Balacobaco
Planeta Terra
Rio de Janeiro
Entrevista com Gerardo de
Mello Mour�o
Todos os Pecados de S�o
Gerardo
Gerardo de
Mello Mour�o, 83, concedeu entrevista ao Balacobaco. Ele falou da conviv�ncia
com os livros e dos frutos deste namoro antigo com �rvore frondosa da poesia.
Foi simples, sofisticado, inteligente. Enfim mostrou-se por inteiro.
Gerardo por
Gerardo
"Sou
cat�lico, apost�lico, romano. Acho que as pessoas de outras religi�es t�m as
mesmas chances de salva��o. Sou cearense h� mais de quatrocentos anos. Sou
casado, fui viuvo. Tenho tr�s filhos, o que acho muito importante, pois creio,
como est� no Credo de Santo Atan�sio, na ressurrei��o da carne. E os filhos
s�o a prefigura��o da ressurrei��o da carne. Amo as alegrias do corpo e da
alma. Mas estou afetado pela tristeza existencial (ou ser� ontol�gica?) do ser
humano, pois sei, como L�on Bloy, que a maior desgra�a que pode ocorrer ao ser
humano � a desgra�a de n�o ser santo. Eu n�o sou santo. Esta � a tristeza
medular de minha vida. Pois nasci e fui criado para ser santo e manter intacta a
imagem e semelhan�a de Deus. Tal qual a tinha em meu dia de nascimento, a 8 de
janeiro de 1917, em Ipueiras, no Cear�, e na data de meu batismo, quatro dias
depois providenciado pelos cuidados pressurosos de minha m�e, no dia 12 do
mesmo m�s, ministrado na Igreja de Nossa Senhora da Concei��o por nosso
primo, Monsenhor Jos� de Lima. Minha m�e era uma pessoa dramaticamente
religiosa. Eu tinha um irm�o mais velho. Minha m�e leu na vida de S�o Lu�s
Gonzaga, que sua m�e Branca de Castela, fizera um voto a Deus: queria ver seu
filho morto antes que cometesse um �nico pecado mortal. Quando meu irm�o
morreu, ela se convenceu de que seu voto o matara. E retirou de mim a promessa
terr�vel. Resultado: estou vivo e fui maculado por quase todos os pecados
mortais, os chamados pecados mortais. Quem quiser que os imagine. Etc."
Gerardo de Mello Mour�o
O
Come�o
Balacobaco -
Sempre h� o momento inicial, o primeiro contato com a literatura. Como foi este
momento?
Gerardo de
Mello Mour�o - Quando come�ou? Os antigos diziam que "poeta nascitur".
Assim, creio que, de certo modo, a poesia � uma coisa de nascen�a. Ela n�o
tem nada a ver com a literatura, enquanto institui��o. A letra � uma coisa
sagrada. A nossa foi inventada por Linos, filho de Orfeu. Letra em grego
� grama. A palavra literatura � uma palavra nova. Os escritores eram
chamados "gram�ticos". Depois, a palavra ficou desmoralizada, porque
os "gram�ticos" foram acusados de ser meros processualistas do grama,
isto �, das letras.. Na decad�ncia latina, os escritores come�aram
a deshelenizar a nomenclatura. Foi inventada a palavra "literatura",
como tradu��o fiel de "Gram�tica", isto �, a arte de se expressar
com a "littera" - a letra, e o termo s� entrou em voga, efetivamente
na Renascen�a, depois da Idade M�dia. Ent�o, os que trabalhavam com o
"grama", isto �, a "littera", passaram a ser chamados n�o
mais com a express�o grega, mas com voz latina: "literatos". Hoje,
com a revolu��o da escritura, iniciada no fim do s�culo passado, a palavra
"literato" tamb�m passou a ser desmoralizada. Quer ofender um
escritor? Chame-o de "literato". Porque o literato passou a ser tamb�m
um presun�oso processualista, como o gram�tico p�s-alexandrino. Creio que a
palavra "literatura" tamb�m est� desgastada. N�o me pergunte por
que, pois a resposta seria longa e cruel.
B - Quais
livros fizeram parte de sua forma��o?
GMM - Antes da
escola sistem�tica, os livros de cantadores nordestinos, toda a antologia dos
violeiros, que ouvi de viva voz, na feira e nas festas populares de Ipueiras.
Conheci tamb�m, ainda crian�a, alguns textos de Gustavo Barroso, primeiro
divulgador da obra dos cantadores nordestinos, e depois, na colet�nea de seus
mais importantes disc�pulos, Leonardo Mota e Lu�s da C�mara Cascudo. Leonardo
Mota foi o mais f�rtil e melhor recolhedor de cantigas, hoje chamadas de
cordel, sem a erudi��o de Cascudo, que dizia ser Gustavo a fonte em que todos
aprenderam a poesia dos violeiras e rabequistas. Depois do livro de Leonardo
Mota, "Os Cantadores", que eu lia e decorava aos cinco e seis anos
(sabia ler correntemente aos cinco anos) outro livros que li, deslumbrado, foram
a "Hist�ria de Carlos Magno e os Doze Pares de Fran�a" e "O Lun�rio
Perp�tuo". Minha m�e me ensinou a ler cedo demais. Mas os livros
exemplares que me deram gosto pelas letras foram os cl�ssicos que comecei a ler
na "Antologia Nacional" de Fausto Barreto e Carlos de Laet, dos 10
para os 11 anos. Aos 12 lia autores franceses. Aos 13 traduzia autores latinos e
ainda hoje acho uma das mais perfeitas pe�as po�ticas que conhe�o o cap�tulo
de J�lio C�sar sobre a constru��o de uma ponte na guerra das G�lias. Aos
14, aos 15 e aos 16, traduzia diariamente textos de Ov�dio, Virg�lio, C�cero,
Homero e P�ndaro. Foi um batismo de fogo, quando comecei a entrar na ret�rica
de C�cero, nos metros po�ticos gregos e latinos, que n�o s�o medidos pelo n�mero
de s�labas, como os de nossos poetas metrificados, mas pelo n�mero de p�s, em
que o ritmo n�o se marca pelas �tonas ou t�nicas, mas pelas s�labas breves
ou longas. Pelas vogais breves ou longas. � uma coisa altamente sofisticada. Os
poetas de l�nguas latinas - italianos, franceses, portugueses, espanh�is,
etc., abandonaram a metrifica��o latina e inventaram outros ritmos: os decass�labos,
os alexandrinos, as redondilhas, etc. Mas os grandes poetas de l�ngua inglesa,
alem� e at� certo ponto os italianos, Dante, Petrarca. Leopardi e mesmo os
contempor�neos, D'Annunzio, e os revolucion�rios, de Marinetti a Sanguinetti,
etc., guardam o ritmo interior dos versos em d�ctilos virgilianos, hex�metros,
j�nicos, trocaicos e outros, como os greco-latinos. E os poetas fundamentais,
que inventaram a poesia contempor�nea, como Pound, Rilke, Trakl, Eliot,
Gotfried Ben, Hopkins, os irlandeses, etc trabalharam todos com a m�sica
interior do verso latino e grego. Mas quem souber ler Baudelaire, Rimbaud, Iommi,
Marteau, Claudel, Edi Simmons, D�guy, Raul Young. Efra�n e Agustin e os
grandes da poesia contempor�nea, e em portugu�s, Fernando Pessoa e M�rio de S�
Carneiro, ver� que eles cantam nesse ritmo vertebral da m�sica interior do
metro grego e latino: uma breve - duas longas - uma longa - duas breves, e assim
por diante. Sem a contagem de s�labas parnasiana e acad�mica, mas tamb�m com
o metro nosso antigo e o verso livre, (destaque-se o grande poeta mineiro Dantas
Mota). O verso, soprado ou coloquial, a linguagem po�tica, da poesia
propriamente dita, s� � feita pelos que sabem, por intui��o ou por
disciplina, esses segredos da arquitetura e da tessitura do verso. N�o se pode
fazer versos sem s�labas nem poesia sem verso, em que pese � validade das
experi�ncias de constru��o e des-constru��o das escolas que andam ou
andaram por a�. Algumas dessas experi�ncias podem at� ter sido corretas. Mas
n�o fazem uma obra po�tica. � bom lembrar a advert�ncia do segundo Manifesto
de Picasso, sobre os artistas que apresentam pesquisas como obra feita. N�o s�o.
� o caso dos concretistas, etc. E ponha etc�tera nisso. N�o dou aqui nomes de
poetas vivos, ou que se julgam vivos, apesar de alguns deles estarem mortos sem
saber. Mas alguns entre os vivos sabem estas coisas.
B - Quando
come�ou a escrever. Quais eram as sensa��es?
GMM - Muito
cedo. Pensava que estava descobrindo a poesia. Aos 21 anos, com um grupo de
poetas em Buenos Aires - �ramos a Santa Hermandad de la Orqu�dea -
desconfiamos de nossos versos, verificamos que n�o era a poesia, e queimamos
todos em pra�a p�blica, no chamado "Pacto del Victoria"- uma decis�o
que tomamos num bar chamado "Victoria". Infelizmente, eu j� tinha
publicado alguns desses equ�vocos, que hoje queimo quando os encontro num sebo
de livros ou num jornal antigo.
B - Atualmemte
o grande problema do jovem escritor � publicar seus poemas. Nestes sentido, no
in�cio, quais eram os seus problemas?
GMM - Publicar
ou n�o publicar n�o � problema para um escritor de verdade. Vender livros
tamb�m n�o. Baudelaire, em toda a sua vida, ganhou apenas 17 francos com seus
livros. Kafka nunca teve mais de 40 leitores. Quanto a mim, escrevo apenas para
comparecer com estes livros na m�o, diante de Deus, no Dia do Ju�zo Final, no
Vale de Josaf�, que espero esteja para chegar. Acho at� que tenho vendido
demais e publicado demais. Deus vai me cobrar isto. Quando um jovem escritor est�
aflito para publicar um livro, desconfie do livro e do escritor. Come�o por
mim, que desconfio de meu primeiro livro. Depois, tome nota: um dos maiores
poetas de nosso tempo e de todos os tempos, Kavafis, nunca editou um livro em
vida, apenas distribuia, de vez em quando, quarenta ou cinq�enta c�pias de um
de seus poemas a quarenta ou cinq�enta pessoas que conhecia em diversos pa�ses
da Europa.
B - Teve algum
incentivador?
GMM -
Infelizmente, tive.
O
Poeta e a Obra
B - A sua obra
� nordestina por natureza. O nordeste � apenas pano de fundo e, seriam assim,
regionais seus temas, ou n�o d� para dissociar o nordeste de sua poesia. Fale
um pouco.
GMM - N�o sou
um poeta nordestino. Sou um nordestino poeta. � outra coisa. Por isto sou fiel
�s subst�ncias l�ricas de minha tribo e de minhas ribeiras da Ibiapaba. Com
licen�a dos folcloristas e do folclore em geral, n�o estou aqui para fazer
folclore. N�o sou um tipo folcl�rico. Mesmo as letras de Humberto Teixeira,
nas antologias de Lu�s Gonzaga, ou os poemas de Ascen�o Ferreira, n�o s�o
propriamente folcl�ricos, embora n�o percam nada de sua grandeza quando a lira
do povo (folk-lore) as absorve e elas chegam a ser repetidas como cantos an�nimos.
Passam a existir al�m de seus autores. Como se dizia da "Ode a uma Urna
Grega", de Keats, quando feito e perfeito, o poema sabe mais do que o
poeta. No dia em que meu poema souber mais do que eu, ent�o sim, terei a gl�ria
de ser o nordestino poeta, isto �, de ter o sopro dos pr�prios ventos da
terra, de crescer de suas entranhas como um ser que dela recebeu a vida, uma
serpente, um p� de juazeiro.
B - Qual a
principal caracter�stica de sua obra?
GMM - Uma obra
n�o deve ter carater�sticas. N�o deve ter car�ter. O pensamento puro n�o
tem car�ter. Nietzsche ensina que o futuro pertencer� aos pa�ses e �s
pessoas sem car�ter. Se minha obra tiver import�ncia, desejaria que ela
tivesse a import�ncia de um sopro criador, aquele sopro que Deus soprou nas
narinas do boneco de barro, aquele sopro que S�crates, Plat�o, Homero, o Dante
e o Cam�es sopraram sobre suas tribos, dando-lhes uma Paid�ia, para que fossem
fi�is � voca��o do ser humano. Esta voca��o � a beleza, a verdade. � a
verdadeira alegria de viver, a que Santo Agostinho chamava de "gaudium cum
veritate" - o gozo pleno da verdade O orgasmo da verdade.
B - Existe
algo que os cr�ticos n�o viram nos seus versos? Algo que nunca ver�o?
GMM - N�o sei.
Alguns, como Trist�o de Athayde, Ant�nio Olinto, o saudoso Jos� Geraldo
Nogueira Moutinho, Franklin de Oliveira e n�o sei quantos mais, como
recentemente o cr�tico Wilson Martins e os escritores Jos� N�umanne, Ant�nio
Penteado Mendon�a e o poeta C�sar Leal, e outros, viram generosamente as
coisas que tenho escrito. Ainda agora, o mesmo Wilson Martins, reiterando o que
dissera em artigo sobre meu �ltimo livro, "Inven��o do Mar", ousou
dizer que entre os poetas brasileiros para o futuro, Gerardo Mello Mour�o � o
nome em que ele aposta. Creio que o futuro � a perman�ncia, a posteridade.
Muitos por a� andam em busca de publicidade. Eu n�o busco e n�o quero
publicidade. Eu busco a gl�ria. S� Deus e as Musas sabem se a terei. Em tempo:
o mestre Octavio Paz viu uma coisa em minha trilogia "Os Pe�s",
iniciada com "O Pa�s dos Mour�es": que eu tinha inaugurado o canto
da genealogia da Am�rica. E esta � uma velha ambi��o cosmog�nica: fazer, n�o
a minha genealogia, mas a genealogia do nosso mundo. Re-criar o mundo em que
vivemos, fundando de novo seu passado, porque, como no verso de Eliot, o tempo
presente est� no tempo passado e o tempo passado � o tempo futuro. Creio que
� neste sentido que o Wilson Martins insiste em dizer que eu consegui
reescrever os Lus�adas, de um certo modo para l� dos Lusiadas. N�o haveria gl�ria
maior: os Lus�adas fundaram Portugal. Quem me dera fundar o meu pa�s!
B - Quem s�o
seus seguidores? Nesta trajet�ria, vasta e f�rtil, algum poeta merece o seu
legado?
GMM - Eu n�o
sou seguidor de ningu�m. Tenho, � claro, refer�ncias fundamentais para meu pr�prio
trabalho. Seria um ato de soberba imaginar que eu venha a ser refer�ncia de
algum grande poeta. Aqui lembro com emo��o um poeta jovem que conheci, um
poeta inteiro e imarcesc�vel, parte de cuja obra publiquei em livro. � uma
lembran�a sagrada para mm, para alguns amigos e para meus filhos. Suicidou-se
silenciosamente aos 21 anos, no esplendor de sua juventude e de sua vida, por
puros motivos de amor � poesia. Sua morte � o legado mais pungente que nos
resta de uma vida po�tica. O Presente
B - Quando
liguei para voc�, estava se preparando para uma confer�ncia. Como � a vida de
poeta consagrado?
GMM - Tenho
viajado muito. Menos do que mere�o. No princ�pio acreditei em Rilke, quando
dizia que para escrever um s� verso � preciso viajar cidades e cidades e
cidades. Todas as cidades. Mas depois fica aquela fadiga de Mallarm�, para quem
era preciso tamb�m ler todos os livros. Leu todos, e depois ficou triste, como
est� no verso famoso: "la chair est triste, hel�s! et j'ai lu tous les
livres". Por outro lado, o solit�rio poeta portugu�s Ant�nio Nobre,
exclamava: - "viajar, viajar, todo o planeta � zero". Mas acho que
viajei todas as cidades dos continentes e li todos os livros. � como o coito
sexual. O pai da medicina, Hip�crates, dizia que "depois do coito, todo
animal entristece". Depois de todas as viagens e depois de ler todos os
livros, resta uma tristeza, mas uma tristeza voluptuosa, uma esp�cie de cio a
que a mem�ria volta de vez em quando. N�o sei como � a vida de um poeta
consagrado, e desconfio de todas as consagra��es.
B - O exterior
o rever�ncia mais do que o Brasil?
GMM - Desdenho
todas as rever�ncias. Venham de onde vierem.
B - Quem � o
maior poeta brasileiro vivo?
GMM - Tive um
amigo poeta, que traiu sua voca��o e acabou Desembargador. Na juventude ele
escrevera um poema que come�ava assim: "Eu sou o maior poeta do mundo - eu
sou o maior poeta do meu mundo". Ele morreu h� alguns anos, e s� por isso
n�o digo que ele � o maior poeta brasileiro vivo. Fiz o pref�cio de seu �nico
livro p�stumo.
B - Qual o
maior poeta de todos os tempos?
GMM - O poeta n�o
� um atleta, um jogador de t�nis, para se estabelecer este tipo de competi��o.
N�o s�o muitos. Mas h� v�rios maiores em todos os tempos. De Homero a P�ndaro,
a Virg�lio, ao Dante, a Hoelderlin, e assim por diante. N�o s�o muitos. �
preciso ser exigente nesta brincadeira. Para mim, as mais altas refer�ncias do
s�culo seriam Ezra Pound, que j� morreu, e Godofredo Iommi, que est� vivo
numa praia do Pac�fico, em Vi�a del Mar. Mas � uma tolice dizer que este �
maior do que aqu�le. � uma coisa que n�o se mede, nem mesmo com o metro do
gosto pessoal.
B - Quais s�o
as suas influ�ncias?
GMM - N�o
tenho influ�ncias. Tenho freq��ncias ass�duas de leitura. Al�m dos j�
citados, os textos do Livro. O Livro � a B�blia, o
Antigo e o Novo Testamento. Os poetas do Livro, os judeus, depois os gregos,
depois meia d�zia de descendentes culturais de judeus e de gregos, como todos n�s.
O
Passado
B - Sua liga��o
com o integralismo, no passado, impediu o senhor de galgar um espa�o maior na
literatura?
GMM - Marinetti
que, por sinal, era senador do Partido Fascista, como Pirandello e D'Annunzio e
tantos outros, advertia que os poetas dignos deste nome n�o procuram
"galgar espa�os na literatura". "S� os cretinos fosforescentes
lutam para aparecer". Eu n�o sou cretino fosforescente e n�o quero galgar
espa�os, muito menos nesta coisa menor que � a literatura institucional em
nosso pobre pa�s e em outros pa�ses. O integralismo foi uma fecunda experi�ncia
cultural e uma aventura moral e espiritual dos melhores brasileiros de minha
gera��o. Mesmo sem esfor�os para isto, os integralistas que o quiseram,
galgaram todos os espa�os de que voc� fala. Quatro deles chegaram � Presid�ncia
da Rep�blica nas duas �ltimas d�cadas, sem falar em outros postos altamente
representativos da vida nacional. As Universidades, as Academias Cient�ficas,
os Minist�rios, os postos diplom�ticos, as Academias de Letras, inclusive a do
Machado de Assis, honraram-se com incont�vel n�mero de integralistas, sem
falar nas dezenas de generais, almirantes, brigadeiros das For�as Armadas, nos
comandos das maiores empresas industriais e banc�rias do pa�s, tanto no setor
p�blico como no setor privado. Haver pertencido ao integralismo � um t�tulo
que me tem proporcionado os melhores momentos de minha vida social,
profissional, pol�tica, cultural, cordial e afetuosa. Este t�tulo me tem
ajudado muito e tem constituido motivo de respeito e divulga��o de minha obra
de escritor.
B - O passado,
esta zona de tempo que � quase imodific�vel, pesa sobre os seus ombros.
Mudaria algo na sua hist�ria?
GMM - A �nica
coisa que pesa sobre meus ombros s�o meus longos anos de vida. N�o permito que
ningu�m mude uma v�rgula na hist�ria de meu passado. Minha hist�ria pessoal
� um patrim�nio de que me orgulho. A hist�ria de meu passado � uma hist�ria
de honra pessoal, pol�tica, moral e cultural, cuja mem�ria � o melhor
conforto de minha vida. Nunca fui escravo ou servidor de ideologias, de
quaisquer ideologias. A ideologia � a impostura com que os tolos esterilizam
seu pensamento, sua intelig�ncia e sua honra. Quem se rege por uma ideologia, n�o
tem id�ias. A ideologia � a deprava��o maior do pensamento e da intelig�ncia,
dos indigentes mentais ou dos impostores que t�m uma id�ia �nica. A id�ia �nica
seca a fonte das id�ias. Por ter id�ias e por abominar as ideologias, ainda
este m�s fui homenageado num dos mais importantes centros universit�rios do pa�s,
onde minha limpa verticalidade foi destacada sobretudo pelas pris�es que sofri
nas duas ditaduras impostas a este pa�s - a do Estado Novo de Get�lio Vargas e
a do governo militarista. Preso, exilado e cassado em meu mandato de deputado
federal por esta �ltima, na primeira delas fui condenado por decreto, isto
mesmo, por decreto, j� que n�o havia qualquer lei que eu tivesse infringido, e
sem jamais comparecer � presen�a de um juiz, sem ter sequer um processo
formalizado. Condenado por decreto, juntamente com uma centena de outros
brasileiros, � um caso �nico na hist�ria do direito ocidental. Nunca fui
condenado por uma lei ou por um Tribunal ordin�rio. Vivi a fecunda experi�ncia
de seis anos de c�rcere, num campo de concentra��o da ditadura em Dois Rios,
onde pude escrever meu romance "O Valete de Espadas" e as dez elegias
de "Cabo das Tormentas", al�m de um di�rio que se publicar� depois
de minha morte. S� n�o fiquei preso mais tempo, porque a ditadura foi
derrubada e minha pris�o foi revogada por unanimidade pelo Supremo Tribunal
Federal, bem como a das outras cento e tantas v�timas. Algumas insignificantes
e desinformadas patrulhas ideol�gicas se serviram desta monstruosa inf�mia da
ditadura, n�o sei se por inveja, por torpe ressentimento, ou por burrice mesmo,
para tentar silenciar minha obra. N�o o conseguiram. N�o odeio esse tipo de
gente. Desprezo olimpicamente. Desprezo e ignoro. E acho que esse pobres diabos
carregam nos ombros - eles sim - o peso inc�modo da inveja e do ressentimento.
B � Como �
sua rela��o com a imprensa?
GMM - Minha
rela��o com a imprensa brasileira � excelente. Como jornalista profissional,
trabalhei em v�rios jornais e revistas. O maior jornal em que trabalhei, e do
qual ainda sou colaborador h� cerca de trinta anos, � a "FOLHA DE S.
PAULO". Al�m das boas e limpas rela��es profissionais, tenho merecido p�ginas
inteiras de cr�ticas de minha obra em todos os grandes jornais do pa�s, e
tenho freq�entado como colaborador as p�ginas mais nobres que quase todos
eles, no Rio, em S. Paulo e nos diversos Estados. Se eu quisesse, publicaria
artigos diariamente em v�rios deles. Mas n�o tenho tempo e n�o tenho muita
coisa a dizer. Acho que nenhun outro poeta brasileiro recebeu, em quantidade e
qualidade como eu, n�mero t�o grande e t�o respeit�vel de artigos sobre sua
obra. Ter�o mais do que eu resenhas, not�cias, badala��es. Artigos, ensaios,
cr�ticas mesmo, nenhuma outra obra de escritor brasileiro ter� recebido t�o
generosamente como a minha. S�o mais de trezentos artigos guardados nos
arquivos de minha mulher. Inj�rias? De vez em quando uma espuma amarelada e
suja, repetida e fatigada, uma prova��o, de resto, a que est�o sujeitos os
homens p�blicos, os pol�ticos, coisa que n�o sou mais. Recebi na pris�o da
ditadura a visita do romancista Albert Camus, que me disse: "saia deste neg�cio
de pol�tica. Os poetas, os artistas n�o t�m que fazer a hist�ria. T�m
apenas que sofrer a hist�ria. Esses supostos poetas e escritores engajados em
defesas partid�rias ou idelol�gicas, n�o escrevem poesia nem romance. N�o s�o
poetas nem romancistas. S�o funcion�rios de partidos, e o que apresentam como
poesia ou como romance � apenas uma impostura. S�o autores de panfletos, em
prosa ou verso, mas apenas panfletos. E panfletos ruins".
O
Futuro
B - Wilson
Martins considera seu novo livro "Os Lus�adas" brasileiro. Qual a sua
opini�o? Fale sobre seu novo livro?
GMM - Respeito
muito a cr�tica e a dignidade de escritor do Sr. Wilson Martins. N�o tenho a
honra de conhec�-lo pessoalmente. Espero ir em breve ao Paran�, e ali baterei
� sua porta para cumprimenta-lo e agradecer sua aten��o com minha obra. O que
posso dizer sobre meu �ltimo livro � que est� sendo traduzido em Paris e na
Rom�nia, creio que sair� tamb�m em espanhol e j� corrigi as primeiras provas
de uma edi��o em Portugal.
B - O que vem
por a�?
GMM - N�o sei.
Talvez o Apocalipse. Talvez mais uma novela ruim, de televis�o.
B - Quem � o
novo poeta brasileiro? Em que mundo viver�?
GMM - N�o sei.
Nordeste
B - Qual a
explica��o para o nordeste, uma regi�o pobre ecomicamente, ser t�o rica
culturalmente?
GMM - No
Nordeste fundamos este pa�s. Os governos da rep�blica praticam um crime
continuado contra o Nordeste. Como Unamuno dizia "me duele Espa�a", a
mim me d�i o Nordeste. A minha terra.
B - Tem
saudade de sua terra natal?
GMM - Saudade
muita. N�o concordo com a tese de que o desenvolvimento cultural das pessoas
esteja vinculado ao desenvolvimento econ�mico. Nem das pessoas nem das regi�es,
nem das �pocas. Uma vez, ao meu lado, o Osvaldo Peralva perguntou ao Gilberto
Amado, que era um t�pico representante do humanismo universal e tamb�m um
cosmopolita, no bom sentido da palavra, em que pa�s desejaria ter nascido, se
lhe tivesse sido dada a escolha: - "em qualquer um, desde que em tempo de
decad�ncia". Os tolos, isto �, os soci�logos e os que escrevem cr�tica
sociol�gica, vinculam o desenvolvimento industrial ao florescimento das letras
e das artes. Ora, � uma redonda e enfatuada burrice de escritores que se tornam
cortes�os e funcion�rios da burguesia capitalista. O capital, aliado da
tecnologia, sabe como produzir um bom m�dico, um bom engenheiro, um bom autom�vel.
Mas n�o sabe produzir um poeta, um m�sico, um pintor. Se fosse assim, as
escolas e as f�bricas de T�quio, dos Estados Unidos, da Alemanha e at� de S�o
Paulo e da Cor�ia estariam produzindo Homeros, Shakespeares, Dantes, Rembrandts,
Bachs e Picassos. E n�o est�o, n�o �? Os soci�logos, como ensinava meu
mestre Unamuno s�o os sujeitos que n�o sabem nada, e quando sabem, sabem a
posteriori. Os fil�sofos, os poetas, os artistas, como a pr�pria arte, n�o s�o
fruto da civiliza��o industrial. S�o mesmo, de um modo geral, os marginais
dessa civiliza��o e desse tipo de progresso, desse poder de produ��o de
riqueza. Honro-me de ser um marginal desse processo, como foram Homero e Dante,
Hoelderlin e Van Gogh, Rimbaud e Baudelaire, os grandes fil�sofos e os grandes
reitores do saber e do esp�rito. Dessa saudade vivo e morro. Cada um de n�s
nasceu amarrado a seu umbigo. A outra ponta do umbigo, do qual fomos cortados,
� a nossa terra. O homem grego, cria��o de Apolo D�lfico, tinha seu umbigo
em Delfos. Era o "o �mphal�s" do mundo , o umbigo do mundo. Para
mim, minha aldeia � minha p�lis genes�aca, n�cleo do meu DNA, meu umbigo -
"�mphal�s". O nordeste � meu umbigo e por isto � o umbigo do
mundo, de meu mundo. "�mphalos tes g�s" - o umbigo da terra.
Internet
B - Desde de
1994, voc� vem tentando entrar na era da inform�tica. Infelizmente fizemos
esta entrevista via fax. O que falta para cair de vez nesta rede?
GMM - N�o
quero ser escravo dessa engenhoca diab�lica. Tenho dois equipamentos dela
instalados em casa, com e-mail, com todas essas coisas. Mas n�o tenho tempo
para isso. Nunca ocupei meu e-mail e uso o velho fax. Sirvo-me do computador
apenas como uma m�quina de escrever de luxo e para ler diariamente alguns
artigos de jornais franceses, alem�es, ingleses, espanh�is e italianos:
artigos culturais. Antes eu comprava estes jornais na esquina. Agora sai mais
barato e ocupa menos espa�o f�sico. Pois leio e apago e s� de vez em quando
imprimo para guardar algum artigo. Nem sequer sei mexer no e-mail e no neg�cio
do som.
B - Como v� a
internet em comunh�o com a poesia?
GMM - No tempo
de Homero n�o havia internet.
Teoria
e Afins
B - Ningu�m
mais l� teoria liter�ria. � algo ultrapassado?
GMM - Um poeta
n�o se rege por teorias liter�rias. Isto � coisa de literatos e de
literatura, n�o de poetas e da poesia. O que a poesia pede ao poeta � que
tenha um conhecimento profundo de cada letra e de cada palavra, e com a letra e
a palavra conhe�a os m�sculos, os ossos, o pulm�o e o sangue de sua l�ngua.
Mas � preciso distinguir a l�ngua da linguagem. A l�ngua � o campo de
trabalho da comunh�o dos homens. O poeta, o escritor, � aquele que inventa, n�o
uma l�ngua, equ�voco de Guimar�es Rosa, mas uma linguagem. Lembro sempre
Borges: "minha l�ngua � a l�ngua de G�ngora, Cervantes e Quevedo, mas
minha linguagem � a linguagem dos compadritos dos arrabaldes de Buenos
Aires." Pois assim minha l�ngua: � a l�ngua de Cam�es e de Vieira; mas
minha linguagem � a linguagem dos plantadores de cana e de mandioca no p�-da-serra
da Ibiapaba. O escritor que n�o tem sua pr�pria linguagem, sua linguagem ct�nica
- tel�rica e pessoal, n�o � um escritor. Vira um acad�mico. E quando tenta
forjar uma l�ngua ou mesmo uma linguagem artificial, tamb�m deixa de ser
escritor e cai na mediocridade do texto acad�mico. O texto acad�mico � o
texto que obedece a uma f�rma preestabelecida. Por exemplo: os concretistas.
Criaram um molde, uma f�rma, uma f�rmula. Isto �: fazem exatamente o que faz
o acad�mico.
B - O que �
necess�rio para o f�nomeno po�tico?
GMM - A inoc�ncia,
a gra�a de Deus. � preciso repetir sempre a inoc�ncia da inf�ncia. Leia o
ensaio de Heidegger - meu mestre - sobre Hoelderlin e a ess�ncia da poesia. A�
voc� ficar� sabendo o que quer dizer inoc�ncia. O inocente � aquele ou
aquilo que n�o � nocivo - in-nocens. In-nocivo. � preciso n�o ser nocivo �
palavra, mat�ria-prima da poesia. E s� n�o se � nocivo quando se expressa os
seres, as coisas, os lugares com uma palavra que � seu pr�prio nome. Se eu
chamar Manuel de cavalo, estou sendo nocivo � palavra, ao nome, nocivo a Manuel
e ao cavalo. Esta � a inoc�ncia da poesia. N�o confundir poesia com poema. A
poesia n�o est� em qualquer artefato que se chama de poema. � preciso, para
que o poema incorpore a poesia, dar a cada palavra seu pr�prio som e ao texto
sua pr�pria sintaxe. O lugar-comum desgastou as conex�es vocabulares. Por
isto, a for�a e o segredo do poeta � saber, pronunciar, escrever a palavra
inesperada. As palavras j� esperadas levam ao lugar-comum.
B - Com
quantos conotativos e met�foras se faz um poema?
GMM - Com um �nico
ou com milh�es. � uma coisa infinita. E como na matem�tica de Boole, o 1 pode
valer tanto como os quil�metros de algarismos que exprimem bilh�es e zilh�es.
B - Em sua
poesia, que quest�o t�cnica lhe agrada mais?
GMM - A t�cnica
de n�o fazer prosa. N�o se deve vender prosa por verso nem gato por lebre. O
sopro rege a composi��o. O primeiro autor de uma Gram�tica no mundo, Dion�sio
da Tr�cia, um s�culo ou dois antes de nossa era, chamava seu livro de "Techne"-
a arte, a arte da l�ngua, e indicava o que devia ser a cr�tica da poesia: o
trato com o sopro.
B - Qual o
poema seu que mais o personifica? E a sua obra?
GMM - N�o sei.
Isto implicaria em conhecer-me a mim mesmo, o "Gnoti seauton"
(conhece-te a ti m esmo), a inscri��o suprema que est� no frontisp�cio do
templo d�lfico, cunhada pelo pr�prio Apolo e tomada por S�crates como a meta
do saber. Talvez alguns textos em que mais tentei este conhecimento estejam em
meu romance "Dossi� da Destrui��o".
Rep�rter: Rodrigo
de Souza Le�o