ENTREVISTA COM ELSON FR�ES  

 

 

No poema MOTE E VOLTAS, voc� escreveu �demolindo o que n�o presto/o ouro de ser um outro�. O poeta se constr�i no leitor? A constru��o � sempre melhor do que o poeta?

 

 

MOTE E VOLTAS

  a Rosana Urbes

 

"Por qu� n�o �s

 tal como escreves?"

 

O ouro de ser um outro

 para aquela que soube

amaldi�oar com precis�o

 quem de n�o ser t�o bom

tal saiu-se seu escrito

 pois pensava-se inscrito

o aqu�m de algum sol

 sem pejo de um despejo

por n�o pagar aluguel

 al�m de si proscrito

foi-se depurando rev�s

 em via de transcende

em vez de esquecer

 eis o "g�nio da mem�ria"

de cor e sen saber a

 flor de ferida mais

dor de menos vale mais

 uma vida nova a fel

que move um c�u se eterna

 e interna intensa mais

que a que adulando anula

 

Envoi:

 Teu lance de praga

sempre traga tua gra�a

 a revolta que detesto

demolindo o que n�o presto

 o ouro de ser um outro

 

 

R.: Penso na permanente necessidade de renova��o, ou make it new, num sentido mais amplo, de renovar al�m do poema, tamb�m renovar-se interiormente o poeta. O outro que pode me ver melhor, onde sou mais falho, me enriquece apontando esses "defeitos" do ser que todos temos. Este o ouro de ser um outro, como lapidando a palavra "outro" extraio o "ouro", m�nima diferen�a para m�ltiplo sentido. Viver � um aprendizado que muita vez requer a perda ou troca de algo enraizado profundamente. Vago, mas certeiro.

E h� tamb�m, em contrapartida, a busca da outridade, escrever tentando anular um "eu l�rico", invertendo um pouco a maneira de Pessoa, que "concentrou-se" em v�rios "eus", mas "dispersando-se" em nenhum "eu".

Sim, os bons poetas sabem decor a est�tica da recep��o, e elegem seu leitor ideal. Agora, quanto � constru��o ser melhor que o poeta... Parece-me que a constru��o do poema � a riqueza individual do poeta, sua forma personal�ssima de criar, insepar�vel dele e raz�o pela qual ele � poeta. Agora se tomarmos o termo "constru��o" por "poema", s� mesmo se for um excelente poema.

 

Toda a poesia � autobiogr�fica?

 

R.: Em parte sim, pois simult�nea com a vida do poeta, num jogo de espelhos e reflexos entre vida e obra. Mas n�o creio que seja plenamente autobiogr�fica. Isto � recorrente na cr�tica que enfoca a obra a partir da vida do autor. Um ponto de vista muito limitado e geralmente deformante. Tampouco acredito que se possa dissociar de vez vida e obra, enfocando-se apenas a materialidade da obra. S�o defeitos do olhar e do pensar, r�gidos e redutores. Prefiro o ponto de vista m�ltiplo e o pensamento flex�vel. H� poesia que � autobiogr�fica, toda ou em parte, de fato, mas n�o toda poesia.

  

Em sua po�tica existe um �descontinuo revelar�. H� uma esp�cie de esquizofrenia no escritor p�s-moderno? 

 

R.: Muito pelo contr�rio, conforme Lacan, o poeta � o �nico dentre diversos tipos de "loucos" que escapa. Lacan demonstra isso muito bem em gr�ficos e tais que fiquei rindo �-toa desde que o descobri. Aquela chacota do poeta como lun�tico cai por terra. A cita��o � riqu�ssima e suas refer�ncias e mais ainda: "descont�nuo revelar" esta relacionado com o que afirma Mallarm� sobre o sujeito do enunciado na poesia moderna, que oculta "tanto o poeta como o leitor", ou seja, revelar-se pouco e a intervalos, como a lan�ar luz e sombra no "continuo espa�otempo" da l�gica ocidental, quebrando-a e remoldando-a ao desloca-la de sua seq��ncia natural. Neste ponto o leitor e o poeta trocam de lugar.

  

Ainda um pouco na quest�o acima, o tempo po�tico desta revela��o � oscilante? O tempo onde o jogo po�tico acontece � acelerado e depois freado? Como � o tempo dos acontecimentos em seus poemas?

  

R.: Eu diria que o tempo(espa�o) � sempre flex�vel, e o espa�o(tempo) � curvo, contrariamente ao ritmo do pensamento que � linear. O tempo dos acontecimentos � simult�neo e � tamb�m uma das causas da estranheza da sintaxe. Muito de minha poesia esta na tentativa de criar jogos complexos entre a linguagem e a sintaxe, passiveis de algum entendimento se o leitor de certa forma "sublimar" o que est� ali. 

  

�Deus � uma face obscura do poeta�. O poeta necessita acreditar em Deus?

  

AFORISMOS

  

o obscuro � um poema de deus sem face

deus � uma face obscura do poeta

o poema � uma face obscura de deus

a face � um poema obscuro de deus

o poeta � um deus do poema sem face

 

R.: Estes aforismos s�o circulares, pois os termos trocam de posi��o e fun��o. Isto vai longe, um pouco de Tao, onde "o um � o todo e o todo � o um". Falar nesta quest�o de acreditar em deus serve para lembrar o epis�dio absurdo que se seguiu � morte de Jo�o Cabral, promovido por oportunistas mesquinhos, mais interessados em aparecer no calor dos fatos. Soube at� de uma briga entre dois poetas divergentes nesta quest�o. Ser� que isto � t�o relevante? Crer ou n�o crer, para mim, n�o � premissa para fazer a boa poesia.

  

�O que vaga no al�m/voga em sua obra?�

  

C'EST LA MORT

 

 

Do morto, restos do mundo

porque sim esquecer

este safado? ao eterno

safou-se? absoluto:

abismo de luto

n�o vale este putrefo

defunto um puto se

o que vaga no al�m

voga em sua obra? sobras

de tudo definharemos

como de ti aqui

comodamente sorvemos

  

R.: � uma pergunta que fiz ao Drummond num poema, chocado com o seu falecimento. Como poeta eu espero que sim. Um pouco da eternidade, da imortalidade. O poeta como "g�nio da mem�ria": vale o que fica, o que se consegue transmutar desse flu�do vol�til e imponder�vel do al�m na mat�ria do poema. O �ter, o fugaz, bem � vista ali, flagrado no verso, na figura, no som, no movimento. � mais um poema sobre a morte, a companheira definitiva. Como nas cenas metaf�ricas do filme surrealista de Cocteau, Orfeu, em que o poeta recebe mensagens do al�m pelo r�dio, este � exatamente o sentido que tento dar ao poema.

  

Voc� nasceu em 1963, qual a principal caracter�stica da sua gera��o? � uma gera��o perdida?

  

R.: Eu me perdi da minha gera��o. Fui pelo meu caminho de poeta, solit�rio e cosmopolita. Gauche? Praticando todos os estilos. N�o editei nenhum livro. O mundo das editoras? "No, thanks", sabe bem cummings. Fui uma �nica vez a uma editora e me arrependi. Sou descaracteristico. E das panelinhas de poetas? Sempre muito chato. Fui ridicularizado gratuitamente numa l� do Rio, da Verve, jornalzinho da Claudia Roquete Pinto. Ningu�m sabe disso, mas doeu fundo. Aquela mat�ria da Veja sobre as panelinhas diz tudo. E eles posaram direitinho pra foto! No jornalz�o Folha de S�o Paulo, agora me publicam espontaneamente, mas j� rejeitaram as �nicas tradu��es de poemas do Updike em portugu�s feitas por mim, justo na �poca em que faziam um carnaval para ele por aqui. Quantos poetas e tradutores da minha gera��o ficaram � margem dessa maneira? Exclu�dos, sem vez, esquecidos? Gera��o � um conceito muito fr�gil ante o poder e a pol�tica de influ�ncias. Luto � minha maneira, me esquivo dessas armadilhas do tempo. Quero a poesia e n�o a autopromo��o. Gl�ria sim, vangl�ria n�o.

  

O fato de ser tradutor torna a sua autocr�tica maior em rela��o � publica��o de seus textos?

  

R.: Sempre. Quanto maior o repert�rio, o contato com outras po�ticas, proporcionalmente volto-me para minha pr�pria produ��o com olhos mais rigorosos. Um pouco de influ�ncia (sem angustia) faz bem. � meu universo em expans�o, eu e os outros poetas, al�m das l�nguas, numa semiosfera de afinidades e contrastes. A tradu��o de poesia � uma arte muito mais dif�cil que a cria��o, pois quando vista como tradu��o criativa requer, mais que habilidades de tradutor, habilidades po�ticas limitadas pelo poema original. Qualquer deslize ou excesso e o poema passa a ser outro, um poema do tradutor e n�o daquele poeta que o escreveu primeiro. Como malabarismos numa corda bamba, muita disciplina e treino. Traduzir � um excelente exerc�cio para poetas, talvez o melhor deles.

  

Pop Box � o nome de seu site. O que deve haver num s�tio para que interesse ao p�blico? Qual o uso faz da internet?

 

R.: Para criar um site interessante e diferente, principalmente na �rea da literatura e poesia, � preciso ter um bom repert�rio da produ��o hist�rica e contatos com poetas atuais, mais algum conhecimento das linguagens e c�digos da internet. Isto j� � um bom come�o. O segundo passo est� em saber divulgar o site e conquistar novos colaboradores. O mais dif�cil � mesmo conquistar um espa�o na rede. Os provedores brasileiros de acesso � internet n�o s�o simp�ticos a iniciativas culturais (o meu, por exemplo, demorou mais de um ano para dar um simples link!). N�o cedem espa�o sem retorno comercial. Por usura, desinforma��o, privil�gios de pequenos grupos ou por qualquer outro motivo menor.

No caso de Pop Box (http://users.sti.com.br/efres), aplicar um conceito do neobarroco, o deslocamento do ponto de vista �nico, do sujeito (sub-jecto) para o ponto de vista m�ltiplo (super-jecto), ampliado para a mudan�a de foco da produ��o pessoal para a produ��o coletiva, foi fundamental na concep��o do site. Criar um espa�o virtual e flex�vel para um recorte de certa poesia, de certas afinidades intelectuais e sens�veis o tornou poss�vel e cativante. Abusando dos termos, uma pequena noosfera proliferante.

A poesia impressa � limitada aos recursos desse suporte e de quem det�m o poder sobre eles. Novos poetas sempre tiveram enorme dificuldade em publicar e divulgar seus livros, geralmente �s pr�prias custas. Tem sido assim h� muito tempo, nada mudou, e com o sucessivo desaparecimento dos bons suplementos culturais, a imprensa tem se escusado a divulgar a poesia e sua cr�tica. At� mesmo um campe�o de vendas como o excelente Caprichos e Relaxos de Leminski teve apenas duas edi��es j� esgotadas. A impress�o em jornal ou revista tem um alcance maior, por�m ef�mero, tendendo ao esquecimento.

Al�m destas limita��es, some-se o alt�ssimo custo de se incluir cores, por exemplo; ou mesmo o limitado n�mero de exemplares de um livro, que geralmente acabam sendo lidos apenas por uma pessoa e v�o dormir nalguma estante. Um poema virtual na internet tem todas as cores, movimento, intera��o, som, pode ser visto e reproduzido por qualquer pessoa em qualquer parte do mundo a um custo baix�ssimo, sem limite de tempo, sem gastos com transporte, gratuita e democraticamente.

  

Kamiquase � o nome do site que fez para Paulo Leminski. Qual a import�ncia de Leminski e que legado deixou para a poesia?

  

R.: Leminski � fundamental. Poeta de qualidades singulares, erudit�ssimo, caia na boca do povo naturalmente com suas can��es de sucesso. Sabia de tudo. G�nio nato. Sua passagem deixou uma cicatriz profunda na poesia brasileira. N�o se pode mais fazer nada sem esbarrar em algo que ele j� fez. Teve como ningu�m uma enorme capacidade de s�ntese das po�ticas anteriores. Ele era m�ltiplo e se espalhava pelo mundo generosamente. Da� a necessidade de criar-lhe um site, para recolher o que deixou disperso em jornais, revistas, livros, entrevistas etc., al�m do material in�dito datilografado ou manuscrito que ficou com amigos. H� uma enorme aceita��o para este material recolhido em Kamiquase (http://users.sti.com.br/efres/Leminski/kamiquase.htm) que at� j� originou um dossi� especial na revista argentina Ts�=ts�. Sei que meu esfor�o � pouco ainda, mas n�o darei ouvidos �s sereias que dizem que n�o h� mais nada dele que valha a pena. Este ano promete ser especial com a reedi��o de seus livros pela Brasiliense. Que venham todos, inclusive as tradu��es que h� muito j� se esgotaram. Sua morte � muito recente para que se possa avaliar sua real import�ncia sem que se seja tocado pela emo��o, pela sua presen�a t�o forte, personal�ssima, no seu legado po�tico.

  

Tem algum mote que o acompanhe?

  

R.: Nec spe nec metu.

  

Qual o papel do escritor na sociedade?      

  

R.: Jogar a bolinha para o chachorro ir buscar.

 

 

 

v o l t a

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