FREDERICO BARBOSA

   

Contund�ncia e constru��o s�o os tra�os mais marcantes da poesia de Frederico Barbosa. Considerado por Haroldo de Campos "dos mais expressivos de sua gera��o, pelo sentido construtivo e gume cr�tico de seus poemas " e por Arnaldo Antunes um "poeta admir�vel pela maneira como associa contund�ncia e constru��o, que denota bastante maturidade no trato com a

linguagem verbal." - Frederico Barbosa �, nas palavras de Manuel da Costa Pinto, possivelmente o poeta que mais explicitamente assume sua d�vida para com o concretismo. (...) Ao lado de Augusto de Campos, � hoje o poeta que melhor navega pelas �guas do experimentalismo." J� Helo�sa Buarque de Hollanda acrescenta que "tem um tipo de negocia��o com o concretismo muito independente, muito interessante. Ele usa aquilo tudo, mas interpela de um jeito diferente..."

Essa independ�ncia, sem trair a experimenta��o e o rigor da experi�ncia, levaram o cr�tico Antonio Candido a apresentar Contracorrente (Iluminuras, 2000) afirmando que "este terceiro livro mostra que o lugar de Frederico Barbosa � entre os verdadeiros poetas da sua gera��o", pois "o poeta parece estar al�m da pura experi�ncia e plenamente integrado na sua personalidade po�tica."

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1. "como quem grita sem/luz sem voz sem vis sem vez sem mais". Voz/viz/vez. Quando que as asson�ncias e as disson�ncias constroem uma linguagem po�tica moderna e n�o uma linguagem j� trabalhada exaustivamente pela MPB?

 

Asson�ncias, disson�ncias, jogos gerais de som e sentido constituem a medula da poesia. H� poemas que n�o s�o music�veis, porque s�o musicais, j� dizia Fernando Pessoa. Sem m�sica n�o h� poesia. H� confiss�o, protesto, queixa. H� a prosa rala das bobagens. Mesmo a perfeita prosa, Machado, Clarice, Saramago, Rosa, � m�sica a toda prova. E quanto � MPB, n�o vejo porque andam negando produziu alguns dos maiores poetas da l�ngua. S� para ficar nos atuais Chico, Caetano, Gil, tr�s dos maiores poetas que j� houve no Brasil. E viva Martin Codax e a m�sica popular galego-portuguesa!

Quanto ao meu verso que voc� cita, voc� aponta o jogo VOZ/VIS/VEZ... mas h� mais... h� lUz, vOz, vEz, vIz e mAis... pensei no Bilac genial de "trAbalha e tEiama e lIma e sOfre e sUa... AEIOU ... e resolvi inverter UOIEA... na contagem regressiva para a crise.

2.Voc� utiliza a linguagem concreta em alguns poemas. O concretismo vive? Qual influ�ncia tem dos concretos?

Eu j� escrevi, e repito, que a Poesia Concreta � a maior revolu��o na poesia mundial ocorrida na segunda metade do s�culo XX. Al�m disso, � a �nica proposta est�tica jamais surgida no Brasil e �nico momento em que esse pa�s esteve na vanguarda da Arte (qualquer Arte!) no mundo. O Brasil � um pa�s muito engra�ado... fica vibrando quando um filmezinho de terceira concorre ao Oscar e esquece que temos, aqui, vivos e atuantes, tr�s dos poetas mais importantes na hist�ria da literatura mundial D�cio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos. Eles s�o a nossa gl�ria m�xima na arte. Digo mais n�o tenho a menor d�vida de que Augusto de Campos � hoje o maior e mais importante poeta vivo n�o s� da l�ngua portuguesa, mas de todo o mundo.

Preciso responder se tenho influ�ncia? Mas � claro que procuro fazer a minha poesia, usando qualquer recurso dispon�vel... sonoro, visual, concreto, o que seja... A grande li��o da Poesia Concreta foi abrir as portas a todas as possibilidades criativas que se possa utilizar... sempre com rigor e t�cnica apurada. � o que eu busco. Muitos poetas foram influenciados pela Poesia Concreta, chegaram at� a copiar muita coisa e depois, buscando a facilidade e o "sucesso" barato, viraram as costas aos seus inventores e quiseram "matar o pai"... Poucos tentam fazer seu trabalho procurando ser inovadores mas conscientes dessa heran�a maravilhosa. Arnaldo Antunes, Antonio Ris�rio, Carlos �vila... e outros poucos, muito poucos.

3.Quando que o poeta manifesta a sua insana ins�nia? O que � material para o poema? Como � o seu processo de elabora��o de um poema?

Tudo pode ser material para um poema. O problema n�o est� no que se canta, mas como se canta. N�o sei descrever meu processo de elabora��o de um poema, mesmo porque n�o creio que tenha um processo �nico. �s vezes uma id�ia ou verso me persegue durante anos e fico muito feliz ao conseguir desenvolv�-lo num poema. Em Contracorrente, h� um poema que nasceu de dois versos me acompanhavam h� v�rios anos nem me lembro quantos, mas certamente h� mais de quinze que surgiram da percep��o do que ocorre com o tr�nsito de S�o Paulo nos dias de chuva

 

Quando Chove

 

Em S�o Paulo, quando chove,

chovem carros.

 

Tudo p�ra

pontes, viadutos, Marginais.

 

E a �gua retoma

seu curso original

Anhangaba�, Sumar�, Pacaembu.

 

Ruas onde eram rios,

ex-rios, caminhos de rato, canais.

Rios sobre ruas,

Elevado, Via Dutra, Radial.

 

Em S�o Paulo, quando chove,

chovem apocalipses

de quintal.

 

O professor Antonio Candido, que me honrou com a apresenta��o do livro, escreveu "Neste livro h� coragem de falar do eu e do mundo, mas de maneira que eles apare�am como inven��es, n�o reprodu��es. Frederico Barbosa � capaz de reinventar, dentro de par�metros que deixam para tr�s muitas conven��es e lhe permitem fazer algo novo. � o caso do modo de tratar a cidade, que neste livro � n�o apenas presen�a concreta, mas pressuposto, como segunda natureza no mundo contempor�neo. � not�vel, por exemplo, a originalidade com que mostra, ou com que incrusta na filigrana dos versos, uma S�o Paulo toda sua, com novos cursos d �gua criados como fantasmagoria pelas doen�as da urbaniza��o. Mas esta S�o Paulo � tamb�m presen�a latente em cenas e emo��es. De tal modo que a cidade cantada pelos modernistas � renovada como dura paisagem, enquadrando uma experi�ncia pessoal crispada, como conv�m a este tempo calamitoso."

Acho que ele captou bem o esp�rito do poema.

No meu livro novo, Louco no Oco sem Beiras - Anatomia da Depress�o, h� tamb�m dois poemas que surgiram de uma id�ia que me acompanha j� h� mais de uma d�cada. Em ambos retrato momentos de desespero. No primeiro, ao ver as nossas coisas quebrarem, principalmente quando n�o temos dinheiro sequer para consert�-las. No segundo, o desespero de ouvir os sons insuport�veis da TV ao final do domingo. Escrevi os dois primeiros versos de ambos os poemas cerca de 15 anos antes de escrev�-los

 

tudo quebra

carro vaso tv

as coisas caem

sem o saber

s� eu me quebro

contra a parede

por querer

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fim de domingo

ao som da tv

a vida pelo ralo

desperd�cio de ser

Acabo de escrever outro poema que foi elaborado durante muito tempo. H� v�rios anos me fascino com as diferen�as que percebo entre as cidades que mais freq�ento, minha Recife natal, minha S�o Paulo adotiva, Rio e Salvador t�o queridas. Esse ano (2001) consegui sintetizar num poema que integrar� o volume "em progresso" que estou elaborando em conjunto com o poeta/cr�tico/antrop�logo/pensador baiano Antonio Ris�rio, uma antiga impress�o que tinha dessas cidades. A� vai

as cidades e seus donos

h� cidades desconfiadas

impessoais misteriosas

recife s�o paulo

em que se mora por empr�stimo

de aluguel de passagem

sem se sentir dono

como inquilino tempor�rio

mas que ningu�m tem

 

h� cidades que por mist�rio

se entregam por inteiro

salvador rio de janeiro

em que cada morador

� propriet�rio verdadeiro

em que todo o povo

sente-se e afirma-se dono

em todo gesto no menor jeito

4."anos/nos meus oito/a aurora/j�/ardia ". O menino � o pai do homem? Qual o fasc�nio que a aurora da vida exerce sobre os poetas?

N�o s� sobre os poetas. A nossa inf�ncia nos ronda... Os fantasmas da forma��o perseguem a todos, n�o s� aos poetas. Escrevi alguma coisa sobre minha inf�ncia. Muito sobre os seus traumas. Trauma de crescer sob uma ditadura militar, trauma de ser transplantado de Recife para S�o Paulo, trauma das in�meras doen�as que tive... e como sobrevivi a tudo isso. E como encontrei na leitura e no escrever uma forma de, ao mesmo tempo, fugir, enfrentar e modificar tudo isso. S�o eventos meus, pessoais, mas que marcaram a vida de muitos outros tamb�m.

5. nunca cri/nunca quis outro plano/nunca soube/por engano ser feliz . Aonde encontrar neste plano a felicidade?

"Nesse plano"? H� outro? N�o creio. S� creio nesse plano, no aqui e agora. Temos, portanto, de procurar a felicidade nas coisas m�nimas, nunca adi�-la, esperando outro "plano", sendo feliz s� na esperan�a, ou "por engano".

6.Voc� � professor. Num poema diz dou s�/suado a aula/p�nico frontal . Como � enfrentar a galera? H� motivo para catastrofismo? O que a nova gera��o gosta de ler?

H� sempre motivo para catastrofismo. N�o gosto de generalizar, mesmo porque sou professor de milhares de alunos. Nesse exato momento tenho, para voc� ter uma id�ia, cerca de tr�s mil alunos. Cada classe do cursinho em que dou aulas tem cerca de 180 alunos. H� gente de todo tipo. Uma diversidade maravilhosa. E eu tenho muito interesse por eles todos. Sei que n�o � culpa deles, e sim do nosso ensino med�ocre, mas existe um desinteresse generalizado pela leitura. Tenho a vaidade de achar que contribuo um pouco para despertar o interesse na mo�ada... mas �s vezes bate um certo desespero... e escrevo coisas como o verso que voc� citou.

7.Quem s�o os poetas prosa? sem um puto/e ainda puto com tanto/poeta prosa

S�o tantos... voc� percebeu que "poeta prosa" tem duplo sentido, � claro. Poeta que escreve poesia como "mera prosa" e poeta que se acha o m�ximo, � "todo prosa".

Na orelha de Contracorrente eu escrevi

"Arrisco lan�ar minha Contracorrente nesse mar de corre��o retr�grada que tem dominado a nossa poesia nos �ltimos tempos. Al�m da verborragia pseudopo�tica de sempre, l�em-se �s pencas poemas certinhos , bem feitinhos . Mas onde est� a poesia pungente, que fere, que coloca o dedo nas feridas? Feridas da linguagem e por que n�o? da vida."

� isso que procuro. Poetas "n�o prosa".

8.O que n�o � lixo e nem perda de tempo na era da cultura de massas?

 

S� sei responder a essa quest�o com um poema que escrevi em 1999

 

Ditadura da Popularidade

 

O povo est� no poder dita.

� mercado, � opini�o

sem face. � a mis�ria

da popularidade.

 

S�o padres cantantes,

mo�as na dan�a.

Leve a m�sica

e o gesto leve,

cren�a, bunda e sabonete.

 

As pesquisas ditam.

Mandam o povo est�

sempre certo. O povo �,

o povo quer, o povo

demanda, o povo

reclama.

 

Mandam seja apenas

a mesma merda

que o povo

ama.

 

Mandam seja aeromo�a na vida.

Sorria sempre bailarina med�ocre.

Fa�a-se m�dia. Desconsidere-se.

 

N�o pense, nunca fa�a pensar,

n�o seja ir�nico,

diga s� o que querem ouvir-se

no espelho da mesmice.

 

Deixe-se xingar, entregue-se,

venda-se de corpo e alma.

 

E, acima de tudo, calma

nunca reclame

(des)contente(-se) e cale-se.

 

Crie-se como imagem,

(vazio marcante)

marque-se,

migalhe-se,

seja s� o velho,

espalhe-se farelo.

 

Anule-se an�ncio

refrescante,

seja refrigerante

anta ante.

 

Ensinam assim

como quem hoje

canta.

Bajule, puxe,

seja banal.

Pule, grite,

apague-se nas luzes.

Transforme todo som

poema problema

em apelo sexual.

 

Apele salve sua pele.

 

Medalh�es, pomadas.

(Machado vendo antes)

Palha�os, patetas, enganadores,

falsos magos, pseudopoetas,

professores

 

Uni-vos no segredo do bonzo.

 

O povo julga, joga

pedras, o povo

� s�bio, sabe

quem planta p�rolas

colhe tempestade.

 

9.Quem � o escritor brasileiro?

Um "louco... no oco sem beiras"

10.O poeta possui alguma fun��o social espec�fica? � antena da ra�a? Para que serve essa tal de poesia?

A poesia n�o serve para nada espec�fico. Por isso mesmo � que serve para tudo. Por isso mesmo � que maravilhosa. Para mim, serve para me manter vivo. S� isso.

 

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LOUCO NO OCO SEM BEIRAS

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de Frederico Barbosa

Ateli� Editorial

Segunda-feira, 17 de setembro de 2001,

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