Balacobaco

Planeta Terra

Rio de Janeiro


 

Entrevista com Gerardo de Mello Mour�o

 

Todos os Pecados de S�o Gerardo

Gerardo de Mello Mour�o, 83, concedeu entrevista ao Balacobaco. Ele falou da conviv�ncia com os livros e dos frutos deste namoro antigo com �rvore frondosa da poesia. Foi simples, sofisticado, inteligente. Enfim mostrou-se por inteiro.

 

Gerardo por Gerardo

"Sou cat�lico, apost�lico, romano. Acho que as pessoas de outras religi�es t�m as mesmas chances de salva��o. Sou cearense h� mais de quatrocentos anos. Sou casado, fui viuvo. Tenho tr�s filhos, o que acho muito importante, pois creio, como est� no Credo de Santo Atan�sio, na ressurrei��o da carne. E os filhos s�o a prefigura��o da ressurrei��o da carne. Amo as alegrias do corpo e da alma. Mas estou afetado pela tristeza existencial (ou ser� ontol�gica?) do ser humano, pois sei, como L�on Bloy, que a maior desgra�a que pode ocorrer ao ser humano � a desgra�a de n�o ser santo. Eu n�o sou santo. Esta � a tristeza medular de minha vida. Pois nasci e fui criado para ser santo e manter intacta a imagem e semelhan�a de Deus. Tal qual a tinha em meu dia de nascimento, a 8 de janeiro de 1917, em Ipueiras, no Cear�, e na data de meu batismo, quatro dias depois providenciado pelos cuidados pressurosos de minha m�e, no dia 12 do mesmo m�s, ministrado na Igreja de Nossa Senhora da Concei��o por nosso primo, Monsenhor Jos� de Lima. Minha m�e era uma pessoa dramaticamente religiosa. Eu tinha um irm�o mais velho. Minha m�e leu na vida de S�o Lu�s Gonzaga, que sua m�e Branca de Castela, fizera um voto a Deus: queria ver seu filho morto antes que cometesse um �nico pecado mortal. Quando meu irm�o morreu, ela se convenceu de que seu voto o matara. E retirou de mim a promessa terr�vel. Resultado: estou vivo e fui maculado por quase todos os pecados mortais, os chamados pecados mortais. Quem quiser que os imagine. Etc."

                        Gerardo de Mello Mour�o

O Come�o

Balacobaco - Sempre h� o momento inicial, o primeiro contato com a literatura. Como foi este momento?

Gerardo de Mello Mour�o - Quando come�ou? Os antigos diziam que "poeta nascitur". Assim, creio que, de certo modo, a poesia � uma coisa de nascen�a. Ela n�o tem nada a ver com a literatura, enquanto institui��o. A letra � uma coisa sagrada. A nossa foi inventada por Linos, filho de Orfeu. Letra em grego � grama. A palavra literatura � uma palavra nova. Os escritores eram chamados "gram�ticos". Depois, a palavra ficou desmoralizada, porque os "gram�ticos" foram acusados de ser meros processualistas do grama, isto �, das letras.. Na decad�ncia latina, os escritores come�aram a deshelenizar a nomenclatura. Foi inventada a palavra "literatura", como tradu��o fiel de "Gram�tica", isto �, a arte de se expressar com a "littera" - a letra, e o termo s� entrou em voga, efetivamente na Renascen�a, depois da Idade M�dia. Ent�o, os que trabalhavam com o "grama", isto �, a "littera", passaram a ser chamados n�o mais com a express�o grega, mas com voz latina: "literatos". Hoje, com a revolu��o da escritura, iniciada no fim do s�culo passado, a palavra "literato" tamb�m passou a ser desmoralizada. Quer ofender um escritor? Chame-o de "literato". Porque o literato passou a ser tamb�m um presun�oso processualista, como o gram�tico p�s-alexandrino. Creio que a palavra "literatura" tamb�m est� desgastada. N�o me pergunte por que, pois a resposta seria longa e cruel.

B - Quais livros fizeram parte de sua forma��o?

GMM - Antes da escola sistem�tica, os livros de cantadores nordestinos, toda a antologia dos violeiros, que ouvi de viva voz, na feira e nas festas populares de Ipueiras. Conheci tamb�m, ainda crian�a, alguns textos de Gustavo Barroso, primeiro divulgador da obra dos cantadores nordestinos, e depois, na colet�nea de seus mais importantes disc�pulos, Leonardo Mota e Lu�s da C�mara Cascudo. Leonardo Mota foi o mais f�rtil e melhor recolhedor de cantigas, hoje chamadas de cordel, sem a erudi��o de Cascudo, que dizia ser Gustavo a fonte em que todos aprenderam a poesia dos violeiras e rabequistas. Depois do livro de Leonardo Mota, "Os Cantadores", que eu lia e decorava aos cinco e seis anos (sabia ler correntemente aos cinco anos) outro livros que li, deslumbrado, foram a "Hist�ria de Carlos Magno e os Doze Pares de Fran�a" e "O Lun�rio Perp�tuo". Minha m�e me ensinou a ler cedo demais. Mas os livros exemplares que me deram gosto pelas letras foram os cl�ssicos que comecei a ler na "Antologia Nacional" de Fausto Barreto e Carlos de Laet, dos 10 para os 11 anos. Aos 12 lia autores franceses. Aos 13 traduzia autores latinos e ainda hoje acho uma das mais perfeitas pe�as po�ticas que conhe�o o cap�tulo de J�lio C�sar sobre a constru��o de uma ponte na guerra das G�lias. Aos 14, aos 15 e aos 16, traduzia diariamente textos de Ov�dio, Virg�lio, C�cero, Homero e P�ndaro. Foi um batismo de fogo, quando comecei a entrar na ret�rica de C�cero, nos metros po�ticos gregos e latinos, que n�o s�o medidos pelo n�mero de s�labas, como os de nossos poetas metrificados, mas pelo n�mero de p�s, em que o ritmo n�o se marca pelas �tonas ou t�nicas, mas pelas s�labas breves ou longas. Pelas vogais breves ou longas. � uma coisa altamente sofisticada. Os poetas de l�nguas latinas - italianos, franceses, portugueses, espanh�is, etc., abandonaram a metrifica��o latina e inventaram outros ritmos: os decass�labos, os alexandrinos, as redondilhas, etc. Mas os grandes poetas de l�ngua inglesa, alem� e at� certo ponto os italianos, Dante, Petrarca. Leopardi e mesmo os contempor�neos, D'Annunzio, e os revolucion�rios, de Marinetti a Sanguinetti, etc., guardam o ritmo interior dos versos em d�ctilos virgilianos, hex�metros, j�nicos, trocaicos e outros, como os greco-latinos. E os poetas fundamentais, que inventaram a poesia contempor�nea, como Pound, Rilke, Trakl, Eliot, Gotfried Ben, Hopkins, os irlandeses, etc trabalharam todos com a m�sica interior do verso latino e grego. Mas quem souber ler Baudelaire, Rimbaud, Iommi, Marteau, Claudel, Edi Simmons, D�guy, Raul Young. Efra�n e Agustin e os grandes da poesia contempor�nea, e em portugu�s, Fernando Pessoa e M�rio de S� Carneiro, ver� que eles cantam nesse ritmo vertebral da m�sica interior do metro grego e latino: uma breve - duas longas - uma longa - duas breves, e assim por diante. Sem a contagem de s�labas parnasiana e acad�mica, mas tamb�m com o metro nosso antigo e o verso livre, (destaque-se o grande poeta mineiro Dantas Mota). O verso, soprado ou coloquial, a linguagem po�tica, da poesia propriamente dita, s� � feita pelos que sabem, por intui��o ou por disciplina, esses segredos da arquitetura e da tessitura do verso. N�o se pode fazer versos sem s�labas nem poesia sem verso, em que pese � validade das experi�ncias de constru��o e des-constru��o das escolas que andam ou andaram por a�. Algumas dessas experi�ncias podem at� ter sido corretas. Mas n�o fazem uma obra po�tica. � bom lembrar a advert�ncia do segundo Manifesto de Picasso, sobre os artistas que apresentam pesquisas como obra feita. N�o s�o. � o caso dos concretistas, etc. E ponha etc�tera nisso. N�o dou aqui nomes de poetas vivos, ou que se julgam vivos, apesar de alguns deles estarem mortos sem saber. Mas alguns entre os vivos sabem estas coisas.

B - Quando come�ou a escrever. Quais eram as sensa��es?

GMM - Muito cedo. Pensava que estava descobrindo a poesia. Aos 21 anos, com um grupo de poetas em Buenos Aires - �ramos a Santa Hermandad de la Orqu�dea - desconfiamos de nossos versos, verificamos que n�o era a poesia, e queimamos todos em pra�a p�blica, no chamado "Pacto del Victoria"- uma decis�o que tomamos num bar chamado "Victoria". Infelizmente, eu j� tinha publicado alguns desses equ�vocos, que hoje queimo quando os encontro num sebo de livros ou num jornal antigo.

B - Atualmemte o grande problema do jovem escritor � publicar seus poemas. Nestes sentido, no in�cio, quais eram os seus problemas?

GMM - Publicar ou n�o publicar n�o � problema para um escritor de verdade. Vender livros tamb�m n�o. Baudelaire, em toda a sua vida, ganhou apenas 17 francos com seus livros. Kafka nunca teve mais de 40 leitores. Quanto a mim, escrevo apenas para comparecer com estes livros na m�o, diante de Deus, no Dia do Ju�zo Final, no Vale de Josaf�, que espero esteja para chegar. Acho at� que tenho vendido demais e publicado demais. Deus vai me cobrar isto. Quando um jovem escritor est� aflito para publicar um livro, desconfie do livro e do escritor. Come�o por mim, que desconfio de meu primeiro livro. Depois, tome nota: um dos maiores poetas de nosso tempo e de todos os tempos, Kavafis, nunca editou um livro em vida, apenas distribuia, de vez em quando, quarenta ou cinq�enta c�pias de um de seus poemas a quarenta ou cinq�enta pessoas que conhecia em diversos pa�ses da Europa.

B - Teve algum incentivador?

GMM - Infelizmente, tive.

 

O Poeta e a Obra

 

B - A sua obra � nordestina por natureza. O nordeste � apenas pano de fundo e, seriam assim, regionais seus temas, ou n�o d� para dissociar o nordeste de sua poesia. Fale um pouco.

GMM - N�o sou um poeta nordestino. Sou um nordestino poeta. � outra coisa. Por isto sou fiel �s subst�ncias l�ricas de minha tribo e de minhas ribeiras da Ibiapaba. Com licen�a dos folcloristas e do folclore em geral, n�o estou aqui para fazer folclore. N�o sou um tipo folcl�rico. Mesmo as letras de Humberto Teixeira, nas antologias de Lu�s Gonzaga, ou os poemas de Ascen�o Ferreira, n�o s�o propriamente folcl�ricos, embora n�o percam nada de sua grandeza quando a lira do povo (folk-lore) as absorve e elas chegam a ser repetidas como cantos an�nimos. Passam a existir al�m de seus autores. Como se dizia da "Ode a uma Urna Grega", de Keats, quando feito e perfeito, o poema sabe mais do que o poeta. No dia em que meu poema souber mais do que eu, ent�o sim, terei a gl�ria de ser o nordestino poeta, isto �, de ter o sopro dos pr�prios ventos da terra, de crescer de suas entranhas como um ser que dela recebeu a vida, uma serpente, um p� de juazeiro.

B - Qual a principal caracter�stica de sua obra?

GMM - Uma obra n�o deve ter carater�sticas. N�o deve ter car�ter. O pensamento puro n�o tem car�ter. Nietzsche ensina que o futuro pertencer� aos pa�ses e �s pessoas sem car�ter. Se minha obra tiver import�ncia, desejaria que ela tivesse a import�ncia de um sopro criador, aquele sopro que Deus soprou nas narinas do boneco de barro, aquele sopro que S�crates, Plat�o, Homero, o Dante e o Cam�es sopraram sobre suas tribos, dando-lhes uma Paid�ia, para que fossem fi�is � voca��o do ser humano. Esta voca��o � a beleza, a verdade. � a verdadeira alegria de viver, a que Santo Agostinho chamava de "gaudium cum veritate" - o gozo pleno da verdade O orgasmo da verdade.

B - Existe algo que os cr�ticos n�o viram nos seus versos? Algo que nunca ver�o?

GMM - N�o sei. Alguns, como Trist�o de Athayde, Ant�nio Olinto, o saudoso Jos� Geraldo Nogueira Moutinho, Franklin de Oliveira e n�o sei quantos mais, como recentemente o cr�tico Wilson Martins e os escritores Jos� N�umanne, Ant�nio Penteado Mendon�a e o poeta C�sar Leal, e outros, viram generosamente as coisas que tenho escrito. Ainda agora, o mesmo Wilson Martins, reiterando o que dissera em artigo sobre meu �ltimo livro, "Inven��o do Mar", ousou dizer que entre os poetas brasileiros para o futuro, Gerardo Mello Mour�o � o nome em que ele aposta. Creio que o futuro � a perman�ncia, a posteridade. Muitos por a� andam em busca de publicidade. Eu n�o busco e n�o quero publicidade. Eu busco a gl�ria. S� Deus e as Musas sabem se a terei. Em tempo: o mestre Octavio Paz viu uma coisa em minha trilogia "Os Pe�s", iniciada com "O Pa�s dos Mour�es": que eu tinha inaugurado o canto da genealogia da Am�rica. E esta � uma velha ambi��o cosmog�nica: fazer, n�o a minha genealogia, mas a genealogia do nosso mundo. Re-criar o mundo em que vivemos, fundando de novo seu passado, porque, como no verso de Eliot, o tempo presente est� no tempo passado e o tempo passado � o tempo futuro. Creio que � neste sentido que o Wilson Martins insiste em dizer que eu consegui reescrever os Lus�adas, de um certo modo para l� dos Lusiadas. N�o haveria gl�ria maior: os Lus�adas fundaram Portugal. Quem me dera fundar o meu pa�s!

B - Quem s�o seus seguidores? Nesta trajet�ria, vasta e f�rtil, algum poeta merece o seu legado?

GMM - Eu n�o sou seguidor de ningu�m. Tenho, � claro, refer�ncias fundamentais para meu pr�prio trabalho. Seria um ato de soberba imaginar que eu venha a ser refer�ncia de algum grande poeta. Aqui lembro com emo��o um poeta jovem que conheci, um poeta inteiro e imarcesc�vel, parte de cuja obra publiquei em livro. � uma lembran�a sagrada para mm, para alguns amigos e para meus filhos. Suicidou-se silenciosamente aos 21 anos, no esplendor de sua juventude e de sua vida, por puros motivos de amor � poesia. Sua morte � o legado mais pungente que nos resta de uma vida po�tica. O Presente

B - Quando liguei para voc�, estava se preparando para uma confer�ncia. Como � a vida de poeta consagrado?

GMM - Tenho viajado muito. Menos do que mere�o. No princ�pio acreditei em Rilke, quando dizia que para escrever um s� verso � preciso viajar cidades e cidades e cidades. Todas as cidades. Mas depois fica aquela fadiga de Mallarm�, para quem era preciso tamb�m ler todos os livros. Leu todos, e depois ficou triste, como est� no verso famoso: "la chair est triste, hel�s! et j'ai lu tous les livres". Por outro lado, o solit�rio poeta portugu�s Ant�nio Nobre, exclamava: - "viajar, viajar, todo o planeta � zero". Mas acho que viajei todas as cidades dos continentes e li todos os livros. � como o coito sexual. O pai da medicina, Hip�crates, dizia que "depois do coito, todo animal entristece". Depois de todas as viagens e depois de ler todos os livros, resta uma tristeza, mas uma tristeza voluptuosa, uma esp�cie de cio a que a mem�ria volta de vez em quando. N�o sei como � a vida de um poeta consagrado, e desconfio de todas as consagra��es.

B - O exterior o rever�ncia mais do que o Brasil?

GMM - Desdenho todas as rever�ncias. Venham de onde vierem.

B - Quem � o maior poeta brasileiro vivo?

GMM - Tive um amigo poeta, que traiu sua voca��o e acabou Desembargador. Na juventude ele escrevera um poema que come�ava assim: "Eu sou o maior poeta do mundo - eu sou o maior poeta do meu mundo". Ele morreu h� alguns anos, e s� por isso n�o digo que ele � o maior poeta brasileiro vivo. Fiz o pref�cio de seu �nico livro p�stumo.

B - Qual o maior poeta de todos os tempos?

GMM - O poeta n�o � um atleta, um jogador de t�nis, para se estabelecer este tipo de competi��o. N�o s�o muitos. Mas h� v�rios maiores em todos os tempos. De Homero a P�ndaro, a Virg�lio, ao Dante, a Hoelderlin, e assim por diante. N�o s�o muitos. � preciso ser exigente nesta brincadeira. Para mim, as mais altas refer�ncias do s�culo seriam Ezra Pound, que j� morreu, e Godofredo Iommi, que est� vivo numa praia do Pac�fico, em Vi�a del Mar. Mas � uma tolice dizer que este � maior do que aqu�le. � uma coisa que n�o se mede, nem mesmo com o metro do gosto pessoal.

B - Quais s�o as suas influ�ncias?

GMM - N�o tenho influ�ncias. Tenho freq��ncias ass�duas de leitura. Al�m dos j� citados, os textos do Livro. O Livro � a B�blia, o Antigo e o Novo Testamento. Os poetas do Livro, os judeus, depois os gregos, depois meia d�zia de descendentes culturais de judeus e de gregos, como todos n�s.

 

O Passado

 

B - Sua liga��o com o integralismo, no passado, impediu o senhor de galgar um espa�o maior na literatura?

GMM - Marinetti que, por sinal, era senador do Partido Fascista, como Pirandello e D'Annunzio e tantos outros, advertia que os poetas dignos deste nome n�o procuram "galgar espa�os na literatura". "S� os cretinos fosforescentes lutam para aparecer". Eu n�o sou cretino fosforescente e n�o quero galgar espa�os, muito menos nesta coisa menor que � a literatura institucional em nosso pobre pa�s e em outros pa�ses. O integralismo foi uma fecunda experi�ncia cultural e uma aventura moral e espiritual dos melhores brasileiros de minha gera��o. Mesmo sem esfor�os para isto, os integralistas que o quiseram, galgaram todos os espa�os de que voc� fala. Quatro deles chegaram � Presid�ncia da Rep�blica nas duas �ltimas d�cadas, sem falar em outros postos altamente representativos da vida nacional. As Universidades, as Academias Cient�ficas, os Minist�rios, os postos diplom�ticos, as Academias de Letras, inclusive a do Machado de Assis, honraram-se com incont�vel n�mero de integralistas, sem falar nas dezenas de generais, almirantes, brigadeiros das For�as Armadas, nos comandos das maiores empresas industriais e banc�rias do pa�s, tanto no setor p�blico como no setor privado. Haver pertencido ao integralismo � um t�tulo que me tem proporcionado os melhores momentos de minha vida social, profissional, pol�tica, cultural, cordial e afetuosa. Este t�tulo me tem ajudado muito e tem constituido motivo de respeito e divulga��o de minha obra de escritor.

B - O passado, esta zona de tempo que � quase imodific�vel, pesa sobre os seus ombros. Mudaria algo na sua hist�ria?

GMM - A �nica coisa que pesa sobre meus ombros s�o meus longos anos de vida. N�o permito que ningu�m mude uma v�rgula na hist�ria de meu passado. Minha hist�ria pessoal � um patrim�nio de que me orgulho. A hist�ria de meu passado � uma hist�ria de honra pessoal, pol�tica, moral e cultural, cuja mem�ria � o melhor conforto de minha vida. Nunca fui escravo ou servidor de ideologias, de quaisquer ideologias. A ideologia � a impostura com que os tolos esterilizam seu pensamento, sua intelig�ncia e sua honra. Quem se rege por uma ideologia, n�o tem id�ias. A ideologia � a deprava��o maior do pensamento e da intelig�ncia, dos indigentes mentais ou dos impostores que t�m uma id�ia �nica. A id�ia �nica seca a fonte das id�ias. Por ter id�ias e por abominar as ideologias, ainda este m�s fui homenageado num dos mais importantes centros universit�rios do pa�s, onde minha limpa verticalidade foi destacada sobretudo pelas pris�es que sofri nas duas ditaduras impostas a este pa�s - a do Estado Novo de Get�lio Vargas e a do governo militarista. Preso, exilado e cassado em meu mandato de deputado federal por esta �ltima, na primeira delas fui condenado por decreto, isto mesmo, por decreto, j� que n�o havia qualquer lei que eu tivesse infringido, e sem jamais comparecer � presen�a de um juiz, sem ter sequer um processo formalizado. Condenado por decreto, juntamente com uma centena de outros brasileiros, � um caso �nico na hist�ria do direito ocidental. Nunca fui condenado por uma lei ou por um Tribunal ordin�rio. Vivi a fecunda experi�ncia de seis anos de c�rcere, num campo de concentra��o da ditadura em Dois Rios, onde pude escrever meu romance "O Valete de Espadas" e as dez elegias de "Cabo das Tormentas", al�m de um di�rio que se publicar� depois de minha morte. S� n�o fiquei preso mais tempo, porque a ditadura foi derrubada e minha pris�o foi revogada por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal, bem como a das outras cento e tantas v�timas. Algumas insignificantes e desinformadas patrulhas ideol�gicas se serviram desta monstruosa inf�mia da ditadura, n�o sei se por inveja, por torpe ressentimento, ou por burrice mesmo, para tentar silenciar minha obra. N�o o conseguiram. N�o odeio esse tipo de gente. Desprezo olimpicamente. Desprezo e ignoro. E acho que esse pobres diabos carregam nos ombros - eles sim - o peso inc�modo da inveja e do ressentimento.

B � Como � sua rela��o com a imprensa?

GMM - Minha rela��o com a imprensa brasileira � excelente. Como jornalista profissional, trabalhei em v�rios jornais e revistas. O maior jornal em que trabalhei, e do qual ainda sou colaborador h� cerca de trinta anos, � a "FOLHA DE S. PAULO". Al�m das boas e limpas rela��es profissionais, tenho merecido p�ginas inteiras de cr�ticas de minha obra em todos os grandes jornais do pa�s, e tenho freq�entado como colaborador as p�ginas mais nobres que quase todos eles, no Rio, em S. Paulo e nos diversos Estados. Se eu quisesse, publicaria artigos diariamente em v�rios deles. Mas n�o tenho tempo e n�o tenho muita coisa a dizer. Acho que nenhun outro poeta brasileiro recebeu, em quantidade e qualidade como eu, n�mero t�o grande e t�o respeit�vel de artigos sobre sua obra. Ter�o mais do que eu resenhas, not�cias, badala��es. Artigos, ensaios, cr�ticas mesmo, nenhuma outra obra de escritor brasileiro ter� recebido t�o generosamente como a minha. S�o mais de trezentos artigos guardados nos arquivos de minha mulher. Inj�rias? De vez em quando uma espuma amarelada e suja, repetida e fatigada, uma prova��o, de resto, a que est�o sujeitos os homens p�blicos, os pol�ticos, coisa que n�o sou mais. Recebi na pris�o da ditadura a visita do romancista Albert Camus, que me disse: "saia deste neg�cio de pol�tica. Os poetas, os artistas n�o t�m que fazer a hist�ria. T�m apenas que sofrer a hist�ria. Esses supostos poetas e escritores engajados em defesas partid�rias ou idelol�gicas, n�o escrevem poesia nem romance. N�o s�o poetas nem romancistas. S�o funcion�rios de partidos, e o que apresentam como poesia ou como romance � apenas uma impostura. S�o autores de panfletos, em prosa ou verso, mas apenas panfletos. E panfletos ruins".

 

O Futuro

 

B - Wilson Martins considera seu novo livro "Os Lus�adas" brasileiro. Qual a sua opini�o? Fale sobre seu novo livro?

GMM - Respeito muito a cr�tica e a dignidade de escritor do Sr. Wilson Martins. N�o tenho a honra de conhec�-lo pessoalmente. Espero ir em breve ao Paran�, e ali baterei � sua porta para cumprimenta-lo e agradecer sua aten��o com minha obra. O que posso dizer sobre meu �ltimo livro � que est� sendo traduzido em Paris e na Rom�nia, creio que sair� tamb�m em espanhol e j� corrigi as primeiras provas de uma edi��o em Portugal.

B - O que vem por a�?

GMM - N�o sei. Talvez o Apocalipse. Talvez mais uma novela ruim, de televis�o.

B - Quem � o novo poeta brasileiro? Em que mundo viver�?

GMM - N�o sei.

Nordeste

 

B - Qual a explica��o para o nordeste, uma regi�o pobre ecomicamente, ser t�o rica culturalmente?

GMM - No Nordeste fundamos este pa�s. Os governos da rep�blica praticam um crime continuado contra o Nordeste. Como Unamuno dizia "me duele Espa�a", a mim me d�i o Nordeste. A minha terra.

B - Tem saudade de sua terra natal?

GMM - Saudade muita. N�o concordo com a tese de que o desenvolvimento cultural das pessoas esteja vinculado ao desenvolvimento econ�mico. Nem das pessoas nem das regi�es, nem das �pocas. Uma vez, ao meu lado, o Osvaldo Peralva perguntou ao Gilberto Amado, que era um t�pico representante do humanismo universal e tamb�m um cosmopolita, no bom sentido da palavra, em que pa�s desejaria ter nascido, se lhe tivesse sido dada a escolha: - "em qualquer um, desde que em tempo de decad�ncia". Os tolos, isto �, os soci�logos e os que escrevem cr�tica sociol�gica, vinculam o desenvolvimento industrial ao florescimento das letras e das artes. Ora, � uma redonda e enfatuada burrice de escritores que se tornam cortes�os e funcion�rios da burguesia capitalista. O capital, aliado da tecnologia, sabe como produzir um bom m�dico, um bom engenheiro, um bom autom�vel. Mas n�o sabe produzir um poeta, um m�sico, um pintor. Se fosse assim, as escolas e as f�bricas de T�quio, dos Estados Unidos, da Alemanha e at� de S�o Paulo e da Cor�ia estariam produzindo Homeros, Shakespeares, Dantes, Rembrandts, Bachs e Picassos. E n�o est�o, n�o �? Os soci�logos, como ensinava meu mestre Unamuno s�o os sujeitos que n�o sabem nada, e quando sabem, sabem a posteriori. Os fil�sofos, os poetas, os artistas, como a pr�pria arte, n�o s�o fruto da civiliza��o industrial. S�o mesmo, de um modo geral, os marginais dessa civiliza��o e desse tipo de progresso, desse poder de produ��o de riqueza. Honro-me de ser um marginal desse processo, como foram Homero e Dante, Hoelderlin e Van Gogh, Rimbaud e Baudelaire, os grandes fil�sofos e os grandes reitores do saber e do esp�rito. Dessa saudade vivo e morro. Cada um de n�s nasceu amarrado a seu umbigo. A outra ponta do umbigo, do qual fomos cortados, � a nossa terra. O homem grego, cria��o de Apolo D�lfico, tinha seu umbigo em Delfos. Era o "o �mphal�s" do mundo , o umbigo do mundo. Para mim, minha aldeia � minha p�lis genes�aca, n�cleo do meu DNA, meu umbigo - "�mphal�s". O nordeste � meu umbigo e por isto � o umbigo do mundo, de meu mundo. "�mphalos tes g�s" - o umbigo da terra.

Internet

 

B - Desde de 1994, voc� vem tentando entrar na era da inform�tica. Infelizmente fizemos esta entrevista via fax. O que falta para cair de vez nesta rede?

GMM - N�o quero ser escravo dessa engenhoca diab�lica. Tenho dois equipamentos dela instalados em casa, com e-mail, com todas essas coisas. Mas n�o tenho tempo para isso. Nunca ocupei meu e-mail e uso o velho fax. Sirvo-me do computador apenas como uma m�quina de escrever de luxo e para ler diariamente alguns artigos de jornais franceses, alem�es, ingleses, espanh�is e italianos: artigos culturais. Antes eu comprava estes jornais na esquina. Agora sai mais barato e ocupa menos espa�o f�sico. Pois leio e apago e s� de vez em quando imprimo para guardar algum artigo. Nem sequer sei mexer no e-mail e no neg�cio do som.

B - Como v� a internet em comunh�o com a poesia?

GMM - No tempo de Homero n�o havia internet.

 

Teoria e Afins

 

B - Ningu�m mais l� teoria liter�ria. � algo ultrapassado?

GMM - Um poeta n�o se rege por teorias liter�rias. Isto � coisa de literatos e de literatura, n�o de poetas e da poesia. O que a poesia pede ao poeta � que tenha um conhecimento profundo de cada letra e de cada palavra, e com a letra e a palavra conhe�a os m�sculos, os ossos, o pulm�o e o sangue de sua l�ngua. Mas � preciso distinguir a l�ngua da linguagem. A l�ngua � o campo de trabalho da comunh�o dos homens. O poeta, o escritor, � aquele que inventa, n�o uma l�ngua, equ�voco de Guimar�es Rosa, mas uma linguagem. Lembro sempre Borges: "minha l�ngua � a l�ngua de G�ngora, Cervantes e Quevedo, mas minha linguagem � a linguagem dos compadritos dos arrabaldes de Buenos Aires." Pois assim minha l�ngua: � a l�ngua de Cam�es e de Vieira; mas minha linguagem � a linguagem dos plantadores de cana e de mandioca no p�-da-serra da Ibiapaba. O escritor que n�o tem sua pr�pria linguagem, sua linguagem ct�nica - tel�rica e pessoal, n�o � um escritor. Vira um acad�mico. E quando tenta forjar uma l�ngua ou mesmo uma linguagem artificial, tamb�m deixa de ser escritor e cai na mediocridade do texto acad�mico. O texto acad�mico � o texto que obedece a uma f�rma preestabelecida. Por exemplo: os concretistas. Criaram um molde, uma f�rma, uma f�rmula. Isto �: fazem exatamente o que faz o acad�mico.

B - O que � necess�rio para o f�nomeno po�tico?

GMM - A inoc�ncia, a gra�a de Deus. � preciso repetir sempre a inoc�ncia da inf�ncia. Leia o ensaio de Heidegger - meu mestre - sobre Hoelderlin e a ess�ncia da poesia. A� voc� ficar� sabendo o que quer dizer inoc�ncia. O inocente � aquele ou aquilo que n�o � nocivo - in-nocens. In-nocivo. � preciso n�o ser nocivo � palavra, mat�ria-prima da poesia. E s� n�o se � nocivo quando se expressa os seres, as coisas, os lugares com uma palavra que � seu pr�prio nome. Se eu chamar Manuel de cavalo, estou sendo nocivo � palavra, ao nome, nocivo a Manuel e ao cavalo. Esta � a inoc�ncia da poesia. N�o confundir poesia com poema. A poesia n�o est� em qualquer artefato que se chama de poema. � preciso, para que o poema incorpore a poesia, dar a cada palavra seu pr�prio som e ao texto sua pr�pria sintaxe. O lugar-comum desgastou as conex�es vocabulares. Por isto, a for�a e o segredo do poeta � saber, pronunciar, escrever a palavra inesperada. As palavras j� esperadas levam ao lugar-comum.

B - Com quantos conotativos e met�foras se faz um poema?

GMM - Com um �nico ou com milh�es. � uma coisa infinita. E como na matem�tica de Boole, o 1 pode valer tanto como os quil�metros de algarismos que exprimem bilh�es e zilh�es.

B - Em sua poesia, que quest�o t�cnica lhe agrada mais?

GMM - A t�cnica de n�o fazer prosa. N�o se deve vender prosa por verso nem gato por lebre. O sopro rege a composi��o. O primeiro autor de uma Gram�tica no mundo, Dion�sio da Tr�cia, um s�culo ou dois antes de nossa era, chamava seu livro de "Techne"- a arte, a arte da l�ngua, e indicava o que devia ser a cr�tica da poesia: o trato com o sopro.

B - Qual o poema seu que mais o personifica? E a sua obra?

GMM - N�o sei. Isto implicaria em conhecer-me a mim mesmo, o "Gnoti seauton" (conhece-te a ti m esmo), a inscri��o suprema que est� no frontisp�cio do templo d�lfico, cunhada pelo pr�prio Apolo e tomada por S�crates como a meta do saber. Talvez alguns textos em que mais tentei este conhecimento estejam em meu romance "Dossi� da Destrui��o".

                                  


Rep�rter: Rodrigo de Souza Le�o

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