geral e a da minha fam�lia em particular. Al�m
disso,  ontem eu tinha 20 anos, anteontem 5, e hoje  tenho
41.  H�  pessoas com as quais, ainda h� pouco,  eu  estava
conversando e j� faz anos que elas n�o existem mais.  Isso
me deixa pasmo. Minto: isso me apavora, me deprime. Mas eu
sou  feito  disso,  nem  conhe�o qualquer  outro  tipo  de
transcend�ncia  nem,  a rigor, nada  mais  importante.  H�
coisas, poucas e muitas, que s� eu vi ou ouvi, coisas  que
existiram, frases que pessoas disseram e que s�  ecoam  em
mim,  para mim, atrav�s de mim. Saber disso � um tormento.
Poder  esquec�-lo  � um pesadelo. A possibilidade  n�o  de
perder  a  mem�ria mas de nunca a ter possu�do parece,  �s
vezes,  uma  b�n��o.  Que  eu saiba,  segundo  a  teologia
judaica,  a  alma  n�o � imortal, e a  dos  mortos  existe
enquanto  algu�m  vivo lembrar-se deles. Trata-se  de  uma
responsabilidade   pesada:  esquecer  equivale   a   matar
novamente  os  mortos. � dos fantasmas deles,  por�m,  que
somos  em boa parte constitu�dos: se nos livramos de todas
as  apari��es,  tornamo-nos uma tamb�m.  O  devir,  assim,
existe  apenas como aquilo que estamos fazendo; produzi-lo
�,  em  grande  medida, passar adiante  o  que  recebemos.
Lembrar � produzir a possibilidade de futuro.
B - Transformar acontecimentos corriqueiros em poema � uma
das  caracter�sticas dos grandes poetas modernos. No poema
�H�lderlin�,  uma  baixa  de voltagem  �  transformada  em
acontecimento �fenomenal�. A poesia � isso tudo  que  est�
no  poema  �H�lderlin� ou � apenas o nada? Ou isto  �  uma
discuss�oestapaf�rdia?

NA  �  Concordo. Algo que diferencia a poesia moderna  das
anteriores  (embora  esse ju�zo n�o deva  ser  considerado
absoluto  ou  taxativo) � a recusa de hierarquizar  fatos,
acontecimentos,  coisas, palavras, estilos  etc.,  dizendo
que  estes s�o mais nobres e, portanto, dignos de  aten��o
po�tica,  enquanto aqueles n�o o s�o. Nisto a  modernidade
po�tica   decorre,  como  se  sabe,  de  altera��es   mais
profundas,  do  colapso  mesmo  de  uma  vis�o   teol�gica
(metaf�sica, diria Heidegger) que, para come�ar, postulava
uma  hierarquia da realidade na qual Deus estava acima dos
homens,  esses dos animais, os animais das  plantas  e  as
plantas,  do  seres inanimados; o eterno estava  acima  do
temporal, a poesia �pica, da l�rica, esta acima da  prosa,
a  prosa,  da  fala  quotidiana, o  c�o  estava  acima  do
cachorro,  e  as  plumas, das penas. O poema  �H�lderlin�,
como o leio (um direito meu, apesar de t�-lo escrito, mas,
ao mesmo tempo, uma leitura como a de qualquer outro e que
nem   por   ser   minha   det�m  mais  autoridade),   fala
metaforicamente  e, assim, em dois planos.  Num  deles,  o
assunto � a trajet�ria e, mais do que isso, o desfecho  da
trajet�ria  do  poeta  alem�o, ou seja,  sua  loucura.  No
outro,  que  existe  enquanto  compara��o  em  rela��o  ao
primeiro, o tema � uma l�mpada que se queima e o ru�do que
ela  faz.  Talvez seja interessante dizer como essas  duas
coisas  se  combinaram (at� onde se  possa  crer  seja  na
sinceridade da minha vers�o, seja simplesmente na acuidade
de  minha  mem�ria)  em algum lugar no interior  de  minha
caixa  craniana. Anos antes de escrever o poema eu  estava
deitado  num sof� da minha sala, � noite, lendo  um  livro
(n�o recordo mais qual) quando (n�o havia nem em casa  nem
na  rua qualquer outro ru�do) meio que (esse �meio que�  �
importante)   entreouvi  um  zunido  cont�nuo,   el�trico,
met�lico, um pouco tristonho. Durou, talvez, um segundo ou
dois,  se tanto. Houve um clar�o s�bito, brev�ssimo,  e  a
l�mpada  do  abajur  que estava atr�s de  mim  se  apagou,
queimada.  Essa experi�ncia, ou melhor, constata��o  ficou
arquivada  em  meus neur�nios. Muito depois eu  escrevi  a
�orelha� para as bel�ssimas tradu��es do H�lderlin  que  o
Antonio  Medina Rodriguez ia publicar pela  Iluminuras.  A
�orelha�  �  um g�nero liter�rio, se bem que meio  aberto,
indefinido.  Cabe nela muita coisa, desde uma  resenha  de
jornal  a uma prosa l�rica a, como o Drummond j�  fez,  um
poema. O que tentei escrever poderia, com boa vontade, ser
chamado  de  uma esp�cie de converg�ncia entre  uma  prosa
l�rica e um mini-ensaio aforism�tico (acho que n�o adianta
enfatizar que digo isso sem qualquer pretens�o,  n�o  �?).
Veio-me,  depois de ler e reler as tradu��es, a imagem  de
um poeta solar, literalmente luminoso e que chegava ao seu
sol  a  pino, ao seu meio dia, segundos antes de mergulhar
nas  cl�ssicas  �trevas da loucura� (usamos normalmente  o
termo  �entrevado� para referirmo-nos a algu�m num  estado
comatoso).  Depois de escrita a orelha, me ocorreu  que  a
descri��o  que eu fazia da trajet�ria de poeta  alem�o  se
assemelhava   �quela  minha  experi�ncia   anterior,   que
insistia em n�o sair dos meus neur�nios (talvez porque  eu
nunca  antes tivesse sequer imaginado a l�mpada como  algo
tamb�m  sonoro).  No  entanto, para  que  as  duas  coisas
convergissem,  faltava um terceiro  termo  que  fizesse  o
papel de catalisador, e esse foi um poema do poeta h�ngaro
J�nos  Pilinszky, um poema que significativamente  termina
dizendo algo assim como (cito de mem�ria): �deixate ligada
a  luz  no corredor/ hoje derramam o meu sangue�.  N�o  d�
para  me alongar aqui, nem examinar o poema h�ngaro. Basta
dizer  que  o  abrupto da transi��o � bem  t�pica  do  tom
espantado,  l�gubre, melanc�lico e incur�vel de Pilinszky,
e  que me aproximando do tom dele eu tentei juntar as duas
coisas  acima. De certa forma o que eu tentei dizer (minha
interpreta��o apenas), entre outras coisas, � que a poesia
�  coisa  humana e est� n�o apenas na voz (ou nos  dedos),
mas  tamb�m no ouvido, ou melhor, na rela��o humana  entre
eles.  A l�mpada n�o podia fazer um poema, mas meu  ouvido
sim,  at� certo ponto e, uma vez que o que meu ouvido  fez
passasse  pelo  meu  c�rebro e, de l�,  �s  minhas  cordas
vocais  e/ou  a meus dedos, a� talvez come��ssemos  a  ter
algo  que  se assemelhasse a um poss�vel poema.  De  resto
confesso que, quanto mais leio e estudo, menos sei  o  que
seja a poesia. Sei que ela existe. E tento, segundo minhas
luzes  (ou  trevas, ou, mais provavelmente, luscos-fuscos)
faz�-la.  E  nem ao menos � a mim que cabe julgar  se,  de
quando em quando, um pouco que seja, eu o consegui ou n�o.
B  -  No  poema  �Outra gata�, o poeta  consegue  momentos
�euf�nicos�  de  grande intensidade. A  rima  ainda  �  um
grande  recurso  po�tico? O que deve  ter  um  poema  para
agradarNelsonAscher?
NA  �  Para come�ar, obrigado pela observa��o. Para mim  a
resposta �: sim. Por que n�o? A id�ia moderna e modernista
era  acabar  com certo dogmatismo do metro, rima,  estrofe
etc. Para qu�? Para troc�-lo pelo dogmatismo inverso, pela
obriga��o contr�ria? Obviamente, n�o. O verdadeiro  verso-
livre  (ou melhor, liberado) pode inclusive ter 10 s�labas
m�tricas,  rimar  com o seguinte ou o  que  vem  depois  e
aparecer  num conjunto de 14. Se isso n�o puder acontecer,
ent�o  n�o  h�  liberdade alguma. J� diziam os  estudantes
franceses  em 68 que �� proibido proibir�, e o Caetano  os
endossou.  Digo  isso  s�  para dar  um  gostinho  de  uma
pol�mica  que j� vem de d�cadas atr�s, pois  a  quest�o  �
mais  complicada. Historicamente o que chamamos de �verso-
livre�  depende de/existe em fun��o da tradi��o do  metro,
ou  seja,  ele existe (n�o que seja s� isso,  mas  �  isso
tamb�m)  em  fun��o dos h�bitos anteriores e se  beneficia
das  expectativas que estes criaram para,  desapontando-as
de  uma  ou de outra maneira, surpreender o leitor. Depois
que  o  verso-livre se torna aquilo que  o  leitor  espera
ler/ver/ouvir, ent�o o que o surpreender� ser� algum  tipo
de  verso  metrificado ou alguma outra  coisa.  Em  poucas
palavras,  os recursos liter�rios existem em  rela��o  uns
com   os  outros  numa  situa��o  na  qual  muitas  coisas
interv�m,  entre  elas  a  hist�ria.  Nenhum  deles  torna
automaticamente melhor um poema, mas n�o o torna pior. N�o
h�  d�vida, por�m, de que, quanto mais recursos  um  poeta
dominar,  maior  ser� sua liberdade. Para me  agradar,  um
poema deve ter s� uma coisa: intelig�ncia. Esta pode estar
no tratamento do tema, na escolha das palavras, na sintaxe
ou  aus�ncia dela, pode estar no som ou na imagem impressa
na  p�gina,  pode  estar em qualquer  lugar  rec�ndito  ou
dif�cil  de  definir/explicar. Agora, se estiver  em  tudo
isso, ent�o n�o h� mais o que dizer.
B  - Escritores gostam do animal gato. O que o gato tem de
t�o  fascinante para desbancar o cachorro e ser  o  melhor
amigo dos poetas?
NA  -  � verdade. H� dez, talvez cinqu�nta ou mais, poemas
sobre  gato  para  cada poema escrito sobre  cachorros  e,
aqui,  s�  nos  resta  especular  assistematicamente.   Eu
realmente  gosto de cachorros e, se tenho uma gata,  �  em
parte  porque moro em apartamento. Os gatos se d�o  melhor
nesse ambiente do que a m�dia dos cachorros. As raz�es que
emergem habitualmente nessa discuss�o s�o as seguintes:  o
cachorro  �  servil e o gato, independente; o  primeiro  �
mais  previs�vel e submisso do que o segundo (n�o  sei  se
algu�m  atacado por um fila brasileiro, dobermann ou  pit-
bull  concordaria); os cachorros s�o mais  dom�sticos,  os
gatos,  mais selvagens. Tudo isso deve apontar para  fatos
constat�veis, sem d�vida. Eu acrescentaria o  seguinte:  o
cachorro,  muito  mais  do que o gato,  j�  �  um  produto
humano,  algo  produzido pelo homem e destinado  a  certas
fun��es (guardar a casa, vigiar as ovelhas, ca�ar raposas,
puxar  tren�s); o gato, at� onde sei, n�o foi domesticado;
ele  �  que se aproximou oportunisticamente de n�s  quando
come�amos  a  cultivar  e  acumular  cereais  que  atra�am
roedores  que, por sua vez, atra�am os felinos e,  depois,
passamos,  felinos e humanos (nessa ordem  decrescente  de
import�ncia), a conviver simbioticamente. Eles eram  �teis
para  n�s  como n�s para eles, mas foram eles que primeiro
chegaram  a essa conclus�o. Desta forma, o cachorro  j�  �
produto  acabado, mas o gato continua sendo mat�ria-prima,
da�  ser mais interessante. Ele est� tamb�m, ou parece-nos
�  primeira vista estar, mais pr�ximo, do que o  cachorro,
do  estado  de  natureza.  Algu�m  disse  (ouvi  isso  num
document�rio  do Discovery Channel) que �Deus  inventou  o
gato para que o homem pudesse acariciar o tigre�.
B  -  Falando  em  H�lderlin,  como  foi  a  sua  forma��o
intelectual para tornar-se o poeta que � hoje? O que  leu?
l�?
NA  - Sinceramente, eu estaria sendo mais arrogante do que
gosto  de  ser se falasse em minha �forma��o intelectual�,
ainda  mais  porque prefiro pensar que,  se  tal  processo
existe,  ele est� longe de acabado. Apesar de ser fumante,
gosto  de imaginar que ainda tenho algum ch�o pela  frente
antes  de  empacotar e que, at� l�, ainda estarei  somente
come�ando  a  me  preparar para  me  formar.  Posso  falar
rapidamente do que li/vi/ouvi, do que me interessou  e  do
que acho que me marcou. Discorri um pouco sobre o que meus
pais  me  contavam. Eles foram espertos, pois, aos poucos,
achavam desculpas para parar uma est�ria/hist�ria no meio,
passando-me  em seguida o livro onde estava a continua��o.
Meus  pais  eram  estrangeiros e  metade  do  que  me  fez
brasileiro  foram  as obras infantis  do  Monteiro  Lobato
(seria  injusto n�o mencionar um autor menos conhecido,  o
Francisco  Marins  e sua fazenda, que se chamava  Taquara-
Poca).  Entre  os  6 e 11/12 anos li e  reli  muito  esses
livros  bem  como  os de uma cole��o da  Melhoramentos,  a
Obras-C�lebres (com vers�es resumidas de Dumas, Defoe, Mil
e  Uma  Noites  etc.) Meu pai �, desde  sua  inf�ncia  nos
tempos  do cinema-mudo, um cin�filo, e me levou  muito  ao
cinema, isso antes de termos TV em casa (chegou quando  eu
tinha  6  anos). Eu era, al�m disso, fan�tico por gibis  e
houve tempo, antes dos meus 14/15 anos, quando assistia  a
8/10  horas di�rias de TV. Por sorte, as escolas nas quais
estudei  mal  falavam de literatura  e,  por  isso,  houve
pouqu�ssimas  coisas que eu tenha aprendido a  odiar.  Dos
meus  13  aos  15, eu lia sobretudo best-sellers  mais  ou
menos  (mais mais do que menos) er�ticos (Harold  Robbins,
Leon  Uris)  e divulga��o cient�fica (�Ci�ncia Ilustrada�,
por  exemplo,  pois  queria ser  cientista).  Em  seguida,
parcialmente  por causa da cole��o Imortais da  Literatura
Universal, comecei a ler literatura, mais os russos do que
os  outros, e descobri tamb�m o Borges (�ltimo  volume  da
s�rie).  Na �poca do col�gio dois outros de �meus� autores
eram  o  Hermann  Hesse  (que ainda  tem  bom  apelo  para
adolescentes)  e  os  ensaios e artigos  jornal�sticos  do
George  Orwell (primeira coisa que li sistematicamente  em
ingl�s).  O  primeiro poema que me chamou a  aten��o  foi,
nessa  �poca,  o  �Datilografia� do Pessoa  (lido  por  um
amigo).  Eu curtia, sem entender muito, a m�sica (ou  devo
dizer,  no bom sentido, a barulheira) de Cam�es  e  Castro
Alves.  Ao  mesmo tempo, eu lia cada vez  mais  livros  de
hist�ria  e,  j� na faculdade, virei marxista e  mergulhei
ainda  mais nesse tipo de obras. Foi com 15 anos que minha
paix�o  por  cinema, ao gosto da �poca,  �intelectualizou-
se�, e o primeiro filme que me impressionou como algo  que
era  mais do que entretenimento (cham�vamos isso ent�o  de
Scinema  de  arte") foi, em 73, no cine Bijou (que  era  o
�nico onde garotos podiam assistir a filmes proibidos para
maiores de 18), o �Roma� de Fellini. A outra metade do que
me  fez  brasileiro  (e n�o sei o que  mais)  foi  a  MPB.
Crian�a,  eu adorava a Jovem Guarda (ainda sei  de  cor  a
�Hist�ria  de  um Homem Mau�) e fui v�rias  vezes  ver  os
shows  do  Teatro Record na rua Augusta. Depois vieram  �A
Banda�,  �Alegria, Alegria� e eu acompanhei atento  a  MPB
at� pelo menos meados dos anos 80. Na adolesc�ncia, eu ia,
obviamente, ao teatro, ao MASP (que, al�m do acervo e  das
exposi��es, passava belos ciclos de cinema) etc. Penso que
tive sorte em ser adolescente nos anos 70, porque era  uma
�poca  em que a gente podia ler, ouvir, assistir �s coisas
e  depois discuti-las sem passar por metido, cdf,  �nerd�.
Uma  certa parcela da cultura ainda era parte leg�tima  do
quotidiano. A gente n�o precisava desfrut�-la em segredo e
o   melhor   de  tudo  era  discuti-la  com  amigos   (n�o
necessariamente  intelectuais).  Se  venho  tendo   alguma
forma��o  intelectual, devo o que nela me deu mais  prazer
�quela �poca.
B - O que faz nas horas de lazer? O poeta � poeta o tempo
todo ou s� quando escreve?
NA  �  A  poesia, como muitas outras profiss�es,  n�o  tem
exatamente  um  hor�rio, nem uma jornada  de  trabalho.  A
maioria  dos poetas trabalha em outros ramos:  muitos  s�o
m�dicos, advogados, engenheiros, professores etc. De certa
forma, eu sou jornalista. Trabalhei na reda��o da Folha  e
depois criei e editei a Revista USP. Desde que deixei esta
�ltima,    ainda   passo   bastante   tempo    escrevendo,
principalmente  mas  n�o  s�, para  a  Folha,  artigos  de
cr�tica  liter�ria  e  de cinema,  textos  sobre  pol�tica
internacional  etc. Tamb�m trabalhei e  trabalho  bastante
traduzindo poesia. Como se pode imaginar, por�m, a parcela
maior  de  meu tempo � investida em leitura e a  parte  do
le�o  cabe � hist�ria, antropologia, ci�ncias. Lazer mesmo
(e  n�o  me  refiro � vida social) � ver filmes,  mais  em
v�deo  que nos cinemas (pura pregui�a de sair de casa).  E
mais  do  que  filmes  de  arte,  gosto  mesmo  de  cinema
comercial tipo �M�quina Mort�fera�, �Duro de Matar� e  por
a�  vai.  Outro  lazer  meu, se posso  cham�-lo  assim,  �
viajar: gosto de dirigir longas dist�ncias. Nada disso, no
entanto,   est�   dissociado  inteiramente   do   trabalho
intelectual.
B  - A imprensa � paradoxal. Afirma que a poesia est� viva
e  depois  ridiculariza os poetas, como na  revista  Veja.
Quem  �  o  poeta brasileiro? O que o impulsiona  para  um
caminho   dif�cil  e  sem  nenhum  tipo   de   remunera��o
financeira?
NA  -  � dif�cil falar em imprensa como algo monol�tico  e
unit�rio.  A  Veja,  de  fato,  tende  a  impor   a   seus
jornalistas uma abordagem que talvez nem eles achem sempre
a  mais  feliz.  Tenho  amigos que  ou  trabalham  l�,  ou
passaram  por  l�,  que  n�o s� gostam  como  entendem  de
poesia, mas que, l� dentro, n�o tiveram muita oportunidade
para  tratar  o tema como ele merece. Mas jornais  como  a
Folha, Estado, Jornal da Tarde, Jornal do Brasil, O Globo,
Zero  Hora, Correio Brasiliense (para ficarmos s� nos mais
famosos)   regularmente  noticiam  lan�amentos,   resenham
livros de poesia, discutem literatura etc. Isso ocorre at�
mesmo  em ve�culos inesperados como a Gazeta Mercantil.  O
que nesses jornais se escreve sobre poesia � mais do que o
que aparece na grande imprensa anglo-americana (a Folha j�
chegou ao inusitada de dedicar um editorial, elogioso,  ao
concretismo).  E  , � claro, a raz�o de  as  coisas  serem
assim   �  porque  geralmente  fomos  pobres  em  revistas
liter�rias.  A poesia �, no mundo todo (fora a  ex-URSS  e
os  pa�ses  do Leste Europeu durante o per�odo comunista),
um  assunto para mil e poucas pessoas e a grande imprensa,
�s  vezes  equivocadamente, acha que ou s� deve tratar  de
temas  que  interessem a muitos milhares, ou  deve  tratar
temas de interesse mais restrito de uma maneira que atraia
mais  leitores  (n�o para o temas, mas para  o  jornal  ou
revista  em  quest�o). � uma contradi��o  irresol�vel.  Se
pode haver literatura de divulga��o cient�fica, � um pouco
mais  dif�cil  imaginar  o  que  seria  a  literatura   de
divulga��o po�tica. Para piorar, a competi��o com a  m�dia
eletr�nica tem levado a imprensa a tentar se adaptar a  um
p�blico  cuja  aten��o foi moldada de uma  outra  maneira,
adversa  mesmo � leitura. Temos que considerar, por  outro
lado,  que tudo est� em fluxo, que a situa��o que  vivemos
hoje em dia � recente, muito nova, e que a humanidade  nem
come�ou  a se habituar intimamente �s mudan�as e inven��es
do s�culo que est� se acabando. Qualquer previs�o otimista
ou  pessimista � precipitada: nenhum de n�s  faz  a  menor
id�ia  de qual ser� a situa��o desses temas daqui a  10/20
anos. Vale a pena ter em mente o seguinte: a poesia �  uma
atividade  muito  antiga que existe, provavelmente,  desde
que nossa esp�cie tem linguagem, ou seja, dizem, desde seu
in�cio.  N�o sabemos direito o que �, a que vem, para  que
serve,  se  �  que serve para alguma coisa.  Mas  existiu,
existe  e tudo indica que continuar� existindo. Os  poetas
escrevem   poesia   pelas  raz�es   pessoais,   ps�quicas,
idealistas, oportunistas, generosas, mercen�rias, sociais,
anti-sociais (ou tudo junto ou nada disso) mais  distintas
poss�veis.  Antes  de mais nada, por�m,  eles  a  escrevem
porque  h�  algo chamado poesia.  Nem sei se �  importante
(ou  poss�vel) sabermos mais do que isso. E fazer ou mesmo
ler a s�rio poesia j� toma, de qualquer forma, muito tempo
e  ocupa suficientemente a massa cinzenta. Nisso, o  poeta
brasileiro  n�o  difere  do  americano,  franc�s,  alem�o,
queniano,   tibetano,  fidjiano...  Independentemente   do
tamanho,  do  poder,  da riqueza ou  mis�ria  do  pa�s,  a
situa��o  da poesia � hoje igual em toda parte.  S�  posso
dizer que quem faz poesia faz poesia porque algu�m tem que
faz�-la.
B -Alexei Bueno diz que a poesia atual � �coco de cabrito:
sequinha, pequena e id�ntica.� Como encara a afirma��o? H�
alguma caracter�stica estil�stica ou tem�tica que enquadre
a poesia feita hoje no Brasil, num mesmo balaio liter�rio?
NA  -  Bom, acho que j� disse que n�o confio l�  muito  em
generaliza��es.   O   papel  do  cr�tico   liter�rio,   do
observador  dedicado, do leitor enfim,  �  o  de  nuan�ar,
encontrar  diferen�as, separar o joio do  trigo  ou,  pelo
menos,  o joio ruim do joio pior. Dizer que tudo � ruim  �
t�o  f�cil quanto dizer que tudo � maravilhoso e, em ambos
os  casos, d� na mesma n�o dizer nada, ou melhor,  o  dito
diz  mais acerca de quem diz do que sobre o assunto de que
fala.  E  termos como os usados acima n�o  me  parecem  de
grande  utilidade para o tipo de discuss�o cr�tica que  me
agrada.  Para  quem  olha de longe ou desinteressadamente,
todos  os sonetos s�o iguais: eles t�m em geral 14  linhas
de  dez s�labas m�tricas que rimam assim ou assado  e  n�o
h�,  portanto,  diferen�a  alguma  entre  Cam�es,  Pessoa,
Vin�cius e o pr�prio Alexei Bueno. Quem observar  mais  de
perto,  ou  com  um  pouco mais de cuidado,  provavelmente
achar� algumas diferen�as entre os sonetos desses autores.
Todas  as  �pocas em tais ou quais lugares t�m  algo  que,
dando  �  express�o um sentido amplo, chamar�amos  de  uma
certa  homogeneidade estil�stica. �, em primeiro lugar,  o
estado da pr�pria l�ngua que subjaz a isso. Al�m do  mais,
as  formas liter�rias, os recursos po�ticos, o vocabul�rio
e  outras  tantas coisas t�m uma hist�ria.  N�o  que  essa
hist�ria  seja  absolutamente determinante e  inescap�vel,
mas  escrever  inteligentemente consiste tamb�m  em  saber
negociar com ela: acat�-la, neg�-la, burl�-la, melhor�-la,
pior�-la  etc. A poesia feita hoje no Brasil, a  meu  ver,
divide-se, desde que tenha alguma compet�ncia, naquela que
d�  continuidade ao modernismo e naquela que prefere neg�-
lo  ou fazer de conta que este foi um equ�voco passageiro.
Em  ambos  os campos, por�m, a variedade � muito grande  e
n�o s� o trabalho do cr�tico, mas igualmente sua divers�o,
reside  em, encontrando essa variedade, fazer suas op��es,
discuti-las,  mudar de id�ia (ou n�o), continuar  lendo  e
procurando.
B - Como � fazer parte da antologia �99 poets�?
NA  -  Sofremos  h� d�cadas da aus�ncia de  antologias.  O
lugar  civilizado para o leitor �descobrir� poetas  �  nas
revistas  liter�rias  e  nas antologias.  Fazer  parte  de
qualquer antologia �, normalmente, ser lido atrav�s de  um
recorte  que  algu�m fez de seu trabalho, num  determinado
contexto, que � o dos outros poetas (e do aparato  cr�tico
da  antologia: notas, pref�cio etc.) A antologia  �  tanto
uma  boa interface entre os livros de um poeta e o p�blico
quanto  uma  hip�tese de leitura. Quanto  mais  antologias
houver,  melhor. E � t�o importante fazer parte de algumas
como  n�o  constar de outras, pois a antologia  �,  �  sua
maneira,  um tipo de cr�tica, um feedback necess�rio  para
quem escreve.
B - Qual uso faz da internet?
NA  �  Sou f�. Passo atualmente mais tempo �navegando�  do
que assistindo � TV. Leio nela jornas e revistas nacionais
e  estrangeiros. Quando h� algum evento internacional  que
eu  esteja acompanhando, comentando ou cobrindo, visito os
sites   pertinentes.  Encomendo  livros  do   estrangeiro.
Pesquiso  assuntos  na rede. Freq�ento, obviamente,  sites
liter�rios. O mais importante, todavia, � que,  tendo  por
toda a vida sido um p�ssimo missivista, corrigi-me, agora,
na   antec�mara  da  terceira  idade,  gra�as  ao  correio
eletr�nico.  Os  artigos que mando para a  Folha  ou  para
outros lugares seguem geralmente via internet.
B - Tem alguma ep�grafe que o acompanhe?
NA  � A que compus para mim mesmo, que � tamb�m meu futuro
(muito  futuro,  espero, batendo tr�s  vezes  na  madeira)
epit�fio, que segue agora em primeira m�o:
�Aqui jaz Nelson Ascher, consumido
Pelo amor pr�prio n�o correspondido.�
B - Qual o papel do escritor na sociedade?
NA  -  N�o  sei.  Vale  dizer:  n�o  acredito  que  exista
necessariamente (de quando em quando, aqui e ali, por  tal
ou  qual  raz�o, pode at� existir) um papel ou uma  miss�o
social  do  escritor.  N�o estou  com  isso  defendendo  o
escritor  �alienado�  ou condenando o �comprometido�.  N�o
costumo  gostar  de gente �alienada� e me dou  melhor  com
pessoas  �comprometidas�. Mas, para come�ar, n�o me  atrai
em   nada   a   obrigatoriedade  do   comprometimento,   o
compromisso  cobrado, verificado, medido.  O  compromisso,
qualquer que seja, s� � real se for feito livremente,  por
escolha n�o sujeita a san��es. E como n�o creio que algu�m
saiba mesmo, que algu�m seja capaz n�o s� de dizer como de
provar,  qual  a fun��o social da literatura,  sempre  que
surge a id�ia do compromisso pol�tico obrigat�rio, ela vem
menos  para  fazer a literatura servir de alguma  forma  �
sociedade,  do  que  para  subjug�-la  aos  que  fazem   a
sociedade  servi-los. Em outras palavras, os  compromissos
obrigat�rios da literatura nunca passaram de  uma  maneira
desp�tica de controlar os escritores. Vejo uma outra raz�o
para  dizer  que  o escritor n�o tem outra  fun��o  social
clara  al�m da de fazer bem o que sabe (ou deveria  saber)
fazer  bem, isto �, escrever. A raz�o � a de que  suspeito
da no��o segundo a qual um escritor sabe a priori, sobre o
mundo,  a  vida, a realidade, a sociedade, a  na��o  etc.,
mais  do  que qualquer outro cidad�o. Ele deve saber  mais
sobre  seu  of�cio,  mas  no  resto,  principalmente   nas
quest�es  pol�ticas, n�o h� por que n�o  consider�-lo  uma
pessoa  comum,  que  n�o tem nem mais  direitos  nem  mais
obriga��es. Ele n�o � um mestre, um profeta, um  iluminado
ou   qualquer   coisa  assim.  Escrever  j�  d�   trabalho
suficiente.  Pensar o contr�rio disso, algo a  que  muitos
escritores sucumbem, � uma forma meio desagrad�vel, quando
n�o   perigosa,  de  arrog�ncia.  N�o  espero   social   e
politicamente  dos  escritores  mais  do  que  espero   do
jornaleiro,  do  zelador, do dentista, da secret�ria.  Mas
tampouco espero menos.

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